Congregação para a Doutrina da Fé
NOTIFICAÇÃO SOBRE OS ESCRITOS DO PADRE ANTHONY DE MELLO, S.J.

O padre jesuíta indiano Anthony de Mello (1931-1987) é muito conhecido pelas suas numerosas publicações, que, traduzidas para diversas línguas, tiveram uma notável difusão em muitos países, mesmo se nem sempre se trata de textos por ele autorizados. As suas obras, quase sempre em forma de pequenos contos, contêm elementos válidos, provenientes da sabedoria oriental, que podem ajudar a adquirir um auto-controle, a romper os laços e afetos que nos impedem de ser livres, a enfrentar com serenidade os acontecimentos bons e maus da vida. Sobretudo nos seus primeiros escritos, o padre de Mello, embora já evidenciando uma clara influência das correntes espirituais budistas e taoístas, manteve-se todavia dentro das linhas da espiritualidade cristã. Nesses livros, trata dos diversos tipos de oração: de petição, de intercessão e louvor, bem como da contemplação dos mistérios da vida de Cristo, etc.

Já porém em algumas passagens dessas primeiras obras, e cada vez mais nas sucessivas publicações, nota-se um progressivo afastamento dos conteúdos essenciais da fé cristã. A revelação, feita em Cristo, é substituída por uma intuição de Deus, sem forma e sem imagens, a ponto de falar de Deus como de um puro vazio. Para ver a Deus, basta olhar diretamente para o mundo. Nada se pode dizer de Deus; o único conhecimento é o não conhecimento. Pôr a questão da existência de Deus é já um sem sentido. Um tal apofatismo radical leva também a negar que haja na Bíblia afirmações válidas sobre Deus. As palavras da Escritura são indicações que deveriam servir apenas para chegar ao silêncio. Em outras passagens, o juízo sobre os livros sagrados das religiões em geral, sem excluir a própria Bíblia, é ainda mais severo: tais livros impedem as pessoas de seguir o próprio bom senso, fazendo com que se tornem obtusas e cruéis. As religiões, inclusive a cristã, são um dos principais obstáculos à descoberta da verdade. Jamais se poderá, aliás, definir essa verdade nos seus conteúdos precisos. Pensar que o Deus da própria religião é o único, é puro fanatismo. Deus é visto como uma realidade cósmica, vaga e onipresente. O seu caráter pessoal é ignorado e praticamente negado.

O Padre Mello mostra ter apreço por Jesus, de quem se diz discípulo. Considera-o porém um mestre ao lado dos outros. A única diferença frente aos outros homens é ser Jesus “esperto” e totalmente livre, quando os outros não o são. Não é reconhecido como Filho de Deus, mas simplesmente como aquele que nos ensina que todos os homens são filhos de Deus. Também as afirmações sobre o destino definitivo do homens suscitam perplexidades. Por vezes, fala-se de uma dissolução no Deus impessoal, como a do sal na água. Em diversas ocasiões, considera-se irrelevante também a questão do destino depois da morte. Só a vida presente é digna de interesse. E nesta, uma vez que o mal é apenas ignorância, não existem regras morais objetivas. O bem e o mal são só valorizações mentais impostas à realidade.

Coerentemente com quanto foi dito, pode compreender-se como, segundo o autor, qualquer credo ou profissão de fé, tanto em Deus como em Cristo, só serve para impedir o acesso pessoal à verdade. A Igreja, fazendo da palavra de Deus na Sagrada Escritura um ídolo, acabou por expulsar Deus do templo. Por conseguinte, perdeu a autoridade de ensinar em nome de Cristo.

Com a presente Notificação, esta Congregação, no intuito de tutelar o bem dos fiéis, vê-se na obrigação de declarar que as posições acima expostas são incompatíveis com a fé católica e podem causar graves danos.

O Sumo Pontífice João Paulo II, na audiência concedida ao abaixo-assinado Prefeito, aprovou a presente Notificação, decidida na Sessão Ordinária desta Congregação, e mandou que fosse publicada.

Roma, sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 24 de junho de 1998, solenidade do Nascimento de São João Batista.

