O messianismo judaico

O Messias

O termo “messias”, em hebraico “mashiah”, significa o mesmo que “Cristo”, em grego: ungido. A unção com óleo era tradicionalmente o meio pelo qual era confirmada a autoridade de um Rei no Oriente, como no caso dos reis de Israel (1Rs/Sm 10,1: “E Samuel tomou um pequeno vaso de óleo, e derramou-o sobre a cabeça de Saul, e o beijou, e disse: Eis que o Senhor te ungiu por príncipe sobre a sua herança, e tu livrarás o seu povo das mãos dos seus inimigos, que o cercam. Este será para ti o sinal de que Deus te ungiu príncipe”). Do mesmo modo, era já pela unção com óleo que eram consagrados os utensílios litúrgicos dos sacrifícios cruentos da Antiga Aliança

O emprego do termo “ungido”, porém, rapidamente passou a ter um uso também metafórico, significando o escolhido de Deus, aquele que cumpriria a missão divina. Aos poucos o povo judeu foi percebendo que aquelas pessoas que foram “ungidas” por Deus, ou que eram tratadas como ungidas nos textos sagrados eram na verdade uma figura, uma preparação, para o Messias, o Cristo que estaria por vir, que passou a ser ansiosamente esperado.

E quando viria este Cristo? No momento em que Israel mais dele precisasse.

E eis que chega um tempo em que Israel está realmente precisando: o tempo de Cristo.

Ano Zero

Jerusalém havia caído em mãos romanas em 63 a.C.; os coletores de impostos e os militares romanos eram um peso nas costas do Povo. Grande parte do povo judeu estava espalhado pelo mundo, e mesmo na Terra Prometida, explorada e empobrecida, viviam sob o domínio do pagãos. A esperança de Israel era o Messias.

O Povo Judeu, dividido em seitas rivais ou inimigas, sofria o jugo de outros povos, que embora perversos pareciam ser mais bem tratados por Deus. Uma tal situação, é claro, clamava pela intervenção divina.

Neste difícil momento da história judaica, surgiu toda uma abundante produção de literatura apocalíptica, descrevendo a redenção pelo Messias e o fim do sofrimento, com o justiciamento dos inimigos.

Muitas eram as seitas naquele tempo. Entre elas, contudo, contamos algumas de maior importância:

– Os Essênios;

– Os Fariseus;

– Os Saduceus;

– Os Zelotas.

Os Essênios

Em 1947, uma ovelha desgarrada do rebanho saiu em disparada pelas íngremes encostas da costa norte do Mar Morto. Seu pastor, Muhammad Dib, como era seu dever, saiu atrás dela. Buscou-a por horas, até vislumbrar uma caverna onde talvez tivesse entrado a ovelha. Jogou uma pedra na caverna para checar, ouvindo então um barulho sonoro de louça.

Voltando mais tarde com dois companheiros, ele descobriu estar a caverna cheia de cântaros contendo… papel. Rolos antigos com caracteres para ele desconhecidos.

Assim voltou ao mundo a biblioteca do mosteiro essênio de Qumram, fechada em 68 d.C. Textos bíblicos mil anos mais antigos que os textos massoréticos então em uso e textos catequéticos da comunidade essênia voltaram a ser estudados. Por estes textos, tornou-se possível descobrir dados sobre a seita muito mais profundos que os disponíveis até então, como os relatos de Flávio José, Plínio o Velho e Fílon de Alexandria.

Infelizmente a descoberta não foi tão bem preservada quanto deveria; os beduínos da região descobriram que os pesquisadores pagavam bem também por pedacinhos de papel, e para ganhar mais dinheiro picaram documentos valiosíssimos até ficarem do tamanho de confetes.

Descobriu-se porém que a regra de vida dos essênios era muito parecida com as regras monásticas cristãs. O candidato passava um ano em postulantado, passando então por um banho ritual de purificação (a assiduidade aos banhos rituais era um ponto central da filosofia de vida essênia) e iniciado para mais um ano, durante o qual ainda não unia seus bens aos da seita. Ao término deste período era então considerado membro, partilhando totalmente da comunhão de bens entre os membros e da vida religiosa.

O essenismo originalmente era dividido em duas ordens, uma para os casados e outra para os celibatários. A primeira, entretanto, acabou muito mais cedo que a outra, que perpetuou-se por séculos apenas com as novas adesões.

O credo essênio, contudo, não era semelhante ao cristão. Eles acreditavam, segundo Flávio José, que a alma eterna, de natureza boa, por consequência de um pecado original tinha se “sujado”, sendo então punida com a encarnação. A vida na terra, portanto, era a ocasião de libertar-se de todo tipo de impureza, para libertar-se do corpo e voltar ao estado de graça.

A preocupação com a pureza legal era algo fortíssimo entre os essênios, que consideravam qualquer tipo de contato com impuros (não essênios…) perigoso. Eles julgavam serem apenas eles os herdeiros da Aliança de Deus com os homens, devendo todos os outros, especialmente os ligados ao templo de Jerusalém, ser considerados impuros e conspurcados. Para eles, seria necessário limpar-se de toda espécie de pecado ou impureza, através de banhos rituais e estudo.

Eles consideravam (com razão, aliás) que os sacerdotes do Templo de Jerusalém não eram verdadeiramente sacerdotes de correta linhagem de Aarão, mas erroneamente deduziam daí que o Templo fora conspurcado além da possibilidade de purificação, e que melhor seria viver seguindo as normas usadas pelos hebreus antes de adentrarem a Terra Prometida.

Os essênios também esperavam por um Messias. A sua exegese e justificação bíblica da crença, contudo, eram bastante diferentes da visão apocalíptica de outros grupos, que via na chegada do Messias mais um período de prosperidade geral dos judeus que realmente uma santificação de toda a Terra.

Eles acreditavam ter Deus escolhido apenas a sua comunidade para a salvação, devendo Ele derrubar o Templo impuro de Jerusalém e instaurar uma era de harmonia e justiça após uma guerra escatológica em que o Messias os lideraria contra os sacerdotes do Templo. Em um de seus documentos, o Testamento de Levi, encontramos uma belíssima descrição do papel do Messias posta na boca de Levi:

“Após a vinda do castigo dos malvados, o Sacerdócio desaparecerá;
O Senhor suscitará um novo Sacerdote.
A ele serão reveladas todas as palavras do Senhor.
Sua estrela irá elevar-se pelos céus como a de um rei,
Brilhando da luz da Sabedoria, como o Sol, o dia,
E Ele será exaltado pelo mundo.
Ele brilhará como o Sol sobre a terra, espantando todas as trevas abaixo dos céus,
Haverá então paz por toda a terra, os céus exultarão em seus dias
E as nuvens irão rejubilar-se,
E os anjos da Glória da Presença do Senhor serão nele felizes.
Os céus irão se abrir
E do Templo de Glória virá a Sua santificação
e a voz do Pai como a de Abraão a Isaac;
E a Glória do Altíssimo será sobre ele proclamada,
E o espírito de inteligência e de santificação repousará sobre ele;
Pois ele dará a Majestade do Senhor a seus Filhos na verdade para sempre.
Sob seu sacerdócio, os pagãos aumentarão em conhecimento por sobre a terra;
Eles serão iluminados pela Graça do Senhor,
Sob seu sacerdócio, o pecado acabará
E os ímpios não mais farão o mal.
Ele então abrirá as portas do Paraíso
E afastará a espada que ameaçava Adão.
Ele dará aos Santos para comer a Árvore da Vida
E o Espírito Santo estará sobre eles
E Belial por eles será acorrentado.
Ele dará poder a seus filhos para afastar os espíritos malvados.
O Senhor irá rejubilar-se em Seus filhos,
E irá para sempre se comprazer naqueles por Ele amados.
Então Abraão, Isaac e Jacob exultarão
e estarei feliz
E todos os Santos irão revestir-se de alegria”

Ainda que hajam muitos pontos em comum com a crença cristã no Messias, o excessivo temor à “impureza” por parte dos essênios faria com que eles jamais fossem capazes de reconhecer em Jesus o Messias, por andar ele entre os pecadores.

O mosteiro de Qumram foi destruído quando da guerra de setenta, mais ou menos na mesma época da destruição do Templo. Os monges desapareceram, ainda que tenha havido luta na área do mosteiro, e a biblioteca, por eles previamente acondicionada e escondida em uma caverna, esperou quase vinte séculos para voltar ao uso.

Os Fariseus

Os fariseus eram a seita de maior representatividade na Palestina do ano 0, e os precursores do judaísmo ta como o conhecemos hoje. Ferrenhos defensores da Lei, seu maior interesse era a preservação da Aliança e a fidelidade à Palavra Divina. Era a eles que S. Paulo se referia ao dizer que o Cristo crucificado para os judeus é escândalo (1Cor 1,23).

Para os fariseus,a Torá (a Sagrada Escritura) era a distinção entre Israel e o outros povos, o que fazia com que nada houvesse mais importante que ela. Apesar de seu apego às práticas do Templo (por serem prescritas na Lei), os fariseus foram os únicos a sobreviver mantendo a sua identidade judaica, estando a sua doutrina na base de quase todos os judaísmos atuais. Foram os fariseus a base do judaísmo rabínico, que julga ser necessário proteger e servir à Torá pela especificação e exegese minuciosa de seu conteúdo.

Como para os fariseus uma especificação adequada aos tempos que pudesse ser extraída da Torá seria uma lei válida e um presente de Deus aos homens, eles buscavam estudar as Escrituras para discernir nela novas regras de vida e prescrições rituais que mais agradassem a Deus.

Considerando que o pecado era cometido em ato apenas, e não na intenção (o que levaria à situação de alguén poder cometer um pecado mortal sem se dar conta disso), eles procuranavm “erigir uma cerca em volta da Lei”, proibindo comportamentos que poderiam levar por acidente a quebrar inadvertidamente uma Lei. Assim, por exemplo, foram eles a instituir a proibição de usar a mesma panela, pratos, garfos, etc., para comer carne e leite ou seus derivados, para que não fosse inadvertidamente quebrada a proibição de cozinhar o filhote no leite da mãe. Assim, o risco de uma panela mal lavada conter uma gota minúscula do leite da mãe e nele ser cozida inadvertidamente a carne do filhote era evitado. São essas as “tradições de homens” a que se refere Nosso Senhor Jesus Cristo ao admoestar os fariseus, por Ele contrapostas às verdadeiras Tradições de origem divina.

Em contraposição ao judaísmo rabínico da Diáspora, o farisaísmo palestino dava uma grande importância à existência pessoal e individual de Deus, não se deixando contaminar pela filosofia grega. Devido às terríveis circunstâncias que então afligiam Israel, havia também no seio do farisaísmo um certo messianismo apocalíptico. Para eles, entretanto, um Messias que não os libertasse do jugo romano não seria um verdadeiro Messias. O Messias, para os fariseus, seria um rei libertador, que, através das armas e/ou de sua poderosa vontade, libertaria a todos os judeus, massacrando o inimigo.

A maior parte da literatura apocalíptica da época circulava em meio farisaico. Eles tinham muitas escolas de pensamento, sendo as mais importantes a de Hillel e a de Shammai; havia, entretanto, diferenças de interpretação também entre um rabino e outro da mesma escola.

Ao contrário dos saduceus, os fariseus percebiam a existência de uma Lei Oral, com tanto valor quanto a Lei Escrita.

Suas diferenças com o saduceísmo não impediam que buscassem sempre participar de todas as cerimônias no Templo, oferecendo sacrifícios e aceitando, assim, a função sacerdotal saducéia.

