O Sacramento da Reconciliação, também chamado por metonímia Sacramento da Penitência, ou “Confissão”, é um dos ditos “Sacramentos dos Mortos”. Ele é assim chamado por ser um sacramento que dá a Vida Eterna a quem não a tem. Enquanto o Batismo dá a Vida eterna a quem nunca a teve, elevando uma criatura de Deus à qualidade de filho adotivo de Deus, o sacramento da reconciliação reconcilia com Deus, trazendo o filho de volta à família divina, de volta à casa do Pai.

Forma, Matéria e Ministro deste Sacramento

Todo Sacramento tem uma matéria – aquilo sobre o quê ele age –, uma forma – o modo como ele é administrado – e um ministro – quem o aplica. Veremos agora como isto ocorre no Sacramento da Penitência.

A matéria – ou, nas palavras de São Tomás de Aquino, a “quase-matéria” – deste Sacramento é o arrependimento. A pessoa que busca a Confissão deve estar arrependida do mal praticado; se ela não estiver, não há a matéria necessária e o Sacramento não é válido. Em outras palavras, apenas quem está verdadeiramente arrependido de seus pecados pode tê-los perdoados. Não vale nada a Confissão feita, por exemplo, por uma pessoa que não se arrependa do que cometeu e tem a intenção de continuar a pecar.

Assim, por exemplo, uma pessoa que tenha relações antes ou fora do casamento não pode se confessar se não tiver a intenção real de não mais tê-las. Uma pessoa que viva em pecado (por exemplo, vivendo como marido e mulher sem ser casado na Igreja, ou usando contraceptivos) que busque a confissão para poder cumprir o mandamento de comungar uma vez ao ano pela Páscoa só receberá validamente este Sacramento se tiver a intenção de não mais pecar (passando a viver como irmão e irmã, em camas separadas, no primeiro caso; deixando de usar contraceptivos, no segundo). Confessar-se com a intenção de retomar o mesmo pecado ou cometer outro não é válido, e os pecados não são perdoados.

Vale notar que não é sempre necessária uma perfeita contrição (ou seja, um verdadeiro horror aos pecados cometidos, movido unicamente por amor a Deus) para o perdão. A mera atrição, ou seja, o arrependimento que consiste apenas na intenção de não mais pecar por medo do Inferno, por exemplo, já é suficiente para a validade do Sacramento. Isto ocorre porque Deus, na Sua infinita bondade e sabedoria, sabe que por vezes é dificílimo para nós termos arrependimento completo, posto que alguns pecados são extremamente prazeirosos. Assim, basta-Lhe que tenhamos a firme intenção de não mais cometer aquele pecado e o medo do Inferno nos mova a buscar o Seu perdão.

A forma do Sacramento da penitência consiste na confissão auricular individual – ou seja, na confissão oral a um sacerdote que possa ministrá-lo de todos os pecados cometidos, seguida da fórmula de absolvição “Eu te absolvo de teus pecados, em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Em caso de perigo de morte iminente, a confissão auricular pode ser dispensada. Caso cesse o perigo, contudo, ainda que a absolvição dos pecados tenha sido válida, eles devem ser confessados em confissão auricular individual o mais rápido possível.

O ministro deste sacramento é o Bispo ou um padre que tenha recebido a faculdade de ministrá-lo. Esta faculdade pode ser restrita (por exemplo, um padre pode ter a faculdade de absolver apenas homens, apenas mulheres, apenas pessoas casadas, etc.) ou plena (podendo assim absolver qualquer pessoa). Normalmente ela é plena. O pároco tem sempre faculdades para absolver os pecados de todos os paroquianos a ele confiados. Quando um padre viaja, ele tem as mesmas faculdades que tinha em sua diocese de origem (ou seja: se elas forem restritas, as mesmas restrições se aplicam), a não ser que o Bispo da diocese onde se encontra lhe dê ou retire faculdades.

