Vaticano II

O Concílio Vaticano II introduziu um “culto ao homem” na Igreja?

Uma das acusações mais comuns de pessoas que rejeitam o Concílio Vaticano II é a de que o Concílio substituiu, na Igreja, o culto a Deus por um suposto “culto ao homem”, e que isto teria sido confirmado pelo próprio Papa Paulo VI no encerramento do Vaticano II, em dezembro de 1965.

Curiosamente, quando leio esses textos, raramente vejo uma referência decente a esse discurso: uma frase inteira, ou mesmo o link para a íntegra do discurso; os acusadores se limitam a falar que Paulo VI mencionou o “culto ao homem”. Pois bem, vejamos então o que o Papa realmente disse. Veja mais em: Discurso do Papa Paulo VI no encerramento do Concílio Vaticano II

A frase que dá calafrios nos rad-trads é:

“Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós – e nós mais do que ninguém somos cultores do homem.”

Quando lêem “cultores do homem”, os rad-trads rasgam as vestes, soltando gritos horrorizados como aquela personagem da Escolinha do Professor Raimundo que desmaiava sempre que ouvia uma palavra esquisita que imaginava ser pornográfica.Mas, como se diz por aí, texto fora do contexto vira pretexto. Os acusadores do Concílio destacam apenas essa parte e esquecem todo o resto. Essa frase de Paulo VI conclui um longo raciocínio sobre o Concílio, que reproduzimos aqui:

Na verdade, a Igreja, reunida em Concílio, entendeu sobretudo fazer a consideração sobre si mesma e sobre a relação que a une a Deus; e também sobre o homem, o homem tal qual ele se mostra realmente no nosso tempo: o homem que vive; o homem que se esforça por cuidar só de si; o homem que não só se julga digno de ser como que o centro dos outros, mas também não se envergonha de afirmar que é o princípio e a razão de ser de tudo. Todo o homem fenoménico –   para usarmos o termo moderno – revestido dos seus inúmeros hábitos, com os quais se revelou e se apresentou diante dos Padres conciliares, que são também homens, todos Pastores e irmãos, e por isso atentos e cheios de amor; o homem que lamenta corajosamente os seus próprios dramas; o homem que não só no passado mas também agora julga os outros inferiores, e, por isso, é frágil e falso, egoísta e feroz; o homem que vive descontente de si mesmo, que ri e chora; o homem versátil, sempre pronto a representar; o homem rígido, que cultiva apenas a realidade científica; o homem que como tal pensa, ama, trabalha, sempre espera alguma coisa, à semelhança do “filius accrescens”; o homem sagrado pela inocência da sua infância, pelo mistério da sua pobreza, pela piedade da sua dor; o homem individualista, dum lado, e o homem social, do outro; o homem “laudator temporis acti”, e o homem que sonha com o futuro; o homem por um lado sujeito a faltas, e por outro adornado de santos costumes; e assim por diante. O humanismo laico e profano apareceu, finalmente, em toda a sua terrível estatura, e por assim dizer desafiou o Concílio para a luta. A religião, que é o culto de Deus que quis ser homem, e a religião – porque o é – que é o culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isto poderia ter-se dado, mas de facto não se deu. Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. Com efeito, um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio. A descoberta e a consideração renovada das necessidades humanas — que são tanto mais molestas quanto mais se levanta o filho desta terra — absorveram toda a atenção deste Concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós – e nós mais do que ninguém somos cultores do homem.

O parágrafo, se lido com a atenção devida, é auto-explicativo: a Igreja está apresentando ao mundo o seu humanismo. Não o humanismo que deixa Deus de lado, mas o humanismo que reconhece a dignidade do homem e declara querer satisfazer a sua maior necessidade: a necessidade de Deus. Não é para isso que a Igreja existe, para nos conduzir à vida eterna? Paulo VI não está falando de “adoração ao homem”, e sim de preocupação, de cuidado, de atenção.

Na descrição do Papa, quando “o humanismo laico e profano desafiou o Concílio para a luta”, duas “religiões” se encontraram: o cristianismo (o culto de Deus que quis ser homem) e o laicismo (a religião do homem que quer ser Deus). A Igreja, inteligentemente, quando desafiada pelo humanismo ateu, não partiu para o confronto aberto e ostensivo. Em vez disso, combate o humanismo ateu apresentando a alternativa: o seu humanismo, um humanismo diferente, que parte do princípio de que o homem é filho de Deus e anseia por Ele.

É esse o sentido das palavras do Papa. Nada de “adoração ao homem”. Nada de “síntese do catolicismo com o humanismo que despreza Deus”. Para ler o contrário disso, é preciso uma boa dose de ignorância, ou de má-fé contra o Magistério da Igreja.

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