Depois da queda do Templo, os rabinos fariseus empreenderam uma grande luta pela manutenção do judaísmo, recriando a religião e organizando-a em bases escripturais para que pudesse sobreviver sem o Templo. Neste afã, eles lutaram por todos os meios possíveis contra todas as tendências por eles vistas como heréticas, entre elas o Cristianismo.

Os Saduceus

Os saduceus eram a hierarquia sacerdotal de Jerusalém. Sobre eles temos poucos dados, uma vez que a maior parte dos escritos sobre eles foi feita por seus adversários (cristãos, fariseus e essênios), mas sabemos que sua principal preocupação era manter funcionando o Templo, ainda que isso implicasse em uma solução de compromisso com os romanos. Os pontos cruciais de sua diferença com as outras seitas judaicas era a não aceitação da Tradição Oral; eles eram, em termos doutrinários, os “protestantes” de sua época, acreditando que apenas a Sagrada Escritura é Palavra de Deus.

O Sinédrio, assembléia de notáveis que governava a vida religiosa e nacional judaica sob a dominação romana, tinha sempre em sua direção um saduceu, ainda que a maior parte dos membros acabasse por ser farisaica.

Os saduceus traçavam a sua origem desde Sadoc, sacerdote que servira no tempo de Davi e Salomão. Qualquer saduceu que desejasse casar-se com um judeu não-saduceu era obrigado e efetuar um estudo minucioso da genealogia do noivo, sendo descartadas quaisquer possibilidades de casamento se fosse descoberta alguma “impureza” (como um antepassado prosélito). Desde 539 a.C., apenas sacerdotes saduceus poderiam ser Sumo-Sacerdotes, com uma breve pausa durante a guerra dos Macabeus, em que Hasmoneus ocuparam o trono (levando, segundo os essênios, a uma conspurcação). Os Sumo-Sacerdotes recebiam ao mesmo tempo a supremacia espiritual e política sobre o povo judeu, por não mais haver uma realeza. Os sacerdotes de graus mais inferiores poderiam não ser saduceus, ainda que isto implicasse em uma série de limitações quanto à sua liberdade de exercer prescrições rituais. Devido a esta dupla posição, simultaneamente religiosa e política, os saduceus consideravam ser seu dever realizar uma política de assimilação e amizade com a potência romana invasora, permitindo assim a liberdade de culto para Israel.

Esta assimilação, entretanto, levou a graves dissensões internas no seio do judaísmo. Muitos judeus consideraram blasfêmia a aceitação pelo Templo de oficiar sacrifícios em honra do Imperador romano, que era, evidentemente, pagão. O calendário lunar empregado no Templo, contando com um ano de 354 dias, era por muitos considerado falso, sendo contrastado com os 364 dias do calendário solar observado até o século II a.C.; esta questão foi outro dos pontos-chave na separação das comunidades essênias.

A doutrina saducéia, porém, negava completamente toda a escatologia corrente nas outras seitas, sendo firmemente combatida neste ponto por todas elas. Eles pregavam a inexistência dos anjos e a mortalidade da alma, sendo portanto contrários à noção de ressurreição dos mortos. Jesus frequentemente combate seus pontos de vista como errôneos.

Os saduceus foram exterminados pelos romanos quando da destruição do Templo.

Os Zelotas

Os zelotas eram um grupo cuja visão religiosa era mais parecida com a dos saduceus, mas que tinham um ponto crucial de diferença: para eles, a independência de Israel e o fim da ocupação romana eram uma obrigação religiosa.

Não importava tanto para eles se uns acreditavam na Ressurreição e outros não; para um zelota, o que importava era que se fizesse algo contra a dominação estrangeira e que Israel fosse novamente um país independente. Eles esperavam um Messias, visto por eles como um guerreiro que viria para conduzi-los contra os romanos, mas não produziam literatura apocalíptica nem tinham grandes esperanças de ajuda sobrenatural em sua batalha.

Poderíamos talvez, com as devidas diferenças, compará-los hoje aos adeptos da “Teologia da Libertação”, que não se preocupam com doutrina, desde que haja uma ação prática de ajuste social.

Pouco depois da destruição do templo os zelotas sobreviventes encontraram seu Messias, que aliás foi reconhecido como Messias também por muitos fariseus: Bar-Kochba, o “filho da estrela”.

E veio Jesus, o Cristo

Era esta a situação da Terra Santa quando chegou o Cristo, o Messias esperado por tanto tempo.

Nascido em Belém, criado em Nazaré, Jesus, Verdadeiro Homem e Verdadeiro Deus, anunciado pelos Profetas e esperado pelo povo judeu.

Mas seria realmente Ele o esperado pelo povo judeu? Sim e não.

Foi sem dúvida Ele a ser anunciado pelos Profetas, foi sem dúvida Ele a resposta amantíssima de Deus Pai aos homens.

Mas Ele não era o guerreiro poderoso, temido pelos romanos e libertador temporal de seu povo que zelotas e fariseus esperavam, nem o líder guerreiro e purificador ritual que os essênios esperavam. Sua libertação é de outra espécie, é Libertação da raiz, da origem, daquela escravidão que acometia o povo: Ele veio para nos libertar do Pecado, para nos dar a filiação adotiva divina que jamais poderíamos conquistar por nossa própria natureza, para nos dar a possibilidade de sermos realmente felizes, e felizes por toda a Eternidade.

Grande parte do povo judeu, porém, não o aceitou.

Nas palavras de São Paulo: “Que diremos, pois? Que os Gentios, que não seguiam a justiça, abraçaram a Justiça, aquela Justiça que vem da Fé. Mas Israel, que seguia a Lei da justiça, não chegou à lei da Justiça. Por que causa? Porque procurou atingi-la não pela fé, mas, como se lhe fosse possível, pelas obras [da Lei de Moisés]. (…) Que diremos, pois? Diremos que Israel não conseguiu o que buscava; mas conseguiram-no os escolhidos por Deus, enquanto que os outros foram obcecados por sua malícia, como está escrito: Deus deu-lhes um espírito de torpor; olhos para que não vejam e ouvidos para que não ouçam, até ao dia de hoje. E Davi diz: A mesa deles se lhes converta em laço, e em prisão, e em escândalo, e isto seja para seu justo castigo. Escurecidos sejam os seus olhos para que não vejam, e esteja sempre curvado o seu dorso sob o peso da Lei [de Moisés].” (Rm 9,30-32; 11,7-10)

A causa desta recusa, portanto, pode ser encontrada no texto de São Paulo que citei acima. Mas e quanto aos meios desta recusa, ou seja, as razões que os judeus deram para não aceitar ao Cristo Jesus?

A razão principal foi o fato de Jesus não ter cumprido as expectativastemporais dos judeus. Eles esperavam um Cristo guerreiro, que viesse destruir a dominação romana e estabelecer um reino temporal. Apesar da profecia de que ele entraria em Jerusalém montado em um burrico, apesar de todas as profecias atestando a Paixão e Morte de Cristo, a situação social dos judeus fazia com que cada vez mais houvesse uma ânsia em seu meio por um Messias temporal, forte e guerreiro.

Eles esperavam uma conversão imediata e visível de todos os povos; esperavam que os judeus voltassem todos fisicamente para a Terra Prometida, para lá reinar sobre as nações; esperavam que os romanos fossem expulsos; esperavam que o Céu se abrisse e todos passassem a obedecer imediatamente às Leis de Deus.

E não queriam ver, nao podiam ver!, a beleza completa da obra do Cristo de Deus, do Messias que, conforme já haviam dito os profetas, morreria na Cruz.

Seguem algumas das muitíssimas profecias do Antigo Testamento referentes à Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo:

Salmos:

Sl 68,2-4 (Agonia no Horto das Oliveiras);
Sl 87,17-18 (Agonia no Horto das Oliveiras);
Sl 37,18 (Agonia no Horto das Oliveiras);
Sl 39,133 (Agonia no Horto das Oliveiras);
Sl 68,21 (Agonia no Horto das Oliveiras);
Sl 40,10 (Beijo de Judas);
Sl 26,12 (Falsas testemunhas no Julgamento de Nosso Senhor);
Sl 68-8-9 (Flagelação de Nosso Senhor após o primeiro julgamento);
Sl 39,10-12 (Interrogatório de Nosso Senhor pelo Sinédrio – cf. Lc22,66-70);
Sl 21,17 (Interrogatório de Nosso Senhor pelo Sinédrio – cf. Lc22,66-70);
Sl 108,7-8,12-13 (Julgamento de Nosso Senhor – cf.Mt 27,3-5, 9-10);
Sl 2,1-2 (Julgamento de Nosso Senhor – Lc 23,10-12);
Sl 128,3 ( – Flagelação de Nosso Senhor – Cf. Jo 19,1);
Sl 72,14 ( – Flagelação de Nosso Senhor – Cf. Jo 19,1);
Sl 68,27, 31,4 (Coroação de Espinhos);
Sl 72,13 (Pilatos lava as mãos – Mt. 27,24);
Sl 83,6,10,13 (Sexta Estação da Via Crucis – Santa Verônica enxuga o rosto de Nosso Senhor);
Sl 4,7 (Sexta Estação da Via Crucis – Santa Verônica enxuga o rosto de Nosso Senhor);
Sl 21,17-19 (Os soldados tiram à sorte a túnica do Senhor – Cf. Mc 15,24 e Mt 27,35-36);
Sl 21,8-9 (Zombam do Senhor e dizem-n’O para Salvar-Se – Cf. Mt 27,40; Mc 15,29; Lc 23,35);
Sl 67,19 (São Dimas, o Bom Ladrão);
Sl 87,10 (Jesus invoca o Pai, na Cruz – “Eli, Eli, lama sabactani” – Cf. Mc 15,34);
Sl 41,10 (Jesus invoca o Pai, na Cruz – “Eli, Eli, lama sabactani” – Cf. Mc 15,34);
Sl 21,15-16 (Nosso Senhor na Cruz tem sede e dão-lhe vinagre a beber – Cf. Jo 19,28; Mt 27,48);
Sl 68,22 (Nosso Senhor na Cruz tem sede e dão-lhe vinagre a beber – Cf. Jo 19,28; Mt 27,48);
Sl 30,6 (“Senhor, em Vossas mãos Eu entrego Meu Espírito” – Cf. Lc 23,46);
Sl 87,5-7 (Nosso Senhor é sepultado – Cf. Jo 19,41-42).

Isaías:

Is 63,5 (“Então os Seus discípulos, abandonando-O, fugiram todos” – Mc 14,50);
Is 33,7 (Nosso Senhor chora e é confortado por um anjo – Cf. Lc 22,43);
Is 22,45 (Agonia no Horto das Oliveiras);
Is 63,1-4 (Nosso Senhor sua sangue – Cf. Lc 22,44);
Is 50,6 (Flagelação de Nosso Senhor, após o primeiro julgamento);
Is 53,7 (Mc 15,3-5);
Is 1,6 (Chicoteamento);
Is 22,18 (Coroação de Espinhos);
Is 53,2-5 (“Eis o homem!” – Cf. Jo.19,4-6);
Is 53,11 (Nosso Senhor toma a cruz – Cf. Jo 19,17);
Is 10,27, (Simão o Cirineu ajuda Nosso Senhor a carregar a Cruz – Cf. Mt.27,32; Lc 23,26);
Is 53,12 (Nosso Senhor é crucificado entre bandidos – Cf. Mc 15,27-28);
Is 8,21 (Nosso Senhor é elevado na Cruz – Cf. Lc 23,38,Jo 19,19);
Is 5,26 (Nosso Senhor é elevado na Cruz – Cf. Lc 23,38,Jo 19,19);
Is 53,12 (Nosso Senhor é sepultado no túmulo de um poderoso após ter morrido na Cruz – Cf. Lc 23,53).

