SEGUNDA PARTE

UNIÃO DOS FIÉIS COM CRISTO

67. Agrada-nos agora, veneráveis irmãos, tratar da nossa união com Cristo no corpo da Igreja; a qual, como bem diz santo Agostinho, (48) por ser uma coisa grande, misteriosa e divina, acontece muitas vezes ser mal-entendida e explicada. Primeiramente é claro que é uma união estreitíssima: na Sagrada Escritura não só se compara à união do casto matrimônio, e à unidade vital dos sarmentos com a videira e dos membros do nosso corpo (cf. Ef 5, 22-23; Jo 15,1-5; Ef 4, 16), mas descreve-se como tão íntima, que a tradição antiquíssima continuada nos Padres e fundada naquela sentença do Apóstolo: “ele (Cristo) é a cabeça do corpo da Igreja” (Cl 1,18), ensina que o divino Redentor forma com seu corpo social uma única pessoa mística, ou como diz santo Agostinho: o Cristo total. (49) O próprio Salvador na sua oração sacerdotal não duvidou comparar esta união à maravilhosa unidade com que o Pai está no Filho e o Filho no Pai (Jo 17, 21-23).

1. Vínculos jurídicos e sociais

68. A nossa união em Cristo e com Cristo vê-se em primeiro lugar do fato que, sendo a família cristã por vontade de seu Fundador um corpo social e perfeito, deve necessariamente possuir a união dos membros que resulta da conspiração destes para o mesmo fim. E quanto mais nobre é o fim a que tende esta conspiração, quanto mais é divina a fonte donde ela procede, tanto mais excelente é a união. Ora o fim é altíssimo: a contínua santificação dos membros do mesmo corpo para a glória de Deus e do Cordeiro que foi sacrificado (Ap 5,12-13). A fonte diviníssima: não só o beneplácito do Eterno Pai e a vontade expressa do Salvador, mas também a interna inspiração e moção do Espírito Santo nas nossas inteligências e corações. E realmente se não podemos fazer o mais pequenino ato salutar senão no Espírito Santo, como podem inumeráveis multidões de todas as gentes e estirpes tender de comum acordo para a suprema glória do Deus uno e trino, senão por virtude daquele que procede como único e eterno amor do Pai e do Filho?

69. E porque este corpo social de Cristo, como acima dissemos, por vontade do seu Fundador deve ser visível, é força que aquela conspiração de todos os membros se manifeste também externamente, pela profissão da mesma fé, pela recepção dos mesmos sacramentos, pela participação ao mesmo sacrifício, pela observância prática das mesmas leis. E ainda absolutamente necessário que haja um chefe supremo visível a todos, que coordene e dirija eficazmente para a consecução do fim proposto a atividade comum; e este é o vigário de Cristo na terra. Pois que, como o divino Redentor enviou o Paráclito, Espírito de verdade, para que em sua vez (cf. Jo 14,16 e 26) tomasse o governo invisível da Igreja, assim mandou a Pedro e aos seus sucessores que, representando na terra a sua pessoa, tomassem o governo visível da família cristã.

2. Virtudes teologais

70. A esses vínculos jurídicos, que já por si excedem grandemente os de qualquer outra sociedade humana, mesmo suprema, junta-se necessariamente outra causa de união naquelas três virtudes que nos unem estreitissimamente com Deus: a fé, a esperança e a caridade cristã. “Um só Senhor, uma só fé”, como diz oApóstolo (Ef  4,5): aquela fé com que aderimos a um só Deus e àquele que ele mandou, Jesus Cristo (cf. Jo 17,3). Quão intimamente por meio desta fé nos unimos a Deus, ensinam-no as palavras do discípulo amado: “Quem confessar que Jesus é Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus” (1 Jo 4,15). Nem é menor a união, que por ela se estabelece entre nós e com a divina cabeça; pois que todos os fiéis que “temos o mesmo Espírito de fé” (2Cor 4,13), somos iluminados pela mesma luz de Cristo, sustentados pelo mesmo manjar de Cristo, e governados pela mesma autoridade e magistério de Cristo. E se em todos floresce o mesmo Espírito de fé, todos vivemos também a mesma vida “na fé do Filho de Deus que nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (cf. Gl 2, 20); e Cristo, nossa cabeça, recebido em nós pela fé viva e habitando em nossos corações (cf. Ef 3,17), como é autor da nossa fé, será também o seu consumador (cf. Hb 12,2).

71. Se, nesta vida, pela fé aderimos a Deus qual fonte da verdade, pela virtude da esperança cristã desejamo-lo qual fonte da bem-aventurança, “esperando a bem-aventurada esperança e o advento da glória do grande Deus” (Tt 2,13). Por causa daquele comum desejo do reino dos céus pelo qual renunciamos a ter pátria permanente aqui na terra, mas demandamos a celeste (cf. Hb 13,14), e anelamos a glória eterna, não duvidou dizer o Apóstolo das gentes: “Um corpo só e um só Espírito, como é uma a esperança da vocação com que fostes chamados” (Ef  4,4); mais ainda, Cristo reside em nós como esperança da glória (cf. Cl 1,27).

72. Mas se os vínculos da fé e da esperança, que nos unem com o Redentor divino no seu corpo místico, são fortes e importantes, não são menos importantes e eficazes os laços da caridade. Se até naturalmente nada há mais excelente do que o amor, fonte da verdadeira amizade, que dizer daquele amor soberano, que o próprio Deus infunde nas nossas almas? “Deus é caridade, e quem permanece na caridade permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4,16). A caridade, como por força de uma lei estabelecida por Deus, faz com que ele desça a morar nas almas que o amam, dando-lhes amor por amor, segundo aquela sentença: “Se alguém me ama, também meu Pai o amará e viremos a ele e estabeleceremos nele a nossa morada” (Jo 14,23): Portanto a caridade une-nos com Cristo mais intimamente que qualquer outra virtude; em cujo amor inflamados tantos filhos da Igreja jubilam de por ele sofrer afrontas e tolerar e suportar tudo; por árduo que fosse, até ao último alento e à efusão do próprio sangue. Por isso nos exorta vivamente o Salvador com estas palavras: “Permanecei no meu amor”. E porque a caridade é vã e aparente se não se demonstra e torna efetiva com boas obras, por isso acrescenta logo: “Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; como eu observei os mandamentos de meu Pai e parmaneço no seu amor” (Jo 15,9-10).

