Espaço do Leitor

O estado manipulou a igreja durante o tempo da inquisição?

Paz e Bem,

Carissimos Professores, sou Catolico Apostolico Romano praticante, amo a Santa Mãe igreja onde está enraizado os fundamentos de minha fé, sou participante da RCC como coordenador do ministerio de Intercessão em minha Paroquia, antes de mais nada venho parabenizar esse apostolado pelo belissimo trabalho que vem prestando ao Senhor jesus esclarecendo as duvidas de muitos cristãos inclusive a minha, este site é referencia para meus estudos e aprofundamento de minha fé e saiba que eu o indico a todos os cristãos inclusive de outras denominações.
Bom eu tenho uma duvida, em conversa com alguns amigos descobrir que na epoca da inquisição a igreja foi muito manipulada pelo estado sendo que muitos dos seus lideres(bispos, padres, etc..) foi escolidos pelo estado, queria saber a veracidade desse fato, e se caso ocorreu queria saber se esse fato também aconteceu com algum Papa ou seja se ouve algum papa que foi escolido pelo estado? Muito agradecido pela atenção.

Que o bom DEUS possa iluminar mais e mais esse apostolado.

Olá caríssimo sr. Gustavo A. Daré. Desejamos a paz e o bem que procedem de Nosso Senhor a vós e a vossa família. Pedimos vossas orações por esse apostolado e por todos aqueles que se empenham na difusão do evangelho e do Reino de Deus. Agradecemos o contato e o vosso carinho.

“Nunca nossos antepassados foram mais sábios nem mais bem inspirados do que quando decidiram que as mesmas pessoas presidiriam a religião e governariam a república”. Essa frase pertence a Cícero, pensador que viveu antes de Cristo e que demonstra como a idéia da união da religião com o Estado parecia conveniente e extremamente pertinente a um contexto anterior ao nosso.

O fato é que desde o início do cristianismo, com Constantino publicando o edito de Milão e com as sociedades aderindo pouco a pouco ao cristianismo, o próprio Estado começa um caminho natural de atração a fé católica até uma união verdadeira. Durante os muitos séculos da cristandade, Igreja e Estado eram como que uma coisa só, o que não deixou de tecer enormes benefícios mas também grandes danos para ambas as partes.

A sua dúvida faz referência provável ao caso notável da Inquisição Espanhola, aonde o nome da Igreja fora emprestado, por assim dizer, pelo governo que autorizou, através de religiosos por ela mesma ordenada, barbaridades das quais até hoje a Igreja Católica é acusada e dita como condenada. Muitos foram para a fogueira, assim como padres, Bispos, religiosos que denunciavam a prática condenável do poder central. Como ensina DUFFY em sua obra sobre a história de todos os Papas: “Com toda sua mesurice para com o catolicismo, o Estado, controlando o episcopado fazia senão manipular a religião em benefício próprio, negando-lhe a liberdade de expressão e de ação fundamental para o Evangelho” (Santos e Pecadores, a história dos Papas. 1998, p. 219)

No Brasil esta manipulação também se fazia uma realidade que causava grande revolta entre os religiosos. Em um caso historicamente conhecido, o Império ordena alguns novos Bispos, notóriamente maçons. Bispos, como o de Belém, dom Macedo Costa e o de Olinda, dom Vital de Oliveira, denunciam a prática abusiva e expulsam os maçons ordenados pelo Estado das irmandades, o que não é aceito pelo governo imperial, que muito ligado à maçonaria condena os dois Bispos para a prisão em 1875.

Visto que o catolicismo é de sobremaneira uma instituição atemporal, e o Estado basicamente uma organização temporal, conflito é algo inevitável, mas nesse determinado momento da história o problema começa a se tornar insustentável e insuportável para a Igreja Católica, já que a autoridade Papal era simplesmente desprezada muitas vezes. DUFFY explica sobre este período de forma clara: “Os católicos de mentalidade reformista nada viam de errado nas restrições que o príncipe ou o Estado porventura impusessem à interferência dos Papas” (DUFFY, 1998, p. 216).

Então num fenômeno mundial, chamado de ultramontanismo, proclamando o poder e a autoridade do Papa para além das montanhas, se inicia um processo de centralização da autoridade da Igreja na figura do Papa passando assim, a estar num nível acima de qualquer autoridade política. SCHATZ, traduziria de forma enérgica o espírito da época em sua obra Papa Primacy from its Origins to the Present, citando o conde Joseph de Maistre, embaixador da Sardenha em São Petersburgo no ano de 1819: “Não pode haver moralidade pública nem caráter nacional sem religião; não pode haver cristianismo sem catolicismo; não pode haver catolicismo sem Papa e não pode haver Papa sem a soberania que lhe merece” (SCHATZ, 1996, p. 148-9). A partir de então o que veremos é um movimento mundial de separação entre Igreja e Estado; agora é tarefa do leigo a de cuidar dos processos políticos de cada país.

Este é um assunto muito interessante e por se tratar de história, muito extenso e complexo também. O que apresentamos aqui é uma forma bem resumida do que encontrará em bons livros e também no nosso campo de pesquisa.

Esperamos ter ajudado, em Cristo Jesus:

Silvio L. Medeiros

Obras consultadas:

DUFFY, Eamon. Santos e Pecadores – História dos Papas. Cosac & Naify Edições, São Paulo. 1998, 326p.
SCHATZ, Papa Primacy from its Origins to the Present, Collegeville, Minnessota, 1996.





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Veritatis Splendor