• Autor: T. W. Allies (ex-pastor anglicano)
  • Fonte: Livro “St. Peter: his Name and his Office”
  • Tradução: Jonadabe Rios

Nosso Senhor nos diz que veio para a terra a fim de “finalizar uma obra”; diz-nos também que a sua obra seria o estabelecimento de uma sociedade viva de homens que habitariam n’Ele, e Ele habitaria neles; sobre os quais Seu Espírito repousaria, e com os quais Sua presença permaneceria até a consumação dos séculos. Durante a noite anterior à Sua Paixão,

  • “[…] levantando os olhos ao céu, disse: ‘Pai, chegou a hora […] Glorifiquei-te sobre a terra; acabei a obra que me deste a fazer. […] Manifestei o teu nome aos homens, que me deste do meio do mundo. Eram teus, e tu mos deste; e guardaram a tua palavra. […] Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Quando eu estava com eles, os guardava em teu nome. […] Mas agora vou para ti […] Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. […] Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. Por eles eu me consagro a mim mesmo, para que também sejam verdadeiramente santificados. Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim por meio da sua palavra, para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como também nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que a sua seriedade seja perfeita, e para que o mundo conheça que me enviaste e que os amaste, como me amaste. […] Fiz-lhes e far-lhe-ei conhecer o teu nome, a fim de que o amor com que me amaste, esteja neles, e eu neles’” (João 17).

Nestes termos, o Verbo Eterno se digna a nos declarar que o fruto de Sua Encarnação, a “obra finalizada” que Seu Pai lhe deu para que fosse feita, era o estabelecimento de uma sociedade cuja unidade na “verdade” e no “amor” deveria ser perfeita, exemplificando-a com a relação das Pessoas Divinas; que seria perpétua e visível para sempre, de modo que o mundo, por meio dela e nela, reconheceria Sua missão e acreditaria em Quem a enviou; e que o dom desta sociedade, por consequência perpetuamente visível, seria a perpétua posse tanto da Verdade – a revelação da vontade de Deus – quanto do amor, que está em conformidade com a Verdade. Ele fundamentou estas promessas sem iguais sobre nada menos que a Toda-Poderosa e inefável bondade de Seu Pai, testemunhada e provada através de Sua habitação entre nós em sua própria carne.

Em outra parte, Ele chamou esta sociedade de Sua Igreja, e declarou que construiria sobre uma rocha e que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18). Ordenou aos que foram enviados em Seu nome a “ensinar todas as nações da terra” em tudo o que lhes ordenou, acrescentando o solene compromisso de Sua parte que estaria com eles “todos os dias até a consumação dos séculos” (Mateus 28,19-20).

Todo o seu ensino é uma inteira referência a esse fato, estabelecendo sua natureza com inúmeras ilustrações, ornando-a, por assim dizer, com a exuberância da caridade divina.

Mas há dois conceitos atravessam cada uma destas ilustrações, e estão envolvidos em sua ideia primordial, visto que são mais do que ilustrações: são o desfecho de Sua Encarnação, tal modo são encontradas em Sua adorável Pessoa a partir da qual nasce Sua Obra. Estes conceitos são a Unidade e a Visibilidade.

Assim como o mistério da Encarnação consiste na união das naturezas humana e divina em uma Pessoa, e a Encarnação realizada por um Ser incriado, incompreensível e invisível, em um corpo material, através do qual Ele se torna visível, assim também a Unidade e a Visibilidade são marcas infalíveis de Sua Igreja e estão em cada uma das suas imagens, de tal maneira que, sem elas, esta imagem perde o seu objetivo e o seu sentido.

Igualmente, Ele proclama sua Igreja como “o Reino de Deus”, e “o Reino do Céu”, ensinando-nos, por um lado, a concepção de ordem, governo, poder e autoridade, e, por outro, de dependência num ambiente de relações mutuas entre o Soberano e o povo, fazendo ainda a significativa observação de que “um reino dividido entre si mesmo cairá”. Portanto, um reino sem unidade é uma contradição de termos, e um reino de Deus na terra que não pudesse ser visto seria feita para espíritos puros, e não para homens.

Por este motivo, Ele chama seu reino de “cidade construída sobre uma montanha” que “não pode ser ocultada”; correspondendo, com as palavras de Seus profetas, à “cidade do grande Rei”, “Seu descanso e Sua habitação para sempre” (Mateus 5,14; Salmos 47,2; 131,13-14). Aqui, novamente, são incorporadas as noções de ordem, governo, conspicuidade, majestade e força invencível.

Desse modo Ele inspira Seu apóstolo a chamá-la “casa de Deus, coluna e sustentáculo da verdade” (1Timóteo 3,15). Toda a casa deve ter sua cabeça, toda família o seu pai; a compreensão de que a vontade do pai é a verdade tranqüiliza a família como seu suporte e pilar. Fora da família pode-se perder este reconhecimento juntamente com a vontade de obedecer e amar o pai; mas, dentro dela, há uma tradição viva, “familiar aos ouvidos, como palavras domésticas”. Enquanto o Mestre e o Pai estiverem lá, a Luz perpétua da Sua face estará também sobre os Seus filhos e os Seus servos. Divida-se a casa, ou corrompa-se sua vida interna, e a idéia de casa é destruída, pois uma casa invisível é um absurdo.

Desse modo, o Senhor, chamando a Si mesmo “Bom Pastor, que dá Sua vida por suas ovelhas” (João 10,11-16), chama Sua Igreja de redil, e declara que, assim como há um só Pastor, deve haver um só rebanho.

Mas, aproximando-se ainda mais da Pessoa Divina do Verbo Encarnado, de cuja costela na Cruz ela foi moldada, a Igreja é chamada Sua Esposa, tal modo está unida a Ele no eterno matrimônio (Efésios 5,30.32), “um grande Sacramento”, ou mistério; mais ainda, chamada Seu Corpo, através do contínuo influxo da sua Cabeça, de modo que todos os seus membros são chamados “carne de Sua carne, e ossos dos Seus ossos”.

É evidente, portanto, que nestas promessas e figuras se estabelece, como algo próprio de seu objeto, uma unidade visível, uma posse perpétua e proteção da verdade, e a mais íntima união com Deus, fundada sobre a máxima intimidade sobrenatural da Divindade em uma sociedade de homens sobre a terra, a fundação que foi a “obra final” de Deus, o Verbo Encarnado. Se estas promessas falhassem em qualquer um destes aspectos – o que é impossível, pois tudo pode passar no céu e na terra, menos as palavras de seu Criador – ficaria claro que nossa base para crer em qualquer promessa das Sagradas Escrituras estaria demolida. Toda a revelação Cristã reside na imperecível vida da Igreja, pois sua corrupção ou divisão tornariam falsos os registros de nossa fé, ao passo que, após a doutrina da Santíssima Trindade, e da Divindade de Nosso Senhor, nenhuma verdade está tão profundamente firmada quanto a perpétua existência e ministério da Igreja.

