A imagem do cordeiro como chave para se aprofundar nos mistérios da santa missa.

Dizia o saudoso papa João Paulo II que a missa é “o céu na terra”. Expressão forte e teológicamente correta; mas infelizmente muito pouco constatada no coração dos fiéis que não raramente, fazem da santa missa uma ocasião de dispersão e repetições mecânicas e vazias de sentido. Muito mais do que mera questão de fé, é necessário dar razões a tal constatação papal para vivênciar a santa missa com toda a intensidade que nos propõem a santa Igreja Católica. Aqueles que se atreverem a se aprofundar pelos mistérios escondidos no véu da liturgia verão que independente de uma possível hora de desconforto, de cantos mal ensaiados, de homilias distantes e de choros de bebês, quando se vai a missa, é ao próprio céu que de fato se visita.

Se a missa é o céu, e se queremos beber direto da fonte, nada melhor do que recorremos ao uso da Sagrada Escritura. Sabemos que de todos os livros da Bíblia, um deles é o que mais se destaca pelos aspectos e atenção que dá as realidades celestes, que é o livro do Apocalipse escrito por São João.
 
O Apocalipse é um livro que impressiona do início ao fim. Ao narrar sua visão da ação celeste na terra em tempos incertos, São João não poupa nos detalhes e nos dá a certeza de que o que está a contar não pode ter saído meramente de sua cabeça, pois nem uma imaginação fértil de uma criança seria capaz de conceber imagens e figuras tão significativas quanto as que veremos a seguir. Dragões de várias cabeças, cavaleiros voadores, bestas e feras, guerras sangrentas são algumas delas. Mas lendo atenciosamente e deixando de lado séculos de cultura cristã acumulados desde o início do cristianismo até os nossos dias, uma imagem salta mais a vista do que qualquer outro: um cordeiro sobre um trono. Se a primeira vista tal título não soa estranho é porque ainda não nos aprofundamos no tema. Vale lembrar que São João cita esta figura do cordeiro que governa o mundo, 28 vezes em seu texto. Quer dizer: realmente significa algo.

Basta parar para pensar que estamos a falar de Deus, de Jesus Cristo, da segunda pessoa da Santíssima Trindade. Para Ele não faltam nomes e títulos de nobreza: Altíssimo, Senhor dos Exércitos, o Próprio Amor, Rei do Universo, Criador do Mundo, Santidade infinita, Amor Supremo, Soberano, etc. Dentro deste contexto, um título de Cordeiro não soa a coisa mais normal do mundo. E de fato, é porque não é normal mesmo. Dar a um Deus todo poderoso o nome de uma criatura tão frágil e dependente como um cordeirinho é por demais intrigante.

E é desvendando este mistério que encontramos grandes reflexões sobre Jesus Cristo e sua obra redentora. O início dessa busca se dá na própria gênesis da humanidade aonde podemos olhar reflexivamente sobre essa figura do cordeiro. A imagem do cordeiro é a chave para decifrarmos São João no Apocalipse e a própria realidade da missa: entendendo o que significa o cordeiro na história da salvação entendemos o que significa Jesus Cristo na obra salvífica da Eucaristia.

Sabemos bem que desde as mais remotas idades do gênero humano Deus vem treinando o homem para que se acostume a concretizar com atos, e não só com palavras, o seu amor para com Ele. E sabemos que desde os tempos de Caim e Abel, é um costume do ser humano oferecer a Deus como símbolo de gratidão aquilo que tem de melhor. Para um homem agrário e campestre, cordeiros estão seguramente na fila dos sacrifícios mais altos e difíceis que o ser humano poderia render ao seu Deus.

Embora Deus sendo todo espírito, pode muito bem aceitar de bom grado uma oferta material de suas criaturas, afinal de contas, Ele mesmo criou a matéria, deve gostar dela portanto. É claro que para Deus nenhuma oferta é suficientemente digna para que quitemos nossas dívidas com Ele, mas o que mais importa é o simples desejo de que o amemos acima de qualquer criatura e o nosso total desprendimento das realidades terrenas. Essa é a idéia por de trás das ofertas humanas a Deus.

O fato é que pouco a pouco Deus vai pincelando na história da salvação esboços e respingos coloridos do que viria ser a grande imagem de seu filho Jesus Cristo, no Cordeiro de Deus. Quem não se lembra da dramática história do sacrifício de Isaac por Abraão, quando Deus se utiliza da figura do cordeiro, como aquele que dá a vida em substituição do filho amado (Gn. 22,8)? Com Moisés ainda, Deus oficializou na história da salvação a importância dramática que a figura do cordeiro teria a partir de então, já na prefiguração de seu filho que como um cordeiro entregue nas mãos dos homens se sacrificaria a sí próprio pela redenção de todos.

