3. A VERDADEIRA LIBERDADE

Para se compreender o que realmente é a liberdade é necessário fugir às duas posições extremas de que falamos no capítulo anterior. Um desses erros extremos é o do liberalismo, para o qual liberdade significa direito de falar, pensar ou fazer aquilo que o indivíduo quer. Discursos do Dia da Independência, campanhas políticas, arengas de capitalistas e de chefes trabalhistas, certos discursos de formatura, político-radicais, todos cantam loas e essa espécie de liberdade. Uma coisa há que lhes é comum a todos – todos falam como se a liberdade neste mundo fosse um fim e não um meio. Batem-se pela liberdade, mas nenhum deles nos diz por que quer ser livre. Insistem em serem livres de alguma coisa, mas esquecem que estar livre de alguma coisa implica estar livre para alguma coisa. Estar livre de reumatismo só é compreensível porque quero estar livre para andar. Esqueça-se a finalidade da liberdade, e a liberdade tornar-se-á absurda. O mundo moderno vem há muito falando em liberdade e, no entanto, esqueceu por que quer ser livre. Deu mais importância ao desejo que ao objeto desejado. Está errado, pois ninguém quer ser livre apenas para ser livre, mas ser livre para realizar um propósito ou atingir um objetivo. Queremos o pára-brisa em nosso carro para ficarmos livres da poeira a fim de viajarmos com segurança. Desgraçadamente, é muito grande o número daqueles que em seus debates pela liberdade querem uma liberdade mais rica, mais ampla e mais abundante, sem que jamais resolvam o que com ela querem fazer.

Porque esqueceram a finalidade da vida, inventaram a idéia de progresso, que é mudança sem finalidade. Confundiram um passo à frente com um passo na direção certa. Em vez de trabalharem para um ideal, mudaram o ideal e chamaram-lhe progresso, esquecidos de que nunca podem saber se estão ou não fazendo progresso a não ser que tenham um alvo fixo. Neste sentido tinha razão Chesterton ao dizer: ?Há uma coisa que nunca faz nenhum progresso. É a idéia de progresso.? Essa falsa liberdade criou espíritos mais interessados na busca da verdade do que na própria verdade; não procuravam para encontrar mas para ter a emoção da pesquisa; batiam não para que lhes abrissem a porta da verdade, mas para ouvirem o ruído de suas pancadas; perguntavam não para saber qual a finalidade da vida, mas para escutar o eco de suas próprias vozes. Compraziam-se em falar na gloriosa procura da verdade, mas tinham o cuidado de evitar descobri-la. A procura da verdade acarreta apenas poucas responsabilidades e pode muitas vezes, com afetada insinceridade, revestir-se de uma falsa aparência, mas sua descoberta é um fardo e um desafio que poucos encaravam de boa vontade. Nisto reside o primeiro defeito de nossa corrupta liberdade – esquecemos por que queremos ser livres. Enquanto não respondermos a essa pergunta, nossas arengas sobre a liberdade não passarão de ?metal que soa ou címbalo que tine?. O outro erro extremo que temos de evitar é a falsa liberdade do fascismo, nazismo e fascismo soviético ou comunismo, segundo o qual liberdade significa obediência à vontade de um Ditador. Os ditadores perceberam que o homem precisa ter algum ideal ou finalidade fora de si mesmo, mas em vez de fazer consistir essa finalidade no desenvolvimento da personalidade humana, impuseram como objetivo a raça no nazismo, o Estado no fascismo e a classe no comunismo. Tomava assim a coletividade o lugar da personalidade. A idéia é justa ao insistir que a liberdade tem um fim, mas é falsa ao impor o fim errado, qual seja, o Estado onipotente. A ditadura acerta ao propor um fim, mas erra ao impor uma finalidade terrena em lugar de uma sobrenatural, um fim econômico em lugar de um espiritual, César em lugar de um Deus. Afinal isso significa a destruição da liberdade de escolha de todos os cidadãos do Estado, isto é, a liberdade de palavra, a liberdade de consciência, a liberdade de imprensa e de reunião. Os cidadãos na Rússia e na Alemanha gozam exatamente da mesma espécie de liberdade que a de dois homens lutando dentro do cárcere. Dizia um ao outro: ?Quero que você saiba que sou aqui tão livre quanto você.? Esta nova espécie de liberdade é muito semelhante à liberdade dos cucos nos relógios de cuco. Quando chega a vez do povo votar 100 por cento seguindo o Ditador, o mecanismo de um exército, o terror, a propaganda e o temor das expurgações, põem o eleitorado em ação, tal como o mecanismo do relógio põe o cuco em ação na hora fixada.

