“Os Apóstolos receberam, pois, o Espírito Santo para desligar os pecadores da cadeia dos seus pecados. Deus fe-los participantes do seu direito de julgar; e eles julgam em Seu Nome e em Seu lugar. Ora, como os Bispos são os sucessores dos Apóstolos tem o mesmo direito. E o pecador ao se confessar sincera e contritamente os seus pecados, é como Lázaro: já vive, mas está ainda ligado com as ataduras de seus pecados. Precisa de que o Sacerdote lhas corte; e corte-lhas absolvendo. (São Gregório Magno – Papa e doutor da Igreja – AQUINO, Felipe – A Sagrada Tradição – Editora Cléofas – Lorena: São Paulo – p. 126).

Sabendo o Senhor, que mesmo depois do Batismo o homem que foi elevado ao estado sobrenatural pela graça, não continuaria em estado de pureza e santo em Sua presença, devido sua tendência ainda ao orgulho e desobediência, o que tinha como fruto a perda da dignidade de filhos Seus; aprouve a Ele, amado Senhor, instituir um Sacramento que o pudesse curar e restabelecer a graça perdida, sem a qual ninguém O veria, já que estariam todos condenados a viverem longe de Sua face santíssima. Expressou o Seu amor e Sua misericordia estabelecendo o Sacramento da Penitência, e nada mais significativo o instituir justamente após sua Ressurreição, mostrando que como Ele vivia, assim todo homem renascido pelo Batismo, poderia viver também, caso caindo em pecado, buscasse Sua misericórdia que é infinita. Na tarde do dia da Páscoa, Jesus aparece aos Apóstolos reunidos no Cenáculo e, na plenitude da alegria pascal, infunde sobre eles o Espírito Santo, com estas palavras: “Recebei o Espírito Santo, àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem o retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22), associando a este dom a missão e o dever, ou seja, o poder de perdoar os pecados. O Senhor que tinha nascido, vivido e morrido para redimir a humanidade, não hesita em conferir aos seus, apesar de homens, o poder inaudito de penetrar tão profundamente no destino dos pecadores. Nas mãos e na boca dos Apóstolos, seus mensageiros, o Pai depôs misericordiosamente um “ministério de reconciliação”, que eles exercem de maneira singular, em virtude do poder de agir in “persona Christi”.

O perdão, antes da vinda de Cristo, acontecia pela virtude da penitência, virtude esta que levava os homens, com consciência, arrependimento e propósito, a detestarem seus pecados caso desejassem ser santos diante do Deus Altíssimo. Se percorrermos todas as épocas verificamos que em cada geração o Senhor concedeu o tempo favorável da penitência e todos que O escutaram foram santificados e acolhidos. Sempre ouve no meio do povo de Deus um ministro da graça que inspirado pelo Espírito Santo pregaram a penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com um juramento: Dize-lhes isto: “Por Minha vida – oráculo do Senhor Javé -, não Me comprazo com a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida. Convertei-vos! Afastai-vos do mau caminho que seguis; por que haveis de perecer, Ó casa de Israel”?(cf. Ez 33,11).

Ao chegar a plenitude dos tempos, na Nova Aliança selada pelo sangue de Cristo, o Filho de Deus vindo como o Cordeiro que tira e carrega sobre Si o pecado do mundo, aparece como Aquele que tem poder, quer de julgar, quer de perdoar os pecados, que veio não para condenar, mas para perdoar e salvar; (Jo 3,17) e exatamente por isso, o Senhor instituiu o Sacramento da Penitência dando à Sua Igreja todo poder de perdoar as ofensas cometidas a Ele, onde a graça invisível seria derramada através de sinais visíveis e sensíveis, mediante um rito próprio, tendo como ministro o sacerdote, que age na pessoa do próprio Cristo, que é Aquele que perdoa. O Pai abre seus braços misericordiosos e realmente dá ao homem condições de santificação o tornando apto a vê-lo um dia, já que só Deus pode perdoar pecados. Esta é a grande graça de chamada à conversão, é a grande oportunidade para a vida plena e santa, já que todo batizado mesmo que sujo pelo pecado mortal, – pecado este que rompe a vida divina que faz merecer o céu, afasta do redil de Cristo, da comunhão dos santos, que de amigos e filhos, o torna inimigo de Deus pela desobediência; – se cometido com plena consciência, o que pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, da sua oposição à Lei de Deus, e ainda com total consentimento suficientemente deliberado para ser uma opção pessoal”. (Cfr. Catecismo da Igreja Católica n. 1859), – se com confiança, contrição verdadeira, sincera e arrependimento se confessa lealmente, por amor deste Deus, é purificado no sangue de Jesus Cristo, seu Filho amado que não se poupou por amor a ele.

