– “A figura do Papa Alexandre VI (1492-1603) não depõe contra a santidade da Igreja Católica e, por conseguinte, contra a autenticidade desta?” (M.P. – Volta Redonda-RJ).

1. Para se proferir um juízo adequado sobre o Papa Alexandre VI, torna-se oportuno reconstituir brevemente o seu currículo de vida e a mentalidade da época respectiva.

Os séculos XV e XVI são marcados pela chamada “Renascença”, movimento de intelectuais e artistas que queriam restaurar as formas da antiga cultura greco-romana. Esta restauração, porém, não devia ficar no plano meramente intelectual (como haviam ficado, no decorrer da Idade Média, os renascimentos carolíngio, otônico, bolonhês…); os homens dos séculos XV/XVI queriam, segundo matizes diversos, fazer a experiência de uma vida imbuída da mentalidade dos clássicos pagãos. Daí se originou naturalmente um ambiente em que o espírito cristão, que inspirava a Alta Idade Média, se ia diluindo cada vez mais; a fé se debilitava em não poucos, o luxo e a dissolução dos costumes iam penetrando nas altas camadas da sociedade, de sorte que crimes e escândalos não eram raros nem mesmo em famílias largamente prestigiadas.

Ora, os homens da Igreja eram filhos de tal sociedade; o patrimônio moral e os exemplos que recebiam no lar, eram assaz precários. Uma vez promovidos às ordens sacras, é de crer que no exercício das suas funções eclesiásticas dificilmente se desvencilhassem da mentalidade renascentista; para tanto, fôra preciso que Deus superasse de maneira quase extraordinária o que neles havia de humano. O Senhor, porém, não costuma intervir extraordinariamente no curso das criaturas sem fim proporcional; Ele sabe não ser absolutamente necessário à missão da Igreja que seus ministros sejam pessoalmente exemplares de virtudes, pois Ele dá o que quer por quem Ele quer. Permitiu, portanto, que os eclesiásticos dos séculos XV/XVI se comportassem como homens e filhos do seu tempo; e o permitiu a fim de demonstrar mais eloquentemente o vigor da sua Igreja; quis evidenciar que não são os homens que a sustentam e santificam, mas é Deus mesmo; ela é divino-humana, e não meramente humana, pois as vicissitudes de seus membros não conseguem abater a sua têmpora. Com efeito, a Igreja atravessou incólume a época corrupta, e continua hoje a denunciar o pecado, mesmo que haja sido cometido por seus filhos mais graduados.

É à luz destas ideias que se deve considerar a figura do Cardeal Rodrigo de Borja, eleito Pontífice com o nome de Alexandre VI.

Este prelado nasceu na Espanha em 1430 ou 1431. Era sobrinho do Papa Calixto III (1455-1458), que o chamou para Roma e lhe conferiu em 1456 a púrpura cardinalícia, sem que fosse ordenado sacerdote — costume frequente naquela época (Rodrigo de Borja só recebeu as ordens maiores em 1468, quando foi nomeado bispo de Álbano). Seu tio também o enviou a Bolonha, onde fez estudos de jurisprudência.

O Cardeal Rodrigo era notavelmente inteligente, muito hábil no trato com os homens. Falava com eloquência e impunha-se pelo garbo de seu porte. Contudo, após a morte de Calixto III começou a viver desregradamente; em 1470, uniu-se a uma senhora casada, Vanozza de Cataneis, da qual teve quatro filhos: César, Juan, Jofre e Lucrécia. Em 1460, o Papa Pio II dirigiu-lhe uma carta de censura, não conseguindo, porém, demovê-lo do seu gênero de vida.

Quem examina as crônicas da época, verifica que a sociedade de então não se mostrava escandalizada com os costumes do Cardeal Borja; estes, afinal, não destoavam dos de muitos dignitários e nobres renascentistas. O que, antes, despertava a atenção e a admiração públicas na pessoa do prelado, eram suas qualidades de administrador, diplomata, varão generoso para com os artistas e humanistas; a estes títulos, gozava de estima.

