D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

O que Jesus quis dizer ao afirmar, na Última Ceia, que não beberia mais do fruto da videira antes que viesse o Reino de Deus?

– “Queira explicar o texto de Lucas 22,18, em que Jesus diz que não beberá mais do fruto da videira antes que tenha vindo o Reino de Deus” (Anglo-Americano – Rio de Janeiro-RJ).

Antes do mais, eis na íntegra o texto e o contexto de que se trata:

– 22,14 “Chegada a hora, pôs-se (Jesus) à mesa com os Apóstolos,
15 e lhes disse: ‘Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco antes de sofrer,
16 porque afirmo que não mais a comerei até que se cumpra no Reino de Deus’.
17 Tomando então um cálice, deu graças e disse: ‘Tomai-o e distribuí-o entre vós,
18 pois vos digo: não mais beberei do fruto da vinha, até que tenha vindo o Reino de Deus’.
19 Depois, tomando o pão e dando graças, partiu-o e deu-o, dizendo-lhes: ‘Isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim’.
20 Fez o mesmo com o cálice, no fim da ceia, dizendo: ‘Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue, que será derramado por vós'”.

Analisemos sumariamente o trecho acima.

No versículo 15, exprime Jesus o seu vivo desejo de comer com os discípulos a sua última ceia de Páscoa, tal como era prescrita pela Lei de Moisés; por ocasião dessa refeição, o Divino Mestre tinha em vista instituir grandes coisas.

No versículo 16, diz Jesus que não mais comerá dessa ceia “até que se cumpra no Reino de Deus”. Considera assim o rito mosaico como figura de uma realidade maior, plena, que é a ceia do Reino de Deus. Esta se realiza em duas etapas: de modo incoativo na Eucaristia, refeição sobrenatural da Igreja, do Reino de Deus iniciado na terra; e de modo perfeito, na pátria celeste, na visão beatífica (Reino de Deus Consumado), que Jesus em suas parábolas não raro compara a uma grande ceia (cf. Mateus 8,11; 22,1-14; Lucas 13,15-24).

Depois destas premissas, os versículos 17 e 18 supõem a observância do ritual judaico, e aludem a um dos quatro cálices de vinho que o presidente da mesa devia distribuir aos seus convivas, dando previamente graças a Javé por ter libertado da servidão do Egito o seu povo. Reconhecidamente, não se trata de vinho eucarístico (faltam as palavras da consagração). Com referência particular a esse cálice judaico, afirma o Senhor que é figura de uma realidade que estará consumada no Reino de Deus, isto é (como acima dito), na Igreja: na Igreja militante e peregrina, mediante a Eucaristia; na Igreja triunfante, mediante a visão beatífica. Como se entende, Jesus é conviva da ceia eucarística, e da “ceia celeste” unicamente por metáfora: o Cristo glorioso não come nem bebe, mas se entrega aos seus fiéis em união íntima.

De resto, assim como os versículos 17 e 18 aludem particularmente ao vinho ritual judaico, pode-se crer que os versículos 15 e 16 se referem de maneira especial ao cordeiro judaico.

Pois bem: aos símbolos o Senhor opõe, logo a seguir, a realidade simbolizada: paralelamente aos versículos 15 e 16 vem o versículo 19, segundo o qual Jesus entrega o pão eucarístico como sendo a sua carne imolada, a carne do verdadeiro Cordeiro que tira os pecados do mundo; paralelamente aos versículos 17 e 18 está o versículo 20, em que Jesus distribui o vinho eucarístico como sendo o seu sangue derramado para selar nova Aliança, da qual a aliança mosaica era mero prenúncio.

Note-se agora a estrutura da passagem, tecida pelo paralelismo dos versículos:

– versículos 15 e 16 (cordeiro ‘tipo’) à versículo 19 (cordeiro ‘antítipo’)

– versículos 17 e 18 (cálice ‘tipo’) à versículo 20 (cálice ‘antítipo’)

Destarte, São Lucas nos referiu a instituição da Sagrada Eucaristia colocando-a plenamente sobre o seu fundo mosaico e fazendo ressaltar o seu caráter de consumação de realidades alegóricas antigas; São Mateus (26,20) e São Marcos (14,25) só depois das palavras da consagração (e não antes, como faz São Lucas) referiram a alusão ao “reino de Deus no qual Jesus beberia de um vinho novo”. A ordem observada pelo terceiro Evangelista parece corresponder melhor à série dos acontecimentos verificados na Última Ceia; Mateus e Marcos neste ponto são sumários e menos cronológicos.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 8:1957 – dez/1957
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