Já abordamos o conceito de Rei, Senhor, Mestre, Pai, Pastor, Esposo e Cabeça que envolvem o delineamento da Igreja. Ora, nenhuma sociedade estará completa sem que haja um regente. Assim, Nosso Senhor, enquanto estava sobre a terra, foi o regente de sua Igreja visível. “Enquanto eu estava com eles, os mantive em Teu Nome”. Ele estabeleceu o Seu batismo para salvar as almas. A água tornou-se vinho em Sua presença. Chamou homens para que o seguissem, e eles o seguiram. D’Ele saiu virtude, e doenças foram curadas. A Graça saía dos Seus lábios e conquistava os corações. Inumeráveis multidões de todas as idades e condições rodeavam-no.

  • “E subindo à montanha Ele chamou para si aqueles que eram seus; e eles vieram para Ele. E ele escolheu doze para que estivessem com ele, para que Ele pudesse enviá-los a pregar” (Marcos 3,13).

E aqui, pois, o verdadeiro Israel escolhe o futuro príncipe de Sua casa, Aquele que deveria se sentar em Seu trono julgando as doze tribos. Desse modo, enquanto estava ainda com Sua Igreja, Nosso Senhor preparava o seu futuro governo, para quando Sua presença visível fosse retirada. Em três anos tudo estaria realizado, quando “a aliança deveria ter sido confirmada com muitos em uma semana, e na metade da semana a vítima e o sacrifício deveriam falhar” (Daniel 9,26); quando Seus apóstolos não mais o veriam. Acaso algum deles seria ordenado a ocupar este supremo papel de regente? Pois, enquanto estava na terra, Ele tinha duas relações com Sua Igreja: a de Fundador e a de Regente. O papel criador tem lugar único em Sua Pessoa; por sua própria natureza, Ele não poderia passar para outro; o trabalho foi consumado de uma vez por todas. Entretanto, o segundo ofício era, por sua própria natureza, perpétuo. Como, então, o papel de regente visível, um homem entre homens, seria executado, quando Sua Pessoa física não estivesse presente, após ascender ao céu, quando todo o poder no céu e na terra fosse colocado em Suas mãos, assim como a autoridade de influência espiritual e o cuidado providencial; quando, todavia, o Sagrado Corpo estivesse no tabernáculo de Deus, e o noivo estivesse ausente por um tempo, e a voz e a visível presença (1João 1,1) “que eles viram, ouviram de suas palavras de vida” não mais “estivesse com eles”? Deveria Sua Igreja, que estivera sob um visível regente desde o início, ter agora seu governo mudado? Ou teria Ele escolhido um entre os Doze para sucedê-lo em seu papel de chefe visível, a fim de ser “o maior” (Lucas 22,26) e “o regente” entre seus irmãos, Seu próprio representante especial e vigário?

Para responder esta pergunta, devemos observar cuidadosamente o que foi dito e o que foi dado aos Apóstolos em comum, e o que foi dito a um deles em particular; o primeiro caso irá instruir-nos quanto ao que é comum a todos, o segundo caso quanto a preeminência que alguém tinha sobre os demais, e o que ela consistia.

Assim como, em certo período de Seu ministério, Nosso Senhor escolheu, dentre a multidão que o seguia, doze servos especiais sobre a terra, para que, quando Ele estivesse ausente, anunciassem o Seu Evangelho entre todas as nações, assim também Ele, desde o princípio, distinguiu um dentre os doze, estabelecendo-o em um ofício único e peculiar, ligado a Ele mesmo de forma especial, e, após ter completado todo o Seu ministério, deu-lhe sinais e avisos de seu futuro destino, colocando-o, por fim, expressamente em Seu próprio posto, presidindo entre seus irmãos. O Seu agir com este Apóstolo forma um conjunto interligado, no qual não há nada de abrupto, desarmonioso, fora de sintonia, ou oposto ao que Ele dissera aos outros. Aquilo que, no início, é dito de maneira obscura, é depois prometido expressamente, corroborado em termos novos, e, finalmente, ainda em outra linguagem, embora de maior força, é mais significativamente transmitido[1], embora isso seja atestado por um grande número de fatos incidentais espalhados em todo o Evangelho. Assim[2], é necessário considerar cada caso particular, assim como a totalidade do que foi dito, própria e peculiarmente dito a este Apóstolo; pesar e avaliar inicialmente cada caso específico e, em seguida, sua força conjunta, e somente depois disso fazer um julgamento sobre o todo.

Estamos aqui buscando descobrir a vontade do Divino Fundador de nossa fé, vontade que Ele não somente comunicou à Sua Igreja em uma tradição viva, mas, neste caso especifico, também está explicitada em documentos escritos autênticos. Estamos considerando aqui exclusivamente se Ele decretou que todos os Doze seriam iguais nesta missão e autoridade divina que recebera de seu Pai, ou se, embora tenha conferido sobre todos eles grandes e distintos poderes, Ele ainda distinguiu um, Simão, filho de Jonas, para presidir sobre todos os demais em Seu lugar. Devemos, portanto, considerar todas as passagens que estes documentos narram particularmente a respeito deste apóstolo, destacando seus dons e suas prerrogativas singulares e outorgando-lhe autoridade especial de governo. Ademais, devemos relembrar que, onde as provas são numerosas e complexas, aquelas que em si mesmas são somente prováveis e acessórias ainda assim têm força no resultado final. Mas este resultado deve ser traçado a partir de uma visão geral de todo o conjunto na qual se unificará a soma das evidências, tanto prováveis quanto indubitáveis.

Mais uma vez, quando causas várias concorrem, algumas mais e outras menos, para produzir certo efeito, a força deste efeito reside na eficácia de todas as causas em conjunto, não de cada uma isoladamente. Em outras palavras, quando muitos testemunhos cuja evidência difere em valor são examinados, embora o testemunho de alguns seja em si mesmo decisivo, o veredito deve ser dado levando em consideração do conjunto.

Assim sendo, a primeira menção que temos do Apóstolo Simão é completa em seu significado. Nosso Senhor mal acabara de começar seu ministério; Ele fora recentemente batizado e ainda não havia chamado nenhum discípulo. Mas dois dos discípulos de João Batista que escutaram seu mestre chamar Jesus de “o Cordeiro de Deus”, seguindo-o, são bondosamente recebidos por Ele, e um deles, André, irmão de Simão, encontra-o e o diz: “‘Encontramos o Messias’ (que quer dizer Cristo). Levou-o a Jesus. Jesus, fixando nele o olhar, disse: ‘Tu és Simão, filho de João, tu serás chamado Cefas, que quer dizer Pedro ou Pedra’ “[3]. É como se Ele dissesse: pelo nascimento tu és Simão, filho de João; mas estás destinado a outro e mais alto destino. Dar-te-ei outro nome que, por si, significará o lugar que irás ocupar em minha Igreja. Serás chamado, isto é, tu serás, a Rocha.