73. Mas a esse amor de Deus e de Cristo é preciso que corresponda a caridade para com o próximo. E realmente como podemos nós afirmar que amamos o Redentor divino, se odiamos aqueles que ele, para os fazer membros do seu corpo místico, remiu com seu precioso sangue? Por isso o Apóstolo, entre todos predileto de Cristo, nos adverte: “Se alguém disser que ama a Deus, e odiar a seu irmão, mente. Pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? E nós recebemos este mandamento, que quem ama a Deus ame também a seu Irmão” (1Jo 4,20-21). Antes devemos afirmar que tanto mais unidos estaremos com Deus, e com Cristo, quanto mais “formos membros uns dos outros” (Rm 12,25), solícitos uns pelos outros (lCor 12,25); e por outra parte, tanto mais viveremos entre nós unidos e estreitados pela caridade, quanto mais ardente for o amor que nos unir a Deus e à nossa divina cabeça.

74. O Filho unigênito de Deus já antes do princípio do mundo nos abraçou no seu infinito conhecimento e eterno amor. Amor que ele demonstrou palpavelmente e de modo verdadeiramente assombroso assumindo a nossa natureza em unidade hipostática; donde segue, como ingenuamente nota Máximo de Turim, que “em Cristo nos ama a nossa carne”.(50)

75. Esse amorosíssimo conhecimento que o divino Redentor de nós teve desde o primeiro instante da sua encarnação, excede tudo quanto a razão humana pode alcançar; pois que ele pela visão beatífica de que gozou apenas concebido no seio da Mãe Santíssima, tem continuamente presente todos os membros do seu corpo místico e a todos abraça com amor salvífico. Ó admirável dignação da divina bondade para conosco! Ó inconcebível ordem da imensa caridade! No presépio, na cruz, na glória sempiterna do Pai, Cristo vê e abraça todos os membros da Igreja muito mais claramente, com muito maior amor do que a mãe o filho que tem no regaço, do que cada um de nós se conhece e ama a si mesmo.

76. Do dito até aqui vê-se facilmente, veneráveis irmãos, por que é que o Apóstolo Paulo repete tantas vezes que Cristo está em nós e nós em Cristo. O que se demonstra também com uma razão mais sutil. Cristo está em nós como acima demoradamente expusemos, pelo seu Espírito que ele nos comunica, e pelo qual opera em nós de modo que tudo o que o Espírito Santo opera em nós de divino, deve dizer-se que é Cristo também que o opera.(51) “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, diz o Apóstolo, esse não pertence a ele; mas se Cristo está em vós… o Espírito é vida pela justiça” (Rm 8, 9-10).

77. Dessa mesma comunicação do Espírito de Cristo segue que a Igreja vem a ser como o complemento e plenitude do Redentor; por isso que todos os dons, virtudes e carismas que se encontram na cabeça de modo eminente, superabundante e eficiente, dela derivam a todos os membros da Igreja e neles, conforme o lugar que ocupam no corpo místico de Cristo, dia a dia se aperfeiçoam, e Cristo como que se completa na Igreja. (52) Nessas palavras acenamos a razão por que, segundo a doutrina de Agostinho, já antes brevemente indicada, a cabeça mística que é Cristo, e a Igreja, que é na terra como outro Cristo e faz as suas vezes, constituem um só homem novo, em quem se juntam o céu e a terra para perpetuar a obra salvífica da cruz; este homem novo é Cristo cabeça e corpo, o Cristo total.

3. A inabitação do Espírito Santo

78. Certamente não desconhecemos quão difícil de entender e de explicar é esta doutrina da nossa união com o divino Redentor, e especialmente da habitação do Espírito Santo nas almas, pelos véus do mistério que a recatam e tornam obscura à investigação da fraca inteligência humana. Mas sabemos também que da investigação bem feita e persistente e do conflito e concurso das várias opiniões, se a investigação for orientada pelo amor da verdade e pela devida submissão à Igreja, brotam faíscas e se acendem luzes com que, mesmo neste gênero de ciências sagradas, se pode obter verdadeiro progresso. Por isso não censuramos os que, por diversos caminhos, se esforçam por atingir e quanto possível declarar este tão sublime mistério da nossa admirável união com Cristo. Uma coisa, porém, devem todos ter por certa e indubitável, se não querem desviar-se da verdadeira doutrina e do reto magistério da Igreja: rejeitar toda a explicação desta mística união que pretenda elevar os fiéis tanto acima da ordem criada, que cheguem a invadir a divina, a ponto de se atribuir em sentido próprio um só que seja dos atributos de Deus. Retenham também firmemente aquele outro princípio certíssimo, que nestas matérias é comum à SS. Trindade tudo o que se refere e enquanto se refere a Deus como suprema causa eficiente.

79. Note-se também que se trata de um mistério recôndito, que neste exílio terrestre nunca se poderá completamente desvendar ou compreender nem explicar em linguagem humana. Diz-se que as Pessoas divinas habitam na criatura inteligente enquanto presentes nela de modo imperscrutável, dela são atingidas por via de conhecimento e amor, (53) de modo porém absolutamente íntimo e singular, que transcende a natureza humana. Para formarmos disto uma idéia ao menos aproximativa, não devemos descurar o caminho e método que o Concílio Vaticano tanto recomenda nestas matérias, para obter luz com que se possa vislumbrar alguma coisa dos divinos arcanos, isto é, a comparação dos mistérios entre si e com o bem supremo a que se dirigem. E é assim que Nosso sapientíssimo Predecessor de feliz memória Leão XIII, tratando desta nossa união com Cristo e da habitação do Espírito Paráclito em nós, muito oportunamente fixa os olhos na visão beatífica, que um dia no céu completará e consumará esta união mística. “Esta admirável união, diz ele, que com termo próprio se chama “inabitação”, difere apenas daquela com que Deus no céu abraça e beatifica os bem-aventurados, só pela nossa condição (de viajores na terra)”.(55) Naquela visão poderemos com os olhos do Espírito, elevados pelo lume da glória, contemplar de modo inefável o Pai, o Filho e o Divino Espírito, assistir de perto por toda a eternidade às processões das divinas Pessoas e gozar de uma bem-aventurança semelhantíssima àquela que faz bem-aventurada a santíssima e indivisível Trindade.