Esse conceito de liberdade é também falso, porquanto coloca a liberdade na coletividade e não no homem, e identifica a liberdade com aquilo que os homens fazem e não com aquilo que o homem é. Torna-se então a liberdade um tributo do Estado e não do homem; nessa teoria o composto é que é livre, não os componentes. Cada pessoa é como a engrenagem de uma máquina, cuja função é inteiramente determinada pelo maquinista do Estado ou pelo ditador. Um homem na Rússia ou na Alemanha não tem mais liberdade de escolha que o êmbolo na máquina. Será livre enquanto agir como o êmbolo, mas se se afirmar que o homem é mais do que um êmbolo, e que é livre de se recusar a ser um êmbolo no mecanismo do Estado, será banido como um demolidor. O têrmo ?demolidor? é significativo, pois o próprio fato de ser alguém chamado demolidor, é por si mesmo revelador de que o Estado é apenas uma máquina e não um corpo moral formado de seres humanos, dotado cada qual de direitos inalienáveis, dos quais o mais precioso é a liberdade.

Dois erros devem então ser evitados: um que esquece a finalidade da liberdade, e outro que pretende que a liberdade reside apenas na coletividade, e não no homem. Se evitarmos essas duas posições extremas, a de um liberalismo moribundo e a de uma crescente ditadura, chegaremos à mais positiva e exata idéia de liberdade, a que evita os dois erros apontados: a Liberdade não é o direito de fazer o que me pareça, nem é a necessidade de fazer o que quer que o ditador me imponha: ao contrário, a liberdade é o direito de fazer o que eu devo. Nessas três expressões ?querer?, ?ser necessariamente? e ?dever? estão contidas as três opções que se oferecem ao mundo moderno. Das três escolhemos ?dever?.

Essa pequenina palavra ?dever? significa que o homem é livre. O fogo é necessariamente quente, o gelo é necessariamente frio, mas o homem deve ser bom. ?Dever? implica moralidade, isto é, um poder moral distinto do poder físico. A liberdade não é o poder de fazer qualquer coisa que se queira, tão freqüentemente enunciado pelo moço moderno nestas palavras: ?Posso fazer isso, se quiser, não posso? Quem me Impedirá?? Certamente você pode fazer qualquer coisa que lhe agrade ou queira. Pode roubar o seu vizinho, pode bater na sua mulher, pode encher colchões com giletes usadas, e também matar a tiros de metralhadoras as galinhas do vizinho, mas você não deve fazer nada disso porque dever implica moralidade, direitos e obrigações.

A liberdade é, pois, mais um poder moral do que um poder físico, um ?dever? e não um ?poder?. Além do mais, ?dever? está intrinsecamente relacionado com uma finalidade. Quando digo ?devo comer a minha comida?, há uma inconfundível relação entre comida e saúde. Quando digo ?devo estudar?, a palavra ?devo? envolve a finalidade do estudo, qual seja a aquisição do conhecimento. Há milhares de pequeninos ?devos? em todas as vidas, cada um dos quais é inseparável de um objetivo, de um propósito ou finalidade, por exemplo: ?devo pagar minhas contas?, ?devo ser bom?. A razão está constantemente erguendo pequeninos alvos de ?devos?, ou finalidades, e a vontade, qual flecha, tenta atingi-los. Debaixo de todos os pequeninos ?devos? da vida, há um supremo ?devo?, qual seja ?devo alcançar o fim para que fui criado?. Atrás de todas as finalidades há uma grande finalidade, dada em resposta à pergunta: ?Por que existo?? É pergunta que muito poucos se fazem. Não guardariam em casa por cinco minutos um traste de dez centavos sem indagar de sua finalidade, mas seguirão pela vida a fora sem sequer saberem por que vivem. Enquanto não respondermos a essa pergunta, nenhuma outra há que mereça resposta; e o modo como respondermos a ela determinará o rumo de nossa vida neste mundo e o nosso destino no outro.

