Com a Encíclica Aeterni Patris, destrinchando os males das filosofias modernas, o Papa Leão XIII conclamou à redescoberta da filosofia de Santo Tomás; não só isso, propunha um retorno às fontes mesmas do Aquinate, “aos seus próprios mananciais” (n. 33), purificando aquilo que em outros séculos foi dito em nome de Santo Tomás e não provinha de seu pensamento: “Para evitar que se aceite como verdadeiro o que é apenas hipotético, e que se beba como água pura o que não é […]. Dos arroios que se dizem derivar do manancial, mas que estão na realidade cheios de águas estagnadas e insalubres, afastai, com muito cuidado, o espírito dos jovens” (idem).

Do convite do Sumo Pontífice originou-se o movimento da Neo-Escolástica, que propunha novamente para os tempos modernos o pensamento tomista retirado desde suas origens, a partir da retomada da própria Suma Teológica. Fizeram parte deste movimento pensadores como o Cardeal Désiré Joseph Mercier, Jacques Maritain e Étienne Gilson.

Mas houve quem entendesse o convite do Papa como uma necessidade maior. Para responder com renovada vitalidade às questões mais prementes do mundo moderno, não bastava retornar a Santo Tomás, mas às origens mesmas do pensamento cristão, da Teologia Católica: dever-se-ia realizar um retorno aos Padres da Igreja e a releitura de Santo Tomás a partir deles. Este movimento ficou conhecido como o Ressourcement: o “retorno às fontes”. Foram representantes deste movimento Henri de Lubac, Hans Urs Von Balthasar, Yves Congar, Karl Rahner, Hans Küng, Edward Schillebeeckx, Jean Daniélou, o próprio Étienne Gilson e o atual Papa, Joseph Ratzinger.

A maior parte deles estava firme na dupla convicção de que a teologia tinha que falar à situação atual, e que a condição para fazê-lo fielmente estava em um retorno ao passado da Igreja. Em outras palavras, viam claramente que o primeiro passo para que mais tarde veio a ser conhecido como aggiornamento teria de ser o ressourcement – uma redescoberta da riqueza de toda a tradição de dois mil anos da Igreja. Segundo Lubac, por exemplo, todas as suas obras, bem como toda a coleção Sources Chrétiennes são baseadas na presunção de que ‘a renovação da vitalidade cristã está ligada, pelo menos parcialmente, a uma exploração renovada dos períodos e das obras nas quais a tradição cristã é expressa com particular intensidade.’ Em suma, para os teólogos da Teologia do Ressourcement  urgia um ‘retorno às fontes’ da fé cristã, com a finalidade de elaborar o significado e importância dessas fontes para as questões críticas do nosso tempo. O que esses teólogos buscavam era uma comunhão intelectual e espiritual com o cristianismo em seus momentos mais vitais, como transmitida a nós em seus textos clássicos, uma comunhão para nutrir, tonificar e rejuvenescer o catolicismo do século XX[i].

O Ressourcement possuía como objetivos primários 1) o retorno às fontes patrístico-medievais do cristianismo, 2) a releitura de Santo Tomás baseada nestas fontes e 3) a descoberta de respostas para os problemas mais prementes da época moderna a partir deste retorno às fontes.

Posteriormente, a disposição do Papa Pio XII na Encíclica Divino Afflante Spiritu, sobre o uso dos textos originais da Sagrada Escritura – e não somente a Vulgata Latina – para os estudos exegéticos contribuiu quase como um endosso àqueles que viam a necessidade de retornar às fontes primárias.

Este movimento, o Ressourcement, foi criticado pelos que entendiam o retorno às fontes como um retorno à Teologia de São Tomás. Os neotomistas designavam o Ressourcement como uma “nova teologia”, la Nouvelle Théologie, designação cunhada pelo grande tomista, o Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, O.P., que entendia a teologia dos representantes do Ressourcement como tentativa de modernismo, e por isso nouvelle théologie: “Para onde irá a Nova Teologia? Ela revisita o Modernismo”, afirmava[ii].