4. A Eucaristia sinal de unidade

80. A precedente exposição da doutrina da íntima união do corpo místico de Cristo com a sua cabeça afigura-se-nos incompleta sem uma breve referência neste lugar a santíssima Eucaristia, pela qual a união nesta vida mortal é levada ao seu auge.

81. Ordenou Cristo Senhor nosso que esta admirável e nunca assaz louvada união que nos une entre nós e com a nossa cabeça divina, fosse manifestada aos féis de modo especial pelo sacrifício eucarístico; no qual o celebrante faz às vezes não só do divino Salvador, mas também de todo o corpo místico e de cada um dos féis; e, por sua parte, os fiéis unidos nas orações e votos comuns, pelas mãos do celebrante, apresentam ao eterno Pai o Cordeiro imaculado – presente no altar à voz unicamente do sacerdote -, como vítima agradável de louvor e propiciação pelas necessidades de toda a Igreja. E do mesmo modo que, morrendo na cruz, o divino Redentor se ofereceu a si mesmo ao Pai como cabeça de todo o gênero humano, assim nesta “oblação pura” (Ml 1,11) não só se oferece a si mesmo ao Pai celeste, como cabeça da Igreja, mas em si oferece os seus membros místicos; pois que a todos, até os fracos e enfermos, tem amorosissimamente encerrados no Coração.

82. O sacramento da eucaristia ao mesmo tempo que é viva e admirável imagem da unidade da Igreja – pois que o pão da hóstia é um, resultante de muitos grãos (56) dá-nos o próprio autor da graça sobrenatural, para dele haurirmos o Espírito da caridade que nos fará viver não a nossa, mas a vida de Cristo e amar o próprio Redentor em todos os membros do seu corpo social.

83. Se, portanto, nas angustiosas circunstâncias atuais houver muitíssimos que se abracem com Jesus escondido sob os véus eucarísticos de tal maneira que nem a tribulação, nem a angústia, nem a fome, nem a nudez, nem os perigos, nem a perseguição, nem a espada os possa separar da sua caridade (cf. Rm 8,35), então sem dúvida a sagrada comunhão, providencialmente restituída em nossos dias a um uso mais freqüente desde a infância, poderá ser fonte daquela fortaleza que não raro produz e sustenta o heroísmo entre os cristãos.

 

TERCEIRA PARTE

EXORTAÇÃO PASTORAL

 

1. Erros relativos à vida ascética

a) Falso misticismo

84. Estas verdades, veneráveis irmãos, se os fiéis as compreenderem e recordarem bem diligentemente, ajudá-los-ão a acautelar-se dos erros a que expõe a investigação deste difícil assunto, quando feita a capricho, como alguns a fazem, não sem grande perigo para a fé católica e perturbação das almas. Com efeito, não faltam alguns que, por não considerarem bastante que S. Paulo falava nesta matéria só por metáforas, nem distinguirem, como é absolutamente necessário, os sentidos particulares e próprios dos termos corpo físico, moral, místico, introduzem uma falsa noção de unidade, afirmando que o Redentor e os membros da Igreja formam uma pessoa física, e ao passo que atribuem aos homens propriedades divinas, fazem Cristo Senhor nosso sujeito a erros e à humana inclinação para o mal. A tais falsidades opõem-se a fé católica e os sentimentos dos santos Padres; mas opõem-se igualmente o pensamento e a doutrina do apóstolo das gentes, que se bem une Cristo e o seu corpo místico com uma união admirável, contudo contrapôs-nos um ao outro como Esposo à esposa (cf. Ef 5,22-23).

b) Falso “quietismo”

85. Não menos contrário à verdade e perigoso é o erro daqueles que da misteriosa união de todos nós com Cristo pretendem deduzir um mal-entendido “quietismo”, que atribui toda a vida espiritual dos féis e todo o progresso na virtude unicamente à ação do Espírito Santo, excluindo ou menosprezando a correspondência e colaboração que devemos prestar-lhe. Ninguém pode negar que o divino Espírito de Cristo é a única fonte donde deriva toda a energia sobrenatural na Igreja e nos membros, pois que, como diz o salmista, “o Senhor concede a graça e a glória” (Sl 83,12). Contudo o perseverar constantemente nas obras de santidade, o progredir fervorosamente na graça e na virtude, o esforçar-se generosamente por atingir o vértice da perfeição cristã, enfim o excitar, na medida do possível, os próximos a consegui-la, tudo isso não quer o celeste Espíritó realizá-lo, se o homem não faz, dia a dia, com energia e diligência, o que está ao seu alcance. “Os benefícios divinos, diz santo Ambrósio, não se fazem aos que dormem, mas aos que velam”.(57) Se neste nosso corpo mortal os membros se desenvolvem e robustecem com o exercício cotidiano, muito mais, sem dúvida, sucede no corpo social de Cristo, cujos membros gozam de liberdade, consciência e modo próprio de agir. Por isso o que disse: “Vivo, não já eu; mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20), esse mesmo não duvidou afirmar: “A sua graça (de Deus) não foi em mim estéril, mas trabalhei mais que todos eles; se bem que não eu, mas a graça de Deus comigo” (lCor 15,10). E, pois, evidente que, com essas falsas doutrinas, o mistério de que tratamos não se utiliza para proveito espiritual dos fiéis, mas converte-se em triste causa de sua ruína.

c) Erros relativos à confissão sacramental e à oração

86. O mesmo sucede com a falsa opinião dos que pretendem que não se deve ter em conta a confissão freqüente das faltas veniais; pois que mais importante é a confissão geral, que a esposa de Cristo, com seus filhos a ela unidos no Senhor, faz todos os dias, por meio dos sacerdotes antes de subirem ao altar de Deus. É verdade, e vós bem sabeis, veneráveis irmãos, que há muitos modos e todos muito louváveis, de obter o perdão dessas faltas; mas para progredir mais rapidamente no caminho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso, introduzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão freqüente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus costumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifïca a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direção espiritual, e, por virtude do mesmo sacramento, aumenta a graça. Portanto os que menosprezam e fazem perder a estima da confissão freqüente à juventude eclesiástica, saibam que fazem uma coisa contrária ao Espírito de Cristo e funestíssima ao corpo místico do Salvador.