Joseph Card. Ratzinger
Prefeito

Tarcísio Bertone (sdb)
Arcebispo Emérito de Vercelli Secretário

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NOTA ILUSTRATIVA À NOTIFICAÇÃO SOBRE OS ESCRITOS DO PADRE ANTHONY DE MELLO

Os escritos do jesuíta indiano Padre Anthony de Mello (1931-1987) alcançaram uma notável difusão em muitos países e entre pessoas de diferentes condições [1]. Neles, num estilo directo e de leitura fácil, sendo a maior parte em forma de breve narrações, ele recolheu alguns elementos válidos da sabedoria oriental, que podem ajudar a conseguir o domínio de si, romper aqueles laços e afectos que nos impedem de ser realmente livres, evitar o egocentrismo, enfrentar com serenidade as vicissitudes da vida sem se deixar influenciar pelo mundo exterior, e ao mesmo tempo perceber a riqueza do mundo que nos circunda. É justo assinalar estes valores positivos, que se podem encontrar em muitos dos escritos do Pe. Mello. Sobretudo nas obras que são dos seus primeiros anos de actividade como director de retiros, embora revelando evidentes influências das correntes espirituais budistas e taoístas, ele manteve-se em muitos aspectos ainda dentro das linhas da espiritualidade cristã: fala da expectativa, no silêncio e na oração, da vinda do Espírito, puro dom do Pai (Incontro con Dio, 11-13). Apresenta muito bem a oração de Jesus e a que Ele nos ensina, tomando como base o Pai Nosso (ibid., 40-43). Fala também da fé, do arrependimento, da contemplação dos mistérios da vida de Cristo segundo o método de Santo Inácio. Na sua obra Sàdhana. Un cammino verso Dio, publicada pela primeira vez em 1978, sobretudo na sua parte final (La devozione, pp. 175-235), Jesus ocupa um lugar central: fala-se da oração de súplica, da oração de intercessão, tal como Jesus ensina no Evangelho, da oração de louvor, da invocação do nome de Jesus. O livro é dedicado à Bem-aventurada Virgem Maria, modelo de contemplação (pág. 11).

Mas já neste livro ele desenvolve a sua teoria da contemplação como autoconsciência (ou conhecimento), que não parece isenta de ambiguidade. No início da obra, a noção da revelação cristã é equiparada à de Lao-Tse, com uma certa preferência pela deste último: «”O silêncio é a grande revelação”, disse Lao-Tse. Segundo o nosso modo comum de pensar, a Revelação encontra-se na Sagrada Escritura. E é assim. Mas hoje quereria que descobrisses que a revelação pode se encontrar no Silêncio» (pág. 15; cf. pág. 18). No exercício da consciência (ou conhecimento) das nossas sensações corpóreas, entramos já em comunicação com Deus (pág. 44). Uma comunicação que é explicada nestes termos: «Muitos místicos dizem-nos que, além da mente e do coração com que ordinariamente comunicamos com Deus, somos, todos nós, dotados de uma mente mística e de um coração místico, uma faculdade que nos torna capazes de conhecer Deus directamente, de O captar e intuir no seu próprio ser, embora duma maneira obscura» (ibid.). Mas esta intuição, sem imagens nem forma, é a de um vazio: «O que é que fixo quando contemplo Deus? Uma realidade sem imagens, sem forma. Um vazio!» (pág. 45). Para comunicar com o infinito é necessário «fixar um vazio». Assim se chega à conclusão, «aparentemente desconcertante, de que a concentração no vosso respiro ou nas vossas sensações corpóreas é uma óptima contemplação, no sentido estrito da palavra» (pág. 51) [2]. Noutras obras sucessivas fala-se do «despertar», da iluminação interior ou do conhecimento: «Como despertar? Como saber se se está a dormir? Os místicos, quando vêem aquilo que os circunda, descobrem uma grande alegria, que brota do coração das coisas. Concordes, falam desta alegria e do amor que inunda tudo… Como chegar a isto? Mediante a compreensão, libertando-nos das ilusões e das ideias erradas» (Istruzioni di volo per aquile e polli, 77; cf. Chiamati all’amore, 178). A iluminação interior é a verdadeira revelação, muito mais importante do que aquela que nos chega mediante a Escritura: «Um guru prometeu a um estudioso uma revelação muito mais importante do que qualquer outra contida nas Escrituras… Quando tens o conhecimento, usas uma tocha para iluminar o caminho. Quando tens a iluminação, tu mesmo te tornas uma tocha» (La preghiera della rana, vol. I, 126-127). «A santidade não é uma conquista, a santidade é uma Graça. Uma Graça chamada “Conhecimento”, uma Graça que é “olhar”, “observar”, “entender”. Se tu aceitasses acender a luz do conhecimento e te observasses a ti mesmo e cada coisa que está ao teu redor na vida de cada dia; se te visses reflectido no espelho do conhecimento do mesmo modo como vês o teu rosto reflectido num espelho… sem emitir juízo algum ou qualquer condenação, haverias de perceber as maravilhosas mudanças que acontecem em ti» (Chiamati all’amore, 176).