E, em verdade, era discernível a início e mais tarde ficou mais claro ainda que havia duas correntes dentro do Ressourcement. Havia realmente aqueles que queriam retornar às fontes para criar uma Nouvelle Théologie, uma nova teologia modernista – eram estes que o Pe. Garrigou-Lagrange com muita propriedade criticava –, mas havia aqueles que possuíam um desejo sincero de realizar um ressourcement em comunhão com o Magistério da Igreja, redescobrindo a inteira Tradição da Igreja, inclusive passando pela releitura de Santo Tomás – como pedido pelo Papa Leão XIII –; estes últimos não eram modernistas, mas Teólogos católicos fiéis ao Magistério, desejosos de respostas para os problemas dos novos tempos a partir deste retorno às fontes.

Este divisão em duas correntes ficou consagrada com as duas revistas: Concilium e Communio.

Após o Concílio Vaticano II, Rahner, Schillebeeckx, Congar, Küng, Chenu, Lubac, Balthasar e Ratzinger fundaram o periódico Concilium em 1965, para discutir os textos e a implementação do Concílio Vaticano II. Mas, percebendo que a linha de Concilium caminhava para o Modernismo pleno e a rejeição do Magistério – o Ressourcement entendido como Revolução na Doutrina –, Téologos mais sérios como Ratzinger, Lubac e Balthasar afastaram-se da linha de Concilium, desvinculando-se do periódico. O modo como entendiam o ressourcement não era através da criação de uma nouvelle théologie modernista, que não respeitasse o Magistério da Igreja; ao contrário, queriam retornar as fontes, promovendo sua releitura sempre pautados pelo Magistério, desejavam estar em comunhão com o Magistério da Igreja: daí surge, em 1972, o periódico Communio (= “comunhão”), visando a promover um ressourcement na linha da Doutrina perene da Igreja.

Outro exemplo da consagração desta divisão está na condenação de Hans Küng pelo Cardeal Joseph Ratzinger. Ratzinger e Küng fizeram parte deste mesmo movimento, o Ressourcement, sendo dois de seus fundadores; e, apesar disto, entendiam a questão de maneira completamente diversa: para Küng, o ressourcement seria uma revisão e “correção” da Fé, uma mudança revolucionária nos dogmas, a tese do próprio modernismo; para Ratzinger, o ressourcement seria uma releitura das fontes mais tradicionais do Cristianismo, e, portanto, a redescoberta da própria Tradição da Igreja, sem inovações ou revoluções copernicanas, mas em comunhão com o Magistério. Quando Küng questiona o próprio Dogma da Infalibilidade Papal – uma das bases da Fé Cristã no Magistério da Igreja – no seu “Infallible? An Inquiry” (Infalibilidade? Um inquérito), o Cardeal Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cassa-lhe a licença de lecionar a 18 de dezembro de 1979: dois teólogos, ambos fundadores do mesmo movimento, mas em linhas completamente diversas. Era novamente a consagração da divisão dentro do Ressourcement em duas linhas, uma de modernismo herético e outra em comunhão com o Magistério.

Inegável é a influência que o Ressourcement teve no Concílio Vaticano II. Vários dos Padres Conciliares e dos seus consultores teológicos entendiam que o aggiornamento pedido pelo Papa Beato João XXIII deveria ter, como etapa preliminar, o ressourcement: para atualizar era precisa retornar às fontes; não era possível atualizar a partir do nada, do zero, mas recorrendo à Tradição da Igreja. Mas também no Concílio digladiaram-se as duas correntes do interior do Ressourcement, que mais tarde se consagrariam em Concilium e Communio; e o próprio Ressourcement digladiou-se no Concílio com aqueles da Neo-Escolástica que o viam como um movimento essencialmente perturbador – esta última era a linha da Cúria Romana e do Coetus Internationalis Patrum de Dom Sigaud.

Mas o Ressourcement venceu no Concílio e isto é visível nas fontes utilizadas pelos textos – predominantemente patrísticas – e na própria linguagem conciliar.

Penso que o Ressourcement possui uma preocupação legítima, que é a de resgatar as tradições católicas mais genuínas. Restaurar o estudo dos Santos Padres da Igreja é de extrema necessidade a um mundo que cada vez mais se vê imbuído de um relativismo inócuo e de falta de provas para suas próprias crenças: é na Tradição que se encontram estas provas. Somente retornando ao passado, redescobrindo nossa identidade, poderemos realmente caminhar seguros para o futuro. A preocupação do Ressourcement é legítima, principalmente no que diz respeito a buscar na Tradição respostas para os problemas modernos.