87. Há ainda alguns que afirmam não terem as nossas orações verdadeira eficácia impetrativa e trabalham por espalhar a opinião de que a oração feita em particular pouco vale e que é a oração pública, feita em nome da Igreja, que tem verdadeiro valor, por partir do corpo místico de Jesus Cristo. Não é exato; o divino Redentor não só uniu estreitamente a si a Igreja como esposa queridíssima, senão também nela as almas de tódos e cada um dos fiéis, com quem deseja ardentemente conversar na intimidade, sobretudo depois da comunhão. E embora a oração pública, feita por toda a Igreja, seja mais excelente que qualquer outra, graças a dignidade da esposa de Cristo, contudo todas as orações, ainda as mais particulares, têm o seu valor e eficácia, e aproveitam também grandemente a todo o corpo místico; no qual não pode nenhum membro fazer nada de bom e justo, que em razão da comunhão dos santos não contribua também para a salvação de todos. Nem aos indivíduos por serem membros desse corpo se lhes veda que peçam para si graças particulares, mesmo temporais, com a devida sujeição à divina vontade; pois que continuam sendo pessoas independentes com suas indigências próprias. (58) Quanto à meditação das coisas celestes, os documentos eclesiásticos, a prática e exemplos de todos os Santos provam bem em quão grande estima deve ser tida por todos.

88. Por último não falta quem diga que as nossas súplicas não devem dirigir-se a pessoa de Jesus Cristo, mas a Deus ou ao Eterno Pai por Cristo; pois que o Salvador, como cabeça do seu corpo místico, deve considerar-se apenas qual “medianeiro entre Deus e os homens” (1Tm 2,5). Também isso é contrário ao modo de pensar da Igreja, contrário ao costume dos fiéis e é falso. Cristo, para falar com propriedade e precisão, é cabeça de toda a Igreja segundo ambas as naturezas conjuntamente; (59) e ele próprio afirmou aliás solenemente: “Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, fá-la-ei” (Jo 14,14). E bem que no sacrifício eucarístico principalmente – onde Cristo é, ao mesmo tempo, sacerdote e vítima e por isso de modo especial, exerce as funções de conciliador – as orações se dirijam ordinariamente ao Eterno Pai pelo seu Unigênito, contudo não raro, e até no santo sacrifício, dirigem-se também ao divino Redentor; pois que todos os cristãos devem saber claramente que Jesus Cristo homem é também Filho de Deus. Por isso quando a Igreja militante adora e invoca o Cordeiro imaculado e vítima sagrada, parece responder à voz da Igreja triunfante, que perpetuamente canta: “Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, bênção e honra e glória e poder nos séculos dos séculos” (Ap 5,13).

2. Exortação a amar a Igreja

89. Até aqui, veneráveis irmãos, meditando o mistério da nossa arcana união com Cristo, procuramos, como doutor da Igreja universal, iluminar as inteligências com a luz da verdade; agora julgamos conforme ao nosso múnus pastoral excitar os corações a amar o corpo místico, com ardente caridade, que não se fique em pensamentos e palavras, mas se traduza em obras. Se os fiéis da antiga lei cantaram da cidade terrena: “Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, paralise-se a minha mão direita; fique presa a minha língua ao meu paladar, se eu não me lembrar de ti, se não tiver Jerusalém como a primeira das minhas alegrias” (Sl 136,5-6); com quanto maior ufania e júbilo não devemos nos regozijar por habitarmos a cidade edificada sobre o monte santo, com pedras vivas e escolhidas, “tendo por pedra angular Cristo Jesus” (Ef 2,20;1Pd 2,45). Realmente não há coisa mais gloriosa, mais honrosa, mais nobre, que fazer parte da Igreja, santa, católica, apostólica, romana, na qual nos tornamos membros de tão venerando corpo; nos governa uma tão excelsa cabeça; nos inunda o mesmo Espírito divino; a mesma doutrina, enfim, e o mesmo Pão dos Anjos nos alimenta neste exílio terreno, até que, finalmente, vamos gozar no céu da mesma bem-aventurança sempiterna.

a) Com amor sólido

90. Mas para que não nos deixemos enganar pelo anjo das trevas, transfigurado em anjo de luz (cf. 2Cor 11,14), seja esta a suprema lei do nosso amor: amar a esposa de Cristo tal como Cristo a quis e a adquiriu com seu sangue. Portanto não só devemos amar sinceramente os sacramentos, com que a Igreja, mãe extremosa; nos sustenta, e as solenidades com que nos consola e alegra, os cantos sagrados e a liturgia, com que eleva as nossas almas à, coisas do céu, mas também os sacramentais e os vários exercícios de piedade com que suavemente impregna de Espírito de Cristo e conforta as almas. E não só é nosso dever pagar com amor, como bons filhos, o seu materno amor para conosco, senão também venerar a sua autoridade que ela recebeu de Cristo e com que cativa as nossas inteligências em homenagem a Cristo (cf. 2Cor 10,5); e não menos obedecer às suas leis e preceitos morais, às vezes molestos à nossa natureza decaída; refrear a rebeldia deste nosso corpo com penitência voluntária, e até mortificar-nos, privando-nos de quando em quando de coisas agradáveis, embora não perigosas. Nem basta amar o corpo místico no esplendor da cabeça divina e dos dons celestes que o exornam; devemos com amor efetivo amá-lo tal qual se nos apresenta na nossa carne mortal, composto de elementos humanos e enfermiços, embora por vezes desdigam um pouco do lugar que ocupam em tão venerando corpo.

b) Que nos faça ver Cristo na Igreja

91. Ora para que esse amor sólido e perfeito more nas nossas almas e cresça de dia para dia, é preciso que nos acostumemos a ver na Igreja o próprio Cristo. Pois que é Cristo que vive na sua Igreja, por ela ensina, governa e santifica; é Cristo que de vários modos se manifesta nos vários membros da sua sociedade. Se todos os fiéis se esforçarem por viver realmente com esse vivo espírito de fé, não só prestarão a devida honra e reverência aos membros mais altos deste corpo místico, sobretudo aos que um dia têm de dar conta das nossas almas (cf. Hb 13,17), mas amarão de modo particular aqueles que o Salvador amou com singularíssima ternura, quais são os enfermos, chagados, fracos, todos os que precisam de remédio natural ou sobrenatural; a infância, cuja inocência está hoje exposta a tantos perigos, e cuja alma se pode modelar como branda cera; os pobres nos quais com sua compaixão se deve reconhecer e socorrer a pessoa de Jesus Cristo.

c) Imitemos o amor de Cristo para com a Igreja

92. Como com razão adverte o Apóstolo: “Os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; e os que temos por mais vis, cercamo-los de maior honra” (lCor 12,22-23). Gravíssima sentença que nós, cônscios da obrigação que nos incumbe pelo nosso altíssimo oficio, devemos repetir, ao vermos com profunda mágoa que às vezes são privados da vida os deformes, dementes e afetos por doenças hereditárias, por inúteis e de peso à sociedade; e que alguns celebram isso como uma conquista do progresso, sumamente vantajoso ao bem comum. Ora, que homem sensato há que não veja isso não só como uma violação flagrante da lei natural e divina,(60) impressa em todos os corações, mas também que não lhe repugne atrozmente aos sentimentos de humanidade? O sangue desses infelizes, tanto mais amados do Redentor quanto mais dignos de compaixão, “brada a Deus da terra” (cf. Gn 4,10).

