Protestantismo

O uso contraditório dos paradigmas eclesiológicos

A apologética protestante e o uso contraditório dos paradigmas eclesiológicos invisível e visível

Obviamente, todos os grupos cristãos apresentam algum tipo de autoridade estrutural, com graus variáveis de rigidez e comprometimento. O que os católicos afirmam é que há uma diferença enorme na credibilidade de tais reivindicações. Nosso argumento é que há uma Igreja Bíblica (fundamentada na Bíblia), e não centenas. Portanto, qual igreja possui maior credibilidade em reivindicar ser a igreja institucional, na linha apostólica histórica, traçando sua linha original até os apóstolos? A Igreja Católica apresenta uma prova mais aceitável, ou (usando um exemplo de uma denominação que um oponente meu sugeriu) a Igreja Presbiteriana na América (PCA), uma entre muitas seitas de Presbiterianos, um grupo que começou (de acordo com minhas fontes) com J. Gresham Machen em 1936, a partir de uma cisão interna (assim como outros grupos) da PCUSA; de acordo com o Manual de Denominações (Franco S. Mead, ed 5th., Nashville: Abingdon Press, 1970, pp. 176-177).

A apologética protestante (especialmente em reação à apologética católica) freqüentemente utiliza, inconsistentemente, duas definições distintas para “Igreja”. Quando o objetivo é refutar os argumentos católicos de autoridade exclusiva, adotam o modelo “institucional, visível” (como mostrado acima). Então o apologista protestante argumentará que os protestantes possuem suas instituições da mesma forma como os católicos, e por isso estão aptos a disciplinar e excluir pessoas, de acordo com o necessário. Bem, isto é, naturalmente, verdade até certo ponto, mas não possui nenhuma relação com a verdadeira autoridade apostólica, descrita na Bíblia.

Uma assembléia da PCA de forma alguma se parece, seja formal ou por analogia, ao Concílio de Jerusalém (Atos 15). Como pode ser? A PCA é uma das menores seitas, bem minúscula. Compara-la de alguma forma, em algum senso visível, institucional à Igreja Universal, ou algo parecido, por exemplo, com o Concílio Vaticano II é algo absurdo, nada mais que isso. A própria PCA, creio eu, não reconhece a sucessão apostólica como seu princípio autoritário, pois isto seria ir de encontro a seu precioso princípio: Sola Scriptura.

O protestante que não apresenta uma definição teológica bem definida e elaborada sobre “a Igreja” (i.e., eclesiologia) geralmente cai em palavras vazias (depois de apelar à visibilidade e institucionalidade) e adota a noção evangélica comum de “igreja invisível”. Esta ocorrência comum é um “duplo padrão”, e é ainda um outro exemplo do que eu chamo de “síndrome do peixe escorregadio”, endêmica em certas correntes da apologética protestante. Há sempre uma “saída”. Se você aborda um oponente com fortes e lógicos argumentos bíblicos sobre determinado assunto, eles deslizarão de suas mãos de qualquer maneira dizendo “isso nós não fazemos”, ou mudando de assunto no meio da conversa.

Se o católico fala institucionalmente, eles apelarão ao seu próprio e minúsculo grupo, como se existisse alguma credibilidade plausível de acordo com a noção bíblica de “Igreja” ou “Igreja Verdadeira”. Então, quando o seu óbvio sectarismo (um erro que irrefutavelmente existe) é descrito e condenado como antibíblico, rapidamente concordarão que isto é lamentável e incômodo, mas então imediatamente apelarão para a noção de “igreja invisível” e quantos sãos os protestantes que possuem este ponto em comum, um assunto central (em contrapartida aos “assuntos secundários”) que, claro, é totalmente derivado do (como acreditam ser) “claro e perspicaz ensinamento bíblico”.

É extremamente falacioso tentar comparar um grupo minúsculo, tal como a PCA, com o catolicismo, como se fossem eclesiologicamente análogos. Haveria mais consistência se alguém buscasse os caminhos históricos, não-institucionais (anabatistas, menonitas, batista, e tendências não-denominacionais) do protestantismo que fingir que simplesmente um grupo protestante tem alguma credibilidade em termos de “Igreja Universal”, ou então aceitar um sectarismo descarado, antibílico e condenado pela própria bíblia, somente porque não há outra escolha dentro dos demais grupos protestantes.