Por qual motivo, diante de uma grande multidão de palavras e ações de Nosso Senhor que foram omitidas, este fato foi registrado, exceto que tivesse algum significado profundo nele? Ou então, que poderia isto significar, quando Nosso Senhor, assim que olhou para Pedro, prometeu-lhe, e a ele somente, um novo nome, um nome profetizado por Ele próprio, um nome declarado pelo próprio construtor como sendo a fundação da estrutura a ser erguida? Assim, no quarto século, São João Crisóstomo comenta o texto, chamando-o de “fundação da Igreja, aquele que era realmente Pedro (a Rocha) tanto de nome quanto de direito”[4]; pouco tempo depois, São Cirilo de Alexandria, “em alusão à rocha, Ele Transferiu Seu nome a Pedro, pois sobre Pedro Ele edificaria a Sua Igreja”. O Criador do mundo não daria um nome a alguém por nada. Sua palavra é poderosa, pois faz aquilo que expressa. No Antigo Testamento, “Ele falou e as coisas foram feitas; ordenou e elas foram criadas”. Agora, também, Ele fala os primeiros traços da Sua grande restauração espiritual. Quando nada ainda estava feito, e nenhuma pedra da construção divina havia sido criada, Ele determina o fim desde o começo olhando aquele simples pescador, e, assim que o contemplou, tirou Simão, o Filho de Jonas, do meio dos homens comuns; marcou-o para um plano futuro; envolveu-o em um título profético; associou-o ao Seu próprio imutável poder. D’Ele mesmo foi dito[5]: “Portanto estas coisas diz o Senhor Deus: Eis que coloquei nos fundamentos da (nova) Sião uma pedra, uma pedra provada, angular, preciosa, assentada em (solidíssimo) fundamento; aquele que crer, não se apressará (a fugir)”. Mais ainda, “[…] A pedra que os edificadores rejeitaram, esta foi posta por pedra angular”. Novamente, “estavas a olhá-la, quando uma pedra se desprendeu da montanha, sem intervir mão (de nenhum homem), a qual feriu a estátua nos seus pés de ferro e de barro, e os fez em pedaços. Então se quebraram, a um tempo ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro, e ficaram reduzidos como a miúda palha, lançada (pela aragem) para fora da eira no tempo do estio; foram levados pelo vento, sem ficar nada deles. Porém a pedra, que tinha dado na estátua, tornou-se uma alta montanha, que encheu toda a terra”. E mais, “Eis a pedra que pus diante de Josué [que significa Jesus]; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu mesmo a lavrarei com o cinzel, diz o Senhor dos exércitos, e num só dia tirarei a iniquidade desta terra”. Em referência ao que São Paulo diz dos cristãos, que eles são “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular”. Está claro, portanto, que Nosso Senhor é “chamado de rocha tanto pelo Antigo quanto pelo Novo Testamento”[6].

Mas aquilo que Ele tinha por Si mesmo, e por virtude de seu próprio Divino Poder como Palavra de Deus, Ele comunicaria a outra pessoa em certo grau, e em dependência d’Ele mesmo. Essa não é uma interpretação moderna, mas as próprias palavras de Santo Ambrósio,

  • “Grande é a graça de Cristo, que ofereceu quase todos os Seus nomes aos Seus discípulos. Ele disse: ‘Eu sou a luz do mundo’, e assim Ele deu aos seus próprios discípulos o nome em que Ele se exultou, chamando-os luz do mundo. Cristo é a Rocha, mas Ele não negou a graça deste nome ao seu discípulo que seria Pedro, pois Ele tem da Rocha a firme constância, a fé inalterável”[7].

No terceiro século, Orígenes, comentando este texto, observa:

  • “Ele seria chamado Pedro, em alusão à Rocha, que é Cristo, pois assim como um homem é chamado sábio pela sabedoria, e santo pela santidade, assim também Pedro [Pedra] pela Rocha”.

No quinto século, São Leão parafraseia o nome deste modo:

  • “Assim como Eu sou a inviolável Rocha, a pedra angular, a fundação ao lado da qual ninguém pode colocar outra; assim também tu serás a rocha, pois, por Minha virtude, tu serás estabelecido e terás por participação as propriedades que me são próprias”[8].

Temos aqui três fatos:

  1. Nosso Senhor, tendo escolhido doze apóstolos, a um apenas amou, honrou acima de todos os seus outros discípulos, e ainda lhe prometeu[9] um novo nome; e
  2. Este nome tinha o maior grau de significação de papel profético profundamente particular; e
  3. Um nome que era característico de Si próprio como irremovível fundação da Igreja. Isso aconteceu no primeiro ano de eu ministério, antes mesmo, como parece, de que Pedro ou qualquer outro apóstolo fosse chamado.

Esta promessa feita com tamanha ênfase a Simão, “tu serás chamado a Rocha”, foi realizada por Nosso Senhor no segundo ano de seu ministério, quando Ele escolheu os doze Apóstolos, dando-lhes autoridade para ensinar e o poder de curar doenças e expulsar demônios. Assim, diz São Marcos[10] “Para Simão Ele deu-lhe o nome de Pedro”, em São Mateus, “os nomes dos Doze Apóstolos são estes: o primeiro, Simão, que é chamado Pedro” e São Lucas, “Simão que também Ele chamou Pedro”. E, por este nome, Ele destacou-o dentre todos os seus irmãos, unindo-o a Si mesmo. Assim diz Tertuliano,

  • “O meu Redentor converteu o nome de Simão para Pedro, porque o Criador alterou, antes dele, os nomes de Abraão, Sara e Oséias, chamando-o Josué ou Jesus, acrescentando uma sílaba ao nome dos outros dois. Mas por que Pedro? Para que a matéria sólida e compacta pudesse expressar, por seu nome, a energia de sua fé, ou melhor, porque a Escritura representa o próprio Jesus tanto como pedra angular quanto como pedra de tropeço e escândalo. É o bastante. Comunicar ao mais querido de seus discípulos um nome que tirou de seus próprios símbolos talvez fosse melhor do que impor um nome que não lhe figurasse”[11].

