Impossível deixar transcorrer o mês de maio deste ano sem falar em Maria e, ainda, na tal revelação do chamado “Terceiro Segredo de Fátima”.

Pelo Discurso do Eminente Cardeal Angelo Sodano, secretário-geral do Vaticano, temos que:

“O «Bispo vestido de branco» que reza por todos os fiéis é o Papa. Também ele, caminhando penosamente para a Cruz por entre os cadáveres dos martirizados (bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e várias pessoas seculares), cai por terra como morto sob os tiros de uma arma de fogo.”

Ou como já é público e notório: o “terceiro segredo” seria o atentado sofrido por João Paulo II em 13 de maio de 1981.

A respeito de tal questão, necessário se faz informar o leitor de alguns pontos da doutrina católica.

Primeiro: toda a Revelação, necessária para que alguém se salve, encerrou-se com a morte do último apóstolo, São João.

Segundo: toda e qualquer revelação posterior é tida como particular, e pode ser digna ou não de crédito pelo fiel católico. Obviamente, este tipo de revelação até pode admoestar o crente para que seja mais firme na caminhada com Cristo, mas, absolutamente, não lhe é obrigatória para obter a salvação.

Terceiro: o que a Igreja fez ao tratar das aparições de Nossa Senhora em Fátima não foi afirmar categoricamente que a Virgem apareceu ali, mas, simplesmente, que não há nada ali contrário à doutrina católica. Uma espécie de nihil obstat.

Resultado de tais proposições: ninguém é obrigado a acreditar nas aparições e revelações de Fátima. Não é errado acreditar, mas o fiel que não acredita está, igualmente ao crente, exercendo o seu direito e dentro do ensinamentos católicos. Ora, se é assim, então não há também obrigação de se aceitar as interpretações que o Papa João Paulo II ou o Cardeal Soldano tenham dado a esta revelação. Óbvio que ninguém está aqui reagindo contra tais autoridades, mas apenas procurando levar alguma informação a muitos católicos que, não é para menos, se viram perdidos depois de todo o estardalhaço feito pela imprensa.

Assim, por exemplo, houve quem levantasse objeção ao fato de se relacionar o «Bispo vestido de branco» com o Papa, haja vista que o restante da mensagem de Fátima se refere ao Papa com termos mais claro, tipo o “Santo Padre”. Não bastasse, há outros bispos, principalmente no Oriente, que também se vestem de branco.

Da mesma forma, e aqui as objeções foram maiores, o que dizer da queda “entre os cadáveres dos martirizados” ? Ora, no atentado de 13 de maio de 1981 só o Papa e outras poucas pessoas foram atingidas. Não fosse suficiente, o tradicional conceito se mártir se refere aquele que morre pela fé. No caso em questão, houve feridos, mas não mortos.

No entanto, considerando o elevado número de católicos martirizados no século XX, principalmente por comunistas e muçulmanos, há quem veja nesta dura realidade a explicação para os “cadáveres dos martirizados”.

Por esta última hipótese, para aqueles que acreditam nas mensagens de Fátima, o tal profecia, antes chamado terceiro segredo, ainda estaria por acontecer.

Não nos cabe, obviamente, ficar especulando sobre tal matéria, ainda mais que ela fica a cargo do bom discernimento de cada fiel. Note-se, ainda, que a orientação da Igreja é para adotar uma atitude prudente ante qualquer aparição ou revelação.

Não é à toa. Considerando que há pessoas e mais pessoas (de boa-fé ou não) falando que Jesus, Maria, ou algum santo apareceu aqui e acolá, constitui-se uma boa medida pastoral que a Igreja desacredite tais fenômenos (como fez com Medjugorie) e realmente se dedique a investigar alguma situação mais digna de fé, como Fátima. E por que Fátima teria esta qualidade e outras não?

Aqui está o ponto que interessa: houve milagres em Fátima. Não há como verificar se a Virgem apareceu ou não, se revelou algo ou não, mas os milagres constituem uma situação totalmente distinta.

Um exemplo:

A Mulher que foi curada através da intercessão de Jacinta e Francisco participa da cerimônia de Beatificação.
Special to the Fatima Network
No dia 13 de Maio desse ano, 2000, quando o Papa João Paulo II beatificar os dois pastorzinhos de Fátima, uma devota mulher de 70 anos estará também ali, oferecendo silenciosas orações de Ação de Graças pelo fato de poder participar da cerimônia com seus próprios pés.
Foi no ano de 1989 que Maria Emilia Santos, membro da Ordem Terceira de São Francisco, de repente conseguiu caminhar novamente depois de mais de duas décadas de paralisia.
Depois de ter sido examinada em Roma por uma comissão médica apontada pelo Vaticano, sua recuperação foi decretada como “inexplicável à luz dos conhecimentos científicos atuais”. Em outras palavras, “um milagre”.
A Igreja Católica aceita oficialmente que esse milagre ocorreu através da intercessão divina de Francisco Marto e sua irmã, Jacinta, os quais juntamente com sua prima Lúcia, foram visitados pela Bem Aventurada Vírgem Maria no ano de 1917.
A conclusão de que a recuperação da senhora Santos foi realmente miraculosa, removeu o último obstáculo para a beatificação das crianças.
A senhora Santos tinha apenas 16 anos quando começou a sofrer de problemas na coluna. Depois de uma cirurgia, ela perdeu o movimento das pernas e podia mover apenas as mãos.
Por uma década, ela rezava pela intercessão de Francisco e Jacinta. Ela conta que numa tarde , em 1987, enquanto ela estava deitada em sua cama, ouviu uma voz que lhe dizia: “Levante-se e sente-se…você pode”.
Dois anos depois, novamente ela ouviu a mesma voz que ordenava-lhe que andasse. Sua recuperação foi completa. Milhares de peregrinos são esperados em Fátima para a cerimônia de beatificação.
(*Enviado gentilmente por Gercione Lima)

