O inútil feriado de Tiradentes ao menos é útil para dormir. Desta utilidade quis usufruir hoje, 21 de abril dos 2008 anos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Infelizmente, contudo, não logrei resultado em meu maquiavélico plano de uma boa “noite” de sono que pegasse direto até o meio-dia.

Aquele barulho de tesoura cortando a grama, de terra sendo bagunçada, cortadores de grama com seus motores ruidosos… Mexi-me e remexi-me na cama, cobri a cabeça com o travesseiro, mas não consegui vencer o inimigo do meu sono: o jardineiro. Rendi-me. Levantei-me.

Mas tão logo ponho os pés fora do quarto, vejo minha mãe entrar em casa num estado de náuseas. Aquele semblante enjoativo, de quem quer vomitar. Pergunto-lhe se passa mal. Ela me responde que sim: “Ouvi histórias horríveis agora…”

Curioso para saber que histórias seriam essas, que teriam levado minha mãe à beira da regurgitação de tudo que comera até aquele momento, sentei-me para comer alguma coisa – o estômago roncava e rogava pelo café da manh㠖 e esperei que me narrasse a epopéia que fizera pular e chacoalhar a comida dentro de si.

E quando começou a contar-me, confesso, quem sentiu chacoalhar até o que não tinha e não conseguiu mais comer fui eu.

A narrativa era de um infanticídio torpe, que tinha como personagem principal a prima do jardineiro… ou seu filho – se bem que no contexto brasileiro atual, onde os bebês são considerados apenas bolinhos de carne, é melhor tratarmos como personagem principal a prima do jardineiro. Sim, tratemos da prima do jardineiro.

A pobre coitada era uma criatura da roça. Vivia em sítio com toda o resto da família – pais, tios, primos, avós, cachorros dos avós, cavalos dos cunhados, e por aí vai – como toda volumosa família rural do agreste paraibano.

E esta pobre coitada estava grávida de 9 meses. O menininho que carregava na barriga fora fruto de uma brincadeirinha se maiores pretensões, filho de uma pisadela e um beliscão, como disse certa vez um nome da literatura nacional. Mas claro que nós sabemos que hoje em dia essas “brincadeirinhas sem maiores pretensões” acabam levando ao alargamento do útero e ao desenvolvimento, lá dentro, de uma vidinha pequenininha e bonitinha.

Mas neste momento algo estranho acontece! A prima do jardineiro começa a sentir um rebuliço na barriga, que vai se moldando para uma pontadinha ali, outra acolá, e logo começam as dores: a vidinha pequenina que está lá dentro considera que já se desenvolveu suficientemente, que já está na hora de sair para o mundo, e nele continuar sua trajetória épica de vitória e derrotas por muitos e muitos anos.

A moça ficou logo agitada. Disse aos outros familiares – menos aos cachorros dos avós e aos cavalos dos cunhados – que sairia um pouco, para tomar um ar e também para urinar. A criatura saiu correndo, segurando a barriga. Não agüentando de dores, segurou-se numa cerca do sítio e agachou-se. A vidinha saiu ali.

O menininho começou a chorar, o primeiro brado de clamor pela vida, um grito de quem ainda não sabe falar: “Venci! Estou aqui! Vivi!”

Com uma pedra pontuda, a moça cortou o cordão umbilical do menino. Elevou-o à altura dos olhos e examinou-o. O filho de uma pisadela e de um beliscão, de uma brincadeirinha sem maiores proporções. Ele não devia estar ali: ela já o teria abortado antes, mas não pôde fazê-lo por motivos que desconheço.

Ainda segurando o filho nos braços, a moça levantou-se, sempre se apoiando na cerca ao seu lado. E quando viu que esta era a cerca do chiqueiro – onde os porcos rolavam na lama, agora gordos como nunca, só esperando para dar uma carne gostosa para seus donos – ela logo teve uma idéia!

Claro que foi tudo muito automático e momentâneo: ela estendeu os braço e jogou o menininho no chiqueiro. Se segurou na cerca e ficou a olhar.

Com a queda, o bebezinho começou a chorar mais intensamente. E logo chegou o primeiro porco ou porca, não sei; só sei que atraído pelo odor de sangue no menino e pelo barulho tão alto seu choro, o animal se aproximou e começou a cheirar. Cheirou uma vez. Cheirou de novo.

E aí, de uma mordida só, arrancou a cabeça do menino e levou-a para os outros porcos. Não é preciso dizer que logo a criancinha parou de chorar: estava morta.

Um ou outro porco se aproximou também, e levaram outros pedaços do corpinho do menino, mascando entre os dentes a carne daquilo que não sabiam o que era, só sabiam que era carne, e saborosa carne. No final só sobrou um braço do menino, mas não por muito tempo: um leitão veio e pegou.

A mãe virou-se e foi embora.

Por mais diabólica que seja a cena, ela foi real. Garanto. Dou minha palavra de que ouvi essa história hoje, dia de Tiradentes, e fui abordado por uma raiva e horror tão grandes, que realmente quase me caiam os dentes ao rangê-los.

E neste momento da história do Brasil, em que se fala tanto de julgamento, de terceiras pessoas, de perícias… Imaginei como seria o julgamento sobre a morte daquela criaturinha que não tivera a chance de viver: comida por porcos.

Um julgamento dos porcos.

Sim, foram eles os culpados diretos pela morte do menino.

Foi um porco ou porca que foi lá, cheirou a criança e, de um golpe só – ou mordida -, arrancou-lhe a cabeça e mascou-a na boca. Foram porcos que arrancaram pedacinhos do menino, pouco a pouco destroçando seu corpo – para eles apenas um bolinho de carne.

Mas o porcos podem ser culpados?

Ou os culpados serão na verdade aqueles que, numa sociedade de morte e rancor, entregam uma criança a uma morte tão torpe e cruel???

Pois os porcos eram, sim, irracionais: para eles aquela criança era só um bolinho de carne.

E aqueles homens e mulheres que consideram estas criancinhas também apenas um bolinho de carne: não são tão irracionais quanto os porcos???

Estes merecem, pois, ser julgados como os porcos: merecem ser julgados como seres irracionais.

Pois, os fatos demonstram, é isso que são.

Facebook Comments

Livros recomendados

Joana d’Arc – A Donzela de OrléansUma Teologia da HistóriaEstudos sobre o amor