Como descreverei – pergunta um escritor dos primeiros séculos – a felicidade desse matrimônio que a Igreja une, que a entrega confirma, que a bênção sela, que os anjos proclamam, e que Deus Pai tem por celebrado?… Ambos os esposos são como irmãos, servos um do outro, sem que se dê entre eles separação alguma, nem na carne nem no espírito. Porque verdadeiramente são dois numa só carne, e onde há uma só carne deve haver um só espírito… Ao contemplar esses lares, Cristo se alegra e envia-lhes a sua paz; onde estão dois, ali está Ele também, e onde Ele está, não pode haver nada de mau (São Josémariá Escrivá – É Cristo que passa – Ponto 29).

O fundamento em que assenta a grandeza e dignidade sobrenaturais do Matrimônio cristão é que este é “ projeção da união de Cristo com a Igreja, para a santificar, Ele que tem para com ela um pacto indissolúvel, a alimenta e cuida dela; a ela livre de toda mancha, a quis unida a Si e submissa pelo amor e pela fidelidade”. (Lumem gentium.N.6). Assim como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, assim os maridos, figura de Cristo devem amar as suas esposas e estas por sua vez devem se submenter de uma forma natural, como ao Senhor, pois “se o varão é a cabeça, a mulher é o coração e como aquele que tem primazia do governo, esta pode e deve reclamar para si, como coisa própria a primazia do amor.”(Casti connubii.n.10).

É designo de Deus que o homem e a mulher se complementem um ao outro, que se apoiem um no outro, que contribuam para o crescimento mútuo, assim o casal cumpre o fim estabelecido para ambos, que é a felicidade. Jesus ao tornar o matrimônio um sacramento, fazendo desta união uma sagrada união, o fez encerrando nele graças especiais que possibilitaria, dois seres tão diferentes nas virtudes e também nos defeitos se complementarem e viverem uma vida toda consagrados e santos, tentado em tudo fazer a vontade de Deus. ”A graça deste sacramento destina-se a aperfeiçoar o amor dos conjuges e a fortalecer a sua unidade indissolúvel ”(Lg 11). O maravilhoso deste sacramento é que além da graça santificante com que ele abunda a alma dos noivos, o Senhor dá também graças para todos os momentos de suas vidas e sempre que necessitarem, devem com fé e ardor recorrer a Cristo que estará sempre disposto a ouvir e dar sabedoria e docilidade, para que o amor e a paz, se manifeste ali, nesta famíla de Deus.

No casamento cristão, está ali o Senhor, que é a fonte das graças, dando-lhes forças e coragem de carregar a cruz O seguindo com alegria, mesmo com quedas, mas perdoando-se mutuamente, se amando num amor sobrenatural, delicado e profundo. Nesta alegria da vida familiar em Cristo, Ele dá aos esposos, já neste mundo, um antegozo do festim do Cordeiro”(Catecismo da Igreja Católica n. 1641 -2).

Com tanta ajuda, podemos entender porque o matrimônio é único e indissolúvel, porque e como somos capazes de nos mantermos fiéis até o fim, quando a partir do nosso sim, prometemos fidelidade em todas as circunstâncias da vida. Não separe o homem o que Deus uniu (Mt 19,6) . Mas o que temos visto muitas vezes no mundo é a precariedade do vínculo conjugal que leva a inúmeras separações e inclusive ao divórco dando a impressão que ele é a única saída para os conflitos que muitas vezes aparecem dentro da família .

O Santo Padre o Papa João Paulo II ao falar as familias (Discurso à Rota Romana  – 28 de Janeiro de 2002) alertou sobre a “mentalidade divorcista”, que debilita e angustia os conjuges fazendo-os se render sem lutar, por puro desconhecimento do plano e das ajudas divina que os possibilitaria a ultrapassar mesmo as dificuldades mais sérias. Eis aqui a força do sacramento, que ao ser ignorado ou mesmo desconhecido, faz com que ao invés de se clamar a Deus pela graça, muitos que ainda se amam, se desesperam e deixam de lutar, levando o caos às famílias que muitas vezes se desintegram, passando por sofrimentos sem fim, tanto os cônjuges quanto os filhos.

