Logo após o Concílio Vaticano II a Igreja passou por um momento de confusão natural, todo o fim de um encontro conciliar é regido por dúvidas e discussões, São Basílio já comparava a Igreja pós-Nicéia a uma batalha naval onde ninguém se entendia. Se baseando nesse contexto, um pensamento herético se apossou dos textos conciliares, passou a interpretá-los da forma que era conveniente, com o crivo pessoal; a heterodoxia do modernismo, esta por sua vez se alicerçava na filosofia moderna, aquela que colocava o homem como senhor de seu próprio destino, deixando entregue a sociedade o regimento da sua existência, relativizando a moral, ética, Deus. Esse pensamento quando entrou na teologia, atacou de forma brutal a eclesiologia católica, assim como pilares essências da nossa Fé, como a Tradição, a Sagrada Escritura, os dogmas.

O modernismo passou a defender uma “adaptação” da Igreja, mas essa mudança teria como fim o rebaixamento da Esposa de Cristo de Instituição Divina a uma releis pastora de homens, que não rege a sociedade, mas é regida pela mesma. Esse pensamento gerou duas correntes dentro da Igreja, primeiramente aqueles que modificaram a visão de Cristo e do Magistério, recortando aquilo que era do próprio agrado, um exemplo seria a teologia da libertação, interpretando os documentos papais, assim como toda a doutrina católica, partindo das premissas ideológicas e pessoais, ou seja, não existindo um seguimento sincero e piedoso ao Vigário de Cristo (título por sinal que muitos repudiam). Do outro lado temos os abusos litúrgicos, a Missa passou a ser vista como posse do celebrante e da assembléia, estes teriam então o “poder” de modificar e transformar colocando aquilo que seria do agrado e da vontade, não compreendem que a liturgia remonta ao tempo Apostólico, por isso deve ser cuidada de forma zelosa e respeitosa, seu fundamento se baseia na Tradição, e esta é um dos alicerces da Igreja. Assim como a Sagrada Escritura é perene e incorruptível, a Liturgia, com sua origem apostólica, não deveria ser alvo de crivos e intenções de terceiros, afinal é regida por regras e preceitos que normalizam e exaltam a piedade do Santo Sacrifício da Missa, o que por sinal muitos esquecem; a Missa é a renovação do sacrifício do calvário. Esse pensamento de “modernização” da liturgia, é justamente fruto de uma mentalidade que pensa que tudo deve se modificar, nada é eterno e perene, pensamento este que ataca as bases da Igreja, que se sustenta numa mensagem que foi Revelada há 2000 anos.

Nos dois casos os esforços do Vaticano para execrar tais erros são lançados ao vento, S.S João Paulo II em 1986 condenou a teologia da libertação, e esta até hoje existe e critica o Sumo Pontífice, banaliza os dogmas, relativiza a Igreja e seus ensinamentos, do outro lado, o mesmo Santo Padre no documento ‘Igreja de Eucaristia’, pontuou os erros litúrgicos mais comuns, entre eles a deformação do sentido da Missa, a utilização de cantos inapropriados, a comunhão de hereges e católicos em pecado público, exageros ecumênicos, entre outros, mas nos dois casos, os mesmos erros continuaram a serem cometidos, e cada vez mais aprofundados e perigosos.

Onde entra São João Bosco nesse contexto? Tão ilustre santo foi um dos mais felizes homens da Igreja a realizar uma das missões da Esposa de Cristo; a santificação do mundo. D.Bosco levava para o meio profano a Verdade cristã, a moral católica, a doutrina da Santa Igreja, o fim era justamente levar os jovens a viverem de forma digna e piedosa a mensagem de Nosso Senhor. São João transportava hinos de louvores para as bandas, a oração do terço para os intervalos de suas estripulias, um sermão sobre a moral para uma conversa que se caminhava para o pecado, ou seja, sabia utilizar o lúdico, assim como as próprias armas do mundo para sacralizá-lo. O que ocorre atualmente é que muitos religiosos não mais compreendem a necessidade de tornar a sociedade santa, e ao contrário disto, levam o mundo para dentro da Igreja, consequentemente o fiel não mais discerne entre a realidade profana e o ambiente sacro, não tendo uma aspiração transcendente e de crescimento, o homem não consegue mais visualizar o seu desenvolvimento espiritual.

D. Bosco santificava o mundo, mas não mundanizava a Igreja, ele sabia que a Esposa de Cristo se alicerçava e fundamentava toda a sua Verdade na Revelação de Nosso Senhor, compreendia que quando havia uma invasão do profano para dentro das paróquias, seminários e noviciados, o que mais se atacava era a Tradição, a riqueza apostólica que enobrecia a Igreja, justamente por esse entendimento, e sabendo a respeito da missão cristã, D.Bosco nunca se pretendeu a utilizar os meios lúdicos, inerentes a juventude, misturados a Missa ou a vida religiosa, como forma de levar os jovens a piedade cristã. Vale frisar que São João Bosco tinha uma compreensão dos erros da sociedade; a invasão maçônica, o crescimento da influência protestante, o surgimento de ideologias libertárias, sofreu por defender a Igreja e o Papa, passou a ser retaliado pelos franco-maçons e hereges, e em meio ao espírito da unificação italiana, com seus ideais anti-católicos, se deparou cotidianamente com pensamentos contrários a Igreja. Atualmente estas doutrinas, ideologias, estão infiltradas na sociedade de forma muito mais profunda; ateísmo, liberalismo, marxismo, sexualismo, protestantismo, se antes a santificação era importante, e a mundanização maléfica, hoje a santificação é urgente, e a mundanização destrutiva.