Isso é, portanto, um selo sobre os Seus atos anteriores, que delineia e corrobora o seu significado, visto que Ele, mais uma vez, e de forma mais enfática, repete este nome, ligando-lhe a maioria dos sinais prometidos, e estabelecendo seu poder profético. No terceiro ano de Seu ministério, Nosso Senhor “tendo chegado à região de Cesareia de Filipe, Jesus interrogou os seus discípulos, dizendo: ‘Que dizem os homens que é o Filho do homem?’ Eles responderam: ‘Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas.’ Jesus disse-lhes: ‘E vós quem dizeis que eu sou?’ Respondendo Simão Pedro, disse: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.’ Respondendo Jesus, disse-lhe: ‘Bem-aventurado és, Simão Bar-Jona, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram, mas meu Pai que está nos céus. E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também nos céus, e tudo o que desatares sobre a terra, será desatado também nos céus.”

Quando refletimos que o primeiro ato de Nosso Senhor a Pedro foi olhar para ele e lhe prometer este nome, um sinal de Sua Onipotência para Simão, que até o momento não o conhecia, assim como ver sob a figueira foi para Natanael uma prova de sua Onisciência; e que, quando Ele escolhe Seus doze apóstolos, diz marcantemente que “a Simão Ele deu o nome de Pedro”, a força de Sua resposta não pode ser superada. A promessa de Nosso Senhor retribui parte a parte a confissão do Seu apóstolo. O primeiro diz: “Tu és o Cristo”, isto é, o Ungido; o outro, “Tu és Pedro”, isto é, a Rocha, o nome que eu dei a ti de mim mesmo: eu te investi com meu próprio título. O primeiro acrescenta, “o Filho do Deus Vivo” e o outro “e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”, isto é, assim como é verdade o que confessaste, que eu sou “o Filho do Deus Vivo”, assim também, por meu poder, construirei minha Igreja sobre ti, a quem chamei de Rocha, “e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela”. Não somente isto, mas irei revelar a ti o completo significado de teu nome, e declarar os dons que o acompanham. “E dar-te-ei as chave do reino do céu”, isto é[12], “a raiz e a geração de Davi”, “aquele que tem a chave (da casa) de Davi, aquele que abre e ninguém fechará, que fecha e ninguém abrirá”; assim como Ele deu a ti conhecer Seu nome de Rocha, assim também te dará, em Seu nome, Seu próprio símbolo de supremo domínio, a chave que abre ou fecha a verdadeira cidade de Davi; todas as épocas te reconhecerão, todas as nações confessarão a ti como o Portador das Chaves; enquanto minha Igreja existir, contra a qual as portas do Inferno não prevalecerão, teu ofício também existirá; enquanto houver almas a serem salvas, elas passarão, através de teu ministério, pelas portas da Igreja. E, finalmente, quando houver necessidade, em meu Reino, que leis sejam promulgadas, preceitos estabelecidos e pecados perdoados, “tudo o que ligares na terra, será também ligado no céu; e o que desligares na terra, será desligado também no céu”.

Quem, de fato, pode adequadamente expressar os dons que as palavras do Criador e Redentor aqui prometidas ao Seu servo favorito? Assim, no quarto século, São João Crisóstomo esforça-se para interpretá-las.

  • “Vede como Ele eleva Pedro à mais alta opinião de Si mesmo; revela e mostra-se como Filho de Deus por suas promessas. Para aquilo que pertence somente a Deus, como perdoar os pecados, e fazer com que a Igreja fique imóvel contra os assaltos das ondas, fazer um pescador mais sólido que uma rocha, mesmo que todo o mundo esteja em guerra contra ele, isto é o que Ele lhe promete; assim como o Pai falou a Jeremias, dizendo: ‘tornei-te um pilar de ferro e um muro’. Entretanto, este era um pilar para uma nação, enquanto que aquele era para todo o mundo. Eu estaria disposto a perguntar àqueles que querem diminuir a dignidade do Filho, quais são os maiores dons, aqueles que o Pai deu a Pedro ou o que o Filho lhe deu. Pois o Pai deu a Pedro a revelação do Filho; mas o Filho lhe aplicou o que se diz a respeito do Pai e de Si através de todo o mundo; colocou nas mãos de um homem mortal o poder sobre todas as coisas no céu, quando Ele deu as chaves para ele que expandisse a Igreja em todo o mundo, e mostrou que ela era tão firme quanto o próprio céu”[13].

Não muitos anos depois, São Leão diz que

  • “tudo aquilo que a Verdade ordenou permanece; e o bem-aventurado Pedro, persistindo com o vigor da rocha que recebera, não abandonou a condução, outrora incumbida, da Igreja. Pois assim ele foi colocado à frente dos demais, uma vez que é chamado a Rocha, que é declarado a fundação, é indicado como o porteiro do reino do céu e é elevado a juiz que irá ligar e desligar, com a condição de que sua sentença será ratificada até mesmo no céu, podemos aprender através dos reais mistérios dos nomes que lhe foram dados, como ele fora associado a Cristo”[14].

Esta associação esteve, de fato, no próprio modo de pensar da Igreja, pois entre todos os títulos dados pelos Padres, Concílios e liturgias a Pedro, que expressam suas prerrogativas, o significado contido neste nome é o mais freqüente. Assim ele é chamado “a rocha da Igreja”[15], “a rocha sobre a qual a Igreja seria construída”[16], “fundamental construção da Igreja”[17], “recebendo em si mesmo a construção da Igreja”[18], “a rocha imóvel”[19], “a rocha que as orgulhosas portas do inferno não prevaleceriam”[20], “a rocha mais sólida”[21], “aquele a quem o Senhor deu a participação de Seu próprio título, a rocha”[22], “a fundação segunda proveniente de Cristo”[23], “a grande fundação da Igreja”[24], “a fundação e base”[25], “fundando a Igreja por sua firmeza”[26], “o apoio da Igreja”[27], “o Apóstolo no qual a Igreja está apoiada”[28], “o sustentáculo da fé”[29], “o pilar da Igreja”[30], e por uma autoridade suficientemente única para terminar toda a controvérsia, o grande Concílio de Calcedônia , “a rocha e fundação da Igreja Católica, e a base da fé ortodoxa”[31]/[32].

Portanto, temos o nome de Pedro inicialmente prometido, depois conferido, e finalmente explicado. Agora lançaremos maior luz a respeito deste assunto ao tratar dos nomes que nas Escrituras foram conferidos pelo divino comando a algumas pessoas, ou quando seus nomes são modificados.

Parece haver três tipos de nomes impostos nas Escrituras[33]. O primeiro e mais comum são os nomes comemorativos, que servem para recordar e manter na posteridade certos fatos memoráveis. Assim são Pelegue, “porque naqueles dias a terra foi dividida”; Isaac, a partir do riso de seu pai e sua mãe; Isacar, uma recompensa; Manassés, “Deus me fez esquecer de meus trabalhos”; Efraim, “Deus fez-me crescer”[34] e muitos outros.

