O culto Eucarísitico: críticas e sugestões


Durante quase todo o primeiro milênio não existiu um culto eucarístico tal como o conhecemos hoje em dia. Sua origem remonta à Idade Média, por volta do século IX. Foram diversos os fatores teológicos e pastorais que contribuíram para seu aparecimento. Ninguém duvida que essa manifestação de piedade seja correta e contribua para o aprofundamento na fé de quem a pratica. O magistério e os teólogos reconhecem sua validade. Haja vista, por exemplo, o Credo do Povo de Deus e a encíclica Mysterium Fidei, dois documentos de Paulo VI, o Catecismo da Igreja Católica e a recente encíclica de João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia. É preciso, no entanto, dar ao culto eucarístico seu verdadeiro significado.

Objetivo da eucaristia

A finalidade primeira da eucaristia é alimentar o povo de Deus em seu êxodo para o Reino. O Senhor Jesus se dá a nós no pão e novinho consagrados. Congrega-nos em um só corpo, a Igreja. Inicia a glória futura. Num texto belíssimo, Santo Agostinho afirma a dimensão eclesial da eucaristia, esquecida mais tarde com a valorização unilateral da presença real eucarística. Afirma o grande bispo e doutor: “Tu ouves: o Corpo de Cristo! E respondes: Amém! Sê membro do Corpo do Cristo, para que seja verdadeiro o que dizes”.

Começo da devoção

No primeiro milênio, até o século IX, a eucaristia era compreendida e vivida como memorial da páscoa do Senhor. Uma vez que os doentes não podiam participar da celebração eucarística, começou-se desde cedo a conservar o pão consagrado, as santas reservas, a fim de que eles também pudessem alimentar-se com a eucaristia. Mais tarde, essas santas reservas passaram a ser cultuadas. Nascia a devoção para com o Santíssimo Sacramento.
O desenvolvimento dessa devoção conheceu altos e baixos. Um de seus aspectos mais negativos foi uma espécie de fixação na presença real separada do contexto que lhe confere o verdadeiro significado. Caiu no esquecimento a ligação da presença real com o mistério pascal e com a finalidade primeira da eucaristia, ser alimento para o Povo de Deus em marcha. Quem não recorda o bendito em que se cantava a presença de Jesus no sacrário à espera das almas ferventes, ansiosas para o visitar? Ora, as santas reservas encontram-se no sacrário, primeiro que tudo, para a comunhão dos doentes. A elas a Igreja presta uma adoração que deve estar sempre relacionada com seu significado primeiro de comida e bebida. No decreto sobre a eucaristia promulgado em 1555, o Concílio de Trento ensina que o Senhor está presente na eucaristia ut sumatur, ou seja, para ser recebido como alimento. Esta é a primeira finalidade da presença real do Senhor. O que não impede o culto, a adoração ao Santíssimo Sacramento. Ao contrário, o Tridentino reconhece o valor dessa prática de piedade, mas ela é sempre segunda em relação com a finalidade primeira.

Hoje: alguns equívocos

Observa-se atualmente um reavivamento do culto eucarístico, às vezes, porém, impregnado de equívocos. O grande equívoco está na mistura da adoração ao Santíssimo com a missa. Na missa celebramos o memorial de mistério pascal do Senhor. Por meio da palavra do memorial, dos sinais sacramentais e da ação do Espírito Santo, o Cristo faz-se presente em seu sacrifício e insere nele a Igreja. Para isto deve voltar-se a assembléia. Em torno disto deve girar toda a celebração eucarística. Sendo assim, não tem sentido interromper-se a missa para fazer alguns momentos de adoração. A missa é, por excelência, o grande momento da adoração que a Igreja em nome da humanidade e do universo presta ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Também não tem sentido dar-se a bênção do Santíssimo logo após a celebração da missa. Pode existir bênção maior do que a participação no mistério pascal de Jesus, ser alimentados com sua palavra, seu corpo e sangue, ser assumidos por ele em sua entrega ao Pai?

Bênçãos

A bênção do Santíssimo unida à missa só faz sentido em ocasiões muito excepicionais. É o que pode acontecer na solenidade do Corpo de Deus, pois nesse dia a liturgia destaca a presença real eucarística. A não ser em ocasiões raras e excepcionais, a bênção do Santíssimo pode ser muito oportuna, mas fora da missa. Um outro equivoco consiste em repetir invocações eucarísticas durante a celebração eucarística. Graças e louvores sejam dados a todo momento… e outras invocações semelhantes ficam muito bem nos momentos de adoração, na hora santa, na bênção do Santíssimo, mas não durante a missa, seja lá em que momento for. Lamentável ainda é o que fazem aqueles que, depois de receber a comunhão, vão rezar na capela do Santíssimo. Abandonam a comunidade eclesial em seu momento de maior densidade e vão cuidar de sua piedadezinha individual. Beira ao ridículo a interrupção da oração eucarística para um passeio com o Santíssimo Sacramento pela nave da igreja. Mesmo a repetição de invocações do tipo Meu Senhor e meu Deus durante a consagração deve ser evitada. O mistério pascal do Senhor em sua infinita riqueza de sentido é capaz de fazer da santa missa uma celebração prenhe de criatividade e beleza, sem precisar de apelos a manifestações de piedade que podem ser muito boas, quando praticadas no momento oportuno. Os padres que fomentam tais práticas acabam por inverter sua missão pastoral. Deseducam em vez de educar a fé dos fiéis.

Contemplação

A piedade eucarística possui imenso valor. Contudo, além de praticá-la no momento oportuno, é necessário ver quais as formas mais corretas para que ela contribua para o aprofundamento na intimidade com o Senhor. O Catecismo da Igreja Católica emprega a bela expressão adoração silenciosa. O recolhimento, o silêncio, a contemplação deve ser a atitu-de primeira. O excesso de gestos, palavras e movimentos dis-persa e distrai. Se o mistério eucarístico mal pode ser expresso com palavras, o silêncio não o palavreado, a medida não o excesso, a concentração não a dispersão conduzem ao encontro com aquele diante de quem os cristãos se põem e que os acolhe com sua presença sob o sinal sacramental do pão. Momentos mais festivos, manifestações mais efusivas de piedade podem ser oportunos de vez em quando. Aqui, o desafio está em manter vivo o sentido do mistério, encarnando-o na alegria e na espontaneidade de nossa gente.
A devoção ao Santíssimo Sacramento é um fator importante para a vitalidade da fé nas pessoas e nas comunidades, contanto que seja praticada em continuidade com a missa, orientada para ela e na dependência dela. Somente alimentados pelo corpo e sangue do Senhor seremos fortes para combater o bom combate no desafiante mundo em que nos encontramos.

 

 

 


O autor é Professor do Seminário Maior Paulo Sexto (N. Iguaçu), e
do Instituto Diocesano Teológico (Barra Mansa), e pároco da Paróquia São Sebastião (Resende – Diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda) , é doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma.

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