Assim, um padre da Diocese X pode ter faculdades plena em sua diocese de origem, mas o Bispo da Diocese Y pode retirar ou restringir suas faculdades; assim, este padre só poderá absolver validamente os penitentes para os quais tenha faculdades na Diocese Y, podendo contudo absolver quaisquer penitentes em qualquer outra Diocese. Um padre acéfalo (ou seja, que não está incardinado em nenhuma diocese ou congregação religiosa, não pertencendo à hierarquia da Igreja apesar da validade de sua ordenação) só pode ouvir validamente confissões em perigo de morte iminente. Qualquer padre validamente ordenado pode ouvir confissões de moribundos ou de pessoas em perigo de morte iminente: mesmo um padre que “largou a batina”, um padre excomungado ou um padre acéfalo absolve validamente os moribundos e os que estão em perigo de morte iminente.

Efeitos deste Sacramento

O efeito primeiro e principal do Sacramento da Reconciliação é o perdão dos pecados e a recuperação da Graça Santificante perdida pelo pecado mortal. Vejamos como isto ocorre:

– A vida na Graça: Pelo batismo, nós recebemos a Graça Santificante, ou seja: nos tornamos Santos. A Santidade recebida no Batismo, contudo, pode ser perdida. Nunca perdemos nossa condição de filhos adotivos de Deus, mas perdemos, sim, aquilo que Deus nos deu para o aprimoramento de nossa natureza: a Graça Santificante.

A Graça Santificante é como se chama a graça que nos faz pessoas melhores, mais conformes àquilo que Deus, o Sumo Bem, deseja para nós. Ele é nosso Criador, e Ele sabe como deveríamos ser. Nós, contudo, temos o livre-arbítrio (a capacidade de escolher livremente entre duas coisas que parecem boas), e podemos, a cada instante, escolher se preferimos preservar a graça que Deus nos deu ou trocá-la por algum prazer criado.

Outro tipo de graça é a chamada “graça atual”, a graça que Deus nos dá a todo momento de agir corretamente. Estas graças – pois são muitas, uma para cada ato e para cada pessoa – sempre temos. Todos recebem graças atuais: pagãos, judeus, cristãos, hereges… A Graça Santificante, porém, aquela transformação de nosso ser para que correspondamos àquilo que Deus nos chama a ser, é recebida no batismo e pode ser perdida. Assim, podemos dizer que um pagão que procura o Batismo o faz por aceitar a graça atual, sempre oferecida a todos o tempo inteiro por Deus, da conversão. Quando ele é batizado, passa a ter a Graça Santificante. Pela recepção dos Sacramentos (especialmente do Santíssimo Sacramento) e pela oração, penitência e caridade ele pode aumentar em graça, e assim se tornar mais Santo.

Esta graça que nos faz Santos e recebemos no Batismo, contudo, pode ser perdida. Isto ocorre quando a Deus preferimos uma criatura. É uma livre escolha, que fazemos o tempo todo: pecar ou não pecar? Quando o pecado é mortal, ou seja, é um pecado cometido deliberadamente e conscientemente em matéria grave (basicamente os Dez Mandamentos), não se pode fugir das conseqüências: perdemos a Graça santificante. Fizemos uma escolha: entre Deus e aquele prazer que sabíamos ser errado escolhemos, deliberada e conscientemente, aquele prazer pecaminoso. Trocamos a graça de sermos Santos, a possibilidade de entrarmos no Céu, por aquele prazer.

Falando assim, pode parecer que o pecado mortal é coisa rara; não é este o caso, infelizmente. É pecado mortal, por exemplo, quando faltamos a uma Missa de domingo ou dia santo de guarda porque preferimos ir ao cinema ou tomar banho de piscina. É pecado mortal quando um casal casado usa contraceptivos ou evita sem razões graves e sérias ter relações conjugais nos dias férteis e assim, deliberada e conscientemente, frustra o fim primeiro do matrimônio. É pecado mortal quando mentimos. E por aí vai.

Todo pecado carrega em si suas conseqüências. Estas conseqüências podem ser de dois tipos: eterna e temporal. A conseqüência temporal é aquela que é restrita ao tempo, enquanto a eterna é aquela que marca por toda a eternidade.

