Diz o brocardo jurídico que “o que não está nos autos não está no mundo”. Em termos práticos, isso significa que o promotor é um profissional da palavra escrita, por mais que os seriados de tevê não o mostrem. E não é um profissional qualquer: é membro da pequeníssima elite que passou numa prova concorrida, ganha bem, e, como indica o nome oficial do cargo, dedica-se a procurar que a Justiça seja feita na República.

Confesso que tive calafrios ao perceber que pelo menos um desses bem-pagos profissionais da palavra simplesmente não tem a menor noção de para que serve um dicionário. O Ministério Público Federal está processando a editora de um dicionário conceituado, alegando que a inclusão de algumas acepções pejorativas da palavra “cigano” teria “caráter discriminatório”.

Ora, um dicionário não é nem pode ter “caráter discriminatório”, por uma razão simples: dicionários não são manuais de redação. Um manual de redação indica como escrever. O dicionário, ou “pai dos burros”, indica os sentidos – todos: elogiosos, pejorativos ou neutros – que uma palavra tem no seu “hábitat”, que é a língua viva. Dicionários servem para ler a língua, não para escrevê-la. Para escrever existem as gramáticas e os manuais de redação.

É obrigação de um bom dicionário conter expressões ofensivas, quando elas têm curso na língua; evidentemente, deve haver o cuidado de indicar que elas são pejorativas, para que o usuário do dicionário perceba as conotações do que está tentando entender.

Proibir a dicionarização de usos correntes de uma palavra, por mais lamentáveis que sejam, não é procurar justiça: é aleijar o dicionário, é torná-lo inútil por não saber para que ele serve.

Aproveitando que coleciono dicionários antigos, tive a curiosidade de procurar a mesma palavra na edição de 1925 do Caldas Aulete, excelente dicionário da língua portuguesa, de que tenho várias edições.

As duas primeiras acepções são pejorativas. A segunda é um termo pastoril. Depois, vendedor ambulante. Depois, vendedor de animais. E, finalmente, “forma do italiano ‘Gitano’, nome de um povo errante muito conhecido na Europa”. Isso indica as percepções, em ordem de popularidade, dessa palavra naquele tempo. Não ensina ninguém a escrever, nem poderia; não é para isso que serve um dicionário.

Confundir dicionário com manual de redação poderia ser perdoável em um estudante do ensino elementar, pelo menos até que a professorinha mostrasse que focinho de porco não é tomada. Num procurador da República, é inadmissível.

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