Nestes escritos sucessivos, o Pe. Mello chegou progressivamente a concepções sobre Deus, a revelação, Cristo, o destino final do homem, etc. que não são compatíveis com a doutrina da Igreja. E dado que muitos dos seus livros não se apresentam sob forma de ensinamento, mas como colecção de pequenas narrações, com frequência muito engenhosas, as ideias subjacentes podem facilmente passar inobservadas. Torna-se, portanto, necessário chamar a atenção para alguns aspectos do seu pensamento, que, de diversas formas, afloram no conjunto da sua obra. Servir-nos-emos dos textos do Autor, que, mesmo com as suas características particulares, mostram com clareza o pensamento de fundo.

O Pe. Mello em diversas ocasiões faz afirmações sobre Deus que ignoram, ou até mesmo negam de modo explícito, o seu carácter pessoal e O reduzem a uma vaga realidade cósmica omnipresente. Ninguém nos pode ajudar a encontrar a Deus, assim como ninguém pode ajudar o peixe a encontrar o oceano (cf. Un minuto di saggezza, 77; Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 115). De maneira análoga, Deus e nós não somos uma coisa só mas também não somos duas, assim como o sol e a luz, o oceano e as ondas não são uma coisa só mas também não são duas (Un minuto di saggezza, 44). Com clareza ainda maior, o problema da divindade pessoal é posto nestes termos: «Dag Hammarskjöld, ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, disse uma frase muito bonita: “Deus não morre no dia em que deixamos de crer numa divindade pessoal…”» (Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 140; o mesmo em La iluminación es la espiritualidad, 60). «Se Deus é amor, então a distância entre Deus e tu é a exacta distância entre tu e o conhecimento de ti mesmo» (Shock di un minuto, 287).

Critica-se e faz-se muitas vezes ironia principalmente a respeito de toda a tentativa de linguagem sobre Deus, a partir de uma refutação unilateral e exagerada, consequência da concepção de divindade mencionada acima. A relação entre Deus e a criação exprime-se frequentemente com a imagem hindu do bailarino e da dança: «Vejo Jesus Cristo e Judas, vejo vítimas e perseguidores, os algozes e os crucificados: uma única melodia de notas contrastantes… uma única dança feita de passos diferentes… Por fim, ponho-me diante de Deus. Vejo-O como o bailarino e toda esta realidade louca, insensata, hilariante, agonizante, esplêndida a que chamamos vida como a sua dança…» (Alle sorgenti, 178-179; cf. Il canto degli uccelli, 30). O que é ou quem é Deus e o que são os homens nesta «dança»? «Se queres ver Deus, observa directamente a criação. Não O rejeites, não reflictas sobre Ele. Limita-te a olhar» (pág. 41). Não se vê como possa entrar aqui a mediação de Cristo para o conhecimento do Pai. «Deus nada tem a ver com a ideia que tendes d’Ele… Há só um meio para O conhecer: o não conhecimento» (Istruzioni di volo per aquile e polli, 11; cf. ibid., 12-13; Messaggio… , 136; Preghiera della rana, vol. 1, 351). Sobre Deus, portanto, nada se pode dizer: «O ateu erra ao negar Aquele sobre o qual nada se pode dizer… E o teísta comete o erro de afirmá-l’O» (Shock di un minuto, 30; cf. ibid., 360).

