Introdução

Neste artigo, busco traçar as semelhanças – não muito evidentes à primeira vista – e as diferenças entre o pensamento de Nietzsche e de Descartes, enfatizando o paralelismo de suas refundações do pensamento filosófico ocidental a partir de bases diametralmente opostas.

Ambos os filósofos nasceram e viveram em épocas singularmente conturbadas da História ocidental, em momentos marcados por grandes transformações políticas e de pensamento, em momentos, em suma, em que se fazia necessária a abordagem filosófica de novas realidades políticas e sociais que tocavam no cerne da visão de homem em cada época.

Descartes viveu na época conturbada que se sucedeu à pseudo-Reforma protestante, em um tempo em que as grandes certezas de base da civilização européia pareciam ter sido esfaceladas; não mais havia a Cristandade quase-monolítica do Medievo, mas sim miríades de pequenos Estados surgidos a partir do princípio de que a religião real determina a religião do Estado; protestantes combatiam católicos, enquanto sábios de ambos os lados abandonavam a física aristotélica para buscar uma nova física de base matemática, em que a Criação era vista como intrincado mecanismo… e não mais que isso.

Nietzsche viveu em época igualmente conturbada, em que os pequenos Estados surgidos a partir das guerras de religião começavam a unir-se para formar Estados nacionais, em que o pensamento biológico moderno começava a ameaçar as bases mecanicistas que subordinaram a biologia à física por alguns séculos. O poder temporal do papado ruía por fim, e o absolutismo iluminista já era um fato tanto histórico quanto, em muitas áreas, atual.

Disto surge uma séria de semelhanças que, em seu conjunto, acabam por aproximar mais que pareceria possível estes dois filósofos, de bases tão opostas. Esta semelhança principia, mas não se esgota, no fato de ambos serem refundadores. Ambos chegaram, por vias diametralmente opostas, a conclusões parelhas, das quais porém, mantendo o ímpeto direcional inicial, partiram qual foguetes para propostas também opostas.

Seus pontos de união, contudo, assim como a influência – manifestada como negação em alguns pontos e afirmação inconsciente em outros – de Descartes sobre Nietzsche leva os dois filósofos a ocupar, talvez, espaços opostos porém de mesma altura no mesmo panteão…

Descartes

René Descartes, nascido na cidade de La Haye, atual Descartes, em 21.III.1596, é conhecido, com razão, como o fundador da filosofia moderna. Tendo sido formado por jesuítas, ele estava familiarizado com o pensamento escolástico que, no entanto, não o satisfazia. Ao seu treinamento inicial escolástico, Descartes logo acrescentou estudos mais aprofundados na área da matemática e da física matemática, sendo até hoje estudadas nestes campos a sua geometria analítica e a lei da refração ótica, que descobriu.

Durante este período dedicado ao estudo matemático, contudo, este filósofo já dirigiu sua atenção aos problemas metodológicos de natureza mais filosófica, iniciando um tratado dedicado ao estabelecimento de um método para a filosofia da natureza chamado “Regras para a direção do espírito”, que não chegou a concluir. Abandonando estes estudos, Descartes voltou-se para estudos mais puramente filosóficos, expostos de forma ordenada em seu tratado “O Mundo” (1633), que só foi editado postumamente por defender de modo demasiadamente aberto o sistema copernicano, o que pareceu ao autor perigoso devido à então recente condenação de Galileu.

Apenas em 1637 teve início a publicação de seus trabalhos mais maduros de natureza filosófica, com a publicação de um volume único que continha seus ensaios Geometria, Dióptrica e Meteoros, precedidos pelo Discurso sobre o Método, que já apresentava o sistema que mais tarde seria exposto de forma mais ampla e organizada em seus livros posteriores (Meditações, em 1641, Princípios de Filosofia, em 1644, e Paixões da Alma, em 1649).

O ponto crucial de seu pensamento, contudo, é a sua intenção de re-estabelecer a filosofia sobre novas bases, dando-lhe uma segurança que até então, na visão deste filósofo, ela não possuiria.

Esta intenção, derivada provavelmente de sua experiência como matemático, somada às condições conturbadas da situação política de seu tempo – que, nos anos em que foi engenheiro militar, Descartes pôde conhecer em primeira mão – foi expressa principalmente na mudança de paradigma que caracteriza a diferença específica entre a filosofia de Descartes e o pensamento escolástico que lhe é anterior.