Vemos portanto durante o episódio da visita do Anjo exterminador no antigo Egito, Deus pedindo a Moisés que se celebrasse a primeira páscoa dos hebreus, o dia em que o Altíssimo feriria de morte todos os primogenitos daquela terra para libertar o seu povo da escravidão do Faraó de coração endurecido. Para se celebrar tal páscoa um aliança entre o homem e seu Deus fora consumada no sacrifício de inúmeros cordeiros, que doando o seu sangue para os hebreus poupou este povo das terríveis perdas que se dariam naquela noite (Ex. 12, 1-23). A regra era que se oferecesse cordeiros ao Senhor, que se marcasse todas as portas com aquele sangue inocente e que se alimentassem posteriormente com aquela mesma carne sacrificada. Dito e feito; o Senhor convenceu o faraó pela dor e este autorizou o povo hebreu partir para longe de seus domínios, em busca da terra prometida.

Pois bem, a partir de então anualmente os israelitas, odernados por Deus e para ratificarem sua aliança, celebravam a mesma páscoa em honra dos grandes feitos a sua gente pelo Senhor. Todos os anos tomavam um cordeiro por família, macho, sem defeito, sem ossos quebrados, e o imolavam aos céus em sinal de seu amor e de sua fidelidade. Para agradecer, para expiar, para redimir, para suplicar, e também em outras especiais ocasiões durante o ano, estava sempre a figura do sacerdote como autoridade especial legitimada pelo próprio Deus a Moiséis, para conduzir outros sacrifícios.

Desde esse momento é possível traçar enormes paralelos entre o cordeiro, por assim dizer, do homem, e entre Jesus Cristo, o cordeiro de Deus. Jesus Cristo é aquele que dá o seu sangue todo para impedir a morte do seu povo eleito. É aquele que poupa a humanidade de morrer pelos desméritos de seus pecados, que alimenta a família humana e que protége a todos. É aquele que liberta seu povo da escravidão da morte e do pecado e que lhes entrega uma promessa de uma terra eterna e sem fim. É aquele que renova uma aliança entre a terra e o céu de forma absoluta e perfeita, por sua total entrega e abandonado, inocente, puro, perfeito, dando sua vida pela redenção de todos. É aquele que entrega sua vida pela troca de muitos sem pedir nada em troca, como no episódio de Isaac. É aquele que na cruz tem os ossos poupados por morrer rapidamente para que “se cumpram as Escrituras” (Jo 19,36), tamanho o horror que sofrera, e que um dia antes se dá de comer aos seus na última ceia.

É interessante notar que na antiguidade, anualmente no dia da Páscoa, alguns registros mostrem que mais de 255.000 cordeiros eram sacrificados no templo num único dia (Páscoa de 70 d.C.), e que por baixo, cerca de 400.000 missas são realizadas todos os dias no mundo. Que os cordeiros que eram sacrificados no templo eram preparados com ramo de hissopo e vinagre (Ex. 12, 22; Jo. 19,29), o mesmo preparado oferecido a Jesus durante sua via Crucis. Que Jesus fora condenado na hora sexta, a mesma hora que os sacerdotes iniciavam o preparo da imolação dos cordeiros e que cheio do Espírito Santo e da sabedoria acumulada das escrituras, João Batista já exclamava com autoridade divina a correlação entre Cristo e o cordeiro, como novo e definitivo sacrifício de redenção do homem. Que as orações dos sacerdotes judeus foram mantidas na missa durante o momento do ofertório (Bendito sejais Senhor Deus do Universo, pelo vinho que recebemos da vossa bondade, fruto da videira e trabalho humano e que agora irá se tornar… Bendito sejais Senhor Deus do Universo, pelo pão que recebemos da vossa bondade, fruto da terra e trabalho humano e que agora irá se tornar …) e que muitos dos primeiros cristãos eram martirizados acusados de canibalismo, tamanha convicção e estranheza de que na missa se comia o próprio corpo de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

A luz dessas realidades, a santa Missa ganha uma nova cor e um novo sentido e é simplesmente impossível ficar indiferente face a tantas místicas realidades escondidas no véu da liturgia. Vejamos por exemplo um trecho da liturgia eucarística IV: “nós vos oferecemos o seu Corpo e Sangue, sacrifício do vosso agrado e salvação do mundo inteiro”. Vejamos também outro trecho extraido da liturgia eucarística I ganhando nova clareza: “Recebei, ó Pai, esta oferenda, como recebestes a oferta de Abel, o sacrifício de Abraão e os dons de Melquisedeque. Nós vos suplicamos que ela seja levada à vossa presença, para que, ao participarmos deste altar, recebendo o Corpo e o Sangue de vosso Filho, sejamos repletos de todas as graças e bênçãos do céu”. Um olhar atento a missa enxergará inúmeras outras referências a plenitude sacrificial dado por Jesus Cristo como cordeiro santo, como por exemplo a oração do “Agnus Dei” recitada no “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós…”, ou nas palavras do sacerdote que apresenta Cristo eucarístico a assembléia reunida na citação de São João Batista: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”.