Nem sequer as Escrituras, sem excluir a própria Bíblia, fazem conhecer Deus; são apenas uma espécie de placa indicadora que não me diz nada sobre a cidade para onde me dirijo: «Chego diante de uma placa onde está escrito “Bombaim”… Aquela placa não é Bombaim, nem se parece com ela. Não é um retrato de Bombaim. É uma indicação. As Escrituras são isto: uma indicação» (Istruzioni di volo per aquile e polli, 12). Prolongando a metáfora, poder-se-ia dizer que a indicação se torna inútil quando cheguo ao lugar de destinação. E é o que parece afirmar A. de Mello: «A Escritura é a parte excelente, o dedo indicador que aponta a Luz. Usamos as suas palavras para ir mais além e chegar ao silêncio» (ibid., 15). A revelação de Deus paradoxalmente não se exprime na sua palavra, mas no seu silêncio (cf. também Un minuto di saggezza, 129, 167, 201, etc; Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 112-113). «Na Bíblia é-nos indicado apenas o caminho, como sucede com as escrituras muçulmanas, budistas, etc.» (La iluminación es la espiritualidad, 64).

Proclama-se, portanto, um Deus impessoal que está acima de todas as religiões, ao mesmo tempo que se movem objecções ao anúncio cristão de Deus amor, que seria incompatível com a necessidade da Igreja para a salvação: «O meu amigo e eu fomos à feira. A feira internacional das religiões… No balcão hebreu, deram-nos boletins que diziam que Deus era compassivo e os hebreus eram o seu povo eleito. Os hebreus. Nenhum outro povo era tão eleito como o povo hebreu. No balcão muçulmano, aprendemos que Deus era misericordioso e Maomé o seu único profeta. A salvação vem da escuta do único profeta de Deus. No balcão cristão, descobrimos que Deus é amor e não há salvação fora da igreja. Entra na igreja ou correrás o perigo da condenação eterna. Enquanto nos afastávamos, perguntei ao meu amigo: “O que pensas de Deus?”. Ele respondeu: «É beato, fanático e cruel». Tendo retornado a casa, eu disse a Deus: “Por que predispões este género de coisas, Senhor? Não vês que desde há séculos Te proporcionam uma má fama?”. Deus respondeu: “Não fui Eu quem organizou a feira. Envergonhar-Me-ia até de a visitar”» (Il canto degli uccelli, pág. 186s., a narração La fiera internazionale delle religioni; cf. também pp. 190-191, 194). O ensinamento da Igreja sobre a vontade salvífica universal de Deus e a salvação dos não-cristãos não está exposto de modo correcto. E também o que se refere à mensagem cristã de Deus amor: «”Deus é amor. E ama-nos e recompensa-nos para sempre, se observarmos os seus mandamentos”. “SE?” disse o mestre. “Então a notícia não é assim tão boa, não?” (Shock di un minuto, 218; cf. ibid., 227). Toda a religião concreta é um impedimento para chegar à verdade. Da religião em geral diz-se aquilo que foi afirmado a respeito das Escrituras: «Todos os fanáticos queriam agarrar-se ao seu Deus e fazê-l’O o único» (La iluminación es la espiritualidad 65; cf. ibid., 28; 39). O que importa é a verdade, quer ela venha de Buda ou de Maomé, visto que «o importante é descobrir a verdade onde todas as verdades coincidem, porque a verdade é uma só» (ibid., 65). «A maior parte das pessoas, infelizmente, tem bastante religião para odiar, mas não a suficiente para amar» (La preghiera della rana, vol. 1, 146; cf. ibid., 56-57; 133). Quando se enumeram os obstáculos que impedem de ver a realidade, a religião ocupa o primeiro lugar: «Primeiro, a tua fé religiosa. Se tu consideras a vida como comunista ou capitalista, como muçulmano ou então como hebreu, vives a vida duma maneira preconcebida e tendenciosa: eis uma barreira, uma camada de gordura entre a Realidade e o teu espírito, que já não chega a vê-la nem tocá-la directamente» (Chiamati all’amore, 62). «Se cada ser humano fosse dotado de um coração assim, ninguém mais se etiquetaria a si mesmo como “comunista” ou “capitalista”, “cristão” ou “muçulmano” ou “budista”. A lúcida clareza da sua visão revelar-lhes-ia que todos os pensamentos, todos os preconceitos, todas as crenças são lanternas carregadas de trevas, nada mais do que sinais da sua ignorância» (ibid., 172; cf. também Un minuto di saggezza, 169; 227, sobre os perigos da religião). O que se afirma a respeito da religião, diz-se concretamente também das Escrituras (cf. Il canto degli uccelli, 186s; Shock di un minuto, 28).

