Espaço do Leitor

O Purgatório é passagem obrigatória para todos?

Muito prezados amigos em Cristo do Veritatis,
Mais uma vez recorro a vocês para dirimir uma dúvida. Temos tido na paróquia a qual pertenço algumas formações a respeito de escatologia e nosso formador, um ex- seminarista nos disse que o purgatório é passagem obrigatória para todos sem excessão e que nele, o purgatório, poderemos optar em ficar com Deus ou longe dele. Pergunto: realmente a Igreja ensina que estando no purgatório podemos ainda optar pela salvação ou não? Mesmos os mais santos têm obrigatoriamente que passar pelo purgatório? Desde já agradeço e rogo à Santíssima Virgem que derrame sobre vocês inúmeras graças que só a Mãe pode conseguir de seu Filho (Henrique)

Prezado Henrique,

Pax Domini!

Nos termos em que você nos transmite o caso, verifica-se claramente a existência de ERRO na forma como o tema “Purgatório” está sendo tratado.

Diante da dúvida, você nos pergunta: o que realmente a Igreja ensina?

Abramos, então, o Catecismo da Igreja Católica (CIC)!

A primeira coisa que precisamos saber é o que ocorre quando a pessoa morre. O CIC responde (§§ 1021 e 1022):

“O Novo Testamento (…) repetidas vezes afirma também a retribuição, imediatamente depois da morte, de cada um em função das suas obras e da sua fé. (…) Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular” (grifos nossos).

Com efeito, logo após a morte corporal, a pessoa recebe a sua sentença definitiva – de SALVAÇÃO ou CONDENAÇÃO – naquilo que os teólogos convencionam chamar de “Juízo Particular”, para diferenciar do “Juízo Público”, que se dará apenas por ocasião da 2ª Vinda de Cristo, quando será revelado “até as últimas conseqüências o que um tiver feito de bem ou deixado de fazer durante a sua vida terrestre” (§ 1039).

A segunda coisa que precisamos fazer é saber como se pode operar a sentença definitiva de salvação ou condenação recebida durante o Juízo Particular:

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1) A sentença definitiva de condenação se dá com o Inferno: “Não podemos estar unidos a Deus se não fizermos livremente a opção de amá-Lo. Mas não podemos amar a Deus se pecamos gravemente contra Ele, contra o nosso próximo ou contra nós mesmos. (…) Morrer em pecado mortal sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa ficar separado do Todo-Poderoso para sempre, pela nossa própria opção livre”. (§ 1033; grifo nosso).

2) A sentença definitiva de salvação, porém, se dá de duas maneiras distintas:

a) Com o Céu, para quem não tem pecado a expiar: “Essa vida perfeita com a Santíssima Trindade, essa comunhão de vida e de amor com ela, com a Virgem Maria, os anjos e todos os bem-aventurados, é denominada ‘o Céu’. O Céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva” (§ 1024; grifo nosso).

b) Com o Purgatório, para quem tem ainda pecados a expiar: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida a sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do Céu. A Igreja denomina ‘Purgatório’ esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados” (§§ 1030 e 1031; grifos nossos).

Com estas palavras oficiais da Igreja em nossa mente, já temos dados suficientes para responder às suas duas questões:

1) A Igreja ensina que estando no Purgatório podemos ainda optar pela salvação ou não?

Resposta: NÃO! MUITO PELO CONTRÁRIO! A Igreja afirma que quem está no Purgatório já está com sua salvação eterna garantida, ainda que esteja se purificando dos seus pecados! Isto, então, significaria afirmar que a pessoa só poderá optar por sua salvação ou condenação eternas enquanto estiver viva neste corpo sobre a terra? Sim! Pois “a morte põe fim à vida do homem como tempo aberto ao acolhimento ou à recusa da graça divina manifestada por Cristo” (§ 1021; grifo nosso).

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Com efeito, é impossível à alma do Purgatório ter alguma opção de escolha, até porque, uma vez salva – ainda que esteja se purificando ali – já sabe que “viver no Céu é viver com Cristo. Os eleitos vivem ‘nEle’, mas lá conservam – ou melhor, lá encontram – a sua verdadeira identidade, o seu próprio nome: ‘Vida é, de fato, estar com Cristo; aí onde está Cristo, aí está a Vida, aí o Reino'” (§ 1025; grifos nossos).

Portanto, seria totalmente contraditório à lógica natural da alma humana que durante a peregrinação terrestre optasse pela salvação eterna e, depois, quando já estivesse expiando os pecados no Purgatório, prestes a ser admitida à visão beatífica de Deus, querer jogar tudo fora, para ir para o Inferno eterno, “preparado para o Diabo e seus anjos”, onde haverá “choro e ranger de dentes”.

Tal idéia não encontra qualquer respaldo na Sagrada Escritura, na Sagrada Tradição e nem no Sagrado Magistério da Igreja. Contradiz, assim, a doutrina da Igreja Católica. Se assemelha mais, com efeito, a uma mistura de matiz protestante (que confunde o Purgatório com um “terceiro destino”, sendo certo que só existem dois destinos para o homem: a salvação ou a condenação eternas) e espírita (que oferece à alma humana o arbítrio “para optar pelo bem ou pelo mal” no além).

2) Mesmos os mais santos têm obrigatoriamente que passar pelo purgatório?

Resposta: TAMBÉM NÃO! E o Catecismo é muito claro quanto a isto: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus e que estão totalmente purificados, vivem para sempre com Cristo” (§ 1023).

Observe os verbos empregados no presente:

– MORREM na graça e amizade de Deus.

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– ESTÃO totalmente purificados.

Logo, quem morre na graça e amizade de Deus e não tem nada a purificar, entra direta e definitivamente no Céu; quem morre na graça e amizade de Deus e ainda tem algo a purificar, “ainda que tenham garantida a sua salvação eterna”, passa pelo Purgatório, aí ficando até obter “a santidade necessária para entrar na alegria do Céu” (cf. § 1030).

Tanto é possível ir diretamente para o Céu, sem passar pelo Purgatório, que Bento XII solenemente declarou:

“Com a nossa autoridade apostólica definimos que, segundo a disposição geral de Deus, as almas (…) de todos os outros fiéis mortos depois de receberem o Santo Batismo de Cristo, nos quais não houve nada a purificar quando morreram (…) estão (…) no Céu, no Reino dos Céus e no paraíso celeste com Cristo, admitidos na sociedade dos santos anjos” (DS 1002; CIC § 1023; grifos nossos).

E retornando ao § 1022, o CIC reafirma, com nítida clareza:

“Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja através de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre”.

Como se vê, a afirmação contrária, que diz que “os mais santos têm obrigatoriamente que passar pelo purgatório” não corresponde à fé da Igreja e deve ser prontamente rejeitada. Até porque eventual raridade não significa impossibilidade.

Espero ter respondido a contento as suas questões.

[]s
Que Deus te abençoe!
Carlos Nabeto


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