“Plano de saúde” é um nome errado: na verdade, trata-se de um plano de doença. Planejamos ficar doentes e pagamos adiantadamente, mês a mês, a mesma fortuna que pagaríamos quando da doença propriamente dita. É uma aposta em muito semelhante à dos seguros de vida, em que apostamos que morreremos dentro daquele curto prazo; ou dos seguros de automóveis, em que apostamos que teremos um acidente ou o carro roubado.

Todas essas formas de apostas, todavia, têm em comum o fato de o outro apostador – aquele que ganha quando perdemos e perde quando ganhamos – ser uma gigantesca companhia. Não é como se apostássemos com um amigo uma garrafa de uísque. Podemos esperar dificuldades enormes para receber o que nos é de direito. Será sempre um parto dolorido para arrancar da companhia o que nos devem – tratamento, dinheiro, o que for.

Por estes dias, passei mais uma vez por esta experiência: minha filha caiu doente, e o plano de saúde – uma companhia que leva mensalmente um quarto da minha renda, pago sempre rigorosamente em dia – inventando desculpas. A solução foi sair do campo de jogo deles. Nada de esperar ou pedir! Aproveitando a pujante pós-modernidade que nos cerca, pedi socorro nas redes sociais; em poucas horas tudo foi autorizado, e logo depois o pessoal do atendimento ao cliente ligava, cheio de dedos, querendo entender por que milhares de pessoas haviam escrito a eles em meu favor.

Fala-se muito, hoje em dia, de democracia direta; este não deixa de ser um exemplo dela. As manifestações individuais, somadas, chegaram a um ponto em que não podiam mais ser ignoradas. Incomodaram, cutucaram, talvez mais que uma ordem judicial. Ordem judicial se cumpre, sem que se tente sequer entendê-la; milhares de e-mails sinalizam milhares de pessoas que passaram a ter uma visão negativa da companhia. Pessoas que talvez não mais queiram apostar com ela que ficarão doentes. Isso, caros amigos, é o mercado em ação.

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