Em 1492, morria o Papa Inocêncio VIII. Rodrigo de Borja então, prometendo benefícios aos eleitores, fez-se promover à cátedra pontifícia… Embora se percebesse que a eleição fora simoníaca (pois Borja não era candidato em vista), a opinião pública não se desconsertou pelo fato. Houve mesmo contentamento geral pela ocorrência, tanto na península itálica como no estrangeiro; já que Rodrigo de Borja tinha aptidão para administrar, julgavam muitos que era o homem indicado para dirigir o Papado, cujo poder temporal precisava realmente de bom governo (a respeito do poder territorial dos Pontífices, veja-se o artigo “A ‘riqueza’ do Vaticano “). Consequentemente, em Roma os festejos oficiais e populares por ocasião da coroação do novo Papa se revestiram de brilho extraordinário. Quanto ao estrangeiro, eis como o cronista alemão Hartmann Schedel, poucos dias após a coroação, apreciava o Pontífice:

– “O eleito é varão de grande caráter e grande sabedoria, prudência e experiência política. Em juventude, estudou na Universidade de Bolonha, onde granjeou fama crescente de virtude, aplicação ao trabalho e habilidade em todas as coisas, de sorte que o Papa Calixto III, irmão de sua mãe, o nomeou Cardeal (…) Graças à sua experiência e ao conhecimento de todas essas coisas, ele se tornou mais apto que qualquer outro para governar e dirigir o barco de São Pedro (…) Nele estão associadas a nobreza dos modos, a veracidade, a sã razão, a piedade e o conhecimento de todas as coisas que convém a tão elevada dignidade e situação. Bem-aventurado aquele que é ornado de tantas virtudes e elevado a tão alto grau de superioridade! Esperamos que trabalhe com utilidade para o bem comum da Cristandade, que saiba encontrar seu caminho em meio aos furiosos assaltos da tempestade e através dos altos e perigosos escolhos do mar, e atingir a desejada senda da glória celeste” (Chron. Chronicar., Nuremberg, 1193, fo.277b).

Este juízo é certamente unilateral, não podendo ser tomado como critério para se apreciar objetivamente a pessoa de Alexandre VI. Reveste-se, porém, de importância para se perceber o estado de ânimos do mundo contemporâneo a Alexandre VI: a consciência moral parece ter estado debilitada, de sorte que sem grande embaraço o público passava por cima dos vícios e mais atendia aos valores técnicos e intelectuais das pessoas públicas. Este fator ajuda a compreender como Rodrigo de Borja pôde ser eleito Papa.

Os primeiros atos do governo de Alexandre VI confirmaram os contemporâneos nas suas esperanças. Procurou organizar a administração e a justiça em Roma, e entrou em regime de economia tal que seus antigos convivas se subtraíam aos convites para se sentar à mesa do Papa. Escrevia o embaixador de Ferrara, por exemplo:

– “O Papa manda servir um só prato (…) Ascagno, Sforza e outros (…) convivas ordinários da Sua Santidade, julgando desagradável essa parcimônia, furtam-se à sua companhia e fogem todas as vezes que o podem” (citado por Gregorovius, “L. Borgia”, pp.87-88).

Em breve, porém, verificou-se que Alexandre VI não tinha energia para manter seus propósitos. O afeto desmedido para com seus familiares sobrepujou nele o zelo dos interesses comuns. Foi vítima principalmente do gênio ambicioso e violento de seu filho César Borja, dominador político e guerreiro, diante do qual Alexandre chegava a tremer.

Em 1497, o Papa foi gravemente abalado pela morte de seu filho Juan, misteriosamente assassinado. Considerando o golpe como advertência do céu, tomou medidas para reformar sua vida pessoal e os costumes da sociedade; chegou a nomear, para este fim, uma comissão de seis Cardeais, o que muito alegrou o povo cristão. Os projetos, porém, ficaram sendo letra morta, pois Alexandre carecia da força de vontade necessária a tal tarefa.

