Na visão cartesiana, o homem é uma mente que habita um corpo. É a célebre tese do “fantasma na máquina”. É esta a filosofia da Medicina moderna, que se atém ao cuidado do corpo, percebido como uma máquina, sem se dar conta de que o corpo é apenas uma parte de algo muito maior: a pessoa.

Devido a esta visão, é raro o médico que se dá conta da violência que, sem fazer parte do tratamento, é rotineiramente cometida contra os pacientes. Isolados numa cama de hospital, longe de casa, com as visitas das pessoas queridas restritas a algumas horas, virados e desvirados como postas de carne por enfermeiros, comendo gelatina molenga e comida sem gosto, transformados, enfim, em anexos dos importantíssimos resultados de exames, os pacientes ficam esquecidos de todos, até mesmo dos médicos, enquanto não se medem esforços para tratar da máquina que seu corpo seria.

A depressão que naturalmente os invade, devida a tantas violações, quando percebida é considerada um desequilíbrio bioquímico sem que se lide com sua causa real.

Surge, aqui e ali, alguém que tenta fazer uma diferença, grupos que procuram levar pela música ou pelo teatro alguma alegria de viver aos lugares mais desprovidos dela: os hospitais, onde teoricamente a vida seria defendida contra a morte. Mas que vida é essa? O funcionamento da “máquina”?! Ora, a vida do corpo é uma expressão e uma condição da vida do espírito, da vida verdadeira, de dores e alegrias, de bons e maus momentos. Desta vida que é suspensa quando se cruzam as portas do hospital e se é transformado em anexo da papelada, em posta de carne a ser cutucada, pesada e medida, sendo deixada de lado a pessoa que ali está.

Isso se deve ao cartesianismo da Medicina moderna, que a impede de perceber o paciente como ser humano integral. Os médicos, contudo, e mais ainda os enfermeiros, podem procurar manter em mente este problema e fazer menos dolorosos os dias longuíssimos que os pacientes passam nos hospitais. É preciso um policiamento constante de si mesmo, uma abertura constante para o outro, para que se possa tornar menos iatrogênica a própria internação. Um sorriso, um tratamento digno, chamar o paciente idoso de “senhor” ou “senhora”, respeitar seus pudores e sua delicadeza, vê-lo como pai ou mãe, irmão ou filho, como ser humano infelizmente afastado do lar.

É preciso procurar diminuir, ainda que um pouco, essa infeliz dissociação do corpo e da pessoa. Só assim se pode realmente curar.

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