Quando perguntaram ao grande escritor inglês G. K. Chesterton o que havia de errado no mundo, ele respondeu “eu”. Pode parecer prova de um orgulho desmedido, mas é uma verdade profunda. O que há de errado no mundo somos nós. E quem pode consertar esse erro somos nós, os únicos que podemos provocar mudanças em nós mesmos.

Eu posso – aliás eu devo – procurar me tornar uma pessoa melhor. Mas é mais fácil acusar os outros, e mais fácil ainda julgá-los negativamente por fazerem o que eu não faço. Essa tentação se torna ainda mais forte quando se torna possível aproveitar o poder do Estado e da mídia, nas campanhas milionárias e nas leis que se acumulam, todas destinadas a consertar… os outros. Quer-se que os outros pensem como se pensa, ajam como se age, tenham as prioridades que se tem. Com o auxílio do Estado e da mídia, é possível até mesmo obrigá-las a agir, puni-las por ter esta ou aquela prioridade ou fazer com que se calem ao invés de dizerem o que realmente pensam.

Com isso, no entanto, a sociedade não melhora. Ela só poderia melhorar se cada um dos que a compõem buscasse, livremente, melhorar. Se, ao invés de sermos treinados para controlar a vida dos outros, fôssemos incentivados a examinar a nossa própria vida. Se, ao invés de crianças adestradas pela escola e pela mídia para olharem feio para seus próprios pais quando os veem acender um cigarro, tivéssemos crianças incentivadas a observar as suas próprias ações, a sua educação – ou a falta dela – e sopesar a necessidade real deste ou daquele objeto de consumo. Só assim as pessoas melhorariam, e com isso as famílias, e com isso os bairros, as cidades, o país. Tijolo por tijolo, um de cada vez.

Essa postura de vigilância constante do outro sem exame de si mesmo leva a uma sociedade em que reina a mediocridade, em que qualquer besteira que seja dita e repetida na mídia ganha foros de verdade, enquanto a própria verdade é jogada para escanteio. Uma sociedade de crianças mimadas, que se consideram terrivelmente injustiçadas por não ganharem balas ou o brinquedo da moda, sem jamais pensar se os merecem.

Essas crianças podem ter corpo de adulto, cara de adulto, empregos bem pagos. Afinal, o corpo cresce sem que o examinemos; a mente, não. Sem maturidade, contudo, não há crescimento nem responsabilidade reais. Forçar os outros a agir assim ou assado degrada quem força e quem é forçado, sem nada resolver.

No fim das contas, quem examina a própria vida acaba concordando com Chesterton: o problema sou eu.

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