Muito mais impressionante, porém, foi o chamado Milagre do Sol, ocorrido na época das ditas aparições.

Vejamos em trechos da reportagem “E o terceiro segredo, hein?” (O Estado de S. Paulo – 17 de maio de 2000) como o Sr. Mario Prata se refere ao fato:

“Longe de mim duvidar do que houve em Fátima no dia 13 de outubro de 1917. Setenta e cinco anos depois, estive lá por cinco vezes, levando amigos e parentes, na época em que eu morava em Portugal.”

(…)

“Outro grande jornal da capital, O Século, mandou seu próprio editor, Avelino de Almeida, ao local. Como testemunha ocular do fato, escreveu o seguinte no seu jornal: “Da estrada, onde estavam estacionados os veículos, e onde se comprimiam centenas de pessoas que não haviam ousado aventurar-se na lama, podia-se ver a imensa multidão voltar-se para o sol, que apresentou-se livre das nuvens e em seu zênite. Parecia um disco de pura prata, e era possível olhá-lo diretamente, sem o menor desconforto. Pode ter sido um eclipse. Mas naquele momento um grande grito elevou-se de todo lado: `Milagre! Milagre!’ Ante os olhos atônitos da multidão, cujo aspecto era Bíblico, ao se apresentarem com a cabeça descoberta, perscrutando agudamente o céu, o sol vibrou e realizou movimentos súbitos totalmente fora das leis cósmicas – o sol `dançou’, de acordo com o relato unânime do povo.” Outra testemunha desse acontecimento, o professor de ciências José Garret, da Universidade de Coimbra, disse o seguinte: “Não se tratava do piscar dum corpo celeste, pois girava em torno de si mesmo em loucos voltejos, quando um clamor uníssono elevou-se de todas as pessoas. O sol, girando, parecia destancar-se do firmamento e avançar ameaçadoramente sobre a Terra, como a ponto de esmagar-nos com sua massa. A sensação, durante esses momentos, foi terrível.”

Vale salientar que mais de 70.000 pessoas presenciaram tal fenômeno, vulgo “a dança do sol”. E como foi que se reuniram tantas pessoas ? Simples: os pastorinhos disseram que Nossa Senhora havia marcado a data para um grande sinal. Até os ateus foram para a Cova da Iria para fazer chacotas, mas voltaram convertidos!

No entanto, já no final da reportagem, o Sr. Mario Prata destaca:

“Mas, todo mundo sabe que foi mesmo a Nossa Senhora quem apareceu. Eu só pergunto uma coisa: ela precisava fazer esse escarcéu todo?”

Primeiro: Não há como verificar se Nossa Senhora apareceu. Só as três crianças afirmam terem visto Maria. Para maior aprofundamento desta questão, não deixe de ler o texto Nossa Senhora apareceu ou não em Fátima?.

Segundo: o “escarcéu” de que fala o autor é justamente o Milagre que distingue Fátima de outras “aparições”. É justamente nisto que consiste o Milagre: na intervenção extraordinária de Deus na História humana. Portanto, erra também o autor em atribuir diretamente tais fenômenos a Nossa Senhora. A Virgem Maria pode, no máximo, ter intercedido junto a Deus, mas não causar, por si só, fenômenos desta natureza.

Alguém mais cético (sempre há, e até certo ponto é bom que haja!) poderia indagar: OK. Foram mais de 70.000 pessoas presentes, mas eu não estava lá, e não posso verificar nada disso nos dias de hoje.

Teriam as três crianças, em uma super produção, enganado 70.000 pessoas ? Ou toda a população (de ateus a beatas ingênuas!) estava “conspirando” ? Poderia haver uma alucinação coletiva de tal magnitude ? Não.

Nada demais. Mesmo em Lourdes houve quem constatasse um Milagre e, ainda assim, preferiu fugir da realidade. Um típico caso do que disse Albert Einstein: “Triste época a nossa, em que é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito”.

Porém, sempre acreditando na boa-fé humana, não custa mencionar mais uma caso interessante, agora envolvendo um chamado “Milagre Permanente”, ou seja, que pode ser investigado ainda hoje. E não deixe de ler também sobre Guadalupe.

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.” (Mt 5,8)

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