Assim, por exemplo, se alguém rouba um objeto que pertence a um amigo, esta pessoa está cometendo deliberada e conscientemente um pecado em matéria grave. Ela terá, como conseqüências temporais:

– uma desordem maior de sua alma, fazendo mais difícil aceitar as graças atuais que Deus lhe dá (é por isso que um ladrão tem menos dificuldade em cometer um assassinato: sua alma já está “endurecida” pelo pecado; as conseqüências temporais de seus pecados anteriores o tornam quase surdo à graça de Deus);

– a obrigação de devolver o objeto que não lhe pertence, restituindo-o a seu amigo, junto com uma compensação por ter privado o amigo da posse do objeto que lhe pertence durante o tempo em que o manteve em seu poder;

– uma dívida para com a sociedade, posto que roubar é um pecado que afeta negativamente a ordem social. Por isso ele pode ser preso.

A conseqüência eterna de seu pecado, porém, é muito maior que tudo isto: o ladrão, ao escolher – entre Deus e o objeto que roubou – ficar com o objeto, perdeu a graça que o fazia santo, perdeu a vida eterna e condenou-se à eternidade no Inferno. A graça, convém lembrar, é um presente totalmente imerecido. Ninguém “merece” a graça, e ninguém, por seus próprios méritos “merece” o Céu. O Inferno é o fim natural do homem, e ir para o Céu é algo que Deus dá sem que o homem realmente mereça. Os bons atos dos homens tem merecimento, mas apenas com a graça de Deus é possível escapar ao Inferno que normalmente nos aguardaria e melhorar quem somos, transformando-nos em pessoas santas e, assim, merecendo o Céu. A escolha, contudo, sempre é nossa: Deus nos dá as graças atuais necessárias para que não pequemos, mas somos livres para pecar ou não, somos livres para aceitar ou não o presente imenso que Deus nos dá.

Recuperando a Graça santificante

Pelo Sacramento da Reconciliação, nós recuperamos a Graça santificante. Em outras palavras: somos perdoados por Deus e recebemos d’Ele, novamente, o presente que Ele nos havia dado e que jogáramos no lixo, preterindo-o em favor de um prazer ilícito.

O Sacramento da Confissão é também chamado “tribunal”, pois nos aproximamos dele como o criminoso se aproxima do tribunal. Assim como um criminoso é apresentado por um promotor, que narra seus malfeitos, nós somos levados por nossa consciência, que nos acusa os pecados que cometemos. Em seguida, o Juiz – que no tribunal da Penitência é Deus Todo-Poderoso dá seu veredicto.

Em um tribunal criminal, contudo, o juiz tem seu poder limitado: ele não pode perdoar um culpado, pois a sociedade – que ele representa – não lhe dá senão o poder de verificar se há culpa e, havendo culpa, determinar a punição. Em um julgamento individual – por exemplo, quando alguém que nos roubou algo pede perdão – nós podemos perdoar a pessoa. Deus, no tribunal da reconciliação, sempre perdoa o penitente arrependido.

Este perdão é, como aquilo que é perdoado, eterno. O pecado que cometemos é como que apagado, e no que diz respeito à conseqüência eterna de perda da Graça santificante, é como se nunca houvesse ocorrido. O próprio demônio, que conhece as coisas por inteligência angélica, de modo direto, passa a não mais perceber aquele pecado. O pecado que foi confessado escapa à percepção do demônio, que não mais nos pode acusar dele.

O Perdão da conseqüência eterna

Perdoar é um ato de grande generosidade, mas não é um ato de loucura. Perdoar significa não exigir a retribuição que seria devida. Assim, por exemplo, se uma determinada pessoa rouba um objeto que foi deixado sobre uma mesa e depois pede perdão e o devolve, podemos perdoá-la. Neste caso, isto significa que aceitaremos o objeto de volta e não buscaremos a retribuição devida além do objeto em si, ou seja, não cobraremos desta pessoa, por exemplo, que nos indenize por nos ter privado da posse daquele objeto por aquele tempo.