Nos diz S. S. o Papa Paulo VI na Encíclica Lumem Gentium: “Aqueles que se aproximam do Sacramento da Penitência, obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, que tinham ferido com o seu pecado, a qual, pela caridade, exemplo e oração, trabalha pela sua conversão” (Lumem Gentium n. 11)

Um dos frutos deste Sacramento, se bem realizado, é a paz que brota da reconciliação com o Senhor, nosso Pai. ”É uma paz que brota da certeza – não de uma esperança insegura – de que os pecados foram perdoados, de que a amizade voltou e que o céu está disponível novamente. Com esta paz, vem ao coração do penitente uma grande consolação, pois o leva a uma “verdadeira ressurreição espiritual”, consequência da restituição da dignidade de filho que é, e dos bens próprios dos quais é a amizade do mesmo Deus. ”Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Feliz o homem a quem o Senhor não argui de falta, e em cujo coração não há dolo. Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos. Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão. Então eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniqüidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade.” (Salmo de Davi – 31, 1 – 6).

(S. Th. III, 62 , 5, c – Santo Tomás de Aquino – Exposição sobre o Credo – Edições Loyola [email protected] edição – 2002 – Tradução e notas Dom Odilão Moura, OSB – p. 115).

Santo Agostinho muito inspiradamente vê na ressurreição de Lázaro uma figura do Sacramento da Penitência: “como Lázaro do túmulo, sais tu quando te confessas. Pois que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária. E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse o Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desatardes na terra será desatado no céu” (In Ioann. Evang. 49, 24 – Bílbia de Navarra – Santos Evangelhos p. 1295)

A condição indispensável para a excelência deste Sacramento é nosso amor a Deus, pois o homem não pode merecer o perdão dos pecados porque, sendo Deus o ofendido, a sua gravidade torna-se infinita e por amor Deus o instituiu. Nosso amor e nosso arrependimento é portanto condição para o perdão.

Diante de tão claras e precisas palavras de Jesus, entendeu sempre a Igreja universal – esta que é a arca para onde acorre todo homem que crê em Cristo -, que desde o momento da instituição deste Sacramento da misericordia, distribuiria as graças aos batizados arrependidos, acolhendo a todos como uma mãe para se formar o povo santo e reconciliado, tão querido pelo Pai, povo este que Deus espera ser toda a humanidade, já que Ele a amou até o fim e se entregou por Ela como vítima perfeita; e para que isso acontesse foi delegado aos Padres que estiveram em contato com os Apóstolos, e a seus legítimos sucessores, o poder de perdoar ou não os pecados, ao reconciliarem-se os fiéis que tenham caído neles depois do Batismo. Por séculos ininterrúptos e assim será até que se consuma os tempos, todo homem teve e terá a seu alcance o Sacramento da Misericordia. Mas Jesus, mediante esse ministério, instituído no Cenáculo na tarde do dia de Páscoa, perdoa os pecados também hoje com um ato dotado de eficácia atual, que não é a mera comemoração, como alguns defendem, da satisfação oferecida “semel pro semper” (duma vez por todas) no Calvário: esses não se dão conta de que, assim, esvaziam a economia sacramentária e diminuem o próprio e infinito poder do Sacrifício Redentor, que confere virtude salvífica aos atos sacramentais; da mesma forma que o infinito poder de Deus Criador não só age diretamente, mas confere dignidade de causa às criaturas. O Sacramento da Penitência, no entanto, destina-se a perdoar os pecados não indiscriminadamente a todos os homens, mas tão só aos que mediante o Batismo começaram a fazer parte, para sempre, da Igreja e são chamados a viver o seu mistério em plenitude; esses já não estão sozinhos no mundo, mas são como membros de um organismo cujo chefe é Cristo Crucificado e Ressuscitado, fonte de vida divina para todos os seus. (Prefácio do Cardeal Angelo Soldano sobre Alocuções a uma Carta Apostólica de João Paulo II sobre o Sacramento da Penitência)