93. Mas para que esta genuína caridade, com que devemos ver o Salvador na Igreja e nos seus membros, não venha pouco a pouco a arrefecer, é bom contemplemos ao mesmo Cristo como supremo modelo de amor para com a Igreja.

94. E primeiramente imitemos a vastidão daquele amor, esposa de Cristo é só a Igreja; contudo o amor do divino Esposo é tão vasto, que a ninguém exclui, e na sua esposa abraça a todo o gênero humano; pois que o Salvador derramou o seu sangue na cruz para conciliar com Deus a todos os homens de todas as nações e estirpes, e para os reunir num só corpo. Por conseguinte o verdadeiro amor da Igreja exige não só que sejamos todos no mesmo corpo membros uns dos outros, cheios de mútua solicitude (cf. Rm 12,5;1Cor 12,25), que se alegrem com os que se alegram e sofram com os que sofrem (cf. lCor 12,26), mas que também nos outros homens ainda não incorporados conosco na Igreja, reconheçamos outros tantos irmãos de Jesus Cristo segundo a carne, chamados como nós para a mesma salvação eterna. É verdade que hoje não faltam – é um grande mal – os que vão exaltando a rivalidade, o ódio, o rancor, como coisas que elevam e nobilitam a dignidade e o valor do homem. Nós, porém, que magoados vemos os funestos frutos de tal doutrina, sigamos o nosso Rei pacífico, que nos ensinou a amar os que não são da mesma nação ou mesma estirpe (cf. Lc 10,33-37) até os próprios inimigos (cf. Lc 6,27-35; Mt 5,44-48). Nós, compenetrados dos suavíssimos sentimentos do Apóstolo das gentes, com ele cantemos o comprimento, a largura, a sublimidade, a profundeza da caridade de Cristo (cf. Ef 3,18), que nem a diversidade de nacionalidade, ou de costumes pode quebrar, nem a vastidão imensa do oceano diminuir, nem as guerras, justas ou injustas, arrefecer.

95. Nesta hora tremenda, veneráveis irmãos, em que tantas dores torturam os corpos e tantas angústias lancinam as almas, é preciso acender em todos esta caridade sobrenatural, para que os bons – lembramos principalmente os que pertencem a associações de beneficência e mútuo socorro – combinando os seus esforços, como em admirável porfia de compaixão e misericórdia, acudam a tão imensas necessidades das almas e dos corpos, e assim por toda parte resplandeça a generosidade inesgotável do corpo místico de Jesus Cristo.

96. Mas porque à vastidão da caridade com que Cristo amou a Igreja corresponde a constância ativa da mesma caridade, nós também amemos o corpo místico de Cristo com o mesmo amor perseverante e industrioso. Nosso divino Redentor, desde a encarnação, quando lançou os primeiros fundamentos da Igreja, até ao fim da sua vida mortal, nem um só instante passou em que com exemplos fulgentíssimos de virtude, pregando, ensinando, legislando, não trabalhasse até cair de fadiga – ele o Filho de Deus! -em formar ou consolidar a Igreja. Desejamos pois que todos os que reconhecem por mãe a Igreja, ponderem seriamente que não só ao clero e aos que se consagram ao serviço do corpo místico de Jesus Cristo, mas a cada um na sua esfera, incumbe a obrigação de incremento do mesmo corpo. Notem-no de modo particular – como aliás já o fazem tão louvavelmente – os que militam nas fileiras da Ação católica e colaboram com os bispos e sacerdotes no apostolado e os que em pias associações prestam o seu auxílio para o mesmo fim. Não há quem não veja que a ação de todos esses é, nas presentes circunstâncias, de grande peso e de suma importância.

97. Também não podemos aqui silenciar a respeito dos pais e mães de família, a quem nosso divino Salvador confiou os membros mais tenros de seu corpo místico; mas com todo o ardor os exortamos, por amor de Cristo e da Igreja, a que olhem com o máximo cuidado pelos filhos que o Senhor lhes deu, e procurem precavê-los contra as inúmeras ciladas em que hoje tão facilmente se encontram enredados.

98. De modo peculiar manifestou o Redentor o seu ardentíssimo amor à Igreja nas súplïcas que por ela dirigiu ao Pai celeste. Todos sabem – para lembrar isto apenas – que pouco antes de subir ao patíbulo da cruz, orou ardentissimamente por Pedro (cf. Lc 22,32), pelos outros apóstolos (cf. Jo 17,9-19) e por todos aqueles que pela pregação da divina palavra haviam de crer nele (cf. Jo 17,20-23). À imitação deste exemplo de Cristo roguemos todos os dias ao Senhor da messe que mande obreiros para a sua messe (cf. Mt 9,38; Lc 10,2) e todos os dias suba a nossa oração encomendando a Deus todos os membros do corpo místico: primeiro os bispos, a quem está confiado o cuidado das suas dioceses, depois os sacerdotes, os religiosos e religiosas, que por especial vocação chamados ao serviço de Deus; na pátria ou em terras pagãs defendem, aumentam, dilatam o reino do divino Redentor. Nenhum membro do corpo místico fique fora desta comum oração; mas lembrem-se especialmente os que vivem acabrunhados das dores e angústias deste desterro e os defuntos que se purificam no Purgatório. Nem se esqueçam os catecúmenos, que se instruem na doutrina cristã, para que quanto antes possam receber o batismo.

