10. O EVANGELHO E AS EPÍSTOLAS DE JOÃO

Em relação à questão da autoria da literatura joaneia (Evangelho, 1João, 2João, 3João e Apocalipse), as posições acadêmicas variam muito, desde a que sustenta que o Apóstolo João, filho de Zebedeu, é o autor dos cinco livros, até aquela que sustenta que ele não é autor de nenhum dos cinco, passando por quase todas as outras posições combinatórias possíveis. No entanto, apesar das grandes diferenças sobre a questão da autoria, a grande maioria dos estudiosos concorda em datar os cinco livros mais ou menos entre os anos 90 e 100. Robinson se inclina a pensar que o Quarto Evangelho e as três Epístolas joaneias foram escritas pela mesma pessoa e que essa pessoa é o Apóstolo João. Também, ainda que muitos os diferenciem, pensa que o Apóstolo João é “o discípulo amado” tão mencionado no Quarto Evangelho (sendo que aqui o Apóstolo nunca é mencionado por seu nome); ao contrário, pensa que o Apocalipse foi escrito por outro João, ainda que pertencente ao mesmo círculo joaneu.

As fontes mais antigas (Ireneu de Lião, por volta do ano 180; Cânon Muratoriano, final do século II; Clemente de Alexandria, por volta do ano 210; Eusébio de Cesareia, por volta do ano 325; etc.) dizem que o Quarto Evangelho foi composto pelo Apóstolo João e que este morreu idoso, mas não dizem que foi em sua velhice que compôs o Quarto Evangelho! Essa inferência surge tardiamente, por volta do ano 375, numa obra de Epifânio.

Críticos radicais (como Baur), começaram datando o Evangelho de João bem tardiamente, como o ano 170, mas desde então foram obrigados a reconhecer datas cada vez inferiores. Depois da descoberta do papiro p52, a hipótese de João ter escrito [seu Evangelho] provavelmente na última década do século I foi quase universalmente aceita. Nas recentes introduções ao Novo Testamento ou ao Evangelho de João, a questão da data de composição deste último costuma ser apresentada em poucas palavras e, muitas vezes, até mesmo sem apresentar nenhum argumento. Às vezes, é apresentado o argumento de que João conheceu e empregou um ou mais dos Evangelhos Sinóticos. Pois bem: tendo Robinson já provado que a tese tradicional da redação não-tardia de Mateus, Marcos e Lucas não só é defensável como também bastante plausível, esse argumento não prova que João tenha sido escrito tão tardiamente assim.

Os trabalhos do teólogo protestante inglês Charles Harold Dodd (1884-1973), especialmente em “Historical Tradition in the Fourth Gospel”, de 1963, demonstraram que a tradição que está por detrás do Evangelho de João encontra-se tão próxima da fonte palestinense como as que estão por detrás dos outros três Evangelhos. João apresenta com exatidão (às vezes, até mais que os Sinóticos) a topografia de Jerusalém, a situação política e as divisões geográficas e psicológicas da Palestina anteriores à “guerra judaica” e emprega “metáforas e argumentos que seriam ‘apenas inteligíveis’ fora de um contexto puramente judeu em período bem menos tardio” (p.264).

Isto levanta a seguinte questão capital: qual foi a relação do evangelista com essa tradição antiga? Ou, em outras palavras, como cubrir a grande lacuna temporal existente entre ambos (fonte e Evangelho)? Robinson analisa as três formas possíveis de se resolver este problema:

1) Negar que a tradição esteja tão próxima aos eventos no espaço ou no tempo, como se afirma;

2) Preencher a lacuna estabelecendo uma cadeia contínua de laços entre seus dois extremos;

3) Negar que o evangelista esteja tão afastado ou isolado da sua tradição, como se afirma aqui.

Robinson pensa que o primeiro enfoque foi superado por Dodd e outros:

  • “Não é necessário repetir aqui a massa de evidências que em anos recentes levou a uma importante revalorização da tradição histórica que está por detrás do Quarto Evangelho, reforçando a conclusão, sempre sustentada pelos acadêmicos conservadores, de que reflete um contato íntimo com um mundo palestinense eliminado do mapa no ano 70 d.C.” (pp.267-268).

Robinson toma Raymond Edward Brown (1928-1998), sacerdote e exegeta católico norte-americano, como representante típico do segundo enfoque. Brown postula um mínimo de cinco etapas na composição do Quarto Evangelho:

a) Entre os anos 40 e 60, o Apóstolo João conserva um corpo de material tradicional sobre as palavras e atos de Jesus;

b) até o ano 75, os discípulos de João desenvolvem este material em estilo joaneu;

c) até o ano 80, um desses discípulos (o evangelista) organiza o material em um Evangelho joaneu;

d) até o ano 90, o evangelista produz uma segunda edição desse Evangelho;

e) até o ano 100, outro discípulo (o redator) produz a terceira e última edição do Quarto Evangelho.

Robinson rejeita alguns dos argumentos de Brown (p.ex., não considera que a crítica moderna tenha demonstrado que a história da unção, em João 12,1-7, seja uma mistura de duas histórias diferentes) e acaba insinuando que, visto que Brown supôs um desenvolvimento mais ou menos paralelo dos quatro Evangelhos, se (como Robinson quis mostrar) os Evangelhos Sinóticos são anteriores ao ano 70, então não há boas razões para postular um período de composição do Evangelho de João que duplica com os acréscimos dos outros três Evangelhos.

Para apoiar o terceiro enfoque, o autor começa rejeitando o argumento de que João pressupõe a expulsão formal dos cristãos da sinagoga. Anatematizar os hereges já era uma disciplina regular em Qumran e as palavras que designam esse tipo de exclusão da comunidade religiosa são empregadas em muitos outros livros do Novo Testamento.