Mas isto não envolve rejeitar a Teologia de Santo Tomás, a mais perfeita e clara. Com efeito, os Teólogos do Ressourcement mais sérios e em comunhão com a Igreja entendem que o retorno às fontes é mais profundo, mas não prescinde de Santo Tomás, e por isso propunham a releitura do Tomismo – como pedido por Leão XIII – com uma etapa preliminar do retorno aos Santos Padres da Igreja. Esta perspectiva consagrou-se na Encíclica Fides et Ratio, do Papa João Paulo II, com uma imensa contribuição do Cardeal Joseph Ratzinger, ambos influenciados pelo Ressourcement (ainda mais o segundo, um de seus fundadores). Esta Encíclica retoma a clássica doutrina tomista sobre a Fé e a Razão, fazendo, igualmente, uso dos Santos Padres da Igreja.

Contudo, se o Ressourcement legítimo (o de Ratzinger) não rejeitou materialmente a Doutrina de Santo Tomás, acolhendo-a na sua redescoberta das fontes, rejeitou-a ao menos na forma, em sua linguagem.

Com efeito, uma das maiores dificuldades da Teologia originada do Ressourcement é a sua linguagem, o modo como se exprime. A Teologia do Ressourcement peca por falta de clareza necessária à abordagem de assuntos teológicos e – ao menos em minha modesta opinião – parece portar excessivos rodeios, que danificam seu reto entendimento. Livros como Introdução ao Cristianismo e Jesus de Nazaré, do Teólogo e atual Papa Joseph Ratzinger são difíceis de entender, dado sua linguagem excessivamente floreada. Falta ao legítimo Ressourcement a clareza com que Santo Tomás exprimia suas doutrinas, clareza tal que praticamente a fechava a críticas. É preciso, neste retorno às fontes, resgatar também a clareza, exatidão e objetividade da Escolástica.

Este “problema da linguagem” verificado no Ressourcement estendeu-se também ao Concílio Vaticano II e ao Catecismo dele proveniente.

Um dos objetivos do Concílio, segundo o Papa João XXIII, era ensinar a Doutrina Cristã de um modo e numa linguagem mais acessível aos homens dos tempos modernos: “Uma coisa é a substância do ‘depositum fidei’, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance”, dizia no Discurso de Abertura Solene do Concílio.

Mas esta busca por uma linguagem melhor para a expressão dos mesmos dogmas acabou no tal “problema da linguagem” do Ressourcement. E isto influiu diretamente nos textos do Concílio Vaticano II.

Em verdade, tanto os textos do Concílio Vaticano II quanto do Catecismo dele proveniente são ortodoxos e plenos de verdade; esta garantia está no Magistério da Igreja, assistido pelo Espírito Santo, ao qual devemos o assentimento de nossa Fé; para uma compreensão melhor da questão da ortodoxia do Concílio, indico meu livro “O 21º Concílio – Reflexões sobre o Concílio Vaticano II ” (Ed. Clube de Autores, 2009), onde abordo a questão exaustivamente em vários capítulos, amparado no Magistério da Igreja.

Mas se há ortodoxia plena em seus textos, há um grave problema de linguagem: a linguagem do Concílio Vaticano II, influenciada pelo Ressourcement, possui o seu mesmo problema da linguagem, isto é, uma certa falta de clareza que torna o entendimento difícil. Talvez o desejo do Papa João XXIII, de exprimir melhor os dogmas, numa linguagem mais acessível aos homens dos tempos modernos, não tenha sido perfeitamente satisfeito. O subsistit in da Lumen Gentium, ortodoxo em si, como explicou a Declaração Dominus Iesus, é de significado difícil à primeira vista, e por isso gerou várias hermenêuticas distantes do seu sentido verdadeiro, dado pelo Magistério como de continuidade plena do mesmo sujeito da Igreja apesar das divisões. È, contudo, um exemplo bastante conhecido deste “problema da linguagem”.