Um fator importante na história de D.Bosco foi seus embates com os protestantes, estes passaram a perseguir o Santo, compreendiam o “mal” que causava; tornava os jovens piedosos católicos, o que impedia o crescimento de suas seitas. Existem muitos casos a respeito; o menino do Oratório que havia se tornado protestante, e que perto da morte, graças a D.Bosco, que travou uma luta com o pastor, retornou a Igreja. O Santo temia que morresse renegando a Religião, o que acarretaria na sua condenação, outra história é a do ministro protestante que se lançou numa discussão apologética com D.Bosco, mais saiu envergonhado e nervoso, isso sem contar as tentativas de assassinato (envenenamento, alvo de tiros e pauladas, ataques de gangues, etc), e suborno; eles queriam que o Santo parasse de escrever as Leituras Católicas, que se dedicasse à história ou a outro ramo, com a certeza que receberia uma “ajuda” monetária para seu Instituto.

D.Bosco “incomodava” os hereges porque defendia piedosamente a Igreja e o Papa, e fazia com que os jovens se tornassem fiéis e ortodoxos no seguimento da Doutrina e do Magistério.

Bem diferente dos ensinos de D.Bosco, a idéia de que a juventude não gosta de Missas bem celebradas, da piedade católica, é um clichê do pensamento modernista, não é que a juventude tenha aversão, mas ela passou a ser educada a não gostar, ou melhor, acreditar que não gosta. Posso falar da minha experiência pessoal, estudei em colégios católicos, e quando participava de uma liturgia, acreditava que aquela forma de se celebrar era a única existente, na verdade nem me preocupava com o rito, entretanto, posteriormente, quando aprofundei-me na fé, conheci a riqueza litúrgica da Igreja, e passei a compreender a necessidade da fidelidade ao Missal, depois de então, tornei-me um defensor árduo de uma Missa bem celebrada e digna. Movimentos como Legionários de Cristo (aos quais é ligado o Regnum Christi), Arautos do Evangelho e Toca de Assis , crescem de forma espetacular junto aos jovens, e se baseiam justamente na fidelidade ao Papa, e no cuidado do seguimento das normas litúrgicas, não por menos são odiados e repudiados por muitos que comungam de pensamentos “progressistas”.

Se o modernismo não tivesse se infiltrado nos ambientes católicos, disseminando a idéia de que é necessária uma “modernização” a qualquer custo da Missa, passando desrespeitosamente por cima das normas litúrgicas, renegando toda a riqueza apostólica, tratando a liturgia como se fosse uma posse particular, e não regida pelo Magistério, não haveria abusos nem exageros na Missa, afinal é intrínseco a transcendência, e esta é muito mais presente quando se existe fidelidade as normas, afinal estas remontam aos Apóstolos, e emanam do próprio Magistério, iluminado por Deus, não são meras criações humanas.

Os jovens devem ser levados para a Igreja não pela mundanização desta, mas pela santificação do mundo. Utilizar o caminho inverso ao usado por D.Bosco, pode até ser um meio mais rápido e prático, mas é perigoso e agressivo, já que a invasão da cultura profana no ambiente religioso agride e substitui milênios de riqueza apostólica e sacra.

D.Bosco levava para o dia-a-dia do jovem a Verdade cristã, a riqueza da Igreja, com isso não se pretendia a validar e ratificar todas as atitudes dos seus garotos como forma de ser querido e bem quisto, ao contrário, sabia da importância da educação pautando-se na moral católica e nos ensinamentos da Santa Igreja. O Santo se propunha a santificar as atitudes da juventude, seja levando orações para as brincadeiras, ou hinos de louvores para as suas famosas bandas e fanfarras, nunca pretendeu inverter os papéis, levar o cotidiano para a Igreja com forma de atração ou conquista, ou seja, compreendia claramente uma das missões essenciais da Esposa de Cristo; a Santificação do mundo, bem diferente de uma mundanização e perda de Tradição.

Quando os protestantes quiseram comprá-lo para acabar com suas santas publicações, D.Bosco disse: – Bem vejo que os senhores não sabem quem são os padres católicos, sempre prontos a dar a própria vida pela glória de Deus e pela salvação das almas.

Hoje podemos dizer que o mundo não conhece a verdadeira juventude católica, de quão piedosa e sincera pode ser na vivência da Verdade cristã iluminada pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Facebook Comments

Livros recomendados

Sermão da montanha, ODom Bosco MísticoOrar com os Salmos