6. A EPÍSTOLA DE TIAGO

No início do Capítulo 5 (“A Epístola de Tiago”), Robinson afirma o seguinte:

  • “A Epístola de Tiago é um desses documentos aparentemente intertemporais que poderiam ser datados quase que em qualquer época e (…) na verdade, foi situado em praticamente todos os pontos na lista de escritos do Novo Testamento. Assim, Zahn e Harnack, escrevendo no mesmo ano de 1897, a situaram respectivamente como primeira e penúltima [posição], com um intervalo de quase 100 anos! Não contém referências a eventos públicos, movimentos ou catástrofes. As ‘guerras e lutas’ de que fala são aquelas perenes da agressividade pessoal (4,1s), não as datáveis guerras e rumores de guerra entre nações ou grupos. O seu calendário é determinado pelo ciclo natural da agricultura em tempos de paz (5,7) e o círculo social da pequena sociedade burguesa (4,11-5,6). Não há nomes de lugares, nem indicações de destinatário ou remessa, seja na forma de título, seja na forma de saudação. De fato, não há nomes próprios de espécie nenhuma, salvo o do próprio Tiago no versículo final e os de personagens comuns do Antigo Testamento como Abraão, Isaac, Raab, Jó e Elias. Também como forma de literatura, se encontra nessa tradição quase indatável da sabedoria prática judaico-cristã que inclui os Provérbios, o Eclesiástico, a Sabedoria de Salomão, os Testamentos dos Doze Patriarcas, o Manual de Disciplina de Qumran, a Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas e a Didaqué. No entanto, ainda que as relações, para trás e para frente, sejam evidentes, não há evidência decisiva de uma dependência literária em qualquer uma de ambas as direções que pudesse fixar a Epístola de Tiago no tempo ou no espaço. A única fronteira clara que cruza esta corrente da tradição é a que existe entre o Judaísmo e o Cristianismo e, inclusive, esta fronteira é menos marcante aqui do que em qualquer outro gênero de literatura” (pp.109-110).

O autor sublinha que a falta de polêmica contra o Judaísmo é um indício significativo para uma redação não-tardia. Os pecados que Tiago aponta são os mesmos que Jesus e os profetas acusam seus compatriotas. A oposição que os cristãos enfrentam não é uma perseguição sistemática mas a opressão e o desprezo dos ricos. Não há nada em Tiago que vá além do que está descrito na primeira metade dos Atos dos Apóstolos.

A carta de Tiago tampouco contém sinais de grandes desenvolvimentos doutrinais, litúrgicos ou hierárquicos. A doutrina de Tiago sobre a justificação pela fé e pelas obras não parece ser uma polêmica contra a doutrina de Paulo sobre a justificação pela fé; parece mais que Paulo tenha se aprofundado na reflexão levantada por Tiago.

Sobre a autoria da carta, Robinson pensa que a grande simplicidade com que se apresenta o autor (1,1: “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”) é um forte argumento contra a pseudonímia. Na hipótese de pseudonímia, dificilmente se teria deixado de aludir a Tiago como “irmão do Senhor” e, se a redação da carta fosse mesmo tardia, muito provavelmente se teria acrescentado alguma referência a Tiago como “bispo de Jerusalém”.

Robinson refuta os principais argumentos contra a autenticidade da Epístola de Tiago:

1) A doutrina desta epístola sobre a Lei não concorda com a dos judaizantes adversários de Paulo; porém, segundo Atos, o próprio Tiago não era judaizante e, no Concílio de Jerusalém, sua posição pôde ser bem harmonizada com a de Paulo;

2) A escassa evidência externa da aceitação da epístola pela Igreja primitiva não é tão significativa, já que as citações e os testemunhos (e sua conservação) são fenômenos bastante fortuitos;

3) O fato de a língua empregada na epístola seja um grego elegante não prova que Tiago não tenha sido o autor. As investigações mais recentes demonstram que o conhecimento da língua grega entre os judeus da Palestina do século I era bem generalizado.

A seguir, Robinson assinala notáveis paralelos entre a Epístola de Tiago e o Discurso de Tiago e a Carta Apostólica de Atos 15.

No final do capítulo, o autor volta à questão da datação da carta. Tiago foi assassinado no ano 62, razão pela qual essa data assinala um limite superior. Deve-se notar que Tiago não alude em momento nenhum a missão entre os gentios, o que não implica que esta não existisse, mas sugere fortemente que ainda não tinha se convertido em causa de conflito entre os cristãos. Este fator aponta claramente para um redação não-tardia. Robinson se inclina pela hipótese de uma redação um pouco anterior ao Concílio de Jerusalém (entre 47 e 48). Esta datação não-tardia teve o apoio, surpreendentemente persistente, de muitos especialistas. Tiago seria assim o primeiro documento concluído e sobrevivente da Igreja.

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