99. Desejamos também vivamente que essas orações abracem com ardente caridade tanto aqueles a quem não raiou ainda a luz do Evangelho, nem entraram no redil seguro da Igreja, como os que um triste dissídio na fé ou na unidade separa de nós, que embora indignos; representamos a pessoa de Jesus Cristo na terra. Repitamos aquela oração divina do Salvador ao Pai celeste: “Que todos sejam um, como tu, ó Pai, em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós: para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).

100. Os que não pertencem ao organismo visível da Igreja católica, como sabeis, veneráveis irmãos, confiamo-los também, desde o princípio do nosso pontificado, à proteção e governo do alto, protestando solenemente que a exemplo do bom pastor tínhamos um só desejo: “que eles tenham vida e a tenham em abundância”. (61) Esta nossa solene declaração queremos reiterar, depois de pedirmos as orações de toda a Igreja nesta encíclica em que celebramos os louvores “do grande e glorioso corpo de Cristo”, (62) convidando a todos e cada um com todo o amor da nossa alma, a que espontaneamente e de boa vontade cedam às íntimas inspirações da graça divina e procurem sair de um estado em que não podem estar seguros de sua eterna salvação, (63) pois, embora por desejo e voto inconsciente, estejam ordenados ao corpo místico do Redentor, carecem de tantas e tão grandes graças e auxílios que só na Igreja católica podem encontrar. Entrem, pois, na unidade católica e unidos conosco no corpo de Jesus Cristo, conosco venham a fazer parte, sob uma só cabeça, da sociedade da gloriosíssima caridade.(64) Nós, jamais cessaremos as nossas súplicas ao Espírito de amor e verdade, e esperamo-los de braços abertos não como a estranhos, mas como a filhos que vêm para a sua casa paterna.

101. Mas se desejamos que sem interrupção subam até Deus as orações de todo o corpo místico implorando que os errantes entrem quanto antes no único redil de Jesus Cristo, declaramos contudo ser absolutamente necessário que eles o façam espontânea e livremente, pois que ninguém crê, senão por vontade. (65) Por conseguinte se alguns que não crêem são realmente forçados a entrar nos templos, a aproximar-se do altar e a receber os sacramentos, não se fazem verdadeiros cristãos: (66) a fé, sem a qual “é impossível agradar a Deus” (Hb 1,6), deve ser libérrima “homenagem da inteligência e da vontade”.(67) Se, portanto, acontecesse que, contra a doutrina constante da Sé Apostólica, (68) alguém fosse obrigado a abraçar contra sua vontade a fé católica, nós, conscientes do nosso dever, não podemos deixar de o reprovar. Mas porque os homens são livres e podem, sob o impulso de más paixões e apetites desordenados, abusar da própria liberdade, então é necessário que o Pai das luzes, pelo Espírito de seu amado Filho, os mova e atraia eficazmente à verdade. Ora, se muitos ainda – infelizes – estão longe da verdade católica e não querem ceder às inspirações da graça divina, é porque não só eles, (69) mas também os fiéis não oram mais fervorosamente por essa intenção. Por isso nós uma e outra vez exortamos a todos a que, por amor da Igreja e seguindo o exemplo do divino Redentor, o façam continuamente.

102. Nas atuais circunstâncias, mais que oportuno, é necessário orar fervorosamente pelos reis e príncipes e por todos os que governam e que podem com a proteção externa auxiliar a Igreja, para que, restabelecida a ordem, por impulso da divina caridade, do meio das ondas tenebrosas desta tormenta surja “a paz, fruto da justiça” (Is 32,17), o atribulado gênero humano e a santa Igreja possam viver uma vida sossegada e tranqüila em toda a piedade e honestidade (cf.1Tm 2,2). Peçamos a Deus que amem a sabedoria os que regem os povos (cf. Sb 6,23), de modo que nunca lhes quadre esta formidável sentença do Espírito Santo: “O Altíssimo examinará as vossas obras e perscrutará os vossos pensamentos, porque sendo ministros do seu reino, não governastes retamente, nem observastes a lei da justiça, nem caminhastes segundo a vontade de Deus. Horrendo e de improviso vos aparecerá, porque será rigorosíssimo o juízo dos que governam. Ao humilde concede-se misericórdia; mas os poderosos serão poderosamente atormentados. Deus não recuará diante de ninguém, nem se inclinará diante de nenhuma grandeza; porque o pequeno e o grande criou-os ele, e de todos cuida igualmente; aos mais fortes, porém, ameaçaos mais forte suplício. Para vós, ó reis, são estas minhas palavras, a fim de que aprendais a sabedoria e não venhais a cair” (Sb 6,4-10).

103. Mas Cristo Senhor nosso mostrou seu amor à esposa imaculada não só trabalhando incansavelmente e orando constantemente, senão também com as dores e ignomínias que, por ela, espontânea e amorosamente tolerou. “Tendo amado aos seus… amou-os até ao fim” (Jo 13,1) e foi com seu sangue que ele adquiriu a Igreja (cf. At 20,28). Sigamos de boa vontade as sangüinolentas pisadas de nosso Rei, como exige a necessidade de assegurarmos a nossa salvação: “Se fomos enxertados nele pela semelhança da sua morte, sê-lo-emos também pela ressurreição” (Rm 6,5) e “se morrermos com ele, com ele viveremos” (2Tm 2,11). Exige-o igualmente a caridade verdadeira e efetiva para com a Igreja e para com as almas, que ela continuamente gera a Cristo. Com efeito, ainda que o Salvador, pelos seus cruéis tormentos e morte dolorosíssima, mereceu à Igreja um tesouro infinito de graças, contudo essas graças, por disposição da providência divina, são-nos comunicadas por partes; e a sua maior ou menor abundância depende não pouco também das nossas boas obras, com que impetramos da bondade divina e atraímos sobre os próximos a chuva dos dons celestes. Será esta chuva abundantíssima, se não nos contentarmos em oferecer a Deus fervorosas preces, sobretudo participando devotamente e, quanto possível, todos os dias, ao sacrifício eucarístico, mas também procuramos, com obras de misericórdia cristã, aliviar os sofrimentos de tantos indigentes; se preferirmos os bens eternos às coisas caducas deste mundo; se refrearmos este corpo mortal com voluntária mortificação, negando-lhe todo o ilícito, e impondo-lhe fadigas e austeridades; se recebermos com humildade, como da mão de Deus, os trabalhos e dores desta vida presente. E assim que, segundo o Apóstolo, “completaremos o que falta à paixão de Cristo na nossa carne, por amor do seu corpo que é a Igreja” (cf. Cl 1,24). Enquanto isto escrevemos, depara-se-nos à vista uma quase infinita multidão de infelizes, cuja sorte nos arranca lágrimas da maior compaixão: doentes, pobres, mutilados, caídos na viuvez ou na orfandade, e muitíssimos que em conseqüência dos sofrimentos próprios ou dos seus se vêem às portas da morte. A todos os que assim, por um motivo ou por outro, jazem imersos na tristeza e na angústia, exortamos com coração paterno a que levantem confiadamente os olhos ao céu e ofereçam os seus trabalhos Àquele que um dia os recompensará divinamente. Lembrem-se todos que a sua dor não é inútil; mas que será proveitosíssima a eles, e também à Igreja, se com esta intenção a sofrerem pacientemente. Para isso ajudá-los-á muitíssimo o oferecimento cotidiano de si mesmos a Deus, como usam fazer os membros do Apostolado da oração, pia associação, que nós aqui encarecidamente recomendamos, como sumamente aceita ao Senhor.

