Na preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000, o corrente ano é dedicado de modo particular ao Espírito Santo. Procedendo no caminho iniciado para a Igreja inteira, depois de ter concluído a temática cristológica, hoje começamos uma reflexão sistemática sobre Aquele “que é Senhor e dá a vida”. Em múltiplas ocasiões falei amplamente a respeito da terceira pessoa da Santíssima Trindade. Recordo, em particular, a Encíclica “Dominum et vivificantem” e a catequese sobre o Credo. A perspectiva do iminente Jubileu oferece´me a ocasião para voltar de novo à contemplação do Espírito Santo, a fim de perscrutar com espírito adorante a ação que Ele realizar no fluxo do tempo e da história.

Na realidade esta contemplação não seria fácil, se o próprio Espírito não viesse em ajuda da nossa debilidade (cf. Rm 8,26). Como discernir, com efeito, a presença do Espírito de Deus na história? Só podemos dar uma resposta a esta pergunta recorrendo às Sagradas Escrituras que, inspiradas pelo Paráclito, nos revelam progressivamente a Sua ação e a Sua identidade. Elas manifestam´nos, de certo modo, a “linguagem” do Espírito, o Seu “estilo”, a Sua “lógica”. A realidade em que Ele atua, é possível lê´la também com olhos que penetram para além duma simples observação exterior, captando atrás das coisas e dos eventos os traços da Sua presença. A própria Escritura, desde o Antigo Testamento, ajuda´nos a compreender que nada de quanto é bom, verdadeiro e santo no mundo, se pode explicar independentemente do Espírito de Deus.

Uma primeira velada referência ao Espírito encontra´se desde as primeiras linhas da Bíblia, no hino a Deus criador com que se abre o livro do Gênesis: “O Espírito de Deus movia´Se sobre a superfície das águas” (Gn 1,2). Para dizer “espírito” usa´se aqui a palavra hebraica ruach que significa ?sopro? e pode designar tanto o vento como o respiro. Como se sabe, este texto pertence à chamada ?fonte sacerdotal? que remonta ao período do exílio babilônico (VI séc. a . C.), quando a fé de Israel tinha chegado explicitamente à concepção monoteísta de Deus. Ao tomar consciência do poder criador do único Deus, graças à luz da revelação, Israel chegou a intuir que Deus criou o universo com a força da Sua palavra. Unido a esta, emerge o papel do Espírito, cuja percepção é favorecida pela mesma analogia da linguagem que, por associação, vincula a palavra ao sopro dos lábios: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro (ruach) da Sua boca, todos os seus exércitos” (Sl 33,6). Este sopro vital e vivificante de Deus não está limitado ao instante inicial da criação, mas sustém em permanência e vivifica toda a criação, renovando´a continuamente: “Se lhes enviais o Vosso espírito, voltam à vida, e renovais a face da terra” (Sl 104,30).

A novidade mais característica da revelação bíblica é ter divisado na história o campo privilegiado da ação do Espírito de Deus. Em cerca de 100 passagens do Antigo Testamento o ruach JHWH indica a ação do Espírito do Senhor que guia o Seu povo, sobretudo nos grandes momentos do seu caminho. Assim, no período dos juízes, Deus fazia descer o seu Espírito sobre homens débeis e transformava´os em guias carismáticos, investidos de energia divina: é o que aconteceu com Jedeão, Jefte e em particular com Sansão (cf. Jz 6,34; 11, 29; 13, 25; 14.6.19). Com o advento da monarquia davídica esta força divina, que até então se manifestara de modo imprevisível e intermitente, alcança uma certa estabilidade. Isto é bem constatado na consagração régia de David, a propósito do qual a Escritura diz: “A partir daquele dia o Espírito do Senhor apoderou´Se de David” (1 Sm 16,13). Durante e depois do exílio na Babilônia toda a história de Israel é relida como um longo diálogo estabelecido por Deus com o povo eleito, “pelo Seu Espírito, pelo ministério dos profetas do passado” (Zc 7,12). O profeta Ezequiel torna explícito o ligame entre o espírito e a profecia, por exemplo quando diz: “Então desceu sobre mim o espírito de Deus e disse´me: ‘Diz: Assim fala Deus…'”. (Ez 11,5). Mas a perspectiva profética aponta sobretudo no futuro o tempo privilegiado em que se cumprirão as promessas no sinal do ruach divino. Isaías anuncia o nascimento de um descendente, sobre o qual “repousará o espírito … de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor” (Is 11,2´3). “Este texto como escrevi na Encíclica Dominum et vivificantem é importante para toda a pneumatologia do Antigo Testamento, porque constitui como que uma ponte entre o antigo conceito bíblico do espírito, entendido primeiro que tudo como ‘sopro carismático’, e o ‘Espírito’ como pessoa e como Dom, Dom para a pessoa. O Messias da estirpe de David (“do tronco de Jessé”) é precisamente essa pessoa, sobre a qual ‘pousará’ o Espírito do Senhor” (n. 15). 

Já no Antigo Testamento emergem dois traços da misteriosa identidade do Espírito Santo, depois amplamente confirmados pela revelação do Novo Testamento. O primeiro traço é a absoluta transcendência do Espírito, que por isso chamado “santo” (Is 63, 10.11; Sl 51,13). Para todos os efeitos o Espírito de Deus é “divino”. Não é uma realidade que o homem pode conquistar com as suas forças, mas um Dom que vem do alto: só se pode invocá´lo e acolhê´lo. Infinitamente “outro” a respeito do homem, o Espírito é comunicado com total gratuidade a quantos são chamados a colaborar com Ele na história da salvação. E quando esta energia divina encontra um acolhimento humilde e disponível, o homem é arrancado do seu egoísmo e libertado dos seus temores, e no mundo florescem o amor e a verdade, a liberdade e a paz. Outra característica do Espírito de Deus é o poder dinâmico que Ele revela nas Suas intervenções na história. Às vezes corre´se o perigo de projetar sobre a imagem bíblica do Espírito concepções ligadas a outras culturas como, por exemplo, a concepção do “espírito” como algo evanescente, estático e inerte. A concepção bíblica do ruach está, ao contrário, a indicar uma energia supremamente ativa, poderosa, irresistível: o Espírito do Senhor, lemos em Isaías, “é torrente transbordante” (30,28). Por isso, quando o Pai intervém com o seu Espírito, o caos transforma-se em cosmo, no mundo acende´se a vida, e a história põe´se novamente em caminho.

Fonte: L’OSSERVATORE ROMANO Nº 20 (272) 16.05.98

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