Dado o que vimos até aqui, é perceptível que para os humanistas da Itália do século XV era evidente que a sua época tinha visto a arte renascer das cinzas; isto era uma unanimidade entre os humanistas de renome ao sublinharem o sincronismo entre esta ressurreição e a das belas-letras. Marsílio Ficino (DELUMEAU, 2017) em que proclamava:

  • “É, sem dúvida, uma idade de ouro que voltou a trazer à luz as artes liberais antes quase desaparecidas: gramática, eloquência, pintura, arquitetura, escultura, música. E tudo isso em Florença”.

Como a consequência dessa auto-valorização exacerbada foi a total rejeição a tempos e movimentos diversos que o próprio humanismo, avaliemos outras construções, partindo do chamado Renascimento Carolíngio, de traços rudimentares e restritos mas com méritos sócio-culturais que não pode-se descartar, a menos que cometendo arbitrariedades históricas.

O principal ator deste movimento foi primeiro imperador do Sacro Império Romano (governou entre 768 – 814). Um dos estopins da iniciativa era o indicativo de que o preparo que os padres (importantes protagonistas sociais e com forte influência moral/ educacional na sociedade da época) recebiam não era de boa qualidade. Dirá-nos a este respeito Diane Moczar:

  • “No tempo de Carlos Magno haviam padres deturpando o latim de tal maneira que diziam as fórmulas sacramentais de modo errado. Carlos Magno insistiu para que esses padres fossem corretamente instruídos e para que os monges que copiavam e compunham os textos — incluindo cartas — fizessem o trabalho corretamente. Ele comenta, em uma de suas cartas (ditada, pois ele, ironicamente, nunca aprendera a escrever) que recebia cartas de monges repletas de frases toscas e que isso deveria acabar, ‘pois se a habilidade em escrever era pouca, a sabedoria para entender a Sagrada Escritura seria menor do que deveria'” (MOCZAR, 2010; p.51).

A mudança da concepção social proposta no renascimento carolíngio foi, até certo ponto, revolucionária dada o contraste com as práticas dos bárbaros anteriores e contemporâneos, todavia, foi um processo bastante lento; um construção (ou reconstrução) civilizacional levada a cabo pela Igreja Católica com a plena anuência do império. Fora do “mundo secular” (sociedade não religiosa), a atuação da Igreja lentamente impôs uma nova perspectiva à educação infantil: o monacato (JOHNSON apud DA COSTA, 2002).

Os monges criaram verdadeiros “jardins de infância” nos mosteiros, recebendo indistintamente todas as crianças que lhes eram entregues, vestindo-as, alimentando-as e educando-as, num sistema integral de formação educacional (NUNES, 1979; p.113).

As comunidades monásticas célticas foram as que mais avançaram nesse novo modelo de educação, pois se opunham radicalmente às práticas pedagógicas vigentes das populações bárbaras, que defendiam o endurecimento do coração já na infância. As crianças eram educadas por todos do mosteiro até a idade de quinze anos no período carolíngio (ROUCHE apud DA COSTA, 2002) – séculos VIII a X – e, apesar do avanço da implantação da família conjugal simples (modelo cristão) com uma média de 2 filhos por casal e um período de aleitamento de dois anos, a prática do infanticídio continuava comum. Além disso, a idade média dos nubentes era muito baixa (entre 14 e 15 anos de idade), a poligamia e a violência sexual eram recorrentes, pelo menos na aristocracia, e ainda estava em vigência a eventual escravidão de crianças. Não é preciso muito esforço para constatar que a vida das crianças em um mosteiro era de muito mais dignidade do que no resto da sociedade.

Por parte da alta hierarquia da Igreja, os bispos carolíngios do século IX tentaram regulamentar o casamento cristão, redigindo uma série de tratados (os chamados “espelhos”). Neles, o casamento era valorizado, a mulher reconhecida como pessoa com pleno direito familiar e em pé de igualdade com o marido e a violência sexual denunciada como crime grave e do âmbito da justiça pública. Para o nosso tema, o que interessa é que as crianças também foram objeto de reflexão nesses espelhos: a maternidade foi considerada um valor (caritas) e o casal tinha a obrigação de aceitar e reconhecer os filhos.

Pode-se concluir, deste modo, que a ação da ordem clerical foi dupla: de um lado, os bispos lutaram contra a prática do infanticídio, de outro, os monges revalorizaram a criança, que passou por um processo de educação direcionada, de cunho integral e totalmente igualitária. Para exemplificar, as escolas monacais carolíngias davam preferência a crianças filhas de escravos e servos, em vez de filhos de homens livres, a ponto de Carlos Magno ser obrigado a pedir que os monges recebessem também para educar crianças filhas de homens livres, além de uma distinção entre o ensino gratuito para os pobres e pago para os ricos (PERNOUD, 1996; p.97). Dentre outras empreitadas notáveis, pode-se citar também que é deste movimento o mérito de conservar e de copiar numerosos manuscritos de autores antigos, os quais constituíram uma preciosa reserva para a posteridade.

