D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

O segredo de Fátima

– “O que dizer sobre o segredo de Fátima a ser revelado em 1960? Tenho ouvido as mais desencontradas opiniões” (T.F. – Londrina-PR).
– “Quisera informações sobre a famosa questão Fátima (…) Há uma parte da revelação [que seria publicamente] conhecida só 1960. Segundo soube, esta demora se [deveu] a uma imposição não da Virgem, mas do episcopado português. Por quê?” (Aflito – Brasília-DF).

Sem querer em absoluto derrogar à estima devida à mensagem de Fátima, é mister lembremos, antes do mais, que Fátima representa na Santa Igreja uma revelação particular, e não pública, isto é, revelação cujo teor não se impõe como objeto de fé a todos os fiéis, mas somente àqueles que tenham convicção absoluta de que o Céu falou por meio dos videntes.

Não há dúvida de que as autoridades eclesiásticas, e de modo todo particular Sua Santidade o Papa Pio XII, repetidamente [aprovou] a mensagem de Fátima, conferindo-lhe notáveis títulos de estima e respeito: aos 13 de outubro de 1930, por exemplo, o bispo de Leiria, terminado o rigoroso inquérito que uma Comissão de sete membros levara a efeito durante sete anos, proclamou diante de mais de cem mil fiéis a autenticidade das famosas aparições da Cova da Iria. Aos 31 de outubro de 1942, quando se encerravam as festas jubilares de Fátima, o Santo Padre Pio XII, atendendo à mensagem da Virgem, consagrou o mundo ao Coração Imaculado de Maria, e aos 7 de julho de 1952, repetiu a consagração da Rússia à Mãe do Céu.

Os estudiosos verificam que a história de Fátima, a princípio conhecida através do inquérito realizado pelo Cônego Formigão, em setembro/outubro de 1917, tem sido ultimamente anunciada à luz de nova fonte de informações, que são as “Memórias de Lúcia”, escritas entre 1936 e 1942, por ocasião do 25º aniversário das aparições (1917-1942). Lúcia ou (no Carmelo de Coimbra, onde está, Irmã Maria Lúcia do Coração Imaculado) [enriqueceu] suas narrativas contando fatos outrora não divulgados e fazendo apelo a novas comunicações do Alto. Em consequência, as revelações de Fátima [foram] feitas por etapas sucessivas, sendo que [em meados de 1950] alguns autores [julgaram] difícil discernir os pormenores que pertencem estritamente ao teor da mensagem daqueles que a vidente profere em seu santo fervor (cf. H. Maréchal, “Memorial des Apparitions de la Vierge dans l’Église”, Paris, 1957, p.146).

Quanto ao segredo de Fátima, ele se prende à terceira aparição de Nossa Senhora, verificada aos 13 de julho de 1917. Nesta ocasião, Lúcia recebeu uma comunicação da Santíssima Virgem, com a ordem expressa de não a transmitir a quem quer que fosse. Aproximando-se, porém, o 25º aniversário das aparições, o Exmo. Sr. Bispo de Leiria deu ordem à vidente para que pusesse por escrito tudo quanto nas circunstâncias da hora se pudesse revelar. Lúcia, então, “tendo obtido licença do Céu e agindo por pura obediência”, redigiu quatro “Relatos de Memórias” (datados de 1936, 1937, agosto e dezembro de 1941), com letra clara e fluente, que denota natureza sadia e bem equilibrada, destituída de qualquer pretensão literária.

É no terceiro Memorial, datado de 31 de agosto de 1941, que a Religiosa se refere ao segredo, dedicando-lhe cerca de quinze páginas, nas quais diz brevemente o seguinte: a mensagem consta de três partes, duas das quais seriam imediatamente reveladas, devendo ficar a terceira ainda oculta.

Com efeito, o Cardeal Schuster, arcebispo de Milão, em sua carta pastoral da quaresma de 1942, deu publicidade às duas primeiras seções. A terceira se [encontrava] em envelope lacrado, sobre o qual se [lia]: «Não abrir antes de 1960»; interrogada sobre o motivo desta restrição, Lúcia [respondeu] invariavelmente: “A Santíssima. Virgem o quer assim”.

A primeira parte compreendia uma visão do inferno: Lúcia, Francisco e Jacinta perceberam como que um grande mar de fogo e nele, mergulhados, os demônios e as almas. Estas assemelhavam-se a brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, as quais eram arremessadas para todos os lados como fagulhas num enorme incêndio. Os demônios distinguiam-se por ter a forma asquerosa de animais espantosos e desconhecidos, transparentes como negros carvões em brasa. Está claro que não se deve dar valor estrito a estas expressões: o demônio não tem a forma de animal espantoso, pois não possui corpo, nem as almas dos réprobos se apresentam com forma humana. Trata-se de meras imagens literárias, único artifício apto [pela Virgem] para incutir às crianças uma noção aproximada dos horrores espirituais ou da dilaceração interior que é o inferno.

Na segunda parte do segredo, Nossa Senhora se referia à Rússia:

– “A guerra (de 1914-1918) vai acabar; mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá, de que vai punir o mundo por seus crimes mediante a guerra, a fome e as perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para impedir, virei a pedir a Consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados; o Santo Padre terá muito que sofrer; várias nações serão aniquiladas (…) Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.

Nesta mensagem chama-nos a atenção, entre outras coisas: a predição de nova Guerra Mundial (1939-1945), predição feita sob o governo do Papa Bento XV (1914-1922), a qual se refere ao pontificado de Pio XI (1922-1939), e não de Pio XII. O anacronismo não causa dificuldade a Lúcia: está convicta de que a Virgem nomeou explicitamente o Papa que devia assistir ao começo da nova catástrofe; para a vidente, o autêntico início das hostilidades teve lugar quando Hitler começou a executar os seus planos de conquista na Europa; consequentemente, ao se travar o acordo de Munique em 1938, ela, longe de se rejubilar como se estivesse removida a calamidade, entristecia-se persuadida de que a Guerra já estava em curso.

