Supondo que essa informação esteja certa, o Papa permitiu ao Instituto Bom Pastor “criticar o Concílio”, não a você ou a mim. Se é preciso permissão especial do Papa para criticar os documentos do Concilio, significa que a regra geral é que temos que acatá-lo. Você, por acaso, tem permissão do Papa para criticar o Concilio? Alguns rad-trads pensam que sim…

Todavia, consultei o sitio do Instituto do Bom Pastor, e nada há lá que diga que o referido Instituto tenha o direito de falar mal ou de rejeitar os ensinamentos do Concilio ecumênico Vaticano II. Infelizmente, nem mesmo na versão francesa do sitio (http://www.institutdubonpasteur.org/), encontrei as constituições do Instituto, que é o documento oficial pelo qual ele se rege. Assim, tenho de me valer da seção de perguntas freqüentes do sitio, em que consta o seguinte:

“Bento XVI afirma que ele pretende submeter o Vaticano II a uma releitura para dar dele uma interpretação autentica, ainda por vir. Nessa perspectiva, nós somos convidados a conduzir de maneira construtiva, em nosso modesto nivel, um trabalho critico”.

http://www.ibp-la.org/ibp/?ss=perguntas&l=pt

Pelo que se lê, o Instituto do Bom Pastor não recebeu permissão para falar mal do Concilio, nem muito menos para rejeitá-lo. Ele foi convidado para fazer um trabalho critico a fim de dar uma contribuição para a interpretação autêntica que o Papa pretende fazer dos documentos conciliares. Uma vez que os meios se ordenam aos fins, e que a interpretação autêntica dos documentos do Concílio é o objetivo do convite feito pelo Papa, isso significa que o Instituto não recebeu permissão para rejeitar uma única linha do Concilio, mas, pelo contrario, foi chamado a contribuir para a sua mais plena aceitação – uma vez que a aceitação mais plena de um texto se dá quando ele é acatado em seu sentido autêntico.

No fundo, o que acontece é que muitos, como o Orlando Fedeli, interpretam o termo “trabalho critico” fora de seu contexto, em que figura como um meio para se alcançar a interpretação autêntica do Vaticano II (ou seja, sua aceitação mais plena). O termo “critica” não significa apenas, como na linguagem vulgar, “censura”, “depreciação”, “condenação”. Na verdade, vem do termo grego “kritiké”, que significa julgamento, apreciação, exame. Em seu sentido original e etimologico, portanto, critica significa exame minucioso. Ou seja, longe de permitir ao Instituto do Bom Pastor a rejeição do Concílio, o Papa pediu ao referido Instituto que estudasse o Vaticano II, minuciosamente, de modo a obter dele a sua interpretação autentica. A “crítica” não é, portanto, ao Vaticano II, à sua autoridade ou à sua doutrina, mas o termo é tomado aqui no sentido de “trabalho exegético”.

Não é de admirar-se que o Concílio seja submetido à critica (neste preciso sentido de exame minucioso para determinar seu sentido autentico). Mesmo a Bíblia Sagrada está sujeita à critica textual, com o objetivo de encontrar a redação original e autentica de seus textos.

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