Ezequiel:

Ez 23,34 (Nosso Senhor pede que seja d’Ele afastado este cálice – Cf. Mc 14,36 e Mt 26,39);
Ez 3,25 (Prisão no Horto das Oliveiras);
Ez 32,7-8 (O céu se escurece em pleno dia – Cf. Lc 23,44).

Jeremias:

Jr 47,6 (Nosso Senhor manda São Pedro embainhar a espada – Cf. Jo 18,10-11);
Jr 5,12 (Julgamento de Nosso Senhor);
Jr 26,14-15 (A multidão pede que o Sangue de Cristo caia sobre eles – Cf. Mt.27,25);
Jr 10,19-20 (Rasga-se a cortina do Santo dos Santos – Cf. Mt 27,51).

Lamentações de Jeremias:

Lm 3,45 (A multidão escolhe tornar-se amaldiçoada ao soltar Barrabás – Cf. Mc 15,8;6 e Mt 27,17,20);
Lm 3,36,37 (Pilatos, apesar dos apelos de sua mulher, cede à pressão do povo – Cf. Mt. 27,19);
Lm 2,13 (Quarta Estação da Via Crucis – Nosso Senhor encontra a Virgem Santíssima);
Lm 2,10-11 (Oitava Estação da Via Crucis – Choram as mulheres de Jerusalém);
Lm 2,15 (Zombam de Nosso Senhor – Cf. Mc 15,29; Mt 27,40; Lc 23,35);
Lm 3,8 (Jesus invoca o Pai, na Cruz – “Eli, Eli, lama sabactani” – Cf. Mc 15,34);
Lm 3,7,6 (Nosso Senhor é sepultado – Cf. Jo 19,41-42);
Lm 1,15-16 (Nossa Senhora sepultando Seu Divino Filho).

Zacarias:

Zc 13,7 (Prisão no Horto);
Zc 11,12-13 (O Senhor é vendido por trinta dinheiros – Cf. Mt 27,3-10);
Zc 12,10 (Nosso Senhor é ferido no Lado – Cf. Jo 19,31-34,36).

Jó:

Jó 16,19-20 (Nosso Senhor sua sangue no Horto das Oliveiras);
Jó 16,9-10 (Julgamento de Nosso Senhor – Cf. Mc 14,53, 56; Mt 26,60);
Jó 8,18 (Negação de São Pedro);
Jó 16,11;17 (Flagelação de Nosso Senhor após o primeiro julgamento);
Jó 30,30 (Nosso Senhor na Cruz tem sede e dão-lhe vinagre a beber – Cf. Jo 19,28; Mt 27,48).

Sabedoria:

Sb 2,13 (Julgamento de Nosso Senhor, acusado de blasfêmia por afirmar-Se Filho de Deus);
Sb 2,17-20 (Zombam do Senhor e dizem-n’O para Salvar-Se – Cf. Mt 27,40; Mc 15,29; Lc 23,35);
Sb 17,3 (A multidão percebe o mal que fizera ao crucificar o Senhor – Cf. Lc 23,48);

Cântico dos Cânticos:

Ct 1,12 (Nosso Senhor é sepultado em lençois perfumados – Cf. Jo 19,39-40);

Rute:

Rt 1,20-21 (Nossa Senhora volta do Calvário)

A Igreja nascente e os judeus

A Igreja, contudo, prosperava e crescia, convertendo aos milhares tanto judeus (como o próprio São Paulo) quanto pagãos.

Nos primeiros tempos da Igreja, não havia uma nítida distinção entre as duas religiões; o cristianismo enfatizava ser a verdadeira Fé judaica, tendo reconhecido o Messias da Casa de Davi, enviado por Deus para a Salvação de Israel. As conversões eram principalmente voltadas para o meio judaico (Cf. At 9,20; At 13,14; At 18,4…), ainda que após o Concílio de Jerusalém a dispensa da circuncisão tenha feito com que o judaísmo começasse a separar-se da Igreja.

Até mesmo após este Concílio, o proselitismo cristão no meio judaico continuou, havendo muitas igrejas formadas apenas por judeus-cristãos circuncisos e seguidores da Lei. Eles seguiam a sucessão apostólica de São Tiago, possuindo muitos evangelhos apócrifos (como o Evangelho dos Hebreus, de Tomé, de Tiago…) que para eles justificavam seu reconhecimento de S. Tiago como mais “justo” que S. Pedro.

Mesmo assim, a primazia de S. Pedro era por muitos reconhecida, como nas Homilias Clementinas, em que na segunda carta de “Clemente a Tiago, Senhor e Bispo dos Bispos, que ainda rege a Santa Igreja dos hebreus de Jerusalém”, Clemente comunica a Tiago que São “Pedro pela veracidade da fé e pela firmeza de sua doutrina é definido como a base a o fundamento da Igreja… primícia de Nosso Senhor, chefe dos Apóstolos, a quem por primeiro o Pai revelou o Filho e que Jesus merecidamente proclamou bem-aventurado e, antes de morrer, elegeu Bispo com o encargo de notificá-lo a Tiago, irmão do Senhor”.

A questão das disputas entre os cristãos de origem pagã e de origem judaica, contudo, foi mais longe que estas primeiras heresias judaizantes.

A destruição do Templo e as revoltas contra Roma

“Quando virdes, pois, que Jerusalém é sitiada por um exército, sabei que está próxima a sua desolação” (Lc 21,20).

O cerco e a destruição de Jerusalém; confronto da Igreja nascente com o nacionalismo judeu

A população judia não-cristã da Palestina estava agitada por muitos movimentos messiânicos de natureza política na segunda metade do século I. Uma guerra de independência contra a potência invasora romana foi então encetada, com trágicos resultados. Aproveitando momentos de confusão política no interior do Império Romano, o judaísmo palestino lutou pela sua emancipação política.

As loucuras do poder central romano, entretanto, não foram suficientes para assegurar uma vitória do movimento emancipacionista judeu. A rebelião foi sufocada, e o general romano Vespasiano venceu o exército judeu.

O comandante judeu José ben-Matatias foi tido por perdido na batalha de Jotapata, mas a triste notícia de sua deserção chegou mais tarde aos ouvidos dos zelotas encastelados em Jerusalém. Os governantes responsáveis por sua nomeação foram todos passados a fio de espada, criando um vácuo de poder e uma situação de guerra civil dentro dos muros de Jerusalém. Três generais judeus combatiam entre si, enfraquecendo ainda mais as condições de defesa de Jerusalém.

Os cristãos, que sabiam ser o Reino de Deus não desse mundo, movidos pela profecia citada acima e forçados pelos sacerdotes e rabinos, já haviam saído da cidade, sendo acusados de anti-nacionalistas e falsos judeus pelos zelotas que lá ficaram. Sob o comando de Simeão, primo do Senhor, sucessor de São Tiago no comando da Sé de Jerusalém, as comunidades oriundas de Jerusalém abrigaram-se em Pela, na Transjordânia.

Vespasiano, escolhido Imperador Romano, comandava ainda a campanha contra os judeus. O general Tito sitiou a Cidade Santa em 70 d. C., impedindo toda e qualquer entrada ou saída da cidade. Os trânsfugas eram crucificados à vista dos muros, para mostrar aos habitantes de Jerusalém qual seria o seu destino.

Os três generais já se haviam posto de acordo para defender a cidade, mas a situação era militarmente insustentável. A fome grassava, e a força dos combatentes judeus diminuia. Os sacrifícios do Templo, contudo, continuaram a ser oferecidos enquanto havia o que sacrificar. No dia 17 do mês de Tamouz os sacrifícios foram interrompidos – esta data ainda é lembrada por muitos judeus – e três semanas mais tarde, em 9 de Ab, os soldados de Tito entravam no Templo por eles incendiado. O general Tito entrou no Santo dos Santos, decidido a buscar o ídolo que ele achava que os judeus aí escondiam. Encontrando apenas uma sala nua, ele disse serem os judeus cultores de um Deus inexistente.

Pequenos bolsões de resistência ainda resistiam em pontos esparsos no deserto; a batalha de Massada, a Oeste do Mar Morto, foi a mais longa de todas as batalhas desta guerra, e quando os romanos finalmente conquistaram o território, todos os judeus haviam cometido suicídio.

Para o judaísmo rabínico, à acusação de heresia e de idolatria imputada aos cristãos somava-se agora o crime de não participar da guerra. Os cristãos, naquele momento, estavam sendo perseguidos ao mesmo tempo pelos romanos e pelos judeus. Os romanos os consideravam judeus. Os judeus os chamavam de hereges.

Entretanto, havendo predito a destruição de Jerusalém e tendo substituido os sacrifícios cruentos do Templo pela Eucaristia, mantendo assim a continuidade sacrificial, o judeo-cristianismo estava conquistando enorme quantidade de prosélitos dispostos a morrer pela Cruz. Sua igrejas ainda eram assemelhadas às sinagogas, sendo muitas vezes chamadas assim. Sendo contudo sua atitude em relação ao nacionalismo judeu e à revolta bastante diferente da dos judeus não-crentes, muitas vezes suas igrejas foram poupadas, enquanto todos os mosteiros essênios e sinagogas farisaicas foram queimados e destruídos até o chão.

A Revolta de Bar-Kochba – Esperanças Messiânicas

“Rabi Gamaliel, Rabi Eleazar, Rabi Josué e Rabi Aquiba, chegando a Jerusalém, rasgaram suas roupas à vista da colina devastada. Chegados ao Muro Ocidental, único vestígio do Templo, eles viram uma raposa fugir das ruínas do Santo dos Santos. Os sábios choravam, enquanto o Rabi Aquiba sorria.

– Como podes rir, Aquiba?, disseram-lhe os doutores indignados. Mas ele respondeu:

– E vocês, porque choram?

– Neste local, do qual foi dito: ‘O profano que se aproximar morrerá’ (Nm 18,7), as raposas brincam de correr, e nós não choraríamos!

– É exatamente por esta razão que estou confiante, respondeu o Rabi Aquiba. Foi dito: ‘E toma como testemunhas dignas de fé o sacerdote Urias e o filho de Baraquias, Zacarias.’ (Is 8,2) Ora, Urias vivia quando do Primeiro Templo; Zacarias, na época do segundo. A Escritura os coloca entretanto em relação na intenção de ligar a profecia de Urias à de Zacarias. Foi escrito sobre Urias: ‘Por isso, por culpa vossa, Sião será arada como um campo, Jerusalém se tornará um lugar de ruínas, e a montanha do Templo, um cerro de brenhas!’ (Mq 3,12) Em Zacarias está dito: ‘Assim disse o Senhor dos Exércitos, velhos e velhas ainda se sentarão nas praças de Jerusalém, cada um com o seu bastão na mão por causa da idade avançada. E as praças da cidade encher-se-ão de meninos e meninas, que brincarão em suas praças.’ Enquanto a profecia de Urias não fosse cumprida, poderíamos temer que a de Zacarias nunca se realizasse. Hoje, que a primeira tornou-se realidade, podermos nutrir a firme esperança do cumprimento da segunda.