O Evangelho de João está cheio de polêmicas “contra os judeus” (os judeus que rejeitam Cristo, se subentenda), mas não tem uma só alusão à destruição nem à ruína do Templo, nem à queda de Jerusalém. Alguns creem ver uma alusão a esse fato histórico nas palavras dos líderes judeus em João 11,47-50. Porém, o próprio evangelista diz a seguir que o que Caifás profetizou foi a morte redentora de Jesus (cf. João 11,51-52). Robinson conclui que não é razoável que o Quarto Evangelho tenha sido escrito após o ano 70 e que, inclusive, deve ter sido escrito algum tempo antes. Ele pensa que o horizonte histórico que corresponde ao Quarto Evangelho é o do ano 65.

Robinson argumenta que João é principalmente dirigido aos judeus e não aos gentios. De fato, nem sequer menciona os gentios, exceto Pilatos e seus soldados. Este é, talvez, o melhor lugar para inserir um argumento bastante forte, que Jean Carmignac extraiu de “Redating the New Testament”, porém que ele desenvolveu mais claramente que o próprio Robinson. Esse argumento se baseia na diferente situação do pagão e do judeu que se convertiam ao Cristianismo. O pagão precisava aceitar principalmente seis verdades religiosas, totalmente novas para ele:

1) a existência de Deus (os pagãos acreditavam em deuses, não em um Deus único e pessoal);
2) que Deus criou o mundo (a noção de Criação era desconhecida fora do judaísmo);
3) que Deus falou no Antigo Testamento;
4) que Deus quis salvar o seu povo e lhe prometeu um Messias;
5) que esse Messias era Jesus;
6) que Jesus é o Filho de Deus.

Ao contrário, o judeu já acreditava nas quatro primeiras verdades; portanto, para se tornar cristão, apenas tinha que acrescentar à sua fé as últimas duas verdades: que o Messias era Jesus e que Jesus é o Filho de Deus. Pois bem: em quase todo o Novo Testamento, se dão por supostas a existência de Deus, a Criação, a inspiração da Escritura e a promessa do Messias; mas, pelo contrário, muitas vezes se tenta provar que Jesus era o Messias e o Filho de Deus. Há uma exceção: o discurso de São Paulo no Areópago de Atenas (cf. Atos 17,22-31), onde ele, pela única vez, fala perante um auditório puramente pagão. Ali Paulo aborda imediatamente os temas da existência de Deus, da Criação e do envio de um Salvador da parte de Deus, temas totalmente desconhecidos pelos pagãos e não tratados no restante do Novo Testamento.

De tudo isto se deduz que, quando o Novo Testamento foi escrito, a missão cristã tinha ainda como destinatários principais os judeus e os prosélitos (pagãos integrados ao judaísmo, que já guardavam a fé judaica). Mas esta situação só se deu nas primeiras décadas da História da Igreja. Apesar da concentração inicial da missão cristã nas comunidades judaicas, o Cristianismo se expandiu tanto entre os pagãos que já por volta do ano 70 as comunidades cristãs de diversos lugares eram compostas, na sua maioria, por pessoas vindas diretamente do paganismo. Este fenômeno se acentuou ainda mais depois do ano 70 e da expulsão dos judeus-cristãos da sinagoga. Disto se pode concluir que todo o Novo Testamento é anterior ao ano 70 (cf. Jean Carmignac, “Juifs et païens face à la conversion au Christ et date du Nouveau Testament selon Robinson”, in: Les Nouvelles de l’Association Jean Carmignac, n° 1 – Jan./1999, pp.2-4; http://www.abbe-carmignac.org).

Não há dúvida de que João 21 é um Epílogo acrescentado posteriormente ao Quarto Evangelho e que este originalmente terminava em 20,31. Também é quase certo que João 21,18-23 pressupõe a morte de Pedro, o que faz com que João 21 seja datado algum tempo após o ano 65.

Quanto ao Prólogo (João 1,1-18), Robinson não vê “razão nenhuma para supor que sua origem seja não-cristã ou que deva ser atribuído a uma outra mão” (pp.282-283):

  • “O material de Qumran (…) eliminou todo dogmatismo de que as categorias joânicas fundamentais devem ser helenísticas e tardias. Igualmente o estudo do novo material gnóstico, que serviu para demonstrar mais o abismo do que as semelhanças entre o Quarto Evangelho e os sistemas gnósticos do século II” (p.284).

As Epístolas de João foram originalmente destinadas a comunidades judaico-cristãs da Ásia Menor. Apresentam características bastante semelhantes às de Judas e 2Pedro: total ausência de referências à perseguição [contra os cristãos] e ênfase na denúncia dos falsos mestres. É, pois, razoável supor que todas essas epístolas foram compostas mais ou menos ao mesmo tempo. 1-2-3João pressupõem que o Apóstolo João esteve orientando as mencionada comunidades durante alguns anos.

Robinson dedica a parte final do Capítulo IX (pp.298-311) a discutir a questão da autoria do Evangelho e das Epístolas de João. Em suma, Robinson considera errôneo rejeitar a identidade entre o Apóstolo João e o Evangelista ou entre aquele e “o discípulo amado”. Como resultado da sua análise, propõe a seguinte tentativa de cronograma (cf. p.307):

  • 30-50 – formação da tradição joaneia e do proto-Evangelho, em Jerusalém
  • 50-55 – primeira edição de nosso Evangelho atual, na Ásia Menor
  • 60-65 – 2-3-1João
  • 65+ – a forma final do Evangelho, com o Prólogo e o Epílogo
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