7. AS EPÍSTOLAS PETRINAS E A DE JUDAS

Com 60 páginas, o Capítulo 6 é o mais longo do livro. No início do capítulo, o autor dedica 10 páginas (pp.140-150) a uma tentativa de reconstrução do marco cronológico das cartas de Pedro, a partir do ponto em que os Atos dos Apóstolos acabam. Esse marco serve também para a Epístola de Judas “por sua manifesta interdependência, de uma ou de outra forma, com 2Pedro” (p.140). Esse marco dispõe de duas datas absolutas: a do incêndio de Roma (19 de julho de 64) e a do suicídio de Nero (9 de junho de 68).

Não é nada fácil esclarecer os acontecimentos da parte final da vida de Paulo. É provável que depois de 2 anos de cativeiro em Roma tenha sido libertado e viajado até a Espanha, como asseguram diversas fontes antigas:

  • “No máximo, a evidência mais importante é a da 1ª Carta de Clemente 5,6s, que afirma que, após ter pregado tanto no leste quanto no oeste, ele chegou até o ‘extremo oeste'” (p.142).

Visto que Clemente escreveu isto em Roma, podemos assumir que o “extremo oeste” aqui significa a Espanha.

A associação entre o incêndio de Roma e a perseguição dos cristãos depende unicamente dos “Anais” de Tácito. Essa associação não aparece na obra “As Vidas dos Doze Césares” de Suetônio, nem nos primeiros escritos cristãos. Apoiando-se nos argumentos de uma obra bastante valiosa, mas quase esquecida de Edmudson (“Church in Rome in the First Century”), Robinson pensa que a perseguição de Nero não se iniciou no mesmo ano do incêndio do Roma, mas na primavera do ano seguinte (65 d.C.).

Também é difícil elucidar se Pedro e Paulo morreram nesse primeiro ataque [contra os cristãos] ou um pouco depois. Considerando o fato de Pedro ter sido crucificado e a antiga tradição do “Quo Vadis?”, o autor se inclina a pensar que Pedro morreu no verão do ano 65, durante a fase de violência em massa. Ao contrário, a morte de Paulo parece ter sido uma execução judicial, talvez independente da perseguição de Nero. A evidência (ainda que não seja muita) favorece a tese de que Paulo foi morto um pouco depois de Pedro, provavelmente no ano 66 ou 67.

A seguir, Robinson analisa a 1ª Epístola de Pedro – 1Pedro (cf. pp.150-169). A carta afirma ter sido escrita pelo Apóstolo Pedro na “Babilônia” (isto é, em Roma, conforme um consenso quase universal) para um amplo conjunto de igrejas da Ásia Menor. Através de várias alusões (1.14.18; 2,9s; 3,5s; 4,3) é possível se inferir que essas comunidades, nesse momento, incluem uma maioria de cristãos de origem gentílica (ou seja, pagã).

O autor sustenta que:

  • “A única evidência circunstancial na Epístola que é relevante para a sua datação [é] a ameaça de perseguição que impera em todas os lugares” (p.151).
  • “Em resumo, não há evidência de uma perseguição estatal aberta. No entanto, há um sentimento de temor em relação às autoridade civis, que não se encontra inclusive nas últimas cartas de Paulo e no final dos Atos” (p.153).

Com base nisto, os exegetas têm proposto 3 possíveis datas principais de composição, coincidindo com as 3 primeiras grandes perseguições: as de Nero (~ano 64), Domiciano (~ano 95) e Trajano (~ano 107). Robinson não encontro evidências para datar a carta sob Trajano ou Domiciano e, por muitas razões, se inclina a datá-la sob Nero, na primavera de 65. Mais ainda: as referências da carta em relação à Páscoa permitiriam datá-la nos finais de abril do ano 65.

Por fim, Robinson analisa e descarta os três principais argumentos contra a autoria apostólica da carta. Desta longa seção, citarei apenas o primeiro desses argumentos e o começo da réplica de Robinson:

  • “‘Se a Epístola fosse de um discípulo íntimo de Jesus, deveríamos esperar mais referências diretas de sua vida e palavras’: esta é uma expectativa bastante subjetiva e, ironicamente, é justamente por conter tal referência explícita que a 2ª Epístola de Pedro é desacreditada” (pp.164-165).

Encontramos aqui novamente o caráter apriorístico de certa crítica “liberal” do Novo Testamento. Como diz o ditado: “reclama-se porque sim, reclama-se porque não”.

Na última seção do Capítulo 6 (pp.169-199), o autor analisa a 2ª Epístola de Pedro (2Pedro) e a Epístola de Judas; dois escritos bastante similares entre si a partir do ponto de vista literário. As duas cartas são dirigidas sobretudo a comunidades judaico-cristãs dentro do mundo helenístico, provavelmente na Ásia Menor. Nenhuma das duas contêm referências a situações de perseguição. Ambas denunciam os falsos mestres que mal-interpretam a doutrina cristã sobre a graça de Deus, favorecendo a libertinagem. A grande maioria dos acadêmicos sustenta que 2Pedro depende de Judas.

A datação de 2Pedro está muito ligada à questão da sua autoria. Há exegetas críticos que consideram como pseudo-epígrafos a maioria dos livros do Novo Testamento. Robinson não segue esta corrente porque há provas de que a Igreja dos primeiros séculos condenava a pseudo-epigrafia inclusive em obras ortodoxas. Ainda que Robinson pense que 2Pedro é o caso que mais se prestaria à tese da pseudo-epigrafia, se inclina por uma tese intermediária entre a autoria “normal” da parte de Pedro (com ou sem o auxílio de um amanuense) e a pseudo-epigrafia (outro autor fingindo ser Pedro). Esta tese intermediária consiste em propor que o autor compôs 2Pedro por ordem de Pedro, em seu nome e com a sua autoridade; não seria um imitador, mas um “agente” de Pedro. Ademais, Robinson propõe a hipótese (que, para seu assombro, parece jamais ter ocorrido antes a alguém) de que esse agente de Pedro fosse o próprio Judas.

Agora podemos retornar ao tema da datação: as duas “epístolas católicas” em questão seriam posteriores às cartas pastorais de Paulo. Provavelmente a Epístola de Judas, “irmão de Tiago”, seja anterior à morte de Tiago, cabeça da Igreja de Jerusalém, martirizado no ano 62 por instigação do sumo sacerdote Anano II. 2Pedro seria posterior a Judas, mas anterior à última viagem de Pedro a Roma (não anterior ao ano 62). Portanto, a data de composição mais provável para ambas as cartas seria 61/62.

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