Quanto ao grande sinal prévio à nova conflagração, Lúcia julga ter sido a extraordinária aurora boreal que iluminou o céu na noite de 25 para 26 de janeiro de 1938 (das 20:45 horas à 01:15 hora, com ligeiras intermitências). Ao verificar o fenômeno, a vidente recordou-se da terrível predição da Virgem e empenhou-se por obter da Santa Sé as medidas que pareciam condizer com o oráculo da Mãe do Céu. Já, porém, que não revelava o segredo, comunicando explicitamente os desejos de Nossa Senhora, teve de verificar que ainda não era chegada a hora da misericórdia e que o mundo devia passar realmente por dura punição.

Finalmente, em 1941, Lúcia, muito estimulada a isto pelas autoridades eclesiásticas, revelou explicitamente duas partes do segredo da Virgem de Fátima. Ao fazê-lo, tratou de dar resposta à questão cruciante: porque esperara vinte e quatro anos para tornar públicas predições de tanta importância?

– “Pode ser que a alguém pareça que eu devia ter manifestado todas estas coisas há mais tempo, porque a seu parecer teriam, há alguns anos, dobrado valor. Assim seria, se Deus tivesse querido apresentar-me ao mundo como profeta; mas creio que tal não foi o Intento de Deus (…) Se assim fosse, penso que, quando em 1917 Ele (Deus) me mandou calar — a qual ordem foi confirmada por meio dos que O representavam —, ter-me-ia mandado falar. Julgo, pois, que Deus apenas quis servir-se de mim para recordar ao mundo a necessidade que há de evitar o pecado, e reparar as ofensas à Deus pela oração e pela penitência (…) Não encontrando palavras exatas para me exprimir, teria dito ora uma coisa, ora outra; querendo-me explicar, sem o conseguir, formaria, assim, talvez, uma tal confusão de ideias, que viriam (quem sabe) a estragar a obra de Deus (…) Minha repugnância a manifestar (a mensagem) é tal que, embora tenha sob os olhos a carta na qual V. Excia. (o Sr. Bispo de Leiria) me manda anotar tudo de que me possa lembrar e eu sinta Intimamente que é a hora marcada por Deus para o fazer, estou hesitante, em verdadeira luta, ponderando se vos enviarei este escrito ou o queimarei (…) Acontecerá o que o Bom Deus quiser. O silêncio tem sido para mim uma grande graça (…) Por isso, dou graças a Deus, e creio que tudo o que Ele faz está bem”.

Pouco depois de publicada a mensagem, o Santo Padre, consoante os dizeres da mesma, consagrou o mundo ao Coração Imaculado de Maria (31.10.1942). Vê-se que não o fez antes, porque Lúcia ainda não comunicara o segredo; esta dilação, por sua vez, não se deve a uma imposição da autoridade eclesiástica, mas antes a disposição insondável e certamente providencial da Sabedoria Divina, que até nova ordem pedira silêncio à vidente. “Creio que tudo o que Ele faz, está bem”, concluía Lúcia. Segundo o plano de Deus, a mensagem de Fátima devia ser – e é – independentemente de qualquer revelação profética, uma exortação à emenda dos costumes ou à penitência e à oração. É isto que absolutamente importa aos homens a fim de que não percam os valores verdadeiros e eternos; qualquer predição do futuro dentro da mensagem de Fátima desempenha papel secundário, servindo apenas para estimular os ouvintes às mencionadas práticas da oração e da penitência.

Guardem os cristãos de nossos dias esta conclusão, e não se deixem agitar pelos comentários geralmente pouco fundados que se propalam em torno do segredo revelado e a ser revelado (a fantasia popular e certos doutrinadores não-cristãos exploram indevidamente o mistério). Se queremos responder dignamente à mensagem de Fátima, oremos pela conversão dos pecadores e procuremos emendar nossos costumes, depositando com cega confiança o futuro do mundo nas mãos de Deus e da Mãe do Céu. Fazendo isto, poderemos estar certos de não haver negligenciado a voz do Alto; o que acontecer (conheçamo-lo ou não com antecedência), acontecerá sempre para a glória de Deus e a salvação das almas; «Para quem ama a Deus, tudo coopera para o bem», diz São Paulo (Romanos 8,28).

Quanto à terceira parte do segredo, que [deveria] ficar oculta até 1960, é bem possível que explane a promessa final da Santíssima Virgem: «Por fim o meu Imaculado Coração triunfará!» Talvez explique como e quando este triunfo se dará. Como quer que seja, procurem os cristãos viver no dia de hoje e construir desde já um mundo novo, exercitando-se em crescente fidelidade ao Senhor e à Santa Madre Igreja.

É inútil frisar que nada tem a ver com o segredo de Fátima o propalado rumor de que em breve haverá três dias de trevas sobre a terra. Esta última «predição» se apresenta com credenciais muito lábeis, de sorte que procedem bem aqueles que não se deixam impressionar por seus dizeres. A emenda dos costumes dos indivíduos e da sociedade será a única resposta oportuna a tal «profecia».

—–

Atualização: Sobre a revelação do conteúdo do 3º Segredo de Fátima, leia-se o documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, “A Mensagem de Fátima”, de 26.06.2000.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 4 – abr/1958

Livros recomendados

Ortodoxia (2a edição)Sabedoria e Inocência – Vida de G. K. ChestertonSócrates Encontra Marx

About the author

Católico Porque...