– “Se a Missa tem valor infinito, por que se celebra mais de uma Missa por determinada intenção?” (Osvaldo – Lorena-SP).

1. Na elucidação desta questão, faz-se mister recordar primeiramente o que é a Santa Missa.

Em poucas palavras, a Missa é o sacrifício mesmo do Calvário tornado presente sobre os nossos altares para que dele participemos. O que quer dizer:

a) Não é mero rito simbólico, imagem destituída de conteúdo, cuja função seria unicamente evocar na memória dos assistentes um feito passado;

b) De outro lado, porém, não é um novo sacrifício de Cristo, posterior ao do Calvário, como se Jesus continuasse a sofrer e morrer após a sua gloriosa ressurreição.

Positivamente, pois, a Missa é a própria imolação de Cristo (outrora oferecida cruentamente na cruz) que a Onipotência Divina torna presente de maneira incruenta sobre os altares, sem que multiplique tal imolação, mas sem que por isto lhe diminua algo de sua plena realidade. A mesma oblação de Cristo, numericamente a mesma, realizada no pretérito deixa de pertencer ao pretérito e se faz presente — «Mistério da fé», diz a fórmula de consagração eucarística.

E por que quis Jesus Cristo instituir tal rito?

Ele o quis em vista de seus fiéis, ou seja, a fim de associar ao sacrifício da Cruz a sua Igreja. Com efeito, outrora no Calvário Jesus como Sacerdote se ofereceu ao Pai qual Vítima pelos pecados do mundo. Atualmente, na Santa Missa, Jesus oferece com a Igreja, que participa do Sacerdócio de Cristo; e oferece-Se com a Igreja, que participa da qualidade de Cristo Hóstia.

Ora, lembremo-nos de que a Igreja não é apenas o clero, mas é o Corpo Místico de Cristo, Corpo Místico do qual todo cristão é um membro ou uma célula viva. É, pois, em cada fiel batizado que a Igreja repousa, vive e age.

2. Deste fato decorre importante consequência referente aos frutos da Santa Missa:

Sendo a Missa o próprio sacrifício da Cruz celebrado de maneira incruenta, compreende-se que cada Santa Missa tem em si valor infinito; com efeito, qualquer dos atos de Cristo possui tal valor, já que procede de uma Pessoa Divina. Por conseguinte, uma só Missa por si seria suficiente para dar a Deus todo o louvor que as criaturas lhe devem, suficiente também para apagar as culpas de todos os homens, perdoar todas as penas satisfatórias, obter todas as graças, espirituais e temporais, necessárias à salvação etc.

Na realidade, porém, o valor infinito da Missa não é aplicado aos homens em grau infinito; os frutos da Santa Missa, para as criaturas, são sempre limitados.

E por quê?

Porque a Missa não é somente oferecida por Cristo. Enquanto, sim, é oferecida por Cristo, toda Missa indubitavelmente produz frutos para o gênero humano. Na medida, porém, em que os membros do Cristo, os cristãos, são associados ao oferecimento, esses frutos são restritos. Com efeito, o Corpo Místico, com o qual Jesus compartilha o seu ato de oblação, consta de uma multidão de homens portadores das consequências do pecado, e por isto coibidos em seu espírito de imolação, de entrega total ao Pai. A parte de devotamento próprio, que cada cristão associa à oblação de Cristo, está sujeita às restrições que o egoísmo e a covardia ocasionam; estes empecilhos, como se compreende, tornam os fiéis menos aptos a usufruir os benefícios da Redenção e consequentemente limitam a aplicação dos frutos da Santa Missa.

Em termos positivos, poder-se-ia dizer com as palavras do Cânon da Missa (oração “Te igitur”): é a fé e a devoção (espírito de entrega e de amor) dos cristãos, em uns mais intensa, em outros menos vívida, que os torna capazes de impetrar em seu favor e em favor de outrem, as graças decorrentes do sacrifício eucarístico.

3. Enunciados estes princípios gorais, desçamos a pormenores da doutrina.

Costumam-se distinguir três tipos de frutos decorrentes de cada celebração da Santa Missa:

a) Frutos gerais: isto é, graças que redundam em beneficio de toda a Santa Igreja e de cada um de seus membros diretamente; indiretamente, beneficiam também todos os homens que não pertencem à Igreja, visto que a santificação dos cristãos implica a santificação do mundo;

b) Frutos especiais: são graças que tocam ao celebrante, aos seus ministros e a todos os que assistem fisicamente ao sacrifício, nele tomando alguma parte;

c) Frutos especialíssimos: são graças cuja aplicação a Misericórdia Divina deixa à livre escolha dos fiéis. Pode-se-lhes, portanto, assinalar um destino particular; é o que os fiéis fazem quando pedem seja a Santa Missa celebrada por tal ou tal de suas intenções próprias (por um defunto, em ação de graças etc.). A intenção formulada será mais ou menos beneficiada na medida da fé e da devoção dos cristãos considerados na seguinte hierarquia:

1º) O sacerdote que celebra a Santa Missa, pois este será o representante imediato da Santa Igreja em tal ato litúrgico;

2º) Os fiéis que tiverem ocasionado a celebração da Missa formulando a respectiva intenção, pois estes serão, logo após o celebrante, os oferentes mais diretos, por conseguinte os mais próximos representantes da Igreja;

3º) Os fiéis que estiverem presentes à celebração do sacrifício, rezando com o celebrante;

4º) Os fiéis da Igreja universal (mesmo ausentes e longínquos), pois todos os cristãos são envolvidos nos atos oficiais da Igreja; são eles que constituem de maneira concreta a face humana da Esposa de Cristo.

Disto tudo se depreende a importância que têm as disposições de piedade com que os fiéis assistem à Santa Missa. Compreende-se também que mais de uma Santa Missa seja aplicada por uma só intenção já que nunca se podem avaliar com precisão os efeitos produzidos por uma celebração eucarística, é óbvio que se repita a aplicação da Santa Missa pela mesma intenção, a fim de finalmente se atingirem todos os benefícios colimados por esta intenção. Caso não fosse mais necessária a celebração em vista de tal fim, os frutos respectivos redundariam em proveito das intenções gerais da Santa Igreja.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 3 – mar/1958
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