A filiação divina de Jesus dilui-se na filiação divina dos homens: «Ao que Deus replicou: “Um dia de festa é sagrado porque demonstra que todos os dias do ano são sagrados. E um santuário é santo porque demonstra que todos os lugares são santificados. Do mesmo modo, Cristo nasceu para demonstrar que todos os homens são filhos de Deus”» (Il canto degli uccelli, 188). A. de Mello mostra certamente uma adesão pessoal a Cristo, do qual se declara discípulo (Alle sorgenti, 13, 99), no qual crê (pág. 108) e com o qual se encontra pessoalmente (pág. 109ss; 117ss). A sua presença transfigura (cf. pág. 90s). Mas outras afirmações são desconcertantes: Jesus é mencionado como um mestre entre muitos: «Lao-Tse e Sócrates, Buda e Jesus, Zarathustra e Maomé» (Un minuto di saggezza, 13). Na cruz, Jesus aparece como aquele que Se libertou perfeitamente de tudo: «Vejo o Crucificado despojado de tudo: Privado da sua dignidade… Privado da sua reputação… Privado de todo o apoio… Privado do seu Deus… Enquanto olho para aquele corpo sem vida, compreendo pouco a pouco que estou a olhar para o símbolo da libertação suprema e total. Precisamente porque pregado na cruz, Jesus torna-Se vivo e livre… Assim agora contemplo a majestade do homem, que se libertou de tudo aquilo que nos torna escravos, que destrói a nossa felicidade…» (Alle sorgenti, 92-93). Jesus na cruz é o homem livre de todos os laços, tornou-Se portanto o símbolo da libertação interior de tudo aquilo a que estávamos apegados. Mas, Ele é algo mais do que o homem livre? É Jesus o meu salvador ou me remete simplesmente para uma realidade misteriosa que O salvou? «Entrarei porventura em contacto, Senhor, com a fonte da qual derivam as tuas palavras e a tua sabedoria? Encontrarei talvez as fontes da tua coragem?» (ibid., 116). «O aspecto melhor de Jesus é que Se encontrava à vontade com os pecadores, porque entendia que em nada era melhor do que eles… A única diferença entre Jesus e os pecadores era que Ele estava desperto e eles não» (Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 37; também La iluminación es la espiritualidad, 30; 62). A presença de Cristo na Eucaristia não é senão um símbolo, que remete para uma realidade mais profunda, a presença de Cristo na criação: «Toda a criação é Corpo de Cristo, e tu acreditas que só está na Eucaristia. A Eucaristia indica essa criação. O Corpo de Cristo está em toda a parte, e tu só reparas no seu símbolo que está a indicar-te o essencial que é a vida» (La iluminación es la espiritualidad, 61).

O ser do homem parece destinado a uma dissolução, como a do sal na água: «Antes que aquele último pedacinho se dissolvesse, a boneca (de sal) exclamou admirada: “Agora sei quem sou!”» (Il canto degli uccelli, 134). Noutros momentos declara-se irrelevante a questão da vida para além da morte: «”Existe a vida antes da morte?… é esta a questão!”, respondeu o mestre de maneira enigmática» (Un minuto di saggezza, 93; cf. ibid., 37). «Um bom sintoma de que estais acordados é que não vos importa nada daquilo que acontecerá na próxima vida. O pensamento não vos perturba; não vos importa. Não vos interessa… e basta» (Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 50-51; também Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 166). Talvez ainda com maior clareza: «Para quê preocupar-se com o amanhã? Há uma vida depois da morte? Sobreviverei após a morte? Para quê preocupar-se com o amanhã? Entrai no presente» (Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 126). «A ideia que a gente tem da eternidade é estúpida. Pensa que dura para sempre porque está fora do tempo. A vida eterna é agora, está aqui» (La iluminación es la espiritualidad, 42).

