É intrigante o fato de que Jesus se tenha feito batizar por João Batista (Jo 1,29; Mt 3,14ss). O Redentor se submeteu àquele rito não evidentemente para fazer penitência por si, mas para recebê-lo pelos outros, o que os teólogos chamam de substituição vicária. Indo até o Jordão, Cristo cumpriu em si a missão do Servo de Javé de que fala Isaías no capítulo 42. A manifestação divina, teofania das mais importantes das Escrituras, demonstra claramente que Jesus, enquanto homem, era portador do Espírito Santo, o qual, apenas sobre Ele, baixou de forma tão solene e expressiva.

Ao instituir o batismo, o Salvador intentava que este mesmo Espírito viesse sobre seus seguidores e tanto isto é verdade que os Apóstolos estavam conscientes desta realidade sublime. Lemos nos Atos dos Apóstolos o que disse Pedro aos três mil convertidos: “Fazei penitência, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos, 2,38).

Aos coríntios São Paulo dizia: “Pelo Batismo configuramo-nos com Cristo; com efeito, em um só Espírito fomos batizados todos para sermos um só corpo” (1 Cor 12,13). Nunca se pode esquecer que a união operada pelo Espírito Santo entre o batizado e Jesus salvador é o efeito próximo e imediato do batismo.
Donde serem os batizados consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo, para que por todas as obras o cristão ofereça sacrifícios espirituais Aí reside o que a teologia chama de caráter batismal que vem a ser uma qualificação ontológica nova que o indivíduo recebe como se fora um poder para participar na Igreja do culto divino. O sacerdócio de todos os fiéis, fundado assim no batismo, faz com que a Igreja apareça como corpo de Cristo e povo santo de Deus. Eis por que o batizado participa também da tarefa profética, ou seja, anunciadora de Cristo e de seu múnus régio, dado que entra no reino por Jesus fundado. Outros efeitos são a santificação interior, o cancelamento do pecado original e de todos os pecados pessoais, se quem é batizado é um adulto.Cumpre se saliente que o batismo introduz o ser racional na realidade da salvação, a qual resulta do sacrifício redentor de Jesus e transmitida na Igreja à qual se incorpora o batizado. Portanto, é fazendo parte desta Igreja que cada um se auto-realiza.

Um dos motivos pelo qual chamamos a Igreja de Mãe é exatamente por causa de seu cunho batizador, gerando novos filhos pela fonte batismal. A água é, por si mesma, sinal de purificação e os que ela regenera na pia batismal são inteiramente limpos de toda e qualquer mácula.

É o batismo, pois, meio indispensável para a salvação (Mc 16,16). É este sacramento que configura na morte e ressurreição de Jesus, conforme enfatizou São Paulo na carta aos romanos: “Com ele fomos sepultados pelo batismo para participarmos da morte; mas se fomos feitos uma coisa só com ele na semelhança de sua morte, sê-lo-emos igualmente na de sua ressurreição” ( 6,4-5).).

Daí resulta a regeneração total do homem e a iluminação que o faz filho da luz, cidadão do céu (Fl 3,20. Por tudo isto batismo e fé estão intimamente unidos. No caso da criancinha ela é conduzida até o Batismo porque seus pais e padrinhos crêem e ela é batizada na fé da Igreja. Como ensina Santo Tomás, “na Igreja do Salvador os pequeninos crêem através de outros, como também através de outros contraíram o pecado”. Como o batismo se realiza na fé disto resulta que a obrigação do cristão é, depois, crescer nesta virtude que lhe abre horizontes grandiosos, lançando-o no universo maravilhoso da graça divina. Aí está a razão pela qual os pais e padrinhos contraem uma obrigação de educar na fé seus filhos e afilhados, ou diretamente ,ou por meio da catequese paroquial. São eles os guardiões da crença daquele cristão que deverá atingir o “estado de homem perfeito, segundo a medida da idade completa de Cristo” como fala o Apóstolo na carta aos Efésios ( 4, 13) Seja sempre lembrado, porém, que o batismo é o começo de um processo cujo término será a ressurreição gloriosa, semelhante à de Cristo. Ao se recordar toda esta grandiosidade teológica deste sacramento só resta exclamar com o papa Leão Magno: “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade”!

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