Artigos (por Carlos Ramalhete)

O que não muda

A cada ano, mais ou menos na época em que o meu celular começa a pifar, eu vou à loja da operadora e, como que por mágica, descubro ter pontuação suficiente para trocar de telefone. Os carros, antes feitos para durar, hoje quase se desmancham sozinhos antes dos 10 anos de idade. O nome dos seus modelos é reaplicado a carros que não têm uma só peça em comum com os seus predecessores: muda o carro e fica o nome. Em alguns casos, a dança de cadeiras é até engraçada; é o caso do Uno, que quando teve o motor reduzido para 1.000cc passou a chamar-se Uno Mille, passando depois a chamar-se apenas “Mille” porque o nome Uno foi dado a outra fubequinha.

Com tanta transitoriedade, não é de se estranhar que as pessoas tenham dificuldade em perceber algo de permanente. A dieta que hoje é saudável seria considerada receita para uma morte certa ontem. Aliás, provavelmente amanhã também. O tratamento miraculoso de um momento é charlatanismo em outro.

No meio desse turbilhão, a impressão que fica é de que nada perdura. O amor parece destinado a acabar em breve, a família é percebida como um arranjo efêmero de sexo e companhia. O trabalho acaba sendo um bico, um quebra-galho que permite ganhar dinheiro suficiente para pagar as prestações do carro novo, do eletrônico do momento, da tevê em que se aprende do que se deve gostar.

A solidez – se é que se pode usar o termo – parece se restringir aos nomes: os times por que se torce, mesmo que poucos jogadores durem mais que uma temporada; a denominação de modelos de carros ou sistemas operacionais diferentes; ou termos como “namoro” e “casamento”, com um sentido cada vez menos sólido. Palavras que perduram, tendo perdido seu sentido em alguma curva da estrada.

E assim se leva a vida, convencido de que se está fazendo o mesmo que os antepassados por amar, casar e andar de Passat, quando os atos, coisas e sentimentos já se esvaziaram totalmente do sentido original. A cada ano um modelo novo; um amor novo, um carro novo, se se tem como pagar.

A cada troca dessas, contudo, fica um pouco da nossa alma. É um apego, um afeto que foi dado, e que não tem mais como ser reciprocado ou mesmo continuar. Trocamos e mudamos tanto, que aos poucos nos esvaziamos, como um esparadrapo que perde a cola de tanto ser colado e descolado.

Neste frenesi de doação de si ao que já se sabe que não durará, valeria talvez a pena segurar-se um pouco. Tentar achar aquilo que não passa, e a isto, sim, apegar-se. Só assim se pode viver, em vez de meramente subsistir.


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