Não vou a shoppings. Aquele ambiente fechado, cheio de porcarias coloridas caríssimas, confesso, me dá vontade de sair correndo. Mas entendo o apelo daquela artificialidade toda: é um mundo dos sonhos do consumo, em que se pode andar sem medo do ladrão, sonhando com compras e gozando da companhia de outras pessoas da mesma classe e com os mesmos gostos.

Meu negócio – que não me ouçam os mais elitistas – é pé-sujo: cerveja gelada, cadeiras na calçada, ovo colorido e a vida real passando na frente da gente.

Mas o paraíso artificial dos shoppings está ameaçado, paradoxalmente, pelo confronto com outra artificialidade da moda; após décadas repetindo a quem quisesse ouvir que os pobres são o Bom Selvagem, eis que hordas de adolescentes, tão consumistas quanto os de classe média, mas desprovidos de meios para comprar honestamente as babulagens que a propaganda empurra, decidiram entrar nos shoppings.

É o “rolezinho”, gíria para “dar uma voltinha” naquele espaço que não lhes pertence e não os acolhe. Só há um problema: eles não são o Bom Selvagem. Ao contrário: são os frutos de uma educação que lhes ensina terem apenas direitos, não deveres. Tão atraídos pelas roupas de grife quanto os mais ricos, eles fazem arrastão, furtam, aterrorizam os frequentadores e, em geral, comportam-se como uma horda. O mais divertido não é nem a obtenção ilegal de bens, mas o pavor que instilam nos habituês dos shoppings.

H. G. Wells, no século 19, descreveu algo parecido no seu romance A Máquina do Tempo: nele, um viajante temporal descobre uma sociedade aprazível de belos nefelibatas, os Elói, e apaixona-se por uma deles. Mais tarde, contudo, descobre que eles na verdade são o gado, criado e engordado para alimentar os Morlocks, seres subterrâneos que saem à noite para um “rolezinho” entre os Elóis adormecidos. Ambos seriam evoluções do ser humano, separado em classes ao longo da história.

A negação dos valores da sociedade às classes mais baixas, tratadas alternadamente como Bom Selvagem (pela mídia e pelo sistema escolar) e como pivetes sem direitos pela polícia e pela classe média apavorada quando os encontra pessoalmente, está transformando os mais jovens em verdadeiros Morlocks. Nas minhas andanças pelos tradicionalíssimos botequins, eu não os encontro; encontro seus pais, tios e avôs, mas os jovens pobres estão alhures. Em bailes funk, em rodas de droga, que sei lá eu. Estão aprendendo a virar Morlocks, enquanto a classe média metrossexual dedica-se à lenta transformação em Elói.

Facebook Comments

Livros recomendados

A monarquia constitucional e a contribuição de José Bonifácio de Andrada e SilvaMeditações para a Páscoa e PentecostesA morte feliz