A segunda classe pode ser chamada de significativa, sendo imposta para distinguir quem o tem dos outros por alguma qualidade. Assim foi com Jacó, o suplantador; Esaú; Edom, o vermelho; Moisés, o salvo; Macabeus; Boanerges[35].

A terceira e mais elevada classe é a dos nomes proféticos, e esta classe evidentemente somente pode ser imposta por Deus, aquele que conhece o futuro. Ela é dupla:

  1. Aqueles que previnem eventos relacionados tanto aos seus portadores quanto a outros; assim são Shear-jashub, “o remanescente irá retornar”; “Jezrael, “Irei visitar”; “Lo-ruhamah, “não haverá lamento”; “Lo-ammi”, “não meu povo”.
  2. Aqueles que tratam do papel e destino de seus portadores; assim como Noé, o que restou; Israel, um príncipe diante de Deus; Josué, Salvador; Sara, princesa; João, aquele a quem há graça; e, finalmente, o divino nome de Jesus, “aquele que salva Seu povo de seus pecados”[36]. Abraão e Cefas (ou Pedro), que nem comemoram um evento passado, nem significam uma qualidade e ornamento já possuídos, são inteiramente proféticos, visto que eles esclarecem a dignidade daqueles líderes das duas alianças e são divinamente marcados pela própria imposição de seu nome.

Talvez isso mostre a preeminência e autoridade superior de Pedro, se considerarmos a própria semelhança e quase que identidade da dispensação com que Deus começou com Abraão, e aquela que Cristo deu a Pedro. Mas primeiro observemos como as mais notáveis coisas ocorridas no Novo Testamento são pressagiadas por tipos, imagens, paralelismos e profecias distintas no Antigo Testamento. Visto que[37] tanto Nosso Senhor, os Evangelistas e os Apóstolos, esforçam-se para apontar a ligação íntima que há entre as duas alianças; como os antigos escritores eclesiásticos fazem em suas controvérsias com os primeiros hereges, ou na recomendação da verdade da fé cristã para os judeus ou gentios. Eles raramente consideravam qualquer prova dos Evangelhos superior ao que pudesse ter a sólida inferência da antecipação das verdades cristãs na Antiga Aliança. Dentre tais verdades, aquela acerca de Pedro é, sem dúvida, de grande importância, uma vez que ela afeta todo o julgamento sobre a forma de governo que Nosso Senhor instituiu para Sua Igreja.

Isso pode ser tomado como um axioma, como uma semelhança de causa é inferida a partir de uma semelhança de efeitos, assim como uma imagem do conselho divino pode ser inferida a partir da semelhança de suas manifestações exteriores. Como nos elevamos ao conhecimento das causas através dos efeitos, as manifestações divinas são sinas que revelam os eternos decretos de Deus. Assim, se a série de relações que constituem a dispensação de Deus a Abraão forem semelhantes a outras séries que nas Escrituras do Novo Testamento são estabelecidas à dispensação dada a Pedro, podemos concluir, primeiro, que as duas dispensações podem ser comparadas, e, segundo, que, a partir de suas semelhanças, uma semelhança no propósito divino pode ser deduzida.

Inicialmente, “Deus em diversas ocasiões e em diversas formas tem falado aos Padres”[38] sobre a aliança da graça, na qual Ele já fez inteiramente com nossos primeiros pais, e disse para Abraão, “sai de teu país, e de tua parentela, e da casa de teu pai, e vai para onde eu te mandar e farei de ti uma grande nação”. Mas, quando nos últimos dias Ele começou a cumprir esta aliança, e a declarar Sua vontade por Seu Filho, Jesus disse a Simão e André, “Sigam-me, e farei de vocês pescadores de homens”, e a Simão especificamente, “não temas, pois doravante pescarás homens”[39].

Abraão ouviu o chamado de Deus: “Partiu, pois, Abrão, como o Senhor lhe tinha ordenado” e Simão imediatamente obedeceu o chamado de Cristo: “Imediatamente, deixadas as redes, o seguiram.”[40].

Deus recompensou a obediência de Abraão com a promessa de um novo nome: “e não mais serás chamado com o nome de Abrão, mas chamar-te-ás Abraão”. Assim também Cristo honrou a Simão, dizendo, “Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas”[41].

Nunca antes Deus manifestara a dignidade que antes estivera encoberta através a promessa de um nome, e agora concedeu esta dignidade a Abraão, de quem requereu um sinal de sua fé e amor: “Passado isto, quis Deus tentar a Abraão, e disse-lhe: Abraão, Abraão! Ele respondeu: aqui estou.” Do mesmo modo, Cristo quis de Simão uma prova de fé e de amor antes que Ele ou revelasse a excelência do nome prometido, ou adornasse-o com esta excelência: “E vós quem dizeis que eu sou? […] Simão, filho de Jonas, tu me amas mais do que eles?”[42].

Ambos foram prontos em mostrar a força de sua fé e amor que tinham para seguir o divino chamado. Pois, “Estendeu a mão e pegou no cutelo, para imolar seu filho.” e “Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo”, e, mais uma vez, “Sim, Senhor, sabeis que Vos amo”[43].

Então, como a outorga do novo nome foi a recompensa da obediência de cada um a sua vocação, assim Deus, movido por esta notável fé e caridade, explicou a dignidade contida neste nome, concedendo assim como havia explicado. Os textos seguintes tratam desta explicação: “Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu único filho, e eu te abençoarei.” e “Pois não foi nem a carne nem o sangue que te revelou, mas meu Pai que está no céu. E eis que te digo…”

Mas, visto que era uma dignidade concedida, deveria estar claro que era divina, e comunicada a cada um deles com esta similaridade: Primeiro, que Abraão por este meio torna-se pai e fonte de todos os fiéis, e Pedro sua base e fundação; o primeiro, o autor da semente que seria igual em número às estrelas do céu e a areia da praia; o outro, a Rocha da Igreja, que alcançaria todas as nações, tribos e línguas. Deus diz a Abraão, “Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar”. Mas Cristo diz a Pedro “Sobre esta pedra construirei minha Igreja”. Em segundo lugar, a benção concedida a cada um deles não foi uma que terminaria em sua própria pessoa, mas atravessá-los-ia estendendo-se à posteridade universal e à sociedade universal de fiéis; assim, todo o que cresse, até a consumação dos tempos, ganharia através deles bênçãos, estabilidade, e vitória sobre todos os assaltos dos inimigos e das portas do inferno. A promessa a Abraão é clara: “Ela possuirá a porta dos teus inimigos, e todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela”, e não menos clara é a promessa feita a Pedro, “e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela”.

