Em poucos dias, o Vaticano deve divulgar o Motu Proprio do Papa Bento XVI que concederá liberação plena para a celebração da Missa segundo o missal de 1962, o último do rito tridentino, promulgado em 1570. Até agora, o rito tridentino só podia ser usado com autorização do bispo local; a partir da publicação do Motu Proprio, essa autorização não será necessária.

Embora esta medida de Bento XVI seja muito elogiada por parte de todos os que desejam uma vivência litúrgica autêntica, sem abusos, seja nas celebrações do rito tridentino ou segundo o Novus Ordo, certos grupos (que a partir de agora chamarei “rad-trads”, de “radical traditionalists”, para não confundir com os tradicionalistas honestos) estão vendo no documento papal aquilo que certamente ele não é: um ataque ao Vaticano II.

O raciocínio destas pessoas é simples (para não dizer simplório): se o Papa está prestigiando a liturgia pré-Vaticano II, então o Santo Padre está aos poucos minando o Concílio para, um dia, eliminar da Igreja quaisquer vestígios do Vaticano II e da liturgia promulgada em 1969, que estes grupos rad-trads consideram “protestantizada” (embora o que realmente gostariam de dizer é “herética”).

Ora, se estes grupos têm razão, então é de se supor que o Papa seja ou um esquizofrênico, ou um mentiroso. Pois um de seus primeiros pronunciamentos como Papa foi justamente uma reafirmação de seu compromisso com o Concílio Vaticano II:

“Com o Grande Jubileu foi introduzida no novo milénio levando nas mãos o Evangelho, aplicado ao mundo actual através da autorizada repetida leitura do Concílio Vaticano II. Justamente o Papa João Paulo II indicou o Concílio como “bússula” com a qual orientar-se no vasto oceano do terceiro milénio (cf, Carta apost. Novo millennio ineunte, 57-58). Também no seu Testamento espiritual ele anotava: “Estou convencido que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos concedeu” (17.III.2000).

Por conseguinte, também eu, ao preparar-me para o serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, desejo afirmar com vigor a vontade decidida de prosseguir no compromisso de actuação do Concílio Vaticano II, no seguimento dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bimilenária tradição da Igreja. Celebrar-se-á precisamente este ano o 40º aniversário da conclusão da Assembleia conciliar (8 de Dezembro de 1965). Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam actualidade; ao contrário, os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas situações da Igreja e da actual sociedade globalizada.”

(Fonte: mensagem do Papa ao fim da concelebração eucarística que encerrou o conclave)

Curiosamente, no afã de ver no Motu Proprio a “destruição” do Vaticano II, esses rad-trads começam a dar crédito a qualquer um – por exemplo, a imprensa secular, que, com raras exceções, noticia mal as coisas da Igreja. Um jornal, por exemplo, anunciou que a liberação irrestrita da missa tridentina significaria uma “revogação” do que o Vaticano II havia feito. É muito estranho quando, de repente, qualquer bobagem escrita por um jornalista que provavelmente não entende muita coisa sobre a Igreja é elevada a categoria de verdade profunda sobre a fé.

Mais estranho ainda foi ver a citação de um site classificado pelos rad-trads como “modernista da linha da Teologia da Libertação”, segundo o qual há uma confrontação entre um modo de viver a fé “pré-Vaticano II” e outro, “pós-Vaticano II”, visões diferentes sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo. E, de repente, a palavra de um bando de escritores TL é a verdade suprema sobre o Concílio Vaticano II. É incrível: rad-trads e teólogos da libertação estão de acordo!

Na verdade, não é tão incrível assim. Teólogos da libertação adoram dizer que o Vaticano II representou uma ruptura em relação ao que se pensava e acreditava antes do Concílio – eles o fazem para mostrar que “agora o negócio é outro”, como se 1960 anos de Cristianismo não valessem nada. Essa visão TL é um prato cheio para os rad-trads, que a usam no sentido contrário: como o Vaticano II representa uma ruptura, na verdade o Concílio representa uma apostasia. Roma perdeu a fé, o Concílio é uma ameaça à Igreja, e outras coisas mais.

O problema é que nem TLs, nem rad-trads estão certos. O Concílio não representa uma ruptura. E sobre isso Bento XVI falou em seu discurso à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2005. O Papa define a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, segundo a qual há uma descontinuidade entre o ensinamento pré e pós-conciliar, e logo depois a condena, revelando como correta a “hermenêutica da reforma”, citando João XXIII, segundo o qual o Concílio “quer transmitir a doutrina pura e íntegra sem atenuações nem desvios (…) O nosso dever não é somente guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente pela antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige… É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de modo que corresponda às exigências do nosso tempo.”

Ora, se o Concílio não representou ruptura, e isso o próprio Papa nos diz, então não são apenas os TLs que estão errados; os rad-trads também estão, porque também eles defendem a “hermenêutica da descontinuidade” – apenas os fins são diametralmente opostos aos dos teólogos da libertação. A tragédia para os rad-trads é que, para conseguir seus fins, eles dependem da existência de gente como os teólogos da libertação, que interpretam erroneamente o Vaticano II. E os rad-trads, assim, cometem um atentado teológico ao fazer dos teólogos da libertação os “autênticos” intérpretes do Vaticano II – porque, se não for assim, os rad-trads não terão por que atacar o Concílio. Mas a interpretação autêntica do Concílio está longe das mãos dos TLs, porque a interpretação autêntica do Concílio é feita à luz da Tradição da Igreja. É essa a realidade à qual os rad-trads fecham os olhos, porque do contrário seu castelinho de cartas desmorona.

Portanto, o Motu Proprio que será divulgado em breve não representa, em nada, uma ameaça ao Concílio Vaticano II – simplesmente porque o Concílio não representa nenhuma ameaça à Igreja e à verdadeira fé. As ameaças vêm justamente dos dois “extremos”: a Teologia da Libertação e o tradicionalismo radical, que curiosamente e ironicamente fazem a mesmíssima interpretação torta do Vaticano II.

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