Perdoar a pessoa não significa esquecer que ela tem aquela fraqueza; seria temerário, por exemplo, esperar daquela pessoa que resista sempre à tentação do roubo. Uma vez perdoado aquele roubo, passaremos, por exemplo, a não deixar objetos valiosos ao alcance dela para não a tentar. Não se trata, assim, de fingir que nada aconteceu, sim de não exigir uma determinada retribuição devida. Se perdoamos o ladrão, isto não nos impede, por exemplo, de falar a verdade se formos arrolados como testemunha em seu julgamento, pois não temos o direito de impedir que a conseqüência social de seu crime, ou seja, a ruptura da ordem social causada pelo roubo, demande punição.

Assim, o perdão só pode se restringir àquilo que nos é realmente devido: o governante pode perdoar um ladrão, mas não pode eximi-lo de restituir o bem roubado e alguma retribuição a seus legítimos donos; a vítima do roubo pode perdoar o ladrão, mas não pode exigir que seu crime não seja punido pela sociedade; Deus pode perdoar o ladrão arrependido, mas Seu perdão não implica nem no perdão de sua vítima nem no perdão da sociedade.

Devemos portanto ter em mente que o Sacramento da Reconciliação é o meio pelo qual buscamos e recebemos o perdão divino, não o perdão dos homens ou da sociedade. O assassino arrependido que se confessa escapa do Inferno, mas não merece menos ir para a cadeia. O ladrão arrependido que se confessa escapa do Inferno, mas continua devendo retribuição à sua vítima e à sociedade.

O perdão de Deus é infinitamente importante, pois dele depende recebermos novamente a Vida Eterna que jogamos no lixo ao trocá-la por um prazer passageiro. Ele não é, contudo, a totalidade do que a justiça divina exigirá. Deus é Misericordioso, e é também Justo. Assim, quando buscamos o Seu perdão pelo Sacramento da Confissão, isto não nos exime de buscarmos também fazer justiça plena e purgar as conseqüências temporais de nossos pecados.

Do mesmo modo, o perdão é da conseqüência eterna dos pecados confessados, não de pecados futuros. Se uma pessoa recebe o perdão divino dos roubos que cometeu, isto não significa que Deus está perdoando novos roubos que venha a cometer, ou dando a esta pessoa autoriação para roubar, ou sequer retirando dela a obrigação de devolver os bens roubados, dar a justa retribuição às suas vítimas e à sociedade, etc.

Persistência das conseqüências temporais na alma

Como vimos, o perdão das conseqüências eternas do pecado não implica no fim das conseqüências temporais. As mais graves delas, no tocante à busca de santificação, são as que ocorrem na própria alma do pecador.

Quando cometemos um pecado venial (o pecado que não é mortal) ou um pecado mortal que é perdoado na Confissão, marcamos mesmo assim nossa alma. A alma fica como que “enferrujada”, no dizer de Sta. Catarina, e dificilmente dobra-se às graças atuais. É por isso que alguém que tenha vivido uma vida de pecado e se tenha convertido, ao confessar seus pecados, não deixa de ser tentado por eles: eles o marcaram, sua alma está “enferrujada”.

Imaginemos que as graças atuais sejam como que a luz que Deus nos envia para que possamos andar sem tropeçar a cada momento. As conseqüências temporais de nossos pecados são como lama jogada nas janelas de nossa alma, impedindo a entrada desta luz que sempre brilha. Deus nos manda Suas graças, e continua sempre a mandá-las. Nós, contudo, pelo hábito do pecado, impedimos a entrada destas graças, como a lama na janela obscurece o ambiente.

Como “lavarmos a janela”? Como retirar esta “ferrugem”? A Igreja, em sua sabedoria, nos ensina que podemos purgar as conseqüências temporais dos pecados – estes apegos desordenados, que fazem com que nos seja mais querido o erro que a verdade, a criatura que o Criador, o mal que o bem – pela oração, pela penitência e pela caridade.

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