Artigos (por Carlos Ramalhete)

O mandato dos Céus

Um amigo me contou que, na cidadezinha onde fora criado, os bêbados inconvenientes que armavam confusão durante o carnaval eram deixados “de molho” na delegacia para curar a bebedeira, sendo liberados na hora de ir à missa de Quarta-Feira de Cinzas. Em geral ainda fantasiados, eles entravam na fila para receber as cinzas penitenciais.

Este papel da Igreja de guardiã de uma ordem maior, infelizmente, foi deixado de lado pelo clero ao longo das últimas décadas. Ora, em toda sociedade sempre houve um apelo “aos Céus que dão o mandato ao governante”, como dizia Confúcio, ou um culto público, como o greco-romano. Até mesmo os iconoclastas da Revolução Francesa apelavam a uma “deusa Razão”, superior aos egoísmos particulares e às “razões de Estado” públicas.

A nossa sociedade está fazendo uma experiência inédita ao tentar gerir uma ordem social que não se percebe ligada de forma alguma a algo mais transcendente. Daí a impossibilidade de se chegar até mesmo a um acordo acerca do que seja esta ordem pública. É ordem pública que os ladrões sejam presos e permaneçam presos? A maioria da população – a mesma maioria que ainda percebe a necessidade de submissão da sociedade a uma ordem que transcenda o meramente material – acha que sim. Os militantes de esquerda acham que não, e eles estão no poder.

O que se está tentando criar é uma sociedade cuja ordem é composta pela interação entre miríades de razões particulares – de raça, de opinião, de preferência sexual, de consumo de substâncias lícitas ou ilícitas etc. – e uma sempre cambiante razão de Estado. Não é necessário dizer que todas essas razões são no mínimo contraditórias umas às outras, quando não abertamente contrárias. Qualquer “ordem” que saia disso acaba sendo, em última instância, uma espécie de lei da selva, em que o mais forte – seja por conexões partidárias, seja por músculos ou armas – sempre há de vencer. Não é uma ordem, mas uma guerra. Não é uma sociedade, mas um campo de batalha social.

As vítimas somos todos nós, especialmente os mais indefesos: as crianças – dentro ou fora da barriga da mãe –, as mulheres, os idosos, os deficientes, as minorias… Não é uma experiência que possa levar a uma sociedade justa, mesmo porque os mecanismos de defesa disponíveis aos mais fracos são necessariamente limitados. Os mesmos que hoje são protegidos pelo Estado são cada vez mais atacados por particulares, enquanto o Estado se estica tentando impor suas razões a todo um povo.

Que os Céus tenham piedade de nós.

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