Por que fui criado? Que devo fazer de minha vida? Suponhamos que se faça parar um certo número de homens na rua e que se lhes proponha tal pergunta, qual seria a resposta? Diria um provavelmente: ?para constituir família?; outro: ?para ficar rico?; um outro ainda: ?para ser uma pessoa educada?. Mas tais resposta são apenas parciais. A resposta óbvia será: ?o homem quer ser feliz?, e constituir família, fazer fortuna, ou receber educação são para ele modos de conceber a felicidade. No fundo, ele quer a vida, quer a verdade, quer o amor. Não quer a vida apenas por trinta minutos, mas para sempre; não quer conhecer apenas as verdades da geografia, mas a verdade toda; não quer um amor que morre, mas um Amor extático, belo e eterno. Daí o ridículo dos casamentos modernos com seus divórcios: ?Quero amar-te durante 2 anos e 8 meses.? O mundo não nos dá essa felicidade, pois quando o homem tiver sua família constituída abominará ter de deixá-la; quando tiver empilhado seus dólares, quererá uma pilha ainda maior; quando completar sua educação, começará a sentir orgulho do que sabe e assim resvalará na mais profunda ignorância. Visto que a felicidade do Amor, da Verdade e da Vida eterna não pode ser alcançada aqui na terra, segue-se que teremos de alcançá-la depois desta vida, pois se não houvesse alimentos não haveria estômago; se não houvesse coisa para ver, não haveria olhos; e se não houvesse o Perfeito- Amor, a Perfeita-Vida e a Perfeita-Verdade, não haveria espírito, nem vontade, nem coração almejado e lutando por eles. E assim a razão sugere ao homem sua finalidade, que se identifica com a resposta da Revelação. O melhor modo de descobrir para que foi feita uma coisa é recorrer ao seu criador. ?Por que Deus me criou?? e o criador dará a resposta: ?Deus te criou para conhecê-lO, amá-lO e servilO neste mundo; e ser eternamente feliz com ele no outro.?

Desde que o dever do homem é o aperfeiçoamento de sua personalidade em suas virtualidades mais altas pela união eterna com a Vida-Perfeita, a Verdade e o Amor que é Deus, segue-se que a liberdade tem algo que fazer na escolha dos meios para realizar tal finalidade, ou rejeitá-la inteiramente. Assim, pode um homem decidir salvar sua alma fazendo-se um advogado honesto, de preferência a um médico honesto, ou mesmo sua decisão pode ser não salvar sua alma de modo algum. Qual é, porém, a mais elevada espécie de liberdade? Fazer o que devo, isto é, obedecer à minha consciência e salvar a minha alma, ou fazer tudo o que eu queira seja bom ou mau? São ambas aspectos da liberdade, pois alguém faz-se santo pela mesma vontade por que pode tornar-se um demônio. Eis o problema: Qual é a mais alta forma da liberdade? Decerto fazer o que devemos é uma forma mais elevada de liberdade do que fazer o que queremos, porque a primeira conduz ao perfeito desenvolvimento de nossa personalidade e a última à sua sujeição. Por exemplo, o homem deve ser sóbrio e não se entregar ao hábito da bebida. Suponhamos, entretanto, que ele dissesse: ?Sou livre, portanto nada de proibições, de moralidades passadistas, nem de restrições puritanas, por isso beberei quanto quiser.? Depois de algum tempo, tal homem fica escravizado à bebida; em lugar de fazer o que lhe agrada, bebe, não para lhe dar prazer, mas para fugir ao desprazer de não beber. Tendo agido mal, sua vontade permanece ainda livre para escolher o que é bom, mas ele não é mais livre para fazê-lo. Todas as forças de resistência foram vencidas e sua liberdade acabou em escravidão. O erro que cometeu é o mesmo que o mundo moderno está cometendo: pensar que liberdade significa independência da lei, e que infringir as leis de Deus é uma forma de ?afirmação da personalidade?. O que devemos meter em nossas cabeças, como cidadãos, como pais de família e como educadores, é que liberdade não significa ilegalidade. Pelo contrário, a liberdade está condicionada à obediência à lei. Liberdade fora da lei não existe, só existe liberdade dentro da lei, seja ela científica, natural, humana ou divina. Por exemplo, um aviador só tem liberdade de voar se se submeter à lei da gravitação, isto é, deve agir dentro da lei, e não fora dela. Tente agora dar uma prova de afirmação de personalidade e atire-se do Empire State Building e verá que num minuto terá perdido toda liberdade – até a de viver. Experimente mostrar que tem espírito largo traçando um triângulo com quatro lados, como prova de que pode fazer tudo o que quer, e verificará que nunca mais terá liberdade de traçar um triângulo. Esqueça a finalidade de uma navalha e use-a para abrir latas de tomate, e estragará a navalha, porque esqueceu a sua finalidade. Mostre-se um artista de espírito largo e, ignorando a natureza das coisas, desenhe uma girafa com pescoço curto: verá que não mais terá liberdade de desenhar uma girafa.