Finalmente, aos 18 de agosto de 1503 faleceu de febre malária perniciosa, após se ter confessado ao bispo de Carinola e haver recebido a Sagrada Comunhão. Não tem fundamento o rumor de que haja sido envenenado; as testemunhas oculares dos fatos, como eram os embaixadores estrangeiros em Roma, ignoram tal versão nos relatos que nos transmitiram.

A opinião pública se pronunciou logo muito severamente contra Alexandre VI, não raro caindo em exageros, de sorte que não se pode dar crédito a tudo o que se tem propalado (principalmente em romances e teatros) sobre a sua figura.

2. O que dizer agora do Papa Alexandre VI e da santidade da Igreja?

Vão seria querer justificar a vida moral desse Pontífice; faz-se mister reconhecer a sua indignidade pessoal. Mas não é a fraqueza dessa criatura que deve chamar a atenção do historiador desapaixonado (o católico lembrar-se-á da palavra da Escritura: “O homem vê na face; Deus, porém, vê no coração” [1Samuel 16,7]). Errar é tão humano (é coisa tão minha) que não surpreende o observador sincero. Deus podia, sim, usar de providência especial a fim de preservar do erro moral os seus ministros na terra; não o quis, porém. Isto não seria consoante ao mistério da Encarnação, mistério segundo o qual a Majestade Divina se digna vir ao homem sob as aparências do humano e do inepto. Por este mistério, o Senhor nos ensina que não é de forças e valores criados que recebemos nossa santificação, mas é estritamente de Deus, que se digna apenas utilizar um representante visível. Sem extinguir a fraqueza humana, sem violentar a vontade livre dos seus instrumentos, o Senhor apenas nos assegura que as falhas dos ministros do altar não constituem obstáculo à santificação dos fiéis que por eles procuram a Deus. A Igreja não deixa de ser santa (ou de possuir a santidade de Deus) pelo fato de que nem todos os sacerdotes são santos; a Igreja e, por ela, o Cristo dão mais do que aquilo que o sacerdote, como homem, pode dar, embora só o deem através do sacerdote.

É o que a figura do Papa Alexandre VI comprova eloquentemente. Em vez de se deter sobre pormenores «sensacionais» da vida deste Pontífice, dilate o observador o seu horizonte e considere a continuação da História; verificará que, apesar de todos os seus desmandos, tal Pontífice não infligiu danos decisivos à Igreja de Deus:

– não promulgou uma só lei que visasse deturpar a disciplina cristã (antes, tendeu mais de uma vez à reforma);

– também não publicou uma só definição oposta ao dogma, definição que servisse para justificar as suas desordens morais;

– ao contrário (e isto talvez pareça paradoxal), Alexandre VI mostrou sempre solicitude por questões atinentes à piedade e à vida espiritual, apesar de suas tarefas de guerreiro e Senhor de corte; dispensou larga proteção às Ordens religiosas a fim de favorecer o fervor e as atividades das mesmas.

O católico, aliás, sabe que a infalibilidade papal só se exerce quando o Sumo Pontífice define solenemente, como Mestre supremo da Cristandade, que tal ou tal verdade pertence ao depósito da fé ou da moral cristãs. Nunca é infalível, porém, em atos de sua vida individual ou em declarações que faça como pessoa particular.

Em suma: a História ensina que o ouro de Deus na Igreja passa, puro e incontaminado, aos homens, mesmo quando o Senhor o quer transmitir por meio de mãos manchadas e indignas. Os homens, mesmo os mais próximos do altar, podem causar mal à Igreja, mas jamais a puderam, nem poderão, destruir.

É esta a mensagem que se prende à figura do Papa Alexandre VI, para nós, homens do século XX [e XXI].

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 4 – abr/1958
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