A Igreja recomenda-o mesmo para o perdão dos pecados veniais, embora este perdão se possa obter também por outros meios. O Sacramento da Penitência é aquele cuja forma concreta mais evoluiu ao longo dos séculos (cf. Catecismo da Igreja católica n.1447), mantendo contudo a sua estrutura fundamental: de um lado, os atos do pecador penitente: 1) a contrição perfeita (quando o motivo é o amor de Deus, sendo então suficiente só por si para antecipar o perdão) ou pelo menos a atrição (quando o motivo, embora sobrenatural, se fica pelo medo do castigo divino ou pela fealdade do pecado); 2) a confissão íntegra de, pelo menos, pecados graves ainda não confessados, mas convenientemente dos demais; 3) o cumprimento da satisfação ou penitência imposta pelo confessor com eficácia sacramental como compensação pelos danos provocados pelos pecados (no caso de danos reparáveis cometidos contra terceiros, a sua reparação possível é condição a impor) e, do outro, a ação de Deus pela intervenção da Igreja (que, por meio do bispo e seus sacerdotes, absolve o pecador de seus pecados e fixa o modo de satisfazer por eles. (FALCÃO, Dom Manoel Franco – Enciclopédia Católica Popular)

Sobre a importância deste Sacramento o Concílio de Trento nos diz: Além disso, um é o fruto do Batismo, e outro é o da Penitência, pois vestindo-nos de Cristo pelo Batismo, passamos a ser novas criaturas Suas, conseguindo plena e eterna remissão dos pecados, mas por meio do Sacramento da Penitência, não poderemos chegar de modo algum a esta renovação e integridade sem muitas lágrimas e sacrifícios de nossa parte para solicitar a Divina Justiça, de modo que por esta razão chamaram os santos padres à Penitência de uma espécie de Batismo de sacrifícios e aflição. Em conseqüência, é tão necessário este sacramento da Penitência aos que pecaram, depois do Batismo, para conseguir a salvação, como é o mesmo Batismo aos que ainda não renasceram (Sacrossanto Concílio de Trento, Sessão XIV – Celebrada no tempo do Sumo Pontífice Júlio III, em 25 de novembro do ano do Senhor de 1551 – Doutrina do Santo Sacramento da Penitência). Portanto é condição para se obter a salvação, usufurir deste Sacramento , já que sem ele nenhum homem após haver pecado poderá adquirir o céu, recompensa para aqueles que permanecerem de pé com o auxílio de Cristo e de Sua graça.

Fora a paz que trás ao penitente, o Sacramento da Penitência, destina-se primariamente a perdoar ao pecador arrependido os pecados graves, restituindo-lhe a graça santificante e concedendo-lhe especial “graça sacramental” que o ajuda na luta para não recair nos pecados cometidos. Portanto o Sacramento da Penitência reconcilia a alma com Deus ao mesmo tempo que perdoa os pecados. “Toda força da penitência reside no fato de ela nos reconstituir na graça e de nos unir a Deus com a máxima amizade” (Catecismo Romano 2, 5, 18). Além disso o ajuda a crescer em graça, e como ela é todo bem distribuido por Deus aos homens, os torna seres deiformes, aptos a realizarem atos sobrenaturais com méritos de vida eterna e santidade, o que nos confirma S. S. o Papa Pio XII em sua Encíclica Misticis Corporis: “Para progredir mais rapidamente no caminho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso, introduzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão frequente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desairraiga os maus costumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direção espiritual e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça” (Bíblia de Navarra – Evangelho de João – p. 1426)

Porque Nosso Senhor deseja que todos alcancem o céu; ao fazer da santa Confissão, o grande presente da Páscoa à Sua Igreja, desejou que ele deva ser antes de tudo, caminho de reconciliação com Deus, pelo perdão que concede aos homens. É um sacramento que depende muito da colaboracão do penitente, já que ele, antes de tudo, deve-se reconhecer pecador e falho, e que confia e sabe que Cristo deixou uma Igreja onde estaria ali o depósito de suas graças, que santificaria todo aquele que d’Ele se achegasse pelas mãos do sacerdote. Portanto, o Sacramento da Penitência deve ser entendido como um grande bem que requer fé e sobretudo disposição, desejo de santidade, desejo de fazer em tudo a vontade de Deus que é fonte de sabedoria.