– Tu nos consolas, Aquiba, gritaram os doutores!” (Talmud da Babilônia, Makot, 24 a)

Os judeus, após a destruição de Jerusalém, haviam perdido não apenas a auto-estima, mas o próprio referencial daquilo que os fazia judeus. Sem um Templo em Jerusalém onde efetuar sacrifícios, sem um Sumo-Sacerdote para centralizar o ensino religioso e garantir a coesão estrutural da fé mosaica, o judaísmo tendia a transformar-se em uma multitude de pequenas seitas independentes, afastando-se cada vez mais da observância da Lei.

Os judeus residentes na Diáspora não haviam tomado parte na guerra de 70, por não concordarem com o nacionalismo judeu. Entretanto, a destruição do Templo foi para eles como um tapa na cara. Revoltados com os impostos devidos ao Império para a manutenção do Templo de Júpiter e contagiados pelos relatos de heróis da guerra da independência, os judeus da Diáspora rebelaram-se em 115, sendo rapidamente massacrados e fazendo com que o Templo Israelita de Onias em Leontópolis, cujo funcionamento havia sido autorizado pelo Imperador, fosse fechado e os judeus perdessem os poucos direitos políticos que possuíam.

Os judeus da Terra Santa, contudo, não tomaram parte na revolta, em parte por pacifismo e em parte por terem querido acreditar nas promessas do Imperador Trajano de que o Templo seria reconstruído.

Mas o Templo não só não não foi reconstruído, como foi posto em seu lugar um templo de Júpiter, deus cujo sumo-sacerdote era o Imperador Adriano, e uma cidade romana, a Ælia Capitolina.

Tendo as Pedras da Abominação sido instaladas no local do Templo, parecia necessário um novo Judas Macabeu.

O rabi Aquiba contava oitenta anos em 130 d.C. Sua fé na libertação iminente de Jerusalém pode ser avaliada pelo trecho do Talmud citado acima. Antigo pastor de ovelhas inculto, ele havia chegado pelo estudo das Sagradas Escrituras a ser considerado o maior sábio judeu da época. Percorrendo a pé a Palestina, ele buscava soldados para uma guerra de libertação de Jerusalém.

Buscando um comandante para suas tropas, o Rabi Aquiba encontrou a Simão, nativo de Koziba, um jovem forte e inteligente. Vendo nele o Messias que viria para libertar o Povo Judeu, o Rabi Aquiba (falecido em 135 d.C.) trocou o seu nome de Simão bar-Koziba (nativo de Koziba) em Bar Kochba (filho da estrela), para seguir a Palavra que diz: “Uma estrela (K-Ch-B) sairá de Jacó”.

Centenas de milhares de judeus reuniram-se em torno de Bar Kochba, crendo firmemente em sua qualidade de Messias e formando assim um exército que, ainda que desprovido de formação e treino, impressionava pelo ânimo aguerrido de seus soldados, que, entre outras ações guerreiras, perpetraram vários massacres de cristãos. Seu quartel-general era em uma gruta perto do Mar Morto, onde há poucos anos foram encontradas cartas de sua mão.

A ofensiva foi lançada em 132 d.C., aproveitando o retorno do Imperador Adriano a Roma. Jerusalém foi tomada, sendo mantida em poder dos judeus por quase dois anos. Ao fim de dois anos de cerco, os soldados de Bar Kochba estavam exaustos e tremendamente diminuídos em número, tendo buscado refúgio na cidade murada de Betar, a sudoeste de Jerusalém.

Os romanos, levados por espiões judeus, tomaram a cidade ao cabo de algumas semanas e massacraram seus defensores. Assim acabava a esperança de salvação messiânica do Estado judeu.

Chega a separação completa entre Igreja e Sinagoga

Em 315 d.C., o Imperador Constantino, já convertido ao Cristianismo, acirrou os ânimos ao decretar serem os judeus culpados de Deicídio. Além disso, entre os judeus salvos pelo batismo e os gentio-cristãos, muitos pontos da liturgia entravam em questão, especialmente os referentes à celebração da Páscoa e ao ritual do batismo.

O Concílio de Nicéia resolveu muitas pendências entre os cristãos de observância mosaica e os cristãos oriundos do paganismo. Os bispos de origem judaica não compareceram ou não foram convidados a este Concílio, o que fez com que a maior parte, se não todas as decisões tenham sido tomadas em favor dos gentio-cristãos. Os bispos da Palestina que participaram do Concílio tinham todos nomes gregos, evidenciando a sua origem gentílica, além de serem responsáveis por comunidades litorâneas, mais distantes das práticas judeo-cristãs.

A questão do batismo era das mais perturbantes, por encontrarmos ao mesmo tempo diversas práticas litúrgicas espalhadas entre as várias Igrejas particulares.

O ritual de Roma e das Igrejas particulares que não haviam caído na heresia judaizante era mais simples:

“Quanto ao Batismo, procedam assim: depois de ditas todas estas coisas [a catequese, feita com o Credo dos Apóstolos], batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do espírito Santo.

Se você não tem água corrente, batize em outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente.

Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Antes do Batismo, tanto aquele que batiza como aquele que vai ser batizado, e se outros puderem também, observem o jejum. Àquele que vai ser batizado, você deverá ordenar jejum de um ou dois dias.”

Os Joanitas (ou Nosrim ou Meshuamadim), discípulos de São João Batista, conheciam apenas o batismo em água (Cf. At 19,1-7). Uma pequena curiosidade sobre os pouco conhecidos discípulos de São João Batista é o fato de haver ainda hoje em Israel uma pequena comunidade de Nazarenos, inimigos dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos, praticando o batismo e o consolamentum, espécie de confirmação dada ao moribundo. Eles repelem a idolatria e a circuncisão, proibindo o celibato. São gnósticos e têm alguns livros tidos por sagrados redigidos em dialeto aramaico da Babilônia e datados dos séculos VII-VIII d.C. São a Ginza, ou “tesouro”, compilação de peças literárias, os Qolasta, ou rituais,e o Livro de João, uma biografica gnóstico-esotérica de São João Batista.

Já os cristãos oriundos de ambiente judaico, seguidores da sucessão apostólica de São Tiago, batizavam as crianças apenas quando atingiam uma certa idade. O rito batismal por eles utilizado era muito complexo, envolvendo um tríplice batismo, que ao ser conhecido pelos gentios criou forte comoção e reação.

O primeiro batismo seria o batismo “do fogo”, usado para “assinalar’ os catecúmenos com a cruz indelével sobre o corpo”, como ainda hoje o fazem alguns ritos orientais. A cerimônia era feita em ambiente escuro, invocando-se a presença do Arcanjo São Miguel, que despiria os catecúmenos das trevas que os envolviam para revesti-los de luz.

O segundo batismo era o da água, efetuado em uma larga piscina, evocando-se as “três descidas de Jesus”. Na primeira, Jesus, vindo da morada de Deus, atravessou os sete céus para encarnar-se em Sta. Maria, trazendo assim o influxo do Espírito Santo por intermédio dos anjos habitantes destes céus. Os sete dons do Espírito Santo, cultivados pelos sete anjos dos sete céus, teriam vindo pousados no Cristo para a Terra. Os batizados neste estágio receberiam estes dons.

A segunda descida de Jesus seria a descida à tumba; ao descer na piscina os batizandos sentiam-se descer misticamente com o Cristo à tumba, partilhando assim a ressurreição.

Na terceira descida recordava-se a descida ao Xeol, e os catecúmenos recordavam as insídias do Dragão do Grande Oceano, o demônio, e precaviam-se purificando suas consciências para não serem iludidos por ele.

Os nomes dos arcanjos Gabriel e Miguel eram evocados junto ao do Cristo, pelos judeus-cristãos considerado o Rei dos Anjos.

O terceiro batismo era a subida da piscina subterrânea à Igreja, momento da intervenção do Santo Espírito, pois Cristo, “ao subir da água, viu os céus se rasgando e o Espírito, como uma pomba, descer sobre Ele” (Mc 1,10).

Neste batismo era efetuada uma unção com óleo simbolizando o Espírito Santo e era colocada sobre a cabeça do batizado uma coroa de flores.

Para regularizar a prática litúrgica batismal foi incluída no Símbolo de Nicéia a expressão “professo um só batismo para a remissão dos pecados”, proibindo assim a prática judeo-cristã.

A Páscoa também era uma questão polêmica, uma vez que os Judeo-cristãos celebravam a Páscoa sempre a 14 de Nisan, não importando o dia da semana, enquanto os Gentio-cristãos a celebravam sempre no Domingo. Esta questão foi uma das mais controversas na Igrejas do Século II. Foram feitas muitas tentativas de uniformização do costume por vários Papas e Concílios locais, sem chegar a uma efetiva solução. O Concílio de Nicéia, seguindo as diretrizes anteriores do Magistério da Igreja, anatemizou aqueles que observassem a data de 14 de Nisan e completou assim a separação entre judeus e cristãos. Os Concílios subsequentes só fizeram aumentar a separação e punir com a excomunhão a frequentação religiosa das festas judaicas e o uso dos filactérios, “que são cadeias para as almas” (Conc. de Laodicéia,341-381 d.C., Cânon 36).

Com a mudança no calendário judaico ocorrida em 338 d.C., o fosso só fez aumentar…

O Anti-Cristianismo e o Messianismo nos Doutores do Talmud

Com a destruição do Templo de Jerusalém, os rabinos fariseus decidiram fazer na pequena cidade de Jamna um Conselho Supremo de Anciãos, um novo Sinédrio, com o fito de assegurar a unidade estrutural da fé em tempos de exílio. A autoridade espiritual, antes privilégio sacerdotal, passou a ser responsabilidade dos rabinos (mestres e doutores da Lei).

Entre as decisões tomadas por eles estava a fixação do cânone bíblico (lista de livros que compõem a Bíblia) judaico. Como o cristianismo estava crescendo enormemente, ele fixaram um cânone bíblico que propositadamente impediria a aceitação como Palavra de Deus do Novo Testamento. Os critérios por eles usados foram:

1 – o livro deveria estar disponível em hebraico (o que não era o caso de alguns livros cujo original hebraico havia sido perdido; o do Eclesiástico foi reencontrado recentemente na Guenizá do Cairo), e só o hebraico seria usado na liturgia e estudo bíblico; isso já botava de fora todo o NT

2 – o livro não deveria ser mais recente que 440 a.C.; Idem

3 – O livro deveria ter sido escrito na terra de Israel; isso também serviu como arma contra os criatãos, impossibilitando aceitar a imensa maioria dos textos do NT.

Evidentemente esses critérios não eram seguidos pelos cristãos, que não tinham mais nada a ver com os fariseus que não aceitaram a Jesus como o Cristo. O cânone cristão na verdade ainda não havia sido fixado, mas era usado o texto da septuaginta (citado nos evangelhos – inclusive os deuterocanônicos – e fonte de muitas exegeses impossíveis apenas com o texto hebraico). Irônico para nós cristãos é vermos exatamente esta lista de livros do Antigo Testamento, feita para combater o cristianismo, sendo usada pelas seitas protestantes…

Um vasto material, resultado da compilação por escrito de comentários bíblicos (Halacá) e ensinamentos rabínicos (Hagadá) foi reunido, sob a responsabilidade do rabi Jonatan, sendo denominado de Mishná. Seu sucessor, Gamaliel II, levou a cabo o empreendimento.

Existem dois Talmudes, o de Jerusalém, composto nos séculos II e IV pelos doutores palestinos e o da Babilônia, muito maior e mais completo, que data dos séculos V e VI.