Assim se dá com a lei moral; somos verdadeiramente livres quando obedecemos à finalidade ou à lei para que fomos criados, qual seja o desdobramento e desenvolvimento de nossa personalidade para a nossa eterna felicidade com Deus.

Temos liberdade de ignorar a lei moral, de beber, roubar, de ser adúlteros, de sacudir os punhos com ódio, tal como temos liberdade de ignorar a lei da gravitação, mas toda vez que a ignoramos, ou diminuímos ou destruímos a nossa liberdade. Alcança-se a liberdade real, não agindo fora da lei, mas dentro dela.

Enquanto obedecer às leis do tráfego terei liberdade de guiar, mas quando penso que liberdade significa o direito de fazer o que quero e atravesso com o sinal vermelho, verifico logo que não tenho mais liberdade de guiar. Dá-se o mesmo com a lei moral. Deus implantou na natureza humana e em Sua Igreja as leis que nos permitem realizar a finalidade da vida e atingir os mais altos objetivos de nossa personalidade. Essas leis não são represas que detêm o progresso; são diques que impedem que as águas do egoísmo e da concupiscência invadam a terra. Se as obedecer ou fizer o que devo, serei livre. Se as desobedecer ou fizer o que quiser, estarei agindo contra os mais altos interesses de minha natureza. Cada vez que peco, sou menos homem em razão disso, tal como a máquina em cujo uso se violam as instruções do fabricante é menos máquina.

Pecar, que é o deprezo da finalidade e da lei da vida, não é prova de liberdade, é o começo da escravidão, porque, como disse Jesus Cristo, ?todo aquele que comete pecado é escravo do pecado?. (S. João, VIII, 34.)

A liberdade não é um mero direito constitucional, nem um direito natural, nem um direito humano, nem tampouco um direito social; é acima de tudo o mais um direito espiritual. Uma das razões por que a democracia julga tão difícil estabelecer limites no que o homem pode dizer, fazer ou pensar é que ela esquece a finalidade do homem. O liberalismo e as ditaduras devem todos reconhecer o seu erro. Deve-se fazer a democracia compreender que liberdade nunca deve significar liberdade para si mesmo e escravidão para os outros, nem que os fortes têm liberdade de afirmar os seus direitos, ou que os fracos têm liberdade de ser indefesos. Deve-se fazer as ditaduras compreender que a liberdade não está no Estado, nem na coletividade, nem na raça, nem na classe – está no homem, entronizada em cada pessoa, no tabernáculo de cada alma, como um dom de Deus, e nenhum Estado pode tirá-la daí. A nossa liberdade liberal criou monstruosas injustiças econômicas; a liberdade da ditadura criou a escravidão. Cada qual amava a liberdade em sua própria esfera; o liberal em seu próprio eu egoísta, e a ditadura no seu eu coletivo.

O liberalismo não foi o berço da liberdade; a ditadur a não é a sua descoberta. A liberdade já tinha suas raízes na natureza espiritual do homem antes que existisse um liberal, um democrata, um fascista, ou um fascista soviético ou comunista. A liberdade não surgiu de nenhuma organização social nem de nenhuma constituição ou partido, mas da alma do homem. Nazistas, fascistas e fascistas soviéticos ou comunistas gabam-se de estar restaurando a liberdade para o homem ao elevaremno acima da coletividade; os liberais gabam-se de estar preservando a liberdade ao darem mais completa satisfação aos apetites materiais. Quão confuso e turvo é o modo de pensar no mundo prova-se com o fato de Stalin poder justificar o banimento de um inocente, ou de um orador de praça pública poder justificar a derrubada do governo americano em nome da Liberdade. Já é tempo de os liberais e ditadores acabarem com isso de dizer que dão liberdade ao homem, e compreenderem que é o homem quem lhes dá sua liberdade. Que o homem por sua vez compreenda que as raízes de sua liberdade estão em seu destino de criatura feita á. imagem e semelhança de Deus. Há muito que vivemos na suposição de que, se fôssemos livres, descobriríamos a Verdade. Jesus Cristo apresentou-nos isso às avessas: ?A Verdade vos libertará?. Isso significa que a verdadeira libertação vem do conhecimento da finalidade e do destino do homem. Nossa indiferença à verdade resultou na perda da paixão pela Verdade. O resultado é que são hoje muito poucos os ideais por que o homem queira morrer, ou mesmo se sacrificar.