Em diversos pontos dos seus livros, são criticadas de modo indiscriminado as instituições eclesiásticas: «Profissionais assumiram completamente o controle da minha vida religiosa…» (Il canto degli uccelli, 74s). A função do Credo ou a profissão da fé é julgada de maneira negativa, como aquilo que impede o acesso pessoal à verdade e à iluminação. Assim aparece com diversos matizes em ibid., pág. 50; 59; 62s; 212. «Quando já não te fizer falta agarrar-te às palavras da Bíblia, esse será o momento em que esta se converterá para ti em algo muito bonito e revelador da vida e da sua mensagem. O mais triste é que a Igreja oficial se dedicou a configurar o ídolo, a encerrá-lo, defendê-lo, coisificando-o sem saber contemplar o que realmente significa» (La iluminación es la espiritualidad, 66). Ideias semelhantes são expostas em La preghiera della rana, vol. 1, 21; 133; 135; 139: «Um pecador público foi excomungado e foi-lhe proibido entrar na igreja. Ele foi lamentar-se com Deus. “Não me deixam entrar, Senhor, porque sou um pecador”. “De que te lamentas?”, disse Deus. “Não sequer Me deixam entrar a Mim!”» (ibid., 148).

O mal é apenas ignorância, falta de iluminação: «Quando Jesus olha para o mal, chama-o com o seu nome e condena-o sem hesitação. Só que onde eu vejo maldade, Ele vê ignorância… «Pai, perdoa-lhes…” (Lc 23, 34)» (Alle sorgenti, 191). Certamente, este texto não reflecte todo o ensinamento de Jesus sobre o mal do mundo e sobre o pecado; Jesus acolheu os pecadores com profunda misericórdia, mas não negou o seu pecado, antes convidou à conversão. Noutras passagens, encontramos afirmações ainda mais radicais: «Nada é bom ou mau, é o pensamento que assim o torna» (Un minuto di saggezza, 115). «De facto não existe nem bem nem mal, nos homens ou na natureza. Existe apenas uma avaliação mental imposta a esta ou àquela realidade» (Istruzioni di volo per aquile e polli, 100; ibid., 104-105). Não há motivo para se arrepender dos pecados, uma vez que a única coisa que conta é despertar para o conhecimento da realidade: «Não choreis sobre os vossos pecados. Por que chorar pelos pecados que cometestes no sono?» (Messaggio per un’aquila che si crede un pollo, 33; ibid., 51, 166). A causa do mal é a ignorância (Shock di un minuto, 260). O pecado existe, mas é um acto de loucura (La iluminación es la espiritualidad, 63). Assim o arrependimento consiste em voltar à realidade (cf. ibid. 48). «O arrependimento é uma mudança da mente: uma visão radicalmente diversa da realidade» (Shock di un minuto, 262).

Entre estas diversas afirmações existe, certamente, uma conexão interna: se se põe em questão a existência de um Deus pessoal, não tem sentido que Ele Se nos dirija com a sua palavra. A Escritura, portanto, não tem um valor definitivo. Jesus é um mestre como os outros; só nas primeiras obras do Autor é que aparece como o Filho de Deus. Esta afirmação teria pouco sentido dentro da concepção de Deus, a que nos acabámos de referir. Consequentemente não se pode atribuir valor ao ensinamento da Igreja. A nossa sobrevivência pessoal para além da morte é problemática, se Deus não é pessoa. É claro que tais concepções sobre Deus, sobre Cristo e sobre o homem não são compatíveis com a fé cristã.

Portanto, não podia faltar uma tomada de posição esclarecedora por parte de quem tem a responsabilidade de tutelar a doutrina da fé, para pôr de sobreaviso os fiéis quanto aos perigos presentes nos escritos do Padre A. De Mello ou, em todo o caso, a ele atribuídos.

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NOTAS:
[1] É preciso assinalar que nem todas as obras de A. de Mello foram publicadas por ele mesmo. Algumas foram publicadas depois da sua morte, tendo por base os seus escritos, anotações ou gravações de conferências. Na presente Nota ilustrativa referimo-nos à edição italiana, excepto quanto ao texto «La iluminación es la espiritualidad. Curso completo de autoliberación interior» (Vida nueva 1987, pp. 27/1583 – 66/1622). * [2] A este tipo de propostas parece fazer referência a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé «Orationis formas», de 15 de Outubro de 1989, n. 12 (cf. AAS 82 [1990] 369): «Alia demum temere audent aequare absolutum illud, sine imaginibus et conceptibus, quod est proprium theoriae Buddhisticae, Dei maiestati, in Christo revelatae, quae supra res finitas elevatur». É oportuno recordar a respeito disso os ensinamentos sobre a inculturação e sobre o diálogo inter-religioso da Carta Encíclica de João Paulo II Redemptoris missio, nn. 52-57; cf. AAS 83 [1991] 299-305.

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