Com a derrota da revolta de Bar-Kochba, os judeus passam a ver nos cristãos os seus inimigos principais. Para os Rabinos, os cristãos eram culpados da pior das heresias, ao adorar a um homem, o Rabi Yeshuah de Nazareth, como sendo o Messias, como sendo Deus. Para eles, a blasfêmia era total, tanto mais irritante pelo sucesso de seu proselitismo. Para eles , por não ter chegado com Jesus a dominação de Israel sobre todas as nações, trazendo o fim de todas as opressões contra Israel (muito pelo contrário, pensavam), era patente que ele jamais poderia ser o Messias. Quanto mais – blasfêmia medonha para eles – Deus!

Os rabis viam diferenças significativas entre os Minim, os cristãos, e os Goyim, os pagãos. O Evangelho era tachado de havon gylion, o “pergaminho do pecado”; discutia-se se o certo seria arrancar dos Evangelhos o Nome de Deus – nunca aos sábados, é claro – e queimá-los ou sequer ter este cuidado, como recomendava o rabi Aquiba.

O rabi José o Galileu dizia que “se um inimigo me perseguisse eu me refugiaria no templo de um ídolo, jamais nas igrejas, porque os idólatras negam Deus por ignorância, enquanto os cristãos conhecem a Deus e o negam”. O Rabi Tarfon diz quase o mesmo: “Se alguém for perseguido para ser morto, ou se uma serpente correr atrás dele para mordê-lo, poderá entrar em um templo idólatra, mas não nas casas dos minim, porque uns negam conhecendo e outros negam sem O conhecer”.

O testemunho dos cristãos sobre a lua nova, empregado no cálculo da data das festas, passou a ser desconsiderado, pois “antes se aceitava o testemunho de qualquer um sobre a lua nova, mas devido ao modo de agir perverso dos hereges foi decretado que não se aceitassem a não ser os testemunhos seguros.

Também se disse que “Não se tiram da água nem se jogam nela os goyim nem os pastores ou os seus rebanhos; quanto aos hereges, os apóstatas e os delatores, se afogam e não são tirados para fora”.

Jesus foi pelos rabinos tachado de bastardo (tomava-se a expressão greco-hebraica Ben-Parthenou – filho da Virgem, de Ben = filho e Parthenou = Virgem – usada em relação a Jesus, como a dizer que ele seria filho de Sta. Maria e de um soldado romano de nome Pandera), de pecador que incitava a multidão contra a Lei…

Foi dito que “o neto do Rabi Joshua Ben-Levi teve certa vez um ataque de sufocamento. certo homem veio e falou em voz baixa sobre o enfermo o nome de Jesus Pandera. E quando saía, o Rabi perguntou-lhe: ‘O que acabas de sussurrar sobre ele?’ Respondeu-lhe: ‘Uma certa palavra’. E ele retrucou: ‘Teria sido melhor para ele morrer do que acontecer-lhe isto. ” (Talmud de Jerusalém, Shabbath 14d)

Muitos foram os epítetos ofensivos a Jesus inscritos no Talmud, devido às peculiares condições dos judeus no momento de sua redação. Para tentar justificar os textos ofensivos, o Rabi Yehiel de Paris disse que o livro trata de dois diferentes Jesus, e os textos incriminadores não se referem ao Jesus dos cristãos, mas a um outro…

Para esquivar-se da argumentação cristã em favor da messianidade de Jesus, os rabinos recusavam-se a aceitar as comprobações vetero-testamentárias da Trindade apontadas pelos cristãos, chegando ao ponto de arbitrariamente imaginar a existência de dois Messias: um filho de Davi, imortal, e outro filho de José, que pereceria na guerra de Gog e Magog.

Nesta época buscou-se efetuar uma compilação dos dizeres e tradições referentes ao Messias, para que ele pudesse ser reconhecido quando de sua chegada. Chegou-se à conclusão de que há, em cada geração, um Messias provável, que pode ou não chegar à sua plenitude, de acordo com a preparação do conjunto do Povo Judeu. O Messias certamente, acreditaram os rabinos, viria para libertar o Povo, reconstruir o Templo e reiniciar os sacrifícios. Ele viria em um momento marcado pelas orações dos judeus, que o pediriam a Deus, aumentando as chances de sua chegada com a longa duração do tempo de exílio.

O momento da chegada do Messias, entretanto, seria marcado por fortes comoções e guerras: as Dores do Parto do Messias, que deveriam ser reconhecidas e minimizadas pelo cumprimento das prescrições da Lei.

Ele, ao vir, traria a Ressurreição dos Mortos, em que levantar-se-iam primeiro os mais justos, recebendo de volta seus corpos reconstituídos, sendo então seguidos pelos menos justos, até os pecadores, que, por terem tidos seus corpos anteriores destruídos por sua impiedade, receberiam de Deus a graça de um novo corpo.

A presença dos judeus-cristãos nos cultos judaicos, contudo, era causa de preocupação por parte dos rabinos, que temiam o seu proselitismo. Como muitos cristãos declaravam que o único mandamento realmente obrigatório e eterno é a observância do Decálogo, sendo as demais mitsvot leis figurativas necessárias apenas até a chegada d’Aquele a Quem figuravam e para Quem preparavam, a leitura do Decálogo nas reuniões sinagogas era um dos pontos mais importantes para eles. Com o fito de evitar sua presença, uma das muitas modificações litúrgicas efetuadas nas sinagogas foi a supressão da leitura do Decálogo.

A data desta supressão é difícil de ser determinada, mas sabemos que a mais antiga autoridade a mencioná-la é o Rabi Natan o Babilônico, que parece referir-se a uma decisão tomada ainda no tempo do Templo, sendo causada por “achincalhes heréticos”, que não necessariamente seriam feitos por cristãos. Idêntica modificação na praxe ritual diária foi efetuada na Babilônia em circa 400 d.C., sob a direção do rabi Asher

No ano de 80 d.C., o Rabi Gamaliel II introduziu no Shemoneh Esré (Dezoito Bênçãos – parte da liturgia sinagogal diária) a Birkat haMinim, oração anticristã, que pede “que não haja esperança para os apóstatas e que o reino do orgulho seja prontamente erradicado em nossos dias; os Nosrim (Nazarenos, ou seja, cristãos) e os Minim (hereges, especialmente cristãos) morram subitamente, e sejam cancelados do livro dos vivos e não sejam contados no número dos justos. Bendito sejas, ó Senhor, que abaixas os orgulhosos!” Como os cristãos não a profeririam, seriam descobertos e expulsos da sinagoga. A evolução da liturgia referente a esta oração é explicada por A.Z. Idelson em seu livro “Jewish Liturgy and its Development”:

“Birkat Ha-minim ou Ha-tzidukkim ou Ha-zzedim (b. Ber. 28 b;Jer. Ber IV, 3; Tanhuma, final Korah; M.R. Bamidbar 18,17) Esta bênção, ou ‘maldição’, como é chamada por Kohler (K. Kohler, H.U.C. Annual I, 1923), foi composta, de acordo com fontes talmúdicas, por Samuel o Jovem por volta do ano 100 d. C. a pedido do Rabi Gamaliel e contra os sectários e heréticos entre o povo judeu. Mesmo assim, Kohler crê ter esta prece sido composta antes da Destruição. ‘O reino hostil aqui mencionado em termos tão orgulhosos pode apenas dizer respeito ao quarto reino mundial de Daniel, seja o da Síria ou o de Roma.’ As expressões ‘o arrancar das raízes, o esmagar e o jogar por terra o reino da arrogância… Que quebra os inimigos e humilha o arrogante’- tudo isso aponta para a arrogância e rudeza dos romanos. ‘Mas então’, conclui Kohler, ‘quando estes malignos cristãos no próprio interior das sinagogas tornaram-se uma ameaça ao povo judeu, e o Rabi Gamaliel pediu a alguns de seus discípulos que formulassem uma prece contra os Minim, ou heréticos, Samuel Hakatan levantou-se e deu à prece contra o poder de Roma uma nova implicação mudando as palavras iniciais a uma referência direta aos Minim. Como tratava-se, ainda assim, de uma mera mudança casual de palavras, ele não conseguiu, no ano seguinte, lembrar-se de quais teriam sido as palavras exatas empregadas no ano anterior… Desde então as várias versões apresentam termos diferentes para as palavras iniciais, enquanto o resto reteve a antiga forma.’…

O texto sofreu diversas mudanças em função dos ataques da Igreja, que clamava ser esta prece voltada contra os judeus convertidos ao cristianismo. Consequentemente, a primeira palavra lameshumadim foi mudada para Welammalshinim, aos ofendedores. Assim também a palavra lannotzerim – os cristãos – foi removida. A palavra “aos convertidos” foi retida no ritual iemenita. O significado de lameshumadim é “aos batizados”, de acordo com alguns estudiosos, sendo derivado de lameshuamadim, usando a forma “Shafil” da raiz síria amad, como meshuabadim de avad. Isto refere-se aos seguidores de São João Batista. Assim, na prece eram especificamente os meshuamadim que eram os seguidores de S. João Batista, os Minim, que eram os heréticos, e os Notzrim, que eram os seguidores de Jesus, que antagonizavam com os discípulos de S. João. Mais tarde a raiz da palavra foi esquecida, tendo sido identificada com shamad – exterminar – com o que não tem relação alguma. R. Hai Gaon ainda conhecia a fonte da palavra.”

O próprio Rabi Gamaliel, com o fito de fazer chegar ao judaísmo da Diáspora a observância da separação formal e mandatória dos minim, viajou a Roma por volta do ano 95 d.C., pregando nas sinagogas sobre o dever da observância da Lei de Moisés. Em certa altura da discussão, o rabino declarou que o próprio Deus obedece às suas leis, e um dos presentes refutou, perguntando então como pode ser possível que chova em dia de sábado. O rabino tentou escapar, afirmando que Deus tem o direito absoluto de espalhar as gotas de chuva de uma extremidade a outra de seu domínio, que é o mundo, sua propriedade particular, como e quando Lhe conviesse. “Como resultado desta viagem, cresceu sensivelmente a propaganda cristã no seio da diáspora helenística.”

Outra prece considerada anti-cristã é de autoria do primeiro, cronologicamente, e maior mestre do Talmud de todos os tempos, Abba Areka (160-247), fundador da Academia de Serra, na Babilônia. A prece por ele composta, intitulada Aleinu Iashabeach (é nossa obrigação exaltar – palavras iniciais da prece), encerra o ofício sinagogal diário. A evolução da liturgia referente a esta oração é explicada por A.Z. Idelson:

Iniciando em 1370, ataques de cristãos ao texto do Aleinu não cessaram, especialmente em função da frase: ‘Pois eles ajoelham-se para a vanidade e vazio e rezam a um Deus que não salva.’

Dizia-se que os Judeus referiam-se a Jesus, pois o valor numérico da palavra WRYQ (nada, vazio) é igual ao da palavra YSHZ (Jesus), ambas sendo 316. Consequentemente, a passagem foi deletada do ritual asquenasi. Já em 1702, o governo prussiano em Berlim começou uma investigação sobre o verdadeiro significado do texto do Aleinu, e em 28 de agosto de 1703 o governo lançou um veredito proibindo a recitação da parte acima mencionada e o costume de cuspir durante o Aleinu. Oficiais especiais eram postados na Sinagoga para verificar a observância da ordem. (Zunz, Ritus) No ritual italiano, a passagem foi modificada de forma a referir-se à idolatria pagã antiga.”

Um certo Pesajo Peter, judeu (caraíta?) convertido, acusou em 1400 esta oração como sendo anti-cristã. A discussão teve trágicos desdobramentos.

