O catolicismo chestertoniano

Waldemar M. Reis

Comentar o `São Francisco de Assis’ de G. K. Chesterton num jornal é, no mínimo, desconfortável. Pode-se incorrer, segundo o autor, na `imperfeição de contar a história pelo fim’, sem dar a conhecer as circunstâncias na origem do fato em questão. Trata-se, para ele, de uma imperfeição característica da linguagem jornalística, largamente adotada pelos historiadores – sua ênfase é nos ingleses – durante século XIX.

Com isso introduz um dos escorços históricos mais ágeis, mais brilhantes, sobre o período desde a oposição da doutrina cristã ao paganismo até o século XII, para que se possa experimentar, com a leitura do seu livro, a gênese mística do santo, para que se entenda o tom do diálogo de Francisco com a Igreja do seu tempo. Mas não lhe basta o exercício de relacionar causas e efeitos para trazer ao leitor uma compreensão de costumes que o tempo se encarregou de transfigurar. Para tal é necessário ainda que, como autor, se afeiçoe ao tema escolhido.

É esse o estado de espírito no qual Chesterton nos apresenta o legado franciscano: o de alguém profundamente apaixonado. Para compreendê-lo, não incorrendo na mencionada ‘imperfeição jornalística’, é necessário ao menos lembrar a circunstância na qual o livro foi escrito, sendo impossível oferecer aqui maiores detalhes de uma vida de grandes produtividade e imaginação literárias. A paixão chestertoniana é a fé católica, à qual se convertera havia cerca de um ano, assim sacramentando a vocação do autor para o questionamento das desigualdades entre os homens.

Desse modo a transformação por que passa o filho do comerciante Bernardone, na Assis do século XII, emblemática da sofrida pelo próprio Chesterton em pleno século XX, é descrita como o verdadeiro estopim do Renascimento, como a verdadeira Reforma que o autêntico espírito cristão reclamava para tornar-se outra vez merecedor de sua origem. Até Francisco a Igreja Católica tratara de fazer jus à universalidade a que se propunha desde o nome opondo-se de modo frontal aos cultos pagãos da natureza.

Para consegui-lo incorreu em desmedidas que a confinaram a prolongada penitência, como o atestam as obras de Santo Agostinho e São Bento. Com Francisco o misticismo cristão reincorpora a natureza e seus processos (antes partes dos ritos pagãos) de modo a reencontrar, frente ao espelho, a imagem de Cristo. O voto de pobreza do santo é, para o inglês, sinal da confiança no desígnio celeste que nos confina no mundo: Deus provê sempre, cabendo-nos desfrutar de Sua misteriosa magnanimidade.

Aos olhos do homem comum, o ‘São Francisco de Assis’ de Chesterton enfatiza a irracionalidade como elemento determinante na consecução da beatitude. O radicalismo dos atos do santo, incomensurável ainda para nós, entretanto, é mostrado como sumamente conseqüente, como desafio perene à audácia de alguém se dizer cristão. Como autoproclamado ‘jongleur de Dieu’ (malabarista de Deus), Francisco se apresenta de ponta-cabeça para o mundo com a naturalidade de quem nasceu para assim ficar e sem, contudo, censurar quem escolheu conservar os pés sobre a terra. O livro é um espetáculo encantador de malabarismo concebido como testemunho da fé de um gênio cujo personagem partilha consigo – e conosco – intimidade semelhante à do tato.

Em 1933, dez anos depois desta, apareceria outra hagiografia, o ‘São Tomás de Aquino’. Nesse novo livro Chesterton se mostra, como se fosse possível, mais maduro. Refiro, assim, o sentimento católico, não o estilo, sempre denso, mas leve, e cujos ecos se fizeram escutar na obra do não menos genial argentino Borges. A fé do escritor se apresenta ali renovada pelo entendimento, sem que abra mão por um só instante do imprevisível e do miraculoso, esperados num escorço biográfico de um santo.

A comparação com o ‘São Francisco de Assis’ é inevitável e o autor é o primeiro fazê-lo. Se neste livro o foco está no humanismo de senso comum que marcou a vida ascética de Francisco, o ‘São Tomás de Aquino’ objetiva mostrar como são fundamentados os mesmos postulados humanistas sob o prisma da filosofia aristotélica, reabilitada pelo santo em plena Idade Média. Conhecendo embora as armadilhas do pensamento sistemático, como os raciocínios infindáveis, São Tomás envereda por todos os que lhe estão ao alcance sem abdicar jamais da condição sensível de que somos dotados desde o útero.

Essa reivindicação tomista da sensibilidade é seguida à letra no trabalho chestertoniano, cuja textura, indefinível tanto como romance quanto como ensaio, reserva prazer crescente à leitura. Nele abundam objeções ao ceticismo bem como ao liberalismo inglês, enquanto formas de coibir tanto a experiência mística quanto o bem-estar de que devem desfrutar todos os homens. A obra foi imediatamente louvada, desde o seu aparecimento, pelos estudiosos do tomismo do início do século passado, como o francês J. Maritain. Acrescentar-lhe aqui outros elogios é tarefa de duvidosa utilidade.

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