Este digno Sacramento além de restaurar, aumentar a graça santificante e de perdoar pecados mortais e veniais (que neste caso se recebe um incremento de graça santificante, que fortalece a alma a participacao da vida divina pela qual esta unida a Deus, portanto devem também ser confessados, apesar de terem outros meios para te-los perdoados), no caso dos pecados mortais é cancelado o castigo eterno que são consequências deles, o que resultaria no fim triste para este homem caso viesse a morrer com ele, pois estaria definitivamente longe de Deus na eternidade, cujo fim é o inferno. Além de todos estes bens que o sacramento infunde no penitente, ele apaga também parte da pena temporaldevida ao pecado, que nasce da dívida de satisfação que se contrai com Deus, mesmo depois de terem sidos perdoados. Estas penas que seriam pagas no purgatório são diminuidas pela graça do sacramento aliada a orações, mortificações e outras obras feitas em estado de graça. Outro efeito do Sacramento da Penitência é devolver-nos os méritos das boas obras que tenhamos feito por amor a Deus e em estado de graça, que merece-nos um aumento de graça nesta vida, de glória no céu e que foram perdidos pelo pecado mortal. Que depósito de riquezas em Deus! Dando-nos direito a quaisquer graças atuais de que possamos precisar, que nos ajuda abundantemente a rejeitar o mal e buscar solidamente o bem. É a chamada graça sacramental que nos fortifica para não cairmos em pecado e que é ao mesmo tempo remédio que cura e fortalece. Isto só é possível graças ao infinitos méritos de Jesus Cristo conquistados na cruz e que neste Sacramento damos a Deus Pai, pelo nosso sim e amor arrependido, a chance de partilhar conosco estes bens maravilhosos.

Assim como na vida corporal as pessoas ficam doentes, e, se não tomarem remédio, morre, na vida espiritual pode-se também adoecer pelo pecado. Por este motivo, é necessário o antídoto para se curar e tal é a graça conferida pelo Sacramento da Penitência: ”Ele perdoa todas as suas faltas, que te cura de todas as tuas doenças”(Sl 102,3), desde que se faça bom uso e de acordo, com o que ele propõe aos filhos de Deus, pois é remédio pra toda doença espiritual, e para fazer uma confissão frutuosa é preciso que se faça um exame de consciência bem feito – levando em conta os mandamentos do Senhor, nossa relação com Ele, com os irmãos, com a Igreja e com o mundo em que vivemos -, tendo no coração um arrependimento sincero, que se caracteriza numa aversão ao pecado e desejo de santidade, propósito de não mais pecar, a confissão propriamente dita feita, de forma individual, a um sacerdote da Igreja e a penitência proposta. Conforme mandamento da Igreja, “todo fiel, depois de ter chegado à idade da discrição, é obrigado a confessar seus pecados graves, dos quais tem consciência, pelo menos uma vez por ano”. Aquele que tem consciência de ter cometido um pecado mortal não deve receber a Sagrada Comunhão, mesmo que esteja profundamente contrito, sem receber previamente a absolvição sacramental, a menos que tenha um motivo grave para comungar e lhe seja impossível chegar a um confessor. As crianças devem confessar-se antes de receber a Primeira Eucaristia (Catecismo da Igreja Católica n.1457).

A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja; ”somente a impossibilidade fisica ou moral o escusa desta forma de confissão, podendo neste caso obter-se a reconciliação também por outros meios e por isso. “todo aquele que, em razão do ofício, tem cura da almas, está obrigado a providenciar para que sejam ouvidas as confissões dos fiéis que lhe estão confiados e que de modo razoável peçam para se confessar, a fim de que aos mesmos se ofereça a oportundade de se confessarem individualmente em dias e horas que lhes sejam convenientes”(S.S. João Paulo II em sua Carta Apostólica Misericórida Dei). “Não podemos esquecer, que a conversão é um ato interior de uma profundidade particular, no qual o homem não pode ser substituído pelos outros, não pode fazer-se “substitur”pela comunidade. Muito embora a comunidade fraterna dos fiéis, participantes na celebração penitencial, seja muito útil para o ato de conversão pessoal, todavia, definitivamente é necessario que neste ato se pronuncie o próprio individuo, com toda profundidade da sua consciência, com todo sentido da sua culpabilidade e da sua confiança em Deus, podo-se diante d’Ele, `a semelhança do salmista, para confessar: “Pequei conta Vós”. A Penitência , defende o direito particular da alma humana. É o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro: “ São-te perdoados os teus pecados”; “vai e doravante não tornes a pecar”. Como é evidente, isto é ao mesmo tempo o direito do próprio Cristo em relação a todos e a cada um dos homens por Ele remidos. É o direito de encontrar-se com cada um de nós naquele momemto-chave da vida humana, que é o momento da conversão e do perdão. A Igreja, ao manter o Sacramento da Penitência, afirma expressamente a sua fé no ministério da Redenção, como realidade viva e vivificante, que corresponde à verdade interior do homem, corresponde à humana culpabilidade e também aos desejos da consciência humana. “Bem- aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados” (S. S. Papa João Paulo II – Carta Encíclica Redemptor Hominis)