Durante a Idade Média esta prece fazia parte do ritual dos mártires judeus. Ela foi proibida em Aragão em 1336 e em Praga em 1399. O ritual asquenasi, apesar de ter tido esta parte proibida, a manteu no culto adicional dos dias santificados. Os devocionários da Alemanha a suprimiram. Quando os judeus emancipados, em 1796, tentaram suprimir o Aleinu, não encontraram nenhuma receptividade de suas comunidades. Jean Welfer (falecido em 1724) buscou por toda parte algum manuscrito antigo que contivesse o trecho em questão, e constatou que em várias edições a palavra WRYQ (nada) estava com um espaço em branco em seu lugar.

As visões judaicas posteriores do Messias

Depois da separação definitiva entre Igreja e Sinagoga; depois de ter se tornado claro aos judeus e aos cristãos que não havia esperança de conciliação, posto que os judeus não aceitavam o Cristo Jesus nem os cristãos poderiam renegá-l’O, continuou, e em tons muito mais amplos, o questionamento messiânico judeu. Inúmeros falsos messias foram aceitos por grande parte da população judaica, causando enormes problemas na maior parte dos casos para os mantenedores da ortodoxia.

Na Idade Média, a ânsia dos judeus pela vinda do Messias era enorme. Muitos rabinos conceituados e mantenedores de posição de liderança espiritual de suas comunidades dedicavam-se a, apesar da proibição expressa contida no Talmud, buscar através de cálculos exegéticos e astrológicos a data provável da vinda do Messias. O Messias era predominantemente visto, nesta época, como aquele que viria libertar os judeus da dominação cristã. Para muitos exegetas judeus, os animais monstruosos do sonho de Daniel (Dn 7,2-14) seriam Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma; os dez chifres seriam os dez imperadores que governaram Roma antes da destruição do segundo Templo e o pequeno chifre seria o Bispo de Roma, cujo reino seria vencido pelo Messias.

A desesperança na libertação por meios temporais levava à crença na vinda próxima de um Messias libertador, simultaneamente escatológico e político. Para muitos sábios, a libertação espitual-escatológica seria precedida por outra libertação, esta de natureza política, efetuada por outro Messias, filho de José.

A tradição talmúdica fala-nos pouco da pessoa e das atividades do Messias filho de José. Ainda que a literatura midráshica fale dele mais frequentemente, ainda temos poucos detalhes sobre este Messias, que desapareceria rapidamente de cena sem se impor. Sem dúvida o messianismo popular não reteve esta figura, rapidamente evocada pelo Talmud, pois ela não trazia nenhum elemento glorioso ou assegurante. Não resolvendo nenhum problema, não trazendo nenhum alívio, marcando ao contrário uma recuada do progresso messiãnico, compreendemos facilmente que a esperança dos judeus não tenha sido depositada sobre este Messias sacrificado. O mais interessante, contudo, é notarmos que a tradição rabínica do messianismo, especialmente o Maharal de Praga, viu no reino efêmero do Messias filho de José uma etapa que não poderia ser eliminada sem afetar a própria compreensão do próprio fenômeno messiânico judeu.

Os textos do Talmud evocam a pessoa do Messias filho de José apenas na ocasião de uma análise exegética. Falam-nos apenas da morte deste Messias, em oposição ao Messias filho de Davi, a quem foi prometida a vida eterna. Há na tradição rabínica uma tendência generalizada a situar o Messias filho de José no contexto histórico do período que seguiu a revolta de Bar Kochba. A derrota de Bar-Kochba, reconhecida pelo Rabi Aquiba como o Salvador, poderia assim ser explicada no quadro de um esquema escatológico. Ainda que esta tese não tenha sido mantida após o fracasso da campanha de Bar-Kochba contra Roma e sua derrota em Betar, talvez ela tenha contribuído para fixar os traços característicos do Messias filho de José como o salvador político do povo judeu. Ele restauraria a nação em sua independência territorial, enquanto o Messias filho de Davi seria o salvador espiritual da humanidade.

O Messias filho de José passou a receber os aspectos temporais e materiais que antes eram vistos como parte do “trabalho” do Messias Único. Já o Messias Filho de David passou a ser cada vez mais visto como o Messias escatológico, o Messias que traria a Ressurreição dos Mortos, o Julgamento Final…

É até interessante vermos como em muitos aspectos a figura do Messias filho de José corresponde à expectativa cristã do Anticristo, aquele que reduzirá os cristãos à servidão e reconstruirá o Templo de Jerusalém.

Segundo Joseph Klausner (autor de Hara”ayon hameshichi beIsrael – a Idéia Messiânica no Judaísmo, Tel Aviv, 1956, in Gross), a exigência profunda do messianismo judeu traz em si a esperança de um restabelecimento político e nacional e a espera de uma redenção universal. Após o fracasso da campanha contra Roma, contudo, a esperança teria se voltado mais para a redenção universal. O restabelecimento da independência nacional passou a segundo plano e encarnou-se na figura do Messias filho de José, cuja tarefa parece limitada ao plano político. A idéia de um segundo Messias aparece então como uma necessidade, sendo que o segundo lugar é, por direito, da tribo que impôs-se como um elemento diretor na história judaica após a de Judá, a tribo de José. A própria denominação deste Messias encontra-se ligada ao papel político e econômico desempenhado por José no Egito, levando a família de Jacó a uma vida normal e organizada.

Para o Maharal de Praga, o Messias filho de José seria como que o coração de um corpo cujos membros seriam Israel em sua totalidade e a cabeça o Messias filho de Davi. Assim, o Messias filho de José apenas traria Israel à totalidade de suas potencialidades físicas, para então submeter-se à autoridade transcendente, expressão espiritual da personalidade profunda do Messias filho de Davi como uma etapa indispensável no caminho da salvação suprema, onde a relação com Deus poderia ser feita sem mediação.

À morte do Messias filho de José (na guerra de Gog e Magog) contrapor-se-ia à vida eterna do filho de Davi, marcando contudo o fim das alienações políticas e sociais, acabando com as limitações da condição humana e livrando a humanidade do Mal (identificado já naquela época com o Cristianismo).

Os cálculos relativos à data da vinda do Messias

Rav Saadia Gaon

Rav Saadia Gaon (882-942), chefe da Grande Academia de Bagdá, escreveu a primeira sistematização da filosofia judaica (Emûnôt Vedeôt), incluindo o messianismo (tratado em seu capítulo VIII). Gaon, ou Brilhante erudito, é o título geralmente dado a Rabinos ilustres por sua ciência, sendo habitualmente o título dos chefes das Academias da Babilônia entre 589 e 1040 d.C. Ele dedicou ao tema do Messias um seu comentário do Livro de Daniel e sua obra Sefer Hagalui.

Alguns caraítas (seita que negava a Tradição Oral), durante o tempo de vida de Rav Saadia Gaon, afirmaram terem sido as profecias bíblicas cumpridas plenamente na época do Segundo Templo, concordando assim com a exegese cristã. Para responder a eles, Rav Saadia Gaon procurou provar por meio de quinze argumentos que o período do Segundo Templo não teria correspondido às esperanças messiânicas nem às condições do Fim. Ele procurou, assim, calcular a data da vinda do Messias através de exegeses bíblicas, especialmente do Livro de Daniel.

Sua exposição, fundada sobre as profecias e o Talmud, baseia-se em dois pontos:

1- A certeza do acontecimento (apoiada não apenas na tradição, mas no raciocínio lógico – O Exílio é um castigo, que não pode durar para sempre. Basta portanto esperar);

2- A certeza da data estar disponível, ainda que de maneira críptica, nas profecias bíblicas.

Insistindo sobre a importância da tarefa de bem determinar a data da vinda do Messias, ele baseou-se para isso em Daniel 12, versículos 7 e 12: “Será por um tempo, tempos e metade de um tempo”. Dando à palavra “tempo” (moed) o sentido dos períodos de independência de Israel, ele concluiu que o tempo antes da redenção final seria igual ao total destes períodos mais a sua metade. Assim, para ele, tratar-se-ia da soma dos dois períodos de independência somada à sua metade. Uma vez que a independência de Israel durou 890 anos, 480 antes da construção do Primeiro Templo e 410 durante a sua existência, a metade deste total, 445, somada ao inteiro dá exatamente 1335. É interessante notar que em Daniel 12,12 vemos igualmente a cifra de 1335 anos.

Considerando ainda Daniel 12,11: “”A contar do momento em que tiver sido abolido o sacrifício perpétuo e for instalada a abominação da desolação, haverá 1290 dias”, ele interpretou a palavra “dias” como sendo “anos” e anunciou que o acontecimento iria produzir-se 1290 anos após um incidente que teria acontecido após a construção do segundo templo (Ne 13,4-31: o abandono de alguns serviços do Templo por seus encarregados), quarenta e cinco anos após a visão de Daniel, fazendo-nos deparar novamente com o número 1335.

E este número foi mais uma vez encontrado na interpretação de Daniel 8,14: “E ele respondeu-me: ‘até 2300 tardes e manhãs. Então será feita justiça ao Santuário”; 2300 manhãs e tardes equivalem a 1150 dias, ou, de acordo com o código adotado por Rav Saadia, 1150 anos. Se esta conta começasse da revelação principal feita a Daniel, seria necessário adicionar 190 anos, o que nos faria chegar novamente a 1335. As três exegeses chegam portanto a uma data comum. Mesmo assim as vistas divergem quanto à origem da conta, que não foi claramente indicada pelo autor.

Abraão Bar Chiyya

O Rabi Abraão Bar Chiyya (falecido em 1136), matemático, astrólogo e exegeta dedicou todos os seus recursos intelectuais ao serviço da busca da data da redenção. Ele via serem realizadas as profecias de Daniel na “profanação” do Local Sagrado do Templo pelos Cruzados e na expulsão então corrente dos judeus da Terra Santa.

Para ele, a descoberta da data da Redenção era um feito basicamente matemático, e em seus cálculos ele retomou os cálculos de Saadia Gaon. Em sua obra Megillat Hamegallé (E. Poznanski, Berlin 1924), ele levou a sua busca não apenas a Daniel, mas a todo o conjunto do Pentateuco, especialmente no que diz respeito ao relato da Criação.

Uma vez que a Criação foi, para ele, essencialmente centrada no desenvolvimento de Israel, encontraríamos o ciclo da história judaica em seu relato. Os seis dias representariam seis mil anos, enquanto que o sétimo dia seria o Dia do Senhor, com o mundo tendo cessado a sua atividade após os seis mil primeiros anos. Baseando-se por outro lado no Salmo 90,4: “Pois mil anos são aos Teus olhos como o dia de ontem que passou e uma vigília dentro da noite”, concluiu ele que o dia de Deus equivaleria a 857 1/7 anos, pois uma vigília dura quatro horas e o dia divino seria igual a 6/7 de mil. Cada “dia” deveria ser dividido em sete partes de 122 anos, o que Chiyya chamava de uma “geração”. Sobre estas bases está estabelecido o conjunto de seu sistema.

De acordo com as indicações fornecidas pelo Pentateuco, ele determinou que a Torah teria sido dada no princípio da sétima geração, ou seja, circa 2448, durante o terceiro “dia”. Consequentemente, o Messias, devendo vir antes do fim do sexto dia, acabaria por manifestar-se perto de 4896, ou seja, 1136 d. C.