Nosso falso espírito de tolerância – que ao menos o saibamos – nasceu da nossa perda da fé, da nossa incerteza. Quando esquecemos a finalidade da vida, perdemos o dinamismo necessário para alcançá-la; quando perdemos as certezas fundamentais da vida, perdemos também a energia para nos batermos por elas. Por termos perdido a paixão pela verdade, pela justiça e pela honra, a letargia e a apatia apoderaram-se de tal modo de nossa civilização, que encontramos dificuldades em preservar até mesmo a lealdade nos atos da vida cotidiana. Não sentimos entusiasmo pelas grandes causas nem ódio pelo mal, mas apenas lampejos de entusiasmo e pruridos de ódio; atiramos fora os nossos roteiros da vida e não sabemos que caminho tomar. É horrível de contemplar, mas é provável não haver no mundo bastante amor pela verdade para lançar o grito de uma cruzada.

Essa perda de entusiasmo pelo bem tem permitido lamentavelmente que o mal e a irreligião se propaguem como uma peste. O amor à verdade de uns é menor que o ódio que outros lhe votam. E um grave perigo para a democracia. O ódio está-se tornando uma força mais forte que o amor, a verdade, a justiça ou a honra. Em certos círculos de nosso país, por exemplo, é maior o ódio pelo capitalismo do que o amor pela justiça social. Em outros, é maior o ódio pelas uniões trabalhistas que o amor por um patriota espezinhado. esse ódio crescente é um perigo para qualquer civilização; atingiu agora tal ponto que, para espalhá-lo, a hipocrisia se converte de pecado em virtude. Porque esquecemos a razão de viver, surgem aqueles que dizem: ?Só uma classe tem o direito de viver.? Por que esquecemos a verdade, aparecem os que dizem: “Só o erro deve ser propagado.? Porque esquecemos a justiça, existem muitos que dizem: ?Só a violência deve reinar.? Porque esquecemos o homem, dizem outros: ?Só o Estado deve subsistir.?

Todas as ideologias do fascismo, nazismo e comunismo procuram confinar a finalidade do homem dentro dos limites acidentais do sangue ou do partido. Forçado o homem a render-se à sua suprema autoridade, desligaram completamente o homem daqueles mesmos fins a que a irreligião já o tornara indiferente. O resultado foi que o homem do mundo atirou  poeira em seus próprios olhos e, cego, não mais pôde encontrar o caminho que leva de volta à casa. Disseram-lhe que a religião é um ópio, seu destino eterno apenas uma lenga-lenga teológica, e que se se desvencilhasse de suas obrigações e aborrecimentos, poderia fazer deste mundo um paraíso. Como um idiota, o homem assim o fez, mas em vez de ver sua vida material enriquecida, verificou que se tornava cada dia mais precária, sem o consolo da esperança de alguma coisa para além da morte. Tendo perdido a finalidade da vida, restam-lhe agora apenas algumas finalidades tão fragmentadas e desconexas que jamais há de recompor. Por nenhum outro meio se poderá pôr cobro a essa traição da liberdade senão pela pregação cristã sobre a finalidade do homem, qual seja o desdobramento social, econômico e político de sua personalidade neste mundo e sua plenitude espiritual no outro. Deus poderia salvar-nos do caos e da escravidão pela força, mas seria isso a destruição da liberdade. Deus aguarda a livre e espontânea resposta do homem ao Seu chamamento, e por isso é que Seu último adeus ao mundo partiu do desamparo e abandono da Cruz, onde apenas Seus olhos podiam convidar-nos ao suave ideal da vida. Foi mesmo, por amor da liberdade, indulgente para com os maiores malfeitores. Tal liberdade não é a liberdade indiferente à verdade, nem tolerante com a inverdade, mas a liberdade que crê numa verdade tão santa que bem vale a morte numa Cruz. A fé na verdade do Calvário é a fé na liberdade do homem. Só aos pés dessa Cruz compreenderá o homem que a liberdade não está na libertação ante a verdade, nem na violenta sujeição a ela, mas no abraço amorável de uma alma que compreendeu a sua finalidade e clama das profundezas de um coração abrasado pela verdade: ?Sou tua, ó Deus! Socorre-me a mim a quem Tu criaste.?

Facebook Comments

Livros recomendados

Canções e ElegiasOrar com os SalmosUma Teologia da História