104. Mas se em todo o tempo devemos unir os nossos sofrimentos com os do divino Redentor para a salvação das almas, muito mais hoje em dia, veneráveis irmãos, quando o imenso incêndio da guerra abrasa quase todo o mundo e causa tantas mortes, tantas desgraças, tantos trabalhos; hoje de modo especial é dever de todos fugir dos vícios, das seduções do século, das paixões desenfreadas da carne, e não menos da vaidade e futilidade das coisas terrenas, que nada aproveitam à vida cristã, nada para ganhar o céu. Ao contrário fixemos bem no Espírito aquelas gravíssimas palavras de Nosso imortal predecessor Leão Magno, quando afirmava que pelo batismo nos tornamos carne do Crucificado,(70) e a belíssima oração de santo Ambrósio: “Leva-me, ó Cristo, na tua cruz, a qual é a salvação dos errantes, o único descanso dos cansados, única vida dos mortais”.(71)

105. Antes de terminar, não podemos conter-nos de exortar a todos uma e muitas vezes a que amem a santa madre Igreja com amor industrioso e ativo. Pela sua incolumidade, prosperidade e progresso ofereçamos todos os dias ao Eterno Pai as nossas orações, trabalhos e sofrimentos, se realmente temos a peito a salvação de toda a família humana remida com o sangue divino. E enquanto no céu relampeja a tormenta, e grandes perigos ameaçam a humana sociedade e a própria Igreja, confiemo a nós, e todas as nossas coisas ao Pai das misericórdias, suplicando: “Olhai, Senhor, para esta vossa família, pela qual nosso Senhor Jesus Cristo não duvidou entregar-se em mãos de malfeitores e sofrer o tormento da cruz”.(72)

 

EPÍLOGO

A VIRGEM SENHORA NOSSA

106. Realize, veneráveis irmãos, estes nossos paternos votos, que sem dúvida são também os vossos, e alcanee-nos a todos verdadeiro amor para com a Igreja, a Virgem Mãe de Deus, cuja alma santíssima foi mais repleta do divino Espírito de Jesus Cristo que todas quantas saíram das mãos de Deus, e que “em nome de toda a natureza humana” deu o seu consentimento para que se efetuasse o “matrimônio espiritual entre o Filho de Deus e a natureza humana”.(73) Ela foi que com parto admirável, porque fonte de toda a vida celestial, nos deu Cristo Senhor nosso, já no seu seio virginal ornado da dignidade de cabeça da Igreja; e recém-nascido o apresentou aos primeiros dentre os judeus e gentios que o foram adorar qual Profeta, Rei e Sacerdote. Foi ela que com seus rogos maternos “em Caná da Galiléia” moveu o seu Unigênito a operar o admirável prodígio, pelo qual “creram nele os seus discípulos” (Jo 2,11). Foi ela, a Imaculada, isenta de toda a mancha original ou atual, e sempre intimamente unida com seu Filho, que, como outra Eva, juntamente com o holocausto dos seus direitos maternos e do seu materno amor, o ofereceu no Gólgota ao Eterno Pai por todos os filhos de Adão, manchados pela sua queda miseranda; de modo que a que era fisicamente Mãe da nossa divina cabeça foi, com novo título de dor e de glória, feita espiritualmente mãe de todos os seus membros. Foi ela que com suas eficacíssimas orações obteve que o Espírito do divino Redentor, dado já na cruz, fosse depois em dia de Pentecostes conferido com aqueles dons prodigiosos à Igreja recém-nascida. Ela finalmente, suportando com ânimo forte e confiante imensas dores, verdadeira Rainha dos mártires, mais que todos os fiéis, “completou o que falta à paixão de Cristo… pelo seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24), e assistiu o corpo místico de Cristo, nascido do Coração rasgado do Salvador, (74) com o mesmo amor e solicitude materna com que amamentou e acalentou no berço o menino Deus.

107. Ela pois, Mãe santíssima de todos os membros de Cristo, (75) a cujo Coração Imaculado confiadamente consagramos todos os homens, e que agora em corpo e alma refulge na glória e reina juntamente com seu Filho, nos alcance dele que sem interrupção corram os caudais da graça da excelsa cabeça para todos os membros do corpo místico, e, como nos tempos passados, assim hoje proteja a Igreja com seu poderoso patrocínio e lhe obtenha finalmente a ela e a toda a humana sociedade tempos mais tranqüilos.

108. Confiado nesta celeste esperança, como penhor das graças celestes e atestado da Nossa particular benevolência, a todos e a cada um de vós, veneráveis irmãos, e aos rebanhos a vós confiados, concedemos de todo o coração a bênção apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho, festa dos Santos apóstolos Pedro e Paulo, no ano de 1943, V do nosso pontificado.