Descartes, como já mencionamos, desejava a segurança, a certeza que o pensamento escolástico não lhe podia fornecer. Sua primeira preocupação, portanto, foi precisamente o desenvolvimento de um método que lhe permitisse atingir este grau de segurança. Para que esta segurança pudesse ser atingida, fazia-se necessário eliminar quaisquer fontes de conhecimento que fossem duvidosas e partir de bases sobre as quais nenhuma dúvida pudesse haver. Para isso, Descartes considerou encontrar esta certeza no famoso argumento do Cogito (cogito, ergo sum), a partir do qual procurou estabelecer toda a sua filosofia.

Para Descartes, o próprio fato de pensar mostra necessariamente que há uma coisa que pensa. Quando temos consciência de nossos pensamentos, assim, temos necessariamente consciência de que inegavelmente existimos. A partir de esta primeira certeza, baseando-se na também inegável existência de Deus – que ele julgou comprovar com uma versão do argumento ontológico de Santo Anselmo –, o pensador julgou descobrir algumas percepções “claras e distintas”, a partir das quais ser-lhe-ia possível reconstruir todo o conhecimento humano em bases absolutamente seguras.

Este trabalho de refundação da filosofia sobre novas bases – para ele absolutamente seguras – levou-o a adotar em sua metafísica uma distinção radical entre corpo e mente. A mente, ou res cogitans, coisa que pensa, é para ele necessariamente a única base segura a partir da qual é possível conhecer o corpo (ou qualquer outra matéria), vista por ele como simplesmente res extensa, coisa que tem extensão. Esta segurança que seria fornecida apenas a partir da mente, assim como esta visão do homem como sendo essencialmente sua mente, introduziu uma nova maneira de pensar o mundo em termos de filosofia natural, fornecendo assim uma base mais condizente aos sistemas mecanicistas que então começavam a entrar em voga (como o próprio sistema heliocêntrico de Copérnico, defendido por Descartes em seus trabalhos anteriores).

A conexão entre corpo e mente, para Descartes, era algo que apreendemos naturalmente; para seus leitores, entretanto, nem sempre a operação desta conexão (que ele assegurava ocorrer através da glândula pineal, que a mente teria a capacidade de mover) pareceu tão naturalmente explicável. Sua metafísica foi por muitos acusada de pregar uma separação substancial entre mente e corpo, o que foi por ele ardorosamente negado. Vale notar, contudo, que – como observa Pe. Leonel Franca – “levam ao materialismo as suas doutrinas cosmológicas, que reduzem as mais elevadas manifestações da vida animal a simples movimentos mecânicos explicáveis pela matéria e pelo movimento.” Sua visão mecanicista, que fazia com que não reconhecesse em um animal nada mais que um complexo mecanismo de relojoaria (como mais tarde ensinaria Sir Isaac Newton), levava inexoravelmente a uma visão materialista da realidade, cujo único obstáculo seria a atribuição de toda a operação da razão à mente humana, por ele vista como espiritual e não física.

Sua refundação da filosofia, assim, tem como conseqüência principal a separação radical entre res cogitans e res extensa, entre mente e corpo, com a primeira tendo o lugar de honra como essência do homem. Esta dicotomia entre mente e corpo persistiria ainda por séculos a assombrar o pensamento ocidental.

A afirmação de Descartes de que a base da segurança no pensar vem de um processo interno da mente, negando inicialmente todo e qualquer valor à evidência dos sentidos, faz com que toda a sua construção filosófica repouse sobre a mente; o homem é sua mente, e alguma extensão. O que sabemos sabemos como mentes, por só sabermos imediatamente com segurança que existimos como mentes. Sua refundação da filosofia, portanto, tem a mente por base e a dicotomia entre mente humana e matéria como conseqüência mais importante.

Nietzsche

Friedrich Nietzsche, nascido em 1844 em Rocken, na Saxônia, foi desde sua juventude conhecido por seu brilhantismo. Filho de um ministro luterano que faleceu, enlouquecido, quando o futuro filósofo contava tenros cinco anos de idade, Nietzsche foi criado pelas mulheres de sua família (sua avó materna, sua mãe e duas irmãs) na cidade de Naumberg; aos quatorze anos recebeu uma bolsa de estudos para a famosa escola de Pforta, graduando-se aos vinte e passando à Universidade de Bonn, como aluno de Teologia. No ano seguinte ele transferiu-se para Leipzig, onde estudou filologia sob a tutela de Friedrich Ritchl – que quatro anos depois o nomeou para a cátedra de Filologia Clássica na Basiléia, aos vinte e quatro anos – e descobriu o trabalho de A. Schopenhauer.

Durante toda a sua vida, Nietzsche foi marcado pelas perturbações de ânimo que o levaram finalmente à loucura, em 1889. Destas perturbações de ânimo surgiram trabalhos em que o filósofo propunha idéias freqüentemente contraditórias em relação a outras suas obras, sendo o seu trabalho sempre marcado, contudo, por alguns temas principais.