Ainda antes do renascimento carolíngio, em um comentário de São Cesário de Arles (c. 470-542) sobre o mosteiro onde passou a infância, é possível dar-se conta da educação que as crianças recebiam; ele dirá:

  • “Essa ilha santa acolheu minha pequenez nos braços de seu afeto. Como uma mãe /ilustre e sem igual e como uma ama-de-leite que dispensa a todos os bens, ela se esforçou para me educar e me alimentar” (CESÁRIO apud DA COSTA, 2002; p. 894).

Os séculos XI e XII assistiram, por seu lado, a uma recuperação dos estudos clássicos; em relação a esta época também se falou, é claro que com excesso de “Renascimento”. Delumeau nos dirá que:

  • “Em França, nas escolas que floresciam nas proximidades dos cabidos clericais, comentava-se Virgílio, Ovídio, Juvenal, Horácio, Lucano Salústio, etc. Nos debates morais não se receava citar o De amicitia de Cícero e as epistolas de Séneca. As freiras liam devotamente a Arte de Amar de Ovídio; e eram feitos comentários e interpretações de As Metamorfoses” (DELUMEAU, 2017).

Ainda Delumeau (2017) dirá:

  • “Será necessário para demonstrar a sobrevivência, durante os longos séculos da Idade Média, de uma Antiguidade, ainda que normalmente deformada, evocar o grande sucesso de Romance de Tebas, de Tróia ou de Eneias? Um facto menos conhecido, mas talvez mais significativo: Petrarca possuía na sua biblioteca o Liber ymaginum deorum de Albricus, espécie de dicionário mitológico composto no início do século XIII. Petrarca utilizou-o diretamente para escrever o terceiro canto da sua epopéia latina, África, que enaltece a figura de Cipião. Por conseguinte, o Humanismo, quando nasceu, não receava usar as coletâneas medievais que se referiam à Antiguidade” (DELUMEAU, 2017; p.76).

Por tudo exposto, dada a extensão e o volume de iniciativas culturais que não só o renascimento carolíngio, como a própria Idade Média foram mais que períodos de transição ou “de passagem”, menos ainda pode se dizer destes que tenham sido períodos intelectual, social e culturalmente estéreis.

—–
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
– BALDWIN, John W. The Scholastic Culture of the Midle Ages, 1000-1300, D.C. Health, Lexington, Massachusetts, 1971.
– BALMES, Jaimes. A igreja católica em face da escravidão. Centro Brasileiro De Fomento Cultural, São Paulo: 1988
– BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento. Editora Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2014.
– DA COSTA, Ricardo. A Educação Infantil na Idade Média. Revista VIDETUR 17, Porto: Editora Mandruvá, 2002
– DAWSON, Christopher. A formação da cristandade. É Realizações Editora: São Paulo, 2014
– DELUMEAU, Jean. Civilização do renascimento. Edições 70: Lisboa, 2017
– DENZINGER, Heinrich Joseph Dominicus; SCHÖNMETZER, Adolf. Enquirídio dos Símbolos e Definições, Ed. Paulinas: São Paulo, 2015
– DUBY, George. As Três Ordens ou o Imaginário do Feudalismo. Editorial Estampa: Lisboa, 1994.
– FRANCO JUNIOR. Hilário. A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006
– HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média, Cosac Naify: São Paulo, 2010.
– LE GOFF, Jacques, Jean-Claude. Para uma outra Idade Média, Editora vozes: Petrópolis, 2017.
– MOCZAR, Diane. Sete mentiras sobre a Igreja Católica : Rio de janeiro: Castela Editorial, 2012.
– MONTEIRO, João Gouveia; GONÇALVES, Gustavo; NISA, João; PAIVA, João; GOMES, Rodrigo, COIMBRA. O Sangue de Bizâncio: ascensão e queda do Império Romano do Oriente: Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016
– NUNES, Rui Afonso da Costa. História da Educação na Idade Média. São Paulo: EDUSP, 1979
– PERNOUD, Régine. Luz sobre a Idade Média. Europa-América publicações Ltda, Lisboa, 1996.
– ROPS, Henri Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. Quadrante, São Paulo: 2011
– SCOTT, Robert A., The Gothic Enterprise. University of California Press, Berkeley, 2003.
– WOODS JR., Thomas. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. São Paulo: Quadrante, 2014.

Facebook Comments

Livros recomendados

Uma Teologia da HistóriaBernardo de Claraval – Testemunha do seu tempo perante DeusDispersão & Outros Poemas (18)