São Justino, mártir, escreveu no ano 155 d.C. um importante relato que nos demonstra como a liturgia sacrificial da missa se manteve praticamente intacta desde os tempos apostólicos, até os nossos dias, e como longe de ser um amontoado de regras e formalidades, a celebração eucarística é divina no conteúdo e na forma, e como desde o início do cristianismo era preciso comer o corpo do cordeiro de Deus para se ratificar a nova aliança como nos tempos de Moisés:

1.No dia dito do sol (domingo) reúnem-se em um mesmo lugar todos os cristãos, os que residem nas cidades e os que residem no campo.
2. O leitor lê trechos tirados das memórias dos Apóstolos (Novo Testamento) e dos livros dos Profetas (Antigo Testamento).
3. Terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para explicar aos presentes o que foi lido e exortá-los a pôr em prática tão belos ensinamentos (homilia).  
4. Em seguida, levantamo-nos todos e dirigimos a Deus orações e súplicas (súplica insistente ou ecteni, após o Evangelho).
5. Suspendendo as orações, abraçamo-nos uns aos outros (Ósculo da paz).
6. Depois levam àquele que preside a reunião dos irmãos em Cristo, pão e um cálice contendo vinho, misturado com água (Procissão do ofertório).
7. O Presidente toma o pão e o cálice, louva e glorifica o Pai do universo em nome de seu Filho e Espírito Santo; dirige-lhe abundantes ações de graças por ter-se dignado dar-nos estes dons (Anáfora).
8. Terminada esta ação de graças (Eucaristia) todos os presentes exclamam: Amém.
9. Depois os ministros que chamamos diáconos distribuem a todos os presentes o pão da Eucaristia e o vinho misturado com água (Comunhão). Estes mesmos diáconos levam aos ausentes sua parte do pão e do vinho eucarísticos.
10. Por fim, os ricos socorrem os indigentes (Coletas).

É por isso que importa conhecer e reconhecer cada um dos significados da Santa Missa para vivenciarmos tudo quanto Cristo, que ensinou a divina liturgia aos apóstolos, desejou para a humanidade. Na Santa Missa, Cristo toma o lugar do cordeiro santo, aquele que se oferece a humanidade pela expiação dos pecados do mundo, e toma lugar do sacerdote oferecendo-se a sí mesmo em sacrifício perfeito para redenção de todos. Cada parte da missa concorre para o encontro com o Cordeiro que irá no altar ser imolado. Não é a toa que o Concílio Vaticano II chama a sagrada liturgia de o "cume para qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força".

No ano 215 d.C. Hipólito deixou-nos, como Justino, um roteiro da liturgia que rezamos ainda nos dias de hoje: “O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós. Corações ao alto. O nosso coração está em Deus. Demos graças ao Senhor. É nosso dever e nossa salvação”. Vejam que grande e que significativo pode chegar a ser a santa missa. Mediante esses sinais sensíveis presentes na sagrada liturgia chegamos a contemplar com toda a riqueza e plenitude os mistérios do amor de Deus pela nossa humanidade. Compreender tudo o que essa mesma liturgia nos oferece é chegar com maior rapidez e eficácia espiritual a esse cume, a essas alturas sagradas para onde nosso coração e nossa alma buscam sem cessar: a própria essência de Deus.

Reunir em nome do Deus Trino (Saudação), confessar as culpas (Ato Penitencial, Mt. 15,22), agradecer o perdão (Glória, Lc. 2,14), ouvir sua palavra (Leituras, Salmo de Resposta e Evagelho, Rm. 10,17), reafirmar a fé (Profissão da fé), pedir ao Senhor (Oração dos Fiéis), oferecer nossos dons (Ofertório), louvar a Deus pelo seu Filho presente (Oração Eucarística), receber o Pão da Vida nossa salvação (Comunhão) e ser abençoado partindo na missão de viver a fé na vida cotidiana (Benção e Despedida) é o que significa participar da Santa Missa verdadeiramente.

Acima de tudo é preciso resgatar, e não subestimar, toda a obra salvífica feita por Deus no período anterior a encarnação, que magnificamente complementa com novos sentidos e orientações toda a vida de piedade cristã. Que nossa próxima visita a uma igreja católica nos revista da imagem do próprio Isaac, que ao subir para o altar aonde seria imolado, encontra alí um cordeiro que dá a vida em seu lugar. Que em nossa próxima participação da santa missa, sejamos revestidos dos olhos de Moisés, que enxergou no sangue daqueles cordeiros, a salvação e a proteção do seu povo: de suas vidas. Que sobretudo, na nossa próxima Eucaristia, façamos essa grandiosa descoberta na pessoa de João Batista de também poder exclamar: “Eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”. E sem dúvida alguma, seremos felizes, pois seremos os “convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro” (Ap. 19, 9).

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