Mas a elevada excelência desta dignidade, abarcando, como o faz, a toda a companhia dos fiéis, foi expressa antecipadamente no significado do próprio nome imposto. Pois através do nome de Abraão nós lemos, “E teu nome será Abraão, pois farei de ti pai de muitas nações”. Assim também ocorre com o que é dito a Pedro: “Tu és Rocha, e sobre esta rocha edificarei a minha Igreja”. Podemos colocar em colunas paralelas as duas promessas:

Abraão será o teu nome / Tu és Pedro
Pois farei de ti pai de muitas nações / E sobre esta pedra edificarei a minha Igreja

Assim como no primeiro caso, a segunda cláusula contém a razão da primeira, assim também, no segundo caso, as duas cláusulas concordam, como nome e sua explicação. Novamente, a dignidade de um é expressa através do nome Pai; a do outro através da Rocha. Por fim, assim como só podem compartilhar da benção de Abraão aqueles que nasceram de seu espírito, quem quer que deseje a estabilidade divinamente concedida a Pedro deve se recusar, a qualquer custo, a se separar dele.

Mas Abraão foi assim elevado a amigo de Deus, associado à Paternidade divina, e feito o mestre da posteridade; e, portanto, assim sendo, Deus mostraria Seus conselhos, para que, por meio dele, pudessem chegar aos seus filhos: “O Senhor disse então: ‘Acaso poderei ocultar a Abraão que vou fazer? Pois que Abraão deve tornar-se uma nação grande e poderosa, e todos os povos da terra serão benditos nele’”. De modo precisamente similar, quando Deus quis chamar os Gentios para a luz do Evangelho, Ele deu uma revelação especial somente a Pedro: “Mas, enquanto lho preparavam, caiu em êxtase. Viu o céu aberto e descer uma coisa parecida com uma grande toalha que baixava do céu à terra, segura pelas quatro pontas”. E a razão de preferir a Pedro foi o decreto de Deus que, através dele, todos os cristãos, até mesmo os próprios apóstolos, devessem ser informados e convencidos. “Irmãos, vós sabeis que já há muito tempo Deus me escolheu dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a palavra do Evangelho e cressem”. “E tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos”[44].

Finalmente, assim como Deus pronuncia a Abraão a bem-aventurança, do mesmo modo Cristo o faz a Pedro; e como Ele tornou Abraão a fonte e origem de benção e força para todos os outros, não foi diferente com o que Cristo fez a Pedro. A respeito do primeiro, lemos “Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos”, a respeito do segundo, “Bem aventurado és tu, Simão, filho de Jonas […] e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.

Em suma, o paralelo entre Abraão e Pedro é o seguinte: ambos recebem um chamado singular, e seguem-no; a ambos é prometido receber um novo nome, um nome profético; é requerido de ambos sinais de fé e amor; os dois fornecem estes sinais, e, consequentemente, não perdem sua recompensa; para Abraão é explicado o seu nome profético, assim também a Pedro; Abraão entende que seu destino é ser Pai de todas as nações, e Pedro que é ser feito a Rocha da Igreja universal; Abraão é abençoado, assim também é Pedro; a Abraão é revelado que ninguém, exceto ele, e através dele, compartilhará a benção celeste; a Pedro que todos, a partir dele e através dele, ganharão força e estabilidade; é somente através de Abraão que sua posteridade pode prometer a si mesma a vitória sobre os inimigos, e somente sendo construída sobre Pedro, a Rocha, que a Igreja triunfará sobre as portas do inferno; finalmente, se Abraão, como mestre dos fiéis, é instruído nos divinos conselhos com cuidado especial, não menos é mostrado a respeito de Pedro, a quem Cristo fez doutor e mestre de todos os crentes.

Os dons conferidos a Abraão e a Pedro são peculiares, pois eles não são encontrados em nenhum outro lugar nas Escrituras; eles não são somente dons, mas recompensas para um mérito singular; e, por sua própria natureza, não podem ser gerais. Assim como por elas Abraão é colocado em relação com a Paternidade, de modo que todos os fiéis se tornam seus filhos, assim também Pedro é chamado a Rocha e Fundação da Igreja, e todos os seus membros dependem dele.

E se estes dons são peculiares, não menos carregam uma singular dignidade e preeminência. Por isso segue que, como São Paulo diz[45], que todos os fiéis são filhos de Abraão, sendo herdeiros não da carne, mas de seu espírito e fé; do mesmo modo ninguém é, nem pode ser, parte da Igreja, caso não tenha Pedro como a fundação. Pois o mesmo Deus que disse a Abraão, “teu nome será” etc. etc., disse também a Simão, “Tu não mais será Pedro, mas Cefas”; o mesmo Deus que disse ao primeiro, “em ti todas as famílias da terra serão abençoadas”, disse ao último, “sobre esta Pedra construirei minha Igreja”.

Qual é a fonte desta preeminência em ambos? A ambos a mesma objeção pode ser feita, e a defesa é a idêntica.

Como seria esta benção e adoção propagada a partir de Abraão, como uma espécie de cabeça, a todo o corpo dos fiéis? Porque Abraão é considerado como ligado a esta poderosa Semente que é sua descendência, de onde principalmente primariamente a salvação de todos dependem; pois Abraão tem participação desta dignidade que naturalmente e substancialmente pertence à Semente que descenderia dele. O próprio Deus que sustenta isso, e seu Apóstolo São Paulo explica-o. Pois, como lemos que isso foi dito a Abraão: “em ti todas as nações da terra serão abençoadas”, assim o próprio Deus nos garante que em ti, e por ti, significa, por tua semente. Por esta razão São Paulo Diz: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: aos seus descendentes, como se fossem muitos, mas fala de um só: e a tua descendência, isto é, a Cristo”. Assim está nas divinas palavras: “em ti todas as nações serão abençoadas”, isto significa “Como tu darás a carne para meu único Filho, a quem amo, por este motivo Ele será chamado ‘o Filho de Deus e o Filho de Abraão’[46], assim Ele te faz participante de Sua dignidade e excelência, portanto, mesmo não sendo a fonte e origem, tu serás um grande rio de bênçãos que irrigará todas as nações”.

Exatamente da mesma forma, é Pedro a Rocha da Igreja, e a causa depois de Cristo desta firmeza com que a Igreja permanecerá invencível até o fim. Portanto, ele é a Rocha e fundação da Igreja, pois ele foi chamado a um tipo de unidade com Aquele de quem foi dito: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida, preciosa: quem nela puser sua confiança não será confundido” e em quem, como Paulo explica, “todo edifício, harmonicamente disposto, se levanta até formar um templo santo no Senhor”[47]. Portanto, ele é a Rocha da Igreja, pois, assim como ele, por sua confissão, declarou a Divindade da suprema da Fundação, “tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo”, assim d’Ele, que é o chefe e a Fundação substancial, recebeu o dom de ser feito participante desta mesma propriedade: “Eu te digo, tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”; uno comigo por comunicação do Meu ofício e encargo, Minha dignidade por excelência. Consequentemente a estabilidade de Pedro é a de Cristo, como o esplendor do raio provém do Sol; a dignidade de Pedro provém de Cristo, como a abundância de um rio provém da fonte. Quem quer que diminua a dignidade de Pedro será alguém que ultrajará a majestade de Cristo; quem quer que seja hostil a Pedro, e separado dele, manterá a mesma posição em relação a Cristo.