“Em casos de necessidade grave, pode-se recorrer à celebração comunitária da reconciliação com confissão e absolvição gerais. Esta necessidade grave pode apresentar-se quando há um perigo iminente de morte sem que o os sacerdotes tenham tempo suficiente para ouvir a confissão de cada penitente. A necessidade grave pode também apresentar-se quando, tendo-se em vista o número dos penitentes, não havendo confessores suficientes para ouvir devidamente as confissões individuais num tempo razoável, de modo que os penitentes; sem culpa de sua parte, se veriam privados durante muito tempo da graça sacramental ou da sagrada Eucaristia. Nesse caso, os fiéis devem ter, para a validade da absolvição, o propósito de confessar individualmente seus pecados no devido tempo (Código de Direito Canônico – cân. 962,1).

Cabe ao Bispo diocesano julgar se os requisitos para a absolvição geral existem (CDC, cân. 961). Um grande concurso de fiéis por ocasião das grandes festas ou de peregrinação não constitui caso de tal necessidade grave (Código de Direito Canônico – cân. 961,1).” (Catecismo da Igreja Católica, 1483)

O Ministro da Penitência:

Só um Bispo ou um presbítero, que julga e absolve, cura e sara em nome de Cristo. Para ouvir a confissão se requer, além do poder da Ordem, o poder de jurisdição, porque o sacerdote é juiz que pronuncia a sua sentença, depois do verdadeiro julgamento (Cfr. Cân. 872) . Esta jurisdição é o poder público de reger os fieis em ordem à vida eterna. Mas é Cristo quem absolve. O Sacerdote é representante na terra deste canal de graça, que no Sacramento da Penitência empresta a voz para Cristo . ”É Deus quem em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens , e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio. Em nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus”(2Cor 5,19-20). Pede-se ao sacerdote, ministro de Cristo, que tenha grande compreensão e compaixão, já que ele mesmo tem que ter a consciência de sua própria debilidade. Por isso a Igreja, no Cânon romano da Santa Missa, põe nos lábios do sacerdote”E a nós pecadores, servos Teus…”O Sacerdote compadece-se e é compreensivo porque ”ele próprio está rodeado de debilidade”.

Sua Santidade o Papa Pio XI escrevia: ”quando vemos um homem exercer esta faculdade (perdoar os pecados) não podemos pelo menos deixar de repetir – não com escândalo farisaico, mas com reverente assombro – aquelas palavras: “Quem é este que até perdoa pecados?” (Lc 7,49). Foi o Homem-Deus que tinha e tem o “poder de perdoar os pecados na terra” (Lc 5,24), quem quis transmiti-lo aos Seus sacerdotes para encher com a liberalidade da misericórdia divina, a necessidade de purificação que sente a consciência humana. Daí brota uma grande consolação para o homem culpável, que sofre com os remorsos e que, arrependido, ouve a palavra do sacerdote, que em nome de Deus lhe diz: ”Eu te absolvo dos teus pecados”. Ouvir isto da boca de alguém que por sua vez terá a necessidade de pedir as mesmas palavras a outro sacerdote, não degrada o dom misericordioso de Deus, mas sublima-o, já que através da frágil criatura se vê na mão de Deus que opera este prodígio” (Carta Encíclica -Ad Catholici Sacerdotti, n. 6 – Sobre o Sacerdócio Católico)