Mas por outro lado, ao tomar o texto do Deuteronômio 28,63: “Do mesmo modo que O Senhor se comprazia em vos fazer o bem e vos multiplicar, assim também ele terá prazer em vos destruir e vos exterminar…”, ele achou que este texto pareceria sugerir que o tempo da rejeição será equivalente ao da satisfação. Como esta última teria começado com a dádiva da Torah e acabado com a destruição do Santuário, ela teria durado de 2448 a 3828, ou seja, 1380 anos. O período de sofrimento estender-se-ia por um período idêntico, ou seja, até no máximo o ano 1448 d.C., última possibilidade, segundo ele, para a vinda do Salvador.

Maimônides

Moisés ben Maimon, o Maimônides, também chamado Rambam, nasceu em Córdoba, Espanha, no dia da Páscoa de 1338. Matemático, astrônomo, médico particular do Sultão Saladino, rabino-chefe da comunidade hebraica do Egito, talmudista e um dos maiores filósofos hebreus de todos os tempos, ele escreveu livros até hoje básicos no ensino da fé judaica, como a Mishné Torá, a mais ampla compilação da lei jamais realizada. Ele faleceu em 1204, sendo sepultado em Tibéria, na Terra Santa.

Dentre os treze princípios da fé judaica por ele compilados encontramos a crença plena na vinda do Messias, que por mais que demore virá e deve ser aguardado, e na ressurreição dos mortos, que ocorrerá quando a Deus aprouver.

Para ele, todas as profecias de aparência demasiadamente místicas e miraculosas relativas ao Messias deveriam ser lidas em sentido figurado, pois o tempo messiânico não seria escatológico; ao contrário, seria o tempo político palpável do fim da opressão do povo judeu.

Entretanto, a situação político-religiosa era tão grave em sua época que ele não resistiu a buscar uma data, mesmo sabendo ser esta prática condenável:

“O momento exato não pode ser conhecido com certeza, mas temos em nosso poder uma venerável e notável tradição recebida de meu pai, que a recebeu do seu, e estes de seus ancestrais, em uma corrente ininterrupta desde o início do exílio de Jerusalém. (…) A chave do mistério deveria ser buscada na profecia de Balaão: “Agora que se diz a Jacó e a Israel ‘Que faz, pois, Deus”

Balaão profetizou quarenta anos após sair do Egito, no ano 2488 após a Criação. O retorno da profecia a Israel, sinal da vinda do Messias, ocorreria no mesmo lapso de tempo após, isto é, em 4976 após a Criação.” (ou seja, 1216 d.C)

Maimônides, Igéret Teman (Epístola ao Iêmen), carta endereçada ao rabi Jacó Ibn Alfayumi.

Nachmânides

O Rabi Moisés Ben Nachman (1194 ou 1195 – 1270 ou 1268) defendeu em 1263 perante o Rei de Aragão a tese judaica do Messias vindouro, refutando ponto a ponto os argumentos de um judeu convertido (Paulo Cristiano). A este respeito o Rei comentou: “Nunca vi tal brilhantismo na defesa de um erro”. Após o debate ele foi forçado a exilar-se, tendo partido com sua família para a Terra Santa, onde acabou seus dias.

Ele escreveu um livro, o Sefer Ha-Geûlah, cujo “objetivo essencial” é buscar a data do Fim dos Tempos. Neste livro ele salientou que a esperança da redenção expressa o desejo do povo de aproximar-se de Deus e o desejo bastante natural de livrar-se de seus inimigos e opressores. Segundo ele, os Rabinos do Talmud desincentivavam a busca da data da chegada do Messias para não desincentivar o povo devido à longa espera ainda por vir. Entretanto, este motivo não mais faria sntido, uma vez que o acontecimento já estaria próximo, tão próximo que estaria na hora de perscrutar as escrituras para reforçar a esperança da nação no Redentor.

Ele advertia o leitor do caráter hipotético de suas afirmações, pedindo que, mais que datas, ficasse gravada a fé no “princípio geral” da redenção, sendo o cálculo apenas a expressão da espera febril da realização iminente.

Assim, ele cria que todas as indicações dadas pela Escritura diziam respeiro à redenção derradeira, e empregando os métodos de seus antecessores, buscou uma data única e precisa. Examinando Daniel 12,11, “A contar do momento em que tiver sido abolido o sacrifício perpétuo e for instalada a abominação da desolação, haverá 1290 dias”, ele anunciou o Messias filho de José 1290 “dias”, ou anos, após a destruição do Segundo Templo, ou seja, circa 1358 d.C. Já examinando Daniel 12, 12, “Bem-aventurado aquele que persevera, chegando a 1335 dias”, ele depreendeu tratar-se do Messias filho de Davi, que viria 45 anos após o Messias filho de José, ou seja, em 1403 d. C.

Devemos notar que, ainda que ele estivesse de acordo com Rav Saadia em que o termo “dias” devesse ser compreendido como significando “anos”, ele mantinha que a conta de Dn 12,12, que diz respeito à supressão do sacrifício perpétuo, só poderia ser concebida a partir da destruição do Segundo Templo. Na discussão pública que ele teve com Paulo Cristiano, Nachmânides, em 1263, desenvolveu os mesmos argumentos e afirmou: “estamos a 95 anos da data anunciada por Daniel e esperamos que Ele venha neste tempo”. Os 45 anos que separam as chegadas dos dois Messias podem ser comparados ao período idêntico que se estende da saída do Egito à entrada na terra prometida pela mão de Josué, com o paralelismo das duas situações reforçando o valor do cálculo.

Ele pensava de maneira diferente de seus predecessores também na exegese de Dn 8,14: “E ele respondeu-me: ‘até 2300 tardes e manhãs. Então será feita justiça ao Santuário” A conta para ele estendia-se a partir do reino do primeiro Ungido, o Rei Davi, ou a partir de seu nascimento. É efetivamente a ele que devemos a iniciativa da construção do Templo, e seria portanto a partir de seu nascimento que deveríamos efetuar a conta transmitida a Daniel. Obtínhamos assim:

Reino de Davi: 70 anos
Primeiro Templo: 410 anos
Exílio na Babilônia: 70 anos
Segundo Templo: 420 anos
Exílio: 1335 anos
Total: 2305 anos.
O resultado, assim, nos levaria aproximadamente à mesma data indicada, de acordo com a exegese de Nachmânides, em Dn 12,12.

Isaac Abravanel

O Rabi Isaac Abravanel (1437-1508), político, exegeta, filósofo e antepassado do Sílvio Santos, expulso de Portugal em 1481 e da Espanha na expulsão coletiva de 1492, tentou em três livros (Ma’éné Ha-Yeshu’âh – As Fontes da Salvação – uma exegese do Livro de Daniel; Mashmy’a Yeshu’ah – O Mensageiro da Salvação – uma análise de todas as profecias de caráter messiânico do conjunto da Bíblia; e Yeshuot Meshicho – A Salvação de Seu Cristo – um comentário dos textos talmúdicos e dos midrashim relativos ao Messias) analisar os fundamentos da doutrina messiânica de Israel. Em seus livros filosóficos, o Rabi Abravanel também dedicou-se ao assunto, especialmente em sua obra Rosh Amanah (Os Princípios da Fé), onde ele dedica os capítulos 14 e 15 ao assunto.

Sua exegese é uma exegese-símbolo da maneira medieval de conceber o Mundo e o Messias. Ele tomou para si a tarefa de “revelar aos filhos de Judá o dia da Redenção; de anunciar a plena voz que a Salvação está próxima, que Israel não está abandonada, que a chegada do Messias é iminente e não poderá mais tardar”. Para ele, o ser humano seria julgado imediatamente após a sua morte, devendo o Dia do Juízo ser entendido como um dia de punição, de execução do julgamento.

Sendo um homem político e estando especialmente marcado pela traumatizante experiência do Exílio, o Rabi Abravanel procurou provar que a data da chegada do Messias estava próxima. Ele reinterpretou as teses messiânicas à luz dos acontecimentos da época, dando assim à figura do Messias dimensões políticas.

Ele nunca fugiu à discussão com os cristãos, buscando provar que Jesus não poderia ter sido o Messias a partir de um raciocínio exposto em seu livro O Mensageiro da Salvação. Para ele, 22 condições seriam necessárias, das quais 14 seriam as fundamentais, para a vinda do Messias. Todas estas condições foram buscadas no exame dos textos proféticos, especialmente Isaías. Entre as condições citadas, podemos mencionar: vingança dos oprimidos e justiciamento dos perseguidores, reunião dos exilados, fertilidade da Terra de Israel, penitência do povo, retorno da profecia, fim do exílio e reconhecimento universal do monoteísmo. Como para ele Jesus não realizou nenhuma destas transformações essenciais à Era Messiânica, Ele não poderia ser qualificado de Redentor.

Para o Rabi Abravanel, o Messias seria aquele que viria para retirar o homem das condições artificiais de vida (hierarquia, gosto do luxo, concupiscência, atração pelo artificial), pois a civilização seria a causa da corrupção. A determinação da personalidade ou da aparência física do Messias não tinha para ele, como aliás para o judaísmo em geral, nenhuma importância; ele só tratou deste assunto quando buscou responder ao cristianismo. Para ele, não seria uma reforma social que poderia efetuar a mudança necessária; o homem por si só não poderia libertar-se de toda esta fatal artificialidade. Para poder elevar o homem ao que ele poderia ser, Deus deu a Israel uma higiene de vida e uma Terra Santa. Mas mesmo assim Israel perverteu-se. Então Deus viria para tudo recomeçar, de acordo com sua abordagem alegórica milenarista da Criação.

Assim o Rabi Abravanel realizou um quadro com a sua interpretação da relação entre a história de Israel e o relato da Criação:

1º DIA:  
 
 
LUZ 
& 
TREVAS
Perfeição (Luz): Adão e Set 
e Pecado (Trevas): Caim 
2º DIA: 
 
SEPARAÇÃO DAS ÁGUAS SUPERIORES E INFERIORES Abraão separa as crenças superiores das superstições
3º DIA: TERRA FIRME 
 

FLORA

Como a terra emerge da água, Israel sai do Egito 

Torá, a Árvore da Vida

4º DIA LUZES 1o Templo: o Sol 
2o Templo: a Lua
5º DIA RÉPTEIS & AVES Desenvolvimento das nações
6º DIA ANIMAIS 
HOMEM
Animais: Reis das nações 
Homem: o Messias
7º DIA SHABBAT Destruição do Universo e Reino Milenar de Deus

Buscando responder à argumentação cristã que coloca como prova da vinda do Messias a chegada de Jesus exatamente no início do tempo messiânico, o Rabi Abravanel traçou uma distinção entre os períodos em que a vinda do Messias seria impossível, aqueles em que ela poderia realizar-se pelos méritos do povo e aquele em que ela seria inelutável. Quando, para ele, os sábios do Talmud falavam de “dois mil anos de tempo messiânico”, eles referiam-se ao período a partir do qual o acontecimento pode produzir-se, pois antes desta data isto seria impensável. O fato desta era ter sido agitada por “falsos Messias” (Jesus, Maomé…), mostraria que teríamos realmente entrado na era das possibilidades, mas não das realizações.

Uma vez que o Messias, para o Rabi Abravanel, não teria ainda vindo durante este período, estaríamos chegando ao tempo em que sua vinda ocorreria de qualquer modo, e nos livros da Bíblia e do Talmud estaria escondida a data de sua chegada. Para ele, a data estava próxima. Não haveria porventura o povo de Israel descido ao nível de maior sofrimento de sua história (ele não imaginava o que esperaria seus pobres descendentes 450 anos depois…)? Assim também a queda de Constantinopla, a Reforma, as guerras entre os Estados Italianos; tudo isso parecia ser, ao Rabi, prova da chegada iminente do Messias.