Este paralelo é uma resposta[48] àqueles que objetam a supremacia de Pedro como Fundação, dignidade que é inteiramente divina, elevando a um grau infinito a capacidade de um homem. Mas a paternidade divina de todos os fiéis não é uma dignidade divina? Não está além da capacidade de um homem ser o autor da benção transmitida para todas as nações? Ninguém nega que esta dignidade foi dada a Abraão. Na economia divina, portanto, sua plena e natural posse deve ser cuidadosamente distinguida da limitada e análoga participação. No primeiro caso, por ser inerente, não pode existir na criatura; no outro, por poder ser transferido, pode ser outorgado pela vontade de Deus. O que é mais impossível ao homem do que a Divindade? Mas está escrito: “Eu vos disse, vós sois deuses”[49].

Nem mesmo é maior a outra objeção, a de que o papel de Fundação é importante demais para ser colocado aos cuidados de um homem. Foi menos difícil abençoar todas as nações através de um homem? Pelo contrário, devemos olhar sobre o homem não por si, sozinho, separado de Deus, abandonado em suas próprias fraquezas, mas apoiado pelo divino poder, de acordo com esta promessa: “estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”. Quem poderá duvidar que um homem, em união com Deus, possa servir de fundação, e desempenhar este papel semelhante a que esta estrutura consiste? É constantemente e presunçosamente objetado que “nenhuma outra fundação pode ser posta ao lado da que é Cristo”[50]. Como se o que fora estabelecido pelo próprio Cristo, que consiste somente na virtude de Cristo, possa ser atribuído a outro que não seja Ele mesmo; ou como se fosse incomum, ou anti-bíblico, que coisas próprias de Cristo sejam participadas pelos homens. Portanto, a principal dificuldade contra a preeminência de Pedro e seu caráter de Fundação, parece vir de uma mente que falha em perceber a ordem sobrenatural instituída por Deus e a presença perpétua de Cristo que cuida de Sua Igreja.

Assim, não há nenhuma depreciação em Abração ser o Pai dos fiéis, ou à hierarquia da Igreja instituída pelo próprio Cristo, que disse[51]: “E a ninguém chameis de pai sobre a terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus”; visto que a Escritura prova abundantemente que os dons divinos são ricamente conferidos aos homens. Que há mais divino do que o Espírito Santo? Mas está escrito[52]: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco”. Que maior privilégio do que a adoção filial? Mas está escrito[53]: “Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!”. Que maior tesouro do que ser co-herdeiros com Cristo? Mas está escrito[54]: “E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados”. Há algo mais elevado que a visão de Deus? Mas são Paulo testemunha que[55] “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido”. Que pode ser mais extraordinário que o poder de perdoar os pecados? Mas isto foi confiado aos Apóstolos[56]: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”. Que há de mais distante dos homens do que o poder de realizar milagres? Mas Cristo decretou[57]: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai”. De fato, a participação e a comunhão dos dons celestes têm a mais íntima coerência com a ordem sobrenatural que Deus escolheu ao criar o homem, e para a qual Ele chamou o homem caído através de Seu único Filho; com esta dispensação de Cristo, com a qual Ele amou os Apóstolos como Ele Mesmo era amado pelo Pai, através da qual Ele os chamou[58] “não servos, mas amigos”, e deu-lhes a mesma glória que recebera do Pai. O mesmo tipo de pessoa que nega a prerrogativa de Pedro como Fundação da Igreja, sob o pretexto de que é usurpar um poder divino, deverá negar todos estes privilégios citados, e, de fato, nega alguns deles. É incrível ver como os modernos consideram como apenas coisas comuns e vulgares o que os Padres da Igreja viam como dons celestiais[59]. Os que estão fora da Igreja se afastaram da maioria destes privilégios, que podem ser chamados ordem permanente da Encarnação como seu fim e alcance; é incrível que não considerem blasfêmia o que foi dito gloriosamente pelos maiores Padres Orientais e Ocidentais, “que Deus se tornou homem, a fim de que o homem pudesse se tornar um deus”[60].

Estava, então, São João Crisóstomo errado ao dizer que Nosso Senhor, nesta passagem de Mateus, revelou um poder igual a Deus Pai pelos dons que Ele concedeu a um pobre pescador? “Aquele que lhe deu as chaves dos céus, e lhe fez Senhor de tal poder, e não necessitava de orações para isso, pois Ele não disse, Eu pedi, mas, com autoridade, Eu edificarei minha Igreja, e dar-te-ei as chaves do céu”[61]. Estava ele errado quando lhe chamou “escolhido dentre os Apóstolos, o porta-voz dos discípulos, a cabeça do grupo, regente dos irmãos?”[62], ou quando viu estas prerrogativas no próprio nome de Pedro, acrescentando: “quando eu digo Pedro, quero dizer a rocha invencível, a fundação imóvel, o grande apóstolo, o primeiro dos discípulos”[63].

Para resumir o que foi dito até aqui, temos o seguinte: primeiro a promessa, e depois a concessão de um novo nome, expressando uma preeminência singular, em seu sentido próprio pertencente a Cristo somente, que distinguia Simão do restante dos Apóstolos. Mas o superior poder significado por este nome, e explicado pelo Próprio Senhor, eleva o privilégio de Pedro e indica que ele possui autoridade sobre os outros Apóstolos. Pois, se Simão é a Rocha da Igreja, e se a propriedade de Fundação, sobre a qual a estrutura da Igreja está assentada, o faz estar atrás apenas de Cristo, e, analogamente com Cristo, eleva a relação entre Cristo e Simão – pois Ele é o primeiro e o chefe por um poder próprio – assim é Simão, por participação e analogia, a base, o que une e sustenta os Apóstolos e todo o edifício da Igreja.

Ora, esta relação não é simplesmente uma honra, mas uma autoridade superior. A força dos Apóstolos reside em sua união com Cristo e subordinação a Ele. O tipo de necessidade de aderir a Pedro está expresso em seu nome. Retire-se esta subordinação, e você irá destruir a própria imagem que o Senhor escolheu para expressar a dignidade de Pedro; e você removerá, do mesmo modo, a participação de Pedro nesta propriedade que o Senhor lhe comunicou com o nome de Rocha. Pois se os Apóstolos não necessitassem estar ligados a ele, ele não seria chamado de Fundação; se ele não tivesse o poder coercitivo sobre os Apóstolos, ele não compartilharia a propriedade pela qual Cristo é a Rocha e Fundação. Deste modo, o nome e a dignidade expressa pelo nome, revelam que Pedro foi singularmente investido pelo Senhor com uma honra e poder superior a de todos os Apóstolos[64].