Vivendo, como Descartes, em um tempo de mudanças profundas no contexto político e sócio-cultural da Europa, Nietzsche também buscou, a seu modo nada metódico, refundar a filosofia sobre bases distintas das de seu predecessor. Horrorizado com a idéia kantiana e schopenhaueriana da inapreensibilidade da coisa em si – de um certo modo conseqüência necessária da aporia involuntária surgida com a dicotomia mente/matéria que surgiu a partir da metafísica cartesiana –, Nietzsche procurou uma base para a refundação da filosofia de modo tal que tornasse possível uma nova compreensão da essência do homem em que a mente, a razão, não fosse a sua essência.

Como os estudos mecanicistas da natureza cuja base filosófica fora proporcionada pelo pensamento de Cartésio estivessem naquele momento em um ponto de mutação, com a publicação dos trabalhos de Darwin e de Mendel, nada mais natural que buscar, de certa forma, no corpo e não mais na mente a base para a refundação da filosofia de modo a escapar do aparentemente invencível pessimismo schopenhaueriano. Foi isso que fez Nietzsche, de modo porém extremamente contraditório e irregrado.

Rebelando-se contra a própria idéia de um método, contra as elaborações filosóficas posteriores a Descartes, que se caracterizavam todas por verem o homem como primordialmente pensamento e por, de uma maneira ou outra, diminuírem o valor dos sentidos, Nietzsche inicialmente buscou na arte a solução para o que via como uma crise profunda da cultura européia, causada pelas idéias dos descendentes intelectuais de Descartes. Sua argumentação em favor da arte principia pela afirmação da verdade maior da arte em relação à teoria, chegando a apresentar àquela como a atividade humana “verdadeiramente metafísica”.

Assestando suas baterias contra a teorização que considerava exagerada, ele defendeu ainda que quando não encontra limites nem um fim na vida a que ela deveria servir, a teorização tinha ação destruidora sobre os horizontes da vida e da ação humanas; para evitar que isto ocorresse no campo da História, por exemplo, ele propôs que a História fosse produzida e encarada como arte, não como teoria. Cabe notar que neste ponto sua coerência não o abandonou; mesmo ao afirmar outras bases, nunca fugiu de seu pensamento a centralidade da vida humana plena (que, contudo, definiria de maneiras contraditórias ao longo de sua vida) e jamais deixaram seus escritos de serem considerados merecedores da qualificação de literatura e prosa poética de primeira ordem pelos conhecedores do idioma alemão.

Em seu período intermediário, o insano filósofo dá uma volta de 180 graus e passa a defender a teoria, sempre contudo em nome de uma maior valorização da vida. Há quem defenda que esta reviravolta foi causada pelo rompimento de suas relações com o compositor R. Wagner, sobre quem derramara os elogios mais laudatórios em sua fase anterior. Neste período, Nietzsche abraça o naturalismo e a indiferenciação entre homem e animal que antes negara veementemente e atacara sem dó, vendo porém neste naturalismo simplesmente uma base para a descoberta das virtudes do homem e da vida humana, que estariam já nos animais inferiores, embora de forma muito mais limitada e imperfeita.

Em sua fase final, Nietzsche substitui a sua anterior visão naturalista e os louvores que cantara à teoria por doutrinas que, mais tarde, seriam objeto dos abusos mais graves e indevidos. De um certo modo, contudo, ele busca unir as visões aparentemente irreconciliáveis que tivera em suas fases anteriores, afirmando tanto a arte quanto os valores, tanto o naturalismo quanto a teoria – negando-lhe novamente porém qualquer autonomia.

Nesta fase, ele ataca violentamente o Cristianismo, que vê como a negação dos valores que procura defender, negação de certo modo da própria vida humana. Como alternativa, ele propõe substituir o “espírito apolíneo” – de Apolo, deus da razão – pelo “espírito dionisíaco” – de Dioniso, deus da música e da bebida, o deus que não habita o Olimpo.

Pode-se notar em sua obra um esforço constante e deliberadamente a-metódico de fundar uma metafísica nos sentidos, nas paixões, naquilo que é necessária e inalienavelmente humano. À prisão apolínea da cabeça, Nietzsche opõe a liberdade dionisíaca do corpo. A Vontade de Poder, para ele, é o oposto do pensamento volitivo de uma mente encerrada em si mesma, mal tocando o mundo e negando-se a si mesma ao considerar-se algo distinto de uma matéria que é mera extensão. Esta Vontade seria na verdade uma afirmação da vida, que poderia ser encontrada no homem em sua forma mais alta, artística e pura, mas que estaria também presente em toda a natureza. O homem que a reconhece, que age em função dela, deixa de lado sua vida de escravo ou ovelha e passa a ser verdadeiramente homem, a viver plenamente. Elevando-se acima dos outros homens e tendo uma vida que não se incomodaria de ver repetida incontáveis vezes, ele se torna um Übermensch, um supra-homem, o que seria a única forma de afirmar verdadeiramente o homem depois do que o filósofo chama de a morte de Deus.