Para ele, como aliás para todos os que ousaram ir contra as diretrizes talmúdicas que interditam a busca astrológica da data da chegada do Messias, a razão que justificaria tal interdição seria o medo de tirar as esperanças do povo, uma vez que a data estaria distante quando da redação do Talmud. Entretanto, julgava ele, o momento havia chegado, e além disso não era exatamente astrologia que ele usaria, mas sim uma exegese meticulosa de tudo o que foi dito quanto ao Messias!

Como a História de Israel (logo, em sua visão milenarista, do Mundo) dura por um tempo determinado, e por ela desenrolar-se segundo a Ordem da Providência, seria possível descobrir na Sagrada Escritura, analisando os fatos, a ordem que Deus determina para os acontecimentos. Encontrar esta ordem seria reconstruir o universo segundo a lei profunda que o organiza, e aplicar-se ao cálculo do Fim seria participar, em uma certa medida – a única ao alcance do homem, joguete de Deus – na sua elaboração. Esta exegese, por ser uma expressão do fervor da espera e da crença, seria quase uma oração, pensava ele.Ele chegou a afirmar, em sua obra As Fontes da Salvação, sua certeza de que o Messias já teria nascido antes do Exílio da Espanha.

Examinando novamente os mesmos versículos do Livro de Daniel que inspiraram seus antecessores na busca da data da chegada do Messias, o Rabi Abravanel concluiu que a expressão “um tempo” (Dn 7,25 e 12,7: “um tempo, tempos e metade de um tempo”), devendo corresponder a uma porção de tempo bem definida, poderia apenas dizer respeito à duração do Terceiro Templo, ou seja, 410 anos. O versículos fala de três tempos e meio, logo 1435 anos. Se aceitássemos o ano de 68 d.C. como sendo o da destruição do Segundo Templo, o ano da redenção seria 1503 d.C., trazendo assim o fim do Exílio.

Para comprovar seus cálculos, o Rabi Abravanel tratou de trazer a esta data todas as outras previsões numéricas de Daniel. Tomando Dn 8,14: “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs. Então será feita justiça ao Santuário”, ele concluiu que o declínio de Israel começara quando do cisma dos dois reinos, a primeira hora de uma longa noite que só teria fim na manhã da Libertação. E ela chegaria após 2300 anos ( o Rabi Abravanel considerava que o termo “dias” teria, aqui e sempre, o significado de “anos”. Assim ele buscou refutar a exegese cristã que, conservando o valor literal da palavra “dias”, aplica estes fatos à época de Antíoco IV. Ele, em acordo com Abraão Bar Chiyya e Gersônides, buscou mostrar a impossibilidade de defender tal ponto de vista.). Como o cisma ocorreu em 2964, seria em 5264, ou seja, em 1503 d. C., que a unificação dos Reinos mostraria o renascimento da Casa de David.

E, levando aos acontecimentos de então a interpretação que fazia, ele tomou o texto de Dn 12,11-12: “A contar do momento em que tiver sido abolido o sacrifício perpétuo e for instalada a abominação da desolação, haverá 1290 dias. Bem aventurado aquele que perseverar, chegando a 1335 dias.”, e, buscando descobrir o segredo destas palavras “fechadas e reservadas” (Dn 12,9), ele adicionou o valor numérico da palavra yamim (dias) a 1290, chegando então a 1390. E é este o peíodo que passou desde o que ele tomou pela supressão do sacrifício quotidiano, pouco antes da destruição do Segundo Templo, até a tomada de Constantinopla, que já vimos ter sido por ele encarada como sinal dos Tempos. Como após o cativeiro da Babilônia o Édito de Ciro anunciando o retorno fora promulgado 50 anos após sua destruição, seria 50 anos após a queda de Constantinopla que os sinais do retorno iriam se manifestar, ou seja, em 1503…

Como eram tempos difíceis para os judeus, tempos de morte, exílio e destruição, foi evidentemente essa a exegese feita para Dn 12,12: “Bem aventurado aquele que perseverar, chegando a 1335 dias.”. Os sobreviventes veriam o Messias. E, para igualar esta cifra (1335) à cifra encontrada no primeiro cálculo (1435), bastava adicionar a 1335 o valor numérico de yamim (dias), que é cem, chegando assim a 1435.

E esta mesma data (1503, 1435 anos após 68 d. C.) foi encontrada por ele em outro texto, não mais bíblico, mas midráshico. Nos Pirqé de Rabi Eliezer (midrashim essencialmente ligados ao Bereshit – Gênese. Atribuídos ao Rabi Eliezer ben Hircanos, do século I depois de Cristo, foram indubitavelmente redigidos mais tarde, no século VIII ou IX), ele viu que os “quatro reinos” que simbolizam as nações teriam seu reino político durando por “um dia de Deus”, logo, de acordo com o Salmo 90,4, mil anos. Esta opinião é completada por uma segunda, que precisa ser necessário deduzir deste tempo “dois terços de uma hora”, o que perfaz, pelo código empregado, 56 anos. Mas o Rabi Abravanel entende que, se o texto só fala dos dias, o dia de Deus compreende o dia e a noite. É necessário, portanto, dobrar esta duração para obter um dia intiro, ou seja, dois mil anos. Partindo-se da destruição do Templo pelo Rei Nabucodonosor, em 3319, obtemos assim 5319. Deduzindo-se os 56 anos, encontramos o ano de 5263, ou seja, 1503 d.C. Para ele esta data é a mais provável, ainda que ela pudesse corresponder ao princípio de um período que acabaria em 1531.

O mais impressionante, e a prova maior da fé que o Rabi Abravanel colocava em seus cálculos, é a data em que foram publicados seus trabalhos: 1496, 97 e 98, ou seja, sete anos antes da data crucial do fim do exílio. Tendo sido um líder político, sendo mundialmente respeitado por sua sabedoria e erudição, ele não poderia brincar com seus sofridos compatriotas.

É provável que os falsos-Messias aparecidos no princípio do século XVI tenham sido influenciados por seus escritos. Em 1502, Asher Lämmlein apresentou-se em Istria, perto de Veneza, como sendo o anunciador do redentor. De acordo com Joseph Hacohen (1496-1575), autor do ”Emeq Ha-Bakah (O Vale das Lágrimas), ele foi seguido não apenas pela massa, mas também por muitos chefes de comunidades. As aventuras de Davi Reubeni (circa 1524) e de Salomão Molko (morto em 1532), seu discípulo, agitaram a vida judaica na Itália, na Turquia e na palestina. Suas atividades messiânicas foram facilitadas pelas expectativas populares após o Exílio da Espanha.

Para ele, a vinda do Messias provocaria uma mudança geopolítica mundial, não provocada pelo homem (Dn 2,34: “sem intervenção de mão alguma”), mas sim pela intervenção divina direta.

O Messias seria um homem, ainda que dotado de poderes supra-naturais: todas as enormes transformações por ele provocadas seriam feitas sem violência. Sua irradiação espiritual faria com que os muçulmanos devolvessem a Terra Santa a Israel, enquanto Veneza e Gênova colocariam suas frotas à disposição dos judeus para assegurar o seu retorno. Todos voltariam, até mesmo os convertidos.

O Messias seria um príncipe de paz, um juiz que elevaria o nível espiritual da humanidade. Ele seria auxiliado pelas mudanças decisivas provocadas por sua irradiação: supressão das lutas armadas, retorno da natureza ao seu estado primitivo e eliminação dos males de uma civilização artificial.

Os cristãos e os muçulmanos lutariam um contra o outro (para ele o cristianismo e o islamismo seriam os pés de ferro e argila da estátua do sonho de Nabucodonosor em Dn 2,32-35), e a estátua das “nações” seria pulverizada. Segundo ele, os animais monstruosos do sonho de Daniel (Dn 7,2-14) seriam Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma; os dez chifres seriam os dez imperadores que governaram Roma antes da destruição do segundo Templo e o pequeno chifre seria o Bispo de Roma.

Para o Rabi Abravanel, a exegese cristã seria errônea, pois a expressão “dias” significaria anos, impossibilitando assim a aplicação da profecia aos tempos de Antíoco Epifanes; além disso, a interpretação diferente de quais seriam os reinos fez com que ele concluísse pela impossibilidade do “quinto reino”, o do “Filho de Homem”, ser o de Cristo, com o chifre pequeno representando o Anti-Cristo.

Clamava o Rabi ser esta interpretação não conforme aos textos, pois o “quinto reino” deveria estabelecer-se sobre a ruína do quarto, e o cristianismo é anterior à queda de Roma (para ele o quarto). Além disso, o último reino deveria ser exclusivo, e o Islã, a seu tempo, era numericamente maior que a cristandade, sendo que ele advogava estar próxima a vinda do Messias.

Além disso, para ele o texto fala de um reino, logo de um governo temporal. Para ele todas as profecias diriam respeito a um restabelecimento temporal, não (apenas) espiritual.

O messianismo judaico hoje

Hoje o judaísmo está mais dividido do que jamais esteve: Ortodoxos de todos os matizes, Reformistas (também chamados “progressivos”) e Conservadores digladiam-se mutuamente.

Entre os Reformistas, praticamente não há expectativa messiânica. O Messias é visto como uma figura mitológica, como aliás toda a Revelação.

Entre os Conservadores tampouco encontramos expectatoiva messiânica de espécie alguma. Para a imensa maioria destes, o Messias é uma figura interessante, mas simb;olica e sem maior significado histórico.

Já entre os Ortodoxos encontramos várias seitas de acentuado caráter messiâncio.

Os Lubavitcher chegaram ao ponto de acreditar que seu muito amado mestre, Rav Menachen Schneerson, era o Messias. Escreveram livros e mais livros tentando provar esta tese, até depararem-se com um obstáculo intransponível: Rav Schneerson morreu. Houve até mesmo alguns Lubavitchers mais exaltados que pretenderam que ele ressuscitaria em breve, mas ao lembrarem-se da semelhança entre esta atitude e a proclamação cristã da Ressurreição mudaram rapidamente de idéia. Neste ínterim um deles escreveu indignado ao Congresso americano, que dera uma medalha póstuma a Rav Schneerson, declarando que em breve seria Rav Schneerson a ir dar uma medalha póstuma ao Congresso!

Mesmo assim esta seita continua com grandes expectativas messiânicas, fazendo campanhas de proselitismo entre os judeus seculares, oferecendo teffillin nas esquinas (eles acreditam que se todos os judeus colocassem teffillin ao mesmo tempo o Messias viria instantaneamente…), etc.

Outros grupos esperam firmemente pelo Messias, e vêem na existência do Estado de Israel uma prova de que ele estaria por vir. Provavelmente, crêem eles, viria antes o Messias Filho de José para levar todos os judeus para Israel e reconstruir o Templo, atualmente em mãos dos muçulmanos.

Outros grupos, ainda, negam-se a aceitar o Estado de Israel, por considerar que sem o Messias ter vindo a própria existência deste país é uma blasfêmia.

Outros ainda, animados de um espírito muito semelhantes ao dos zelotas do tempo de Cristo, consideram que o Estado de Israel é como que um Messias, e por ele fazem os maiores sacrifícios. Estes em geral não são considerados ortodoxos pelos grupos ortodoxos mais tradicionais, mas o são pelos reformistas e conservadores. Foi um membro deste grupo que matou o primeiro ministro israelense Rabin, por opôr-se aos tratados por ele firmados com a organização terrorista OLP em Oslo, na Noruega.

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