Quando se vive na cidade grande é fácil esquecer as relações estabelecidas, ao longo de milênios, entre o homem e alguns animais. Uma das mais impressionantes é a simbiose entre estes dois predadores, situados no topo da cadeia alimentar: o homem e o gato.

Ao contrário dos cachorros, versão imatura do lobo obtida pela seleção de filhotes a cada ninhada, não há diferença entre um gato selvagem e outro que, por interesse e carinho, viva em uma relação simbiótica com um ser humano. Afinal, o que levou o homem a aceitar essa relação foi a eficiência do gato na caça aos ratos que sempre atacaram nossos depósitos; a civilização surgiu com o plantio de cereais, atraindo ratos e fazendo dos gatos companheiros desejáveis.

E, realmente, gatos são animais que, como o homem, sabem ser ao mesmo tempo civilizados e cruéis, selvagens e refinados. A mesma beleza e elegância de movimentos de um gato que se espreguiça encontra seu objetivo natural na economia de movimentos que o torna o maior mestre da caça. Onças, leões e tigres, seus primos próximos, não têm tanta elegância, não são – proporcionalmente ao tamanho – predadores tão perfeitos.

A artificialidade do ambiente urbano moderno, contudo, vem provocando um novo fenômeno nessa relação até então mutuamente benéfica entre homem e gato. Além dos já proverbiais gatos do armazém e da casa da solteirona, que complementam o prazer da vida felina semisselvagem com o carinho e cuidado proporcionados por um ser humano, vem surgindo o equivalente felino do passarinho engaiolado: são pobres gatos trancados por janelas teladas, castrados, por vezes até com as unhas removidas. Fazem deles ursos de pelúcia vivos; negações vivas da nobre natureza felina. Seus donos, projetando nos pobres animais seu fracasso reprodutivo, chamam-lhes “crianças”, ou mesmo “filhos”.

Essa negação da natureza dos animais, especialmente naquilo em que ela nos causa inveja, é um dos mais tristes traços do homem caído. Trancamos em gaiolas o pássaro que voa e em casas dedetizadas o gato que caça, como se ao fazer deles objetos de decoração, negando-lhes o usufruto da própria natureza, fôssemos capazes de roubar para nós seus talentos. É como se pudéssemos voar por engaiolar o pássaro, caçar com as próprias garras ao trancar o gato.

Ao fazer do gato um boneco ou falso bebê, contudo, nada ganhamos, senão deixar clara a nossa mesquinharia e egoísmo. A suposta proteção da cadeia solitária tampouco é querida pelo pobre animal.

Em tempo: tenho nove gatos, todos livres.

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