O tipo de pecado que a Bíblia menciona como imperdoável não é simplesmente da categoria do furto, da mentira ou da imoralidade sexual. Estas coisas são sérias, porém, e podem envolver o pecado imperdoável. (Ap. 21,8) Mas o pecado imperdoável é um pecado deliberado contra a operação manifesta do Espírito Santo de Deus. Provém do coração que se afastou totalmente e para sempre de Deus.

Os líderes religiosos judaicos, que foram à Galiléia para ver e ouvir a Jesus Cristo, em certa ocasião já haviam deliberado como o poderiam destruir. (Mat. 12,14) Na Galiléia, viram Jesus curar um homem que não podia falar, era cego e possesso de demônios. Em vez de admitirem o fato óbvio de que Jesus fazia os milagres por obra do Espírito Santo de Deus, os fariseus acusaram-no maliciosamente de fazê-las por meio do poder de Satanás. Depois de mostrar quão errados estavam, Jesus disse:

“Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir.” — Mat. 12,31,?32; Mar. 3,28,?29; Luc. 12,10.

No caso destes líderes religiosos, não se tratava apenas de não se convencerem com os ensinos e as obras de Cristo. As pessoas de Corazim e Betsaida tinham estado tão preocupadas com o seu modo de vida, que não aceitaram a Jesus, nem se arrependeram; no entanto, serão evidentemente beneficiados pela misericórdia de Deus, e terão uma ressurreição e uma oportunidade futura de aprender o caminho da justiça. (Mat. 11,20-24) Nem era no caso dos fariseus uma questão de blasfemarem e de se oporem aos verdadeiros adoradores por desconhecerem a vontade de Deus. Saulo de Tarso fora um homem assim, mas recebeu misericórdia e perdão. (1Tim. 1,13-16) Antes, estes líderes religiosos estavam corrompidos no coração, até o âmago, e Jesus sabia disso. Dessemelhantes do povo comum, eles tinham muito conhecimento da Palavra de Deus. Haviam então visto uma demonstração evidente do Espírito de Deus. Não obstante, rejeitaram completamente o que o Espírito Santo tinha realizado e atribuíram os milagres de Jesus, de modo blasfemo, ao poder de Satanás. Quão vil é que se pode alguém tornar?

Era sério o pecado deles? Jesus, “conhecendo os pensamentos deles”, dava-se conta de que eles pecavam deliberadamente — com os olhos bem abertos aos fatos — contra o conhecimento da operação do Espírito Santo. Ele indicou que eram ‘culpados de pecado eterno’. (Mat. 12,25; Mar. 3:29) Por causa do contexto destas palavras, e em vista do fato de que Jesus disse mais tarde que muitos dos líderes religiosos daquele tempo se destinavam à Geena, parece que haviam cometido o pecado imperdoável. (Mat. 23:15,33) Seu pecado era imperdoável, não porque Deus não é Deus perdoador, mas porque estavam além de arrependimento e além de serem restabelecidos. Seu pecado os deixou em total infidelidade quanto à adoração a Deus. Mesmo no porvir, quem for culpado de tal pecado não receberia perdão.

O Catecismo ensina:

1031 – A Igreja denomina Purgatório esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório sobretudo no Concílio de Florença e de Trento. Fazendo referência a certos textos da Escritura, a tradição da Igreja fala de um fogo purificador:

No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma aquele que é a Verdade, dizendo, que, se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será  perdoada nem presente século nem no século futuro (Mt 12,32). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro.

É possível que alguém peque hoje contra o Espírito Santo e assim esteja além de perdão? Sim, é possível. É possível que alguém fique tão desesperançosamente corrompido na mente e no coração, que leve o pecado ao ponto de pecar contra o Espírito. E não é preciso que seja cristão ungido com o Espírito. Lembre-se de que aqueles fariseus não eram cristãos ungidos, e ainda assim haviam cometido o pecado imperdoável.

A Igreja ensina:

1033 – Não podemos estar unidos a Deus se não fizermos livremente a opção de amá-lo. Mas não podemos amar a Deus se pecamos gravemente contra Ele, contra nosso próximo ou contra nós mesmos: “Aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia seu irmão é homicida; e sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele” (1 Jo 3,14-15). Nosso Senhor adverte-nos de que seremos separados dele se deixarmos de ir ao encontro das necessidades graves dos pobres e dos pequenos que são seus irmãos morrer em pecado mortal sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa ficar separado do
Todo-Poderoso para sempre, por nossa própria opção livre. E é este estado de auto­-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra “inferno”.

Como se saberia que se tinha cometido o pecado imperdoável?

Este tipo de pecado está relacionado com o que lemos em Hebreus 10,26: “Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados.” Portanto, é a qualidade deliberada ou voluntária que está envolvida neste tipo de pecado. Alguém peca empedernidamente, plenamente apercebido de que age diametralmente contrário à operação do Espírito de Deus e de Suas leis justas. Além disso, todos nós pecamos e necessitamos do sacrifício de resgate de Cristo para obter perdão. Mas, “não há mais nenhum sacrifício pelos pecados” para aquele que sabe disso e “que tiver pisado o Filho de Deus e que tiver considerado de pouco valor o sangue” que ele derramou. Este tem “ultrajado o Espírito da Graça”. (Heb. 10,29) Ele nunca se arrependerá e procurará humildemente o perdão de Deus pelo seu pecado e pela rejeição do resgate de Cristo. Está além de arrependimento.

Mas, é preciso lembrar-se de um ponto importante: No caso de Jesus, ele conhecia os pensamentos mais íntimos e a condição do coração dos judeus, e assim podia ter a certeza de que tinham pecado contra o Espírito Santo. Os homens imperfeitos, hoje em dia, não podem ler o coração assim como Deus e Jesus podem, por isso não podemos determinar quando alguém levou o pecado ao ponto de ter pecado contra o Espírito. (Mat. 12,25; Heb. 4,13) Isto cabe a Deus decidir.

Mesmo quando alguém for expulso da Igreja, não significa isso necessariamente que tenha cometido o pecado imperdoável. Poderá mais tarde arrepender-se. Na Igreja primitiva, um cristão ungido havia sido desassociado por sua imoralidade e falta de evidência de arrependimento. No entanto, este homem foi evidentemente readmitido mais tarde na Igreja, mostrando que não havia pecado contra o Espírito Santo. — 1Cor. 5,1-5; 2Cor. 2,6-8.

Todavia, o mero fato de que é possível pecar contra o Espírito Santo deve manter-nos alertas. Visto que somos criaturas imperfeitas, pecamos inconscientemente cada dia. Quando alguém se sente profundamente atingido no coração e se arrepende realmente dos seus pecados, então constitui isso evidência de que não cometeu o pecado imperdoável. Quão importante é, pois, que mantenhamos um espírito humilde, admitindo nossos erros e buscando o perdão de Deus. (1João 1,9; Miq. 7,18) E, ao reconhecermos que a condenação é o quinhão dos que são ‘culpados de pecado eterno’, o pecado contra o Espírito Santo, devemos esforçar-nos a evitar fazer do pecado um hábito ou a negar a operação evidente do Espírito de Deus.

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