Os sacerdotes devem incentivar os fiéis a receberem o sacramento da Penitência e devem mostrar-se disponíveis a celebrar o sacramento cada vez que os cristãos o pedirem de um modo conveniente (Catecismo da Igreja Católica n. 1464) São atos do ministro dotado do poder de absolver (cf. CDC 965-986): 1) o juízo sobre a acusação; 2) a absolvição em nome de Deus; 3) e a imposição da penitência ou satisfação. Diante da delicadeza e da grandiosidade deste ministério e do respeito que se deve às pessoas, a Igreja declara que todo sacerdote que ouve confissões é obrigado a guardar segredo absoluto a respeito dos pecados que seus penitentes lhe confessaram, sob penas severíssimas. Também não pode fazer uso do conhecimento da vida dos penitentes adquirido pela confissão. Este segredo, que não admite exceções, chama-se “sigilo sacramental”, porque o que o penitente manifestou ao sacerdote permanece “sigilado” pelo sacramento. O sigilo do Sacramento da Reconciliação é sagrado e não pode ser traído sob nenhum pretexto. “O sigilo sacramental é inviolável; por isso, não é lícito ao confessor revelar o penitente, com palavras, ou de qualquer outro modo, por nenhuma causa.” (Catecismo da Igreja Católica n. 2490)

Eucaristia e Sacramento da Reconciliação

“Os padres sinodais afirmaram, justamente, que o amor à Eucaristia leva a apreciar cada vez mais também o sacramento da Reconciliação. Por causa da ligação entre ambos os sacramentos, uma catequese autêntica acerca do sentido da Eucaristia não pode ser separada da proposta dum caminho penitencial (1 Cor 11, 27-29). Constatamos — é certo — que, no nosso tempo, os fiéis se encontram imersos numa cultura que tende a cancelar o sentido do pecado, favorecendo um estado de espírito superficial que leva a esquecer a necessidade de estar na graça de Deus para se aproximar dignamente da comunhão sacramental. Na realidade, a perda da consciência do pecado engloba sempre também uma certa superficialidade na compreensão do próprio amor de Deus. É muito útil para os fiéis recordar-lhes os elementos que, no rito da Santa Missa, explicitam a consciência do próprio pecado e, simultaneamente, da misericórdia de Deus. Além disso, a relação entre a Eucaristia e a Reconciliação recorda-nos que o pecado nunca é uma realidade exclusivamente individual, mas inclui sempre também uma ferida no seio da comunhão eclesial, na qual nos encontramos inseridos pelo Batismo. Por isso, como diziam os Padres da Igreja, a Reconciliação é um batismo laborioso (laboriosus quidam baptismus), sublinhando assim que o resultado do caminho de conversão é também o restabelecimento da plena comunhão eclesial, que se exprime no abeirar-se novamente da Eucaristia” (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis de S.S. Papa Bento XVI Sobre a Eucaristia).

Enfim, somos filhos amados e temos a graça de um tesouro maravilhoso – o próprio Deus – em nossas almas, mas apesar disso lembremo-nos que fomos feitos pela argila e podemos nos quebrar com facilidade, apesar das lutas contra o mal; por isso precisamos nos recompor neste Sacramento de amor. Vivemos no tempo do cumprimento das promessas onde Deus tem-se deixado encontrar e não exita em carregar nos ombros nossas dores e fragilidades. Mons. Escrivá de Balager ensinava que “os cristãos, levando Deus na alma, podiam viver ao mesmo tempo, “no Céu e na Terra”, eudeusados; mas sabendo que somos do mundo e que somos terra, com a fragilidade própria do que é da terra: um púcaro de barro que o Senhor Se dignou aproveitar para o Seu serviço”. Fomos Batizados na Esperança (Santo Agostinho, Bispo de Hipona e Doutor da Igreja) e ela nos faz caminhar, buscando agradar em tudo nosso Senhor, que não exitou em dar-nos seu Filho e para com Ele nos fazer filhos, com a mesmo direito a herança, desde que deixemo-nos conduzir pelo seu Espírito Santo, através de Sua Igreja. O perdão está disponível e o Pai ansioso na estrada a nossa espera para que retornemos de onde nunca deveríamos ter saído, para vivermos na alegria de Sua casa, onde insiste em colocar em nossos dedos o anel, dando-nos roupa nova e pondo em nossos pés as sandálias para que sigamos confiando sempre em Sua misericórdia que é eterna. “Acheguemo-nos a Deus e Ele se achegará a nós, Ele que é a videira verdadeira e nós como ramos permaneçamos ligados a Ela, para que tanhamos a vida, comprada a preço de Seu sangue precioso – é promessa de Deus e nela confiamos agradecidos. Amém.

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