O Papa ainda ressalta outros aspectos importantes que levam neste mundo secularizado, nesta mentalidade divorcista, a abundância de separacões: ”Nesta cultura, são citados de forma particular os limites econômicos, favorecidos pelo desmembramento das famílias, assim como uma falsa concepção da liberdade, o medo do compromisso, a prática da convivência, a “banalização do sexo”, etc. Estilos de vida, modas, espectáculos e novelas televisivas que põem em discussão o valor do matrimônio e chegam mesmo a propagar a ideia de que o dom recíproco dos esposos até à morte é algo impossível, tornam frágil a instituição familiar e chegam a desqualificá-la em vantagem de outros “modelos” de pseudofamílias.”

Além disso, assistimos à invasão, por parte de um individualismo radical: vida econômica, concorrência cruel, competição em todos os campos. Sem dúvida, este individualismo não favorece o dom pessoal generoso, fiel e permanente. E não favorece nem sequer a solução das crises matrimoniais. Esta ideologia social de pseudoliberdade leva o indivíduo a agir sobretudo segundo os seus próprios prazeres, os seus interesses e a sua utilidade. O compromisso assumido em relação ao cônjuge adquire uma conotação de simples contrato que pode ser revisto de modo indefinido; a palavra dada só tem um valor limitado no tempo; não se responde pelos atos pessoais, senão diante de si mesmo. (Que seja imortal enquanto dure?)

Diante de tal situação a Igreja sente grande compaixão pelas pessoas que passam por todas estas dificuldades, mas ela sustenta, por fidelidade à palavra de Jesus Cristo, que o divórcio não faz parte do plano de Deus e que não “reconhece como válida uma nova união se o primeiro casamento for válido. Se os divorciados se casam pela lei civil, ficam numa situação objetivamente contrária a lei de Deus. Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística enquanto persistir tal situação. Pelo mesmo motivo, ficam impedidos de exercer certas responsabilidaes eclesiais. A reconciliação, por meio do sacramento da penitência, não pode ser dada senão àqueles que se arrependem de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometeram a viver a continência completa.”(Catecismo da Igreja Católica n. 1650), aqui não se trata de nenhuma discriminação, mas apenas de fidelidade absoluta à vontade de Cristo que restabeleceu e confiou a Igreja a indissolubilidade do matrimônio como dom do Criador.

Muitos sofrem deste mal, veem seus casamentos desintegrados, mesmo tendo jurado diante do altar seu amor e sua fidelidade ao cônjuge, e que por motivos contrários à sua vontade foram abandonados, a Igreja os acolhe plenamente dando a eles o conhecimento da mensagem do matrimônio cristão, ajudando-os com a comunidade a suportarem castamente na fé o sofrimento da sua situação, sofrendo e amando as pessoas interessadas, para que posssam reconhecer no seu fardo o jugo suave e o fardo leve de Jesus. O seu fardo não é suave e leve enquanto pequeno ou insignificante, mas torna-se leve porque o Senhor – e juntamente com Ele toda a Igreja – o compartilha, sempre na verdade e no amor.

“Juntamente com o Sínodo, exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, procurando, com caridade solícita, que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, ou melhor devendo, enquanto batizados, participar de sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança.” (Exortação Apostólica do Papa João Paulo II – A Missão da família cristã no mundo de hoje – Familiaris consortio)

O que fazer para os casais sejam fiéis até o fim, realizando em suas vidas a verdadeira vontade de Deus, mantendo-se unidos, numa família realmente feliz, tal a família de Nazaré? São João Crisóstomo nos ajuda com seus conselhos salutares destacando: ”a importância da infância, porque é quando se manifestam as inclinações ao vício e à virtude e, por isso, é nesta idade quando a lei de Deus tem que ser gravada do início na alma ‘como sobre uma tabela de cera’. A esta etapa “segue o mar da adolescência, onde os ventos sopram violentos, porque é quando cresce a concupiscência”. Em seus escritos, este Padre da Igreja aborda o período do noivado e o matrimônio e afirma que “os maridos bem preparados fecham o caminho ao divórcio. Tudo se desenvolve com alegria e se pode educar aos filhos na virtude. Depois, quando nasce a primeira criança se forma uma ponte; os três se convertem em uma só carne, porque o filho une as duas partes e os três constituem ‘uma família, uma pequena Igreja’”. (Catequese de Bento XVI sobre São João Crisóstomo)