Este “problema da linguagem” estende-se ao Catecismo pós-Concílio, o Catecismo da Igreja Católica, cuja expressão da Doutrina é bem mais complicada do que a do Catecismo Romano, pós-Trento, portador de uma objetividade e clareza invejáveis.

Este “problema da linguagem” foi recentemente reconhecido por um dos grandes Teólogos da Igreja, Mons. Brunero Gherardini, Secretário da Pontifícia Academia de Teologia e diretor da Revista de teologia Divinitas. Em seu mais novo livro, Concílio Vaticano II: uma discussão aberta, cujo prólogo é de autoria de Mons. Alberth Malcom Ranjith, propõe que o Santo Padre faça uso de seu poder de ensino do Sucessor de Pedro e esclareça pontos do Concílio que ainda permanecem obscuros, através de uma grande obra magisterial[iii].

A questão maior, pois, no que se refere ao Concílio Vaticano II e ao que herdou do Ressourcement é este seu “problema da linguagem”, que não contribui para sua acepção perfeita e facilitada, sem dificultosas e necessárias investigações em torno do texto. É também este problema da linguagem que gerou problemas de hermenêutica e originou as duas hermenêuticas faladas pelo Papa Bento XVI no seu famoso Discurso a Cúria Romana em 2005: uma “hermenêutica da ruptura” e uma “hermenêutica da continuidade”.

Mas, se prestarmos a devida atenção, veremos que estas duas hermenêuticas não possuem nada de novo: são apenas as duas clássicas linhas dentro do Ressourcement aplicadas ao Concílio Vaticano II; é a linha de Concilium presente na hermenêutica da ruptura e a linha de Communio na hermenêutica da continuidade.

Enquanto Teólogo, Ratzinger quis um Ressourcement em comunhão com o Magistério da Igreja, a redescoberta da mesma Doutrina e da mesma Tradição – daí Communio; hoje, como Papa, Bento XVI quer o que quis com Communio em relação ao Vaticano II: uma hermenêutica da continuidade, um retorno às fontes do próprio Concílio (um ressourcement da letra do Vaticano II), em comunhão com a bimilenar Tradição da Igreja – isto é ler o Concílio “à luz da Tradição”.

Mas, em minha modesta opinião, penso que este Ressourcement deverá ir mais além. Não basta um retorno às fontes, seja dos Padres, seja do Concílio. É preciso um retorno à linguagem de Santo Tomás, aquela linguagem clara e objetiva com que gentilmente presenteava todos os seus estudiosos e presenteou a Igreja. Urge um novo movimento, um “ressourcement da linguagem”, que retorne àquela expressão de clareza, objetividade e precisão prezada pelo Aquinate. Redescobrir ou retornar à linguagem precisa do Aquinate resolverá grandes problemas que enfrentamos na expressão da doutrina e na própria acepção do Vaticano II hoje.

É necessário, pois, um ressourcement da linguagem, a redescoberta da clareza de Santo Tomás. Só de posse desta clareza e objetividade – também no entendimento do Concílio, mas em tudo o mais – poderemos responder à crise de Fé pela qual passam os católicos e demais homens dos tempos modernos.

O documento Respostas a questões relativas a alguns aspectos da Doutrina sobre a Igreja é uma tentativa de realizar este ressourcement da linguagem: o documento preza em suas linhas pela clareza, objetividade e precisão na expressão dos ensinamentos do Concílio Vaticano II. Já há, pois, do Magistério da Igreja uma disponibilidade em realizar este ressourcement da linguagem, com o que os fiéis leigos e demais sacerdotes, especialmente Teólogos, devem contribuir vivamente com seus trabalhos e assentimento.

 

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[i] In: Ressourcement: Retrieval & Renewal in Catholic Thought. Disponível em: http://ressourcement.blogspot.com/2005/04/ressourcement-retrieval-renewal-in.html; Acesso em: Setembro de 2009. Tradução nossa do trecho apresentado.

 

[ii] GARRIGOU-LAGRANGE, Pe. Reginald. Where is the New Theology Leading Us?; Disponível em: http://cfnews.org/gg-newtheo.htm; Acesso em: Setembro de 2009. Tradução nossa do trecho apresentando.

 

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