Vemos, assim, uma refundação que busca como princípio a vida humana, negando a oposição entre o homem-mente e as demais criaturas que encontramos na obra de Descartes. Esta refundação, operada de modo quase anárquico, sem que haja qualquer busca de segurança que não a da afirmação, pode ser vista como diametralmente oposta à refundação cartesiana, partindo porém de uma percepção extremamente semelhante, de circunstâncias sociais igualmente conturbadas e do desejo de responder ao que cada autor via como as falhas do pensamento filosófico anterior.

Conclusão

Ambos os filósofos de que tratamos neste texto, portanto, viram-se como refundadores da filosofia. O contraste tão nítido entre suas abordagens, na verdade, ilumina mais que obscurece as suas semelhanças.

O primeiro, Descartes, procurou antes de mais nada um Método que lhe facultasse obter a segurança que considerava necessária para uma apreensão mais veraz da realidade. No homem, mais exatamente na função intelectiva do homem, ele julgou encontrar a base segura para suas cogitações.

O segundo, Nietzsche, partiu de certa forma da negação do Método, procurando expressar o que percebia intuitivamente sem cair nas armadilhas que considerava serem os sistemas filosóficos construídos a partir da matriz cartesiana. Em sua busca de uma base não-sistemática para a refundação do pensamento filosófico, Nietzsche colocou o homem. Em seu pensamento, porém, não mais se trata de o homem cuja essência é ser pensador, do homem-mente, da res cogitans de Descartes; ao contrário, trata-se do homem de carne e osso, do homem que é mais que os animais exatamente por ser um deles, o melhor deles.

Enquanto Descartes elaborou seu sistema em um tempo marcado pelas guerras de religião que vieram a dar origem ao sistema de Estados modernos, um tempo em que a visão mecanicista de toda a Criação parecia capaz de explicar de modo admirável das órbitas celestes à digestão dos animais, Nietzsche trabalhou em tempo igualmente confuso, em que os Estados nacionais começavam a alcançar o auge de sua força, sendo ele contemporâneo de Bismarck, do Congresso de Viena e da unificação da Itália sob Garibaldi. O pensamento despótico de natureza iluminista já havia provocado na Prússia e Áustria o que Nietzsche via como o início do fim da civilização européia.

Desta similaridade – ambos viveram, como quer a praga chinesa, “em tempos interessantes” – surgem outras, das quais o desejo de refundação da filosofia não é a menor. Ambos os pensadores, de certo modo herdeiros e filhos recalcitrantes do pensamento filosófico anterior, levantaram-se contra ele e seus efeitos, buscando, ambos, no Homem a solução. Para Descartes, tratava-se do homem-mente; para Nietzsche, do homem-corpo.

Partindo assim dessas visões diametralmente opostas do que seria o homem, ambos entregaram-se à árdua e ambiciosa tarefa de repensar a filosofia. Descartes o fez de modo tal a justificar o mecanicismo então em voga, e Nietzsche de modo a corroborar o darwinismo que então surgia. Ambos, assim, beberam do vaso da ciência de seus tempos respectivos.

Do mesmo modo, para ambos foi importante pensar a Deus: Descartes O viu como o penhor da segurança de suas percepções, colocando contudo em perigo, pela circularidade de sua argumentação, a possibilidade de afirmação real tanto da existência de Deus quanto da apreensibilidade do real. Esta brecha, mais tarde explorada e aberta de par em par por Kant e pelos filósofos do Iluminismo, acabou por levar, na filosofia ocidental, à negação pura e simples de Deus e de Sua ação. Esta negação, tão contrária à tradição européia, levou por sua vez Nietzsche a afirmar o horror que seria, que foi, a morte de Deus. No lugar de Deus, Nietzsche coloca o Homem, completando assim a obra involuntária do religioso Descartes.

No lugar de um Deus ex-machina que entra quando chamado no raciocínio para possibilitar uma percepção da realidade, Nietzsche O vê como o real penhor, penhor porém que foi destruído – morto –, o que gerou o vazio que leva necessariamente ao niilismo mais absoluto. Podemos, assim, de certo modo, apontar nisto outra semelhança: ambos viam Deus como penhor de uma segurança que Descartes procurou afirmar e Nietzsche chorar, poética e tragicamente, a perda.

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