Falando em rigorosos termos retóricos e metodológicos, os católicos podem maneja-la das duas formas. Podemos jogar o jogo da “igreja invisível”, mas então o defensor protestante do mesmo tem dificuldades enormes de provar esta noção pela Escritura e pela história do cristianismo antes de 1517. Isto é um grande problema ao argumento da “igreja invisível”. Ou podemos jogar como “igreja visível e institucional” e fingir que há alguma “equivalência eclesiológica” entre o catolicismo e a PCA. A maioria da apologética católica compara o catolicismo como sistema a um protestantismo como sistema. Nada de errado com isto.

Os protestantes escrevem sobre si mesmos em termos gerais todo o tempo, e até quando nós fazemos isto, geralmente é de certo modo impróprio e com um padrão duplo. Isto não faremos. Não estamos praticando um padrão duplo, corretamente entendido, mas a pessoa indecisa do modo descrito acima certamente está, mudando de opinião entre eclesiologias invisível-visível, de acordo com o capricho do momento, e para escapar de um beco sem saídas. Não se pode ter esta atitude dúbia.

Biblicamente e patristicamente falando, não existe tal competição entre igrejas e tradições. Há somente uma Igreja e uma Tradição Apostólica. O dilema protestante (particularmente o evangélico) é que ou finge que este não é o caso, ou argumenta (como a “Igreja de Cristo”) que a sua própria seita é a igreja verdadeira – mesmo que sua credencial histórica para fazer tal reivindicação seja inexistente.

Os protestantes sempre dizem aos católicos que a sua unidade não é definida institucionalmente, mas sob acordo doutrinal – pelo menos na assim chamada “doutrina central”, “nuclear” ou “primária”. Esta é a mudança para o ponto de vista ou paradigma não-institucional, como se isto não fosse uma contradição a simultâneos argumentos utilizando uma abordagem mais institucional. Os protestantes podem acreditar que estão “profundamente unidos” da forma que quiserem. Simplesmente não são. Discordam em dezenas de assuntos (e não tão secundários assim), e a maioria das doutrinas que concordam são as que guardam relação comum com os católicos.

Isto de modo algum verifica a superioridade das reivindicações protestantes sobre a  verdade, nem seu sistema formal, nem sua “epistemologia”. Bem ao contrário. É muito incoerente e implausível reivindicar que a Bíblia é claramente entendida por cada homem, sem nenhuma necessidade de um intérprete oficial, e por isso surgem as centenas de grupos competidores aos que chamamos de protestantes. Como sempre digo, a contradição significa que o erro está necessariamente presente em algum lugar. O erro é exuberante no protestantismo, porque a contradição lógica também é exuberante. O erro é falsidade, uma mentira, e nós sabemos de onde vêm as mentiras, quem é o pai das mentiras. É algo de se orgulhar, caro protestante?

O sectarismo protestante, logo, deve ser descrito como o equivalente cristão do dito liberal de “diversidade” e tolerância interminável entre pontos de vista intoleráveis. É isto que os protestantes consideram como algum tipo de realização triunfante contra o catolicismo? Muitos protestantes corretamente lamentam a divisão dentro de seus grupos. Mas como podem resolver esta dificuldade, dentro da estrutura e do postulado da eclesiologia protestante?

É dito que a Igreja Católica é uma fonte de divisão cristã por causa de suas reivindicações eclesiológicas exclusivas, que são consideradas bastante arrogantes. Mas Jesus disse, “não pensem que vim trazer paz na terra; não vim trazer paz, mas a espada. . . Os inimigos de uma pessoa são os de sua casa” (Mt 10,34-36).

A Igreja Católica fez muito mais que qualquer outra comunhão cristã neste século pela unidade dos cristãos. Neste exato momento, vários são os meios para o bom ecumenismo, como faz o Papa com os muçulmanos, judeus e a conferência em Assisi. Isso é simplesmente uma extensão de nosso ecumenismo em direção aos companheiros cristãos.

Ou é reivindicado que a vida real não é tão “simples” como o catolicismo quer que seja, com sua “ilusória” convicção em questões doutrinais. Tenho certeza de que muitas das crenças das pessoas não são tão “firmes e cristalinas” (para usar a frase de um protestante com quem debati sobre este mesmo assunto) mas a perspectiva bíblica, apostólica e patrística de fato é, e é isso que nós desejamos seguir como católicos: uma fé historicamente sustentada.

Traduzido para o Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro Rosa.


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