 

PIO PP. XII

 

 


Notas

1. Sessio III, Const. Dei Filius de fide cath., c. 4.

2. Cf. Conc.Vat. I, Const. Pastor aeternus de Eccl. Christi; prol. 

3. Cf. ibidem, Const. Dei Filius de fide cath., cap. 1.

4. Cf . AAS 28 (1895-96), p. 710.

5. S. Agostinho, Epist.157, 3, 22; Migne, PL, 32, 686. 

6. S. Agostinho, Sermo CXXXII, 1; Migne, PL, 38, 754.

7. Encíclica Divinum Illud; AAS 29(1896-97), p. 649.

8. S. Ambrósio, In Luc., II, 87; Migne, PL 15,1585. 

9. S.’Iomás, Summa theol. I-II, q.103, a. 3, ad 2.

10. S. Leão M., Sermo 68, 3; Migne, PL 54, 374.

11. Cf. s. Jerônimo e s. Agostinho, Epist.112,14 e 116,16; Migne, PL 22, 924 et 943; S. Tomás, Summa theol., I-II, q.103, a. 3 ad 2; a. 4 ad 1; Concil. Flor., pro Iacob.: Mansi, 31,1738.

12. Cf. S. Tomás, Summa theol., III, q. 42, a. 1.

13. Cf. De peccato orig., XXV, 29; Migne, PL 44, 400.

14. Cf. Cirilo Alex., Comm. in Joh. I, 4; Migne PG 73, 69; S. Tomás, Summa theol.; I, q. 20, a. 4 ad 1.

15. Hexaëm., VI. 55; Migne, PL 14, 265.

16. Cf. s. Agostinho, De agon. Christ. XX, 22; Migne, PL 40, 301.

17. Cf. s. Tomás, Summa theol.; l, q. 22, aa. l- 4.

18. Cf. Leão XIII, enc. Satis Cognitum, AAS 28(1895-9fi), p. 725.

19. Cf. Corpus luris Canonici, Extr. comm., I, 8,1.

20. S. Greg. Magno, Moralia, XIV, 35, 43; Migne, PL LXXV,1062. 

21. Cf. Conc. Vat. I, Const. Pastor aeternus de Eccl., cap. 3.

22. Cf. Cod. Iur. Can., cân. 329, § 1.

23. Cf. Epist. ad Eulog., 30; Migne, PL 77, 933.

24. Comm. in Ep. ad Eph., cap. l, lect 8; Hb. 2,16-17.

25. Cf.  s. Agostinho, De cons. evang., I, 35, 54; Migne, PL 34,1070.

26. Cf . s.Cirilo Alex., Ep. 55 de Symb.; Migne, PG 77, 293.

27. Cf. s. Tomás, Summa theol., III, q. 64, a: 3.

28. Cf. De Rom. Pont., I, 9; De Concil., II,19.

29. Cf. S. Greg. Niss., De vita Moysis; Migne, PG 44, 385.

30. Cf. Sermo 354, 1; Migne, PL 39,1563.

31. Cf. Leão XIII, enc. “Sapientiae Christianae‘; AAS 22(1889-90), p. 392; enc. “Satis cognitum‘; AAS 28(1895-96), p. 710.

32. AAS 29 (1896-97), p. 650. 

33. Cf. s. Ambrosio, De Elia et ieiun., 10, 36-37, e in Psal. 118, serm. 20, 2; Migne, PL 14, 710 e 15,1483.

34. Comentário aos Salmos, 85,5.

35. S, Clem. Alex., Strom., VII, 2; Migne, PG 9, 413.

36. Pio XI, enc. “Divini Redemptoris”: AAS 29(1937), p. 80.

37. De veritate, q. 29, a. 4 c.

38. Cf. Leão XIII, “Sapientiae Christianae“; AAS 22(1889-90), p. 392. 

39. Cf. Leão XIII, enc. “Satis cognitum“; AAS 28 (1895-96), p. 724.

40. Cf. ibidem, p. 710.

41. Cf. ibidem, p. 710.

42. Cf. ibidem, p. 710.

43. S. Tomás, De Veritate, q. 29, a. 4 ad 3.

44. Conc. Vat. I, Sess. IV, Const, dogm. Pastor aeternus de Eccl., prol.

45. Conc. Vat. I, Sess. III, Const. Dei Filius de fide cath., c. 3

46. Cf. Conc. Vat. I, Sess. III, const. Dei Filius de fide cath., cap 3. 

47. Sermo 21, 3; Migne, PL 54,192-193.

48. Cf. s. Agostinho, Contra Faust., 21,8; Migne, PL 42, 392.

49. Cf. Comentário aos Salmos, 17,51 e 90,2,1.

50. Sermo 29; Migne, PL 57, 594.

51. Cf, s. Tomás, Comm. in Ep. ad Eph., cap. 2, lect. 5. 

52. Cf. s. Tomás, Comm. in Ep, ad Eph., cap. l, lect. 8.

53. Cf. s. Tomás, Summa theol., I, q. 43, a. 3. 

54. Sess. III, const. Dei Filius de fide cath., c. 4.

55. Cf. enc. “Divinum illud” ; AAS 29(1896-97), p. 653.

56. Cf. Didaché IX,4.

57. Expos. Evan. sec. Luc., IV, 49; Migne, PL 15,1626.

58. Cf. s.Tomás, Summa theol., II-II, q. 83, aa. 5 e 6. 

59. Cf. s. Tomás, De Veritate, q. 29, a. 4 c.

60. Cf. Decret. S. Officii, 2.12.1940,  AAS 32(1940, p. 553.

61. Carta enc. “Summi Pontificatus“, AAS 31(1939), p. 419. 

62. S. Ireneo, Adv. Haer., N, 33, 7; Migne PG 7,1076.

63. Cf. Pio IX, “Iam vos omnes“, 13.09.1868: Act. Conc. Vat., C. L., VII,10.

64. Cf. Gelásio I, Epist. XIV Migne, PL 59, 89.

65. Cf. s. Agostinho, In Ioann. Ev. tract., 26, 2; Migne, PL 30,1607.

66. Cf. ibidem.

67. Conc. Vat. I, Const. Dei Filius de fide cath., cap. 3.

68. Cf. Leão XIII, enc. “Immortale Dei“, AAS 18(1885-86), pp.174-175, Cod. Iur. Can., c.1351.

69. Cf. s. Agostinho, ibidem.

70. Cf. Sermo 63, 6; 66, 3; Migne, PL 54, 359 e 366. 

71. In Ps.188, 22,30; Migne, PL 15,1521.

72. Offic. da Semana santa.

73. s. Tomás, Summa theol., III, q. 80, a. 1.

74. Cf. Off. Sacratíssimo Coração, hino das vésp.

75. Cf Pio X, enc. “Ad diem illum“, AAS 36(1903-04), p. 453.

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