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NOTAS
[1] Vide João 1,42; Marcos 3,16; Mateus 16,18; Lucas 22,32; João 21,15.
[2] Passaglia, pp. 35-37.
[3] João 1,35-42.
[4] João Crisóstomo num comentário sobre o texto; Cirilo, sobre João 1,42.
[5] Isaías 28,16; Salmo 117,22; Daniel 2,34-35; Zacarias 3,9; Efésios 2,20.
[6] Teodoreto, Sobre Daniel 2,34.
[7] Santo Ambrósio, sobre Lucas, l. 6, n. 97. [Nota do Tradutor: Recentemente foi redescoberto o comentário de Fortunatiao de Aquileia, cuja influência foi importante para São Jerônimo. Neste texto ele também diz: ” Assim, o nome de Simão é mudado: ele é chamado Cefas, que traduzido é Pedro. É apropriado que aquele que claramente estava à frente deste exército celestial devesse ter seu nome mudado, assim como o nome dos nossos antepassados foram aumentados ou mudados quando chegaram ao conhecimento e reconhecimento do Senhor, como Abraão, que era Abrão, Israel no lugar de Jacó, Josué no Lugar de Oséias. Eles eram líderes do exército do Senhor e de suas instruções. Assim também com Pedro que, quando veio a este exército, recebeu do Filho de Deus um nome apropriado que parecia digno de seu serviço no exército. Assim, por exemplo, está escrito em outro lugar: Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que desligares na terra também será desligado no céu, e tudo o que ligares na terra também será ligado no céu.”]
[8] Sermão 4, 2.
[9] O nome Boanerges que foi dado aos dois filhos de Zebedeu é, em primeiro lugar, um nome em conjunto. Em segundo lugar, em nenhum outro lugar foi mencionado e não substituiu o nome de nascimento. Em terceiro lugar, indica não uma dignidade oficial, mas uma disposição interna. Não podemos duvidar de que este nome concedido aos dois irmãos seja uma marca de grande distinção, mas, pelas razões acima mencionadas, não pode competir com o de Pedro. Vide Passaglia, p. 44, n. 38.
[10] Marcos 3,14; Mateus 10,1; Lucas 6,14.
[11] Contra Marcião, 1, 4, c. 13.
[12] Apocalipse 22,16; 3,7.
[13] João Crisóstomo, Sobre Mateus 16, Hom. 54.
[14] Leão Magno, Sermão 3, sobre seu aniversário.
[15] Hilário de Poitiers, sobre Mateus 16, n. 6; sobre Salmos 113, n. 4; Da Trindade, 1. 6, n. 20; Gregório de Nanzianzo, Orat. 26, p. 453; Ambrósio de Milão, em seu primeiro hino, referido também por Agostinho de Hipona, Retract. Lib. I, c. 21, e Epifânio de Salamina, In ancor. N. 9.
[16] Tertuliano de Cartago, Monogam. C. 8. Origenes de Alexandria, sobre o Salmo 1, citado por Eusébio de Cesareia, Hist. 1. 6, c. 25; Cipriano de Cartago, Ep. 71; e Firmiliano, entre as cartas de Cipriano de Cartago, 74.
[17] Basílio Magno, Cont. Eunom. Lib. 2, n. 4; Zeno, lib. 2, tract. 13, n. 2.
[18] Idem.
[19] Epifânio de Salamina, Haer. 59, n. 7.
[20] Agostinho de Hipona, In. Ps. Cont. Par. Donati; Leão Magno, Serm. 98.
[21] Teodoreto, Ep. 77.
[22] Máximo de Turim, Serm. Pro natali Petri et Pauli.
[23] Gregório de Nanzianzo, In Hom. Archieratico inserta.
[24] Orígenes de Alexandria, In Exod. Hom. 5, n. 4.
[25] Sacramentário Galicano, edited by Mabillon, t. I, Mus. Ital. P. 343. Concílio de Éfeso, act. 3.
[26] Pedro Crisólogo, Serm. 154.
[27] Ambrósio de Milão, Sobre a Virgindade, c. 16.
[28] Ambrósio de Milão, Sobre Lucas, livro 4, n. 70.
[29] João Crisóstomo, Hom. sobre o devedor de dez mil talentos, tom. III, p. 4.
[30] Filipe, legato da Sé Apostólica, in Act 3 do Concílio de Éfeso.
[31] Concílio de Calcedônia, decreto 3, na deposição de Dióscoro.
[32] Para as referências acima, vede Passaglia, p. 400.
[33] Vide Passaglia, p. 54, nota 47.
[34] Gênesis 10,25; 17,19; 30,18; 41,51-52.
[35] Gênesis 25,26; 27,36; 25,25; 25,30; Êxodo 2,10; 1Macabeus 2,4; Marcos 3,17.
[36] Isaías 7,3; Oseias 1,4.6; Gênesis 5,29; 32,28; Números 13,17; Gênesis 17,15; Mateus 20,1.
[37] Passaglia, p. 51.
[38] Passaglia, p. 52.
[39] Genesis 12,1; Marcos 1,16-17; Lucas 5,10.
[40] Gênesis 12,4; Marcos 1,18.
[41] Gênesis 17,5; João 1,42.
[42] Gênesis 22,1; Mateus 16,15; João 21,15.
[43] Gênesis 22,10; Mateus 16,16; João 21,15.
[44] Gênesis 18,17; Atos 10,10; 15,7; Lucas 22,32.
[45] Gálatas 3,7.
[46] Mateus 1,1.
[47] Isaias 28,16; Efésios 2,21.
[48] Passaglia, p. 58.
[49] Salmos 82,6; João 10,34.
[50] 1Coríntios 3,11.
[51] Mateus 23,9.
[52] João 14,16.
[53] Romanos 8,15.
[54] Romanos 7,17.
[55] 1Coríntios 13,12.
[56] João 20,23
[57] João 14,12.
[58] João 15,9.15.
[59] Passaglia, p. 442, n. 28.
[60] Atanásio de Alexandria, De Incarn. Factus est Deus homo, ut homo fieret deus; Agostinho de Hipona, Serm. 13, de Temp.
[61] João Crisóstomo, tom. VII, 786. Hom. 82, in Matt.
[62] Tom. VIII. 525. Hom. 88 in Joan.
[63] Hom. 3, de Poenitentia.
[64] Passaglia, pp. 48-49.

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