“Não podemos deixar de dizer sobre a importância da oração, pois ela reforça a estabilidade e a firmeza espiritual da família, ajudando a fazer com que esta participe de fortaleza de Deus…É desta força do Espírito Santo que dimana a força interior das famílias, bem como o poder susceptível de as unificar no amor e na verdade’”O belo amor” aprende-se sobretudo rezando…Só em tal recolhimento é que opera o Espírito Santo, fonte do belo amor. Ele derrama este amor não só no coração de Maria e de José, mas também no coração dos esposos, dispostos a ouvirem a Palavra de Deus e a conservarem-na (Lc 8,15) O futuro de cada núcleo familiar depende deste “belo amor”( Carta às Famílias – 2 de fevereiro de 1994)

“O Rosário foi desde sempre também oração da família e pela família e muitos problemas contemporâneos sobretudo nas sociedades economicamente evoluídas, derivam do fato de ser cada vez mais difícil comunicar. Não conseguem estar juntos, e os raros momentos para isso acabam infelizmente absorvidos pelas imagens duma televisão. Retomar a recitação do Rosário em família significa inserir na vida diária imagens bem diferentes – as do mistério que salva: a imagem do Redentor, a imagem de sua Mãe Santíssima. A família, que reza unida o Rosário, reproduz em certa medida o clima da casa de Nazaré: põe-se Jesus no centro, partilham-se com Ele alegrias e sofrimentos, colocam-se nas suas mãos necessidades e projectos, e d’Ele se recebe a esperança e a força para o caminho” (Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae – João Paulo II)

E por fim, que nós casais cristãos, pela força do divino Espírito possamos dar “testemunho, nos múltiplos ambientes da sociedade, ao homem contemporâneo (em larga medida destruído na sua subjetividade, exausto numa vã busca de um amor “livre”, oposto ao verdadeiro amor conjugal, mediante uma imensidão de experiências fragmentadas) a real possibilidade de reencontro do ser humano consigo mesmo, de ajudá-lo a compreender a realidade de uma subjetividade plenamente realizada no matrimônio em Cristo Senhor. Somente nesta espécie de “choque” com a realidade, pode fazer emergir no coração, a saudade de uma pátria da qual toda pessoa guarda uma lembrança indelével. Aos homens e mulheres desenganados, que se perguntam cinicamente a si mesmos “pode vir algo de bom do coração humano?”, é preciso poder responder-lhes: “Vinde e vede o nosso matrimônio, a nossa família”. Este pode ser um ponto de partida decisivo, testemunho real com que a comunidade cristã, auxiliada pela graça de Deus manifesta a Sua misericórdia para com os homens. Pode-se constatar como sumamente positiva, em muitos ambientes, a considerável influência exercida pelos fiéis cristãos. Em razão de uma consciente opção de fé e vida, aparecem, em meio aos contemporâneos, como o fermento na massa, como a luz em meio às trevas. A atenção pastoral na sua preparação para o matrimônio e a família, e o acompanhamento na sua vida matrimonial e familiar é de fundamental importância para a vida da Igreja e do mundo”(Conselho Pontífício para a família – Família, Matrimônio e “Uniões de fato”)

Consagração da Família a Nossa Senhora das Mercês

Virgem Maria, Mãe das Mercês, com humildade acorremos a Vós, os membros desta família, certos de que não nos abandonais por causa de nossas limitações e faltas. Animados pelo vosso amor de Mãe, oferecemo-vos nosso corpo para que o purifiqueis, nossa alma para que a santifiqueis, o que somos e o que temos, consagrando tudo a Vós. Amparai, protegei, bendizei e guardai sob vossa maternal bondade a todos e a cada um dos membros desta família que se vos consagra totalmente a Vós. Ó Maria, Mãe e Senhora nossa das Mercês, apresentai-nos ao vosso Filho Jesus, para que, por vosso intermédio alcancemos, na terra, a sua Graça e depois a vida eterna. Amen.

“Não existe uma situação tão difícil que não possa ser enfrentada de modo adequado, quando se cultiva um clima de vida cristã coerente. O próprio amor, ferido pelo pecado, também é um amor redimido” (João Paulo II)

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