Espaço do Leitor

O Vaticano II através da ur exclui da salvação as pessoas que se encontram em ignorância invencível?

Introdução

Um artigo (1) em que me referi às declarações do Card. Cartrillon Hoyos sobre a comunhão entre a FSSPX (2) e a Igreja, gerou em vários leitores a seguinte dúvida: A Declaração Unitatis Redintegratio (UR) do Concílio do Vaticano II terá excluído da salvação as pessoas que apostataram da Fé Católica, mas que estão em ignorância invencível? Alegam, que se isso for verdade, o Vaticano II estará em contradição com o ensino tradicional da Igreja. A motivação deste artigo é prestar aos nossos prezados leitores os devidos esclarecimentos.

Considerações iniciais

Nunca é demais dizer que o Vaticano II não contraria o ensino tradicional da Igreja em nada, aliás, o Vaticano II também faz parte da Tradição. Caem em heresia aqueles que afirmam que a Igreja errou no Vaticano II, pois é dogma católico que a Igreja é Santa, logo a Igreja não pode errar.

Isso não significa que não haja dificuldades em entender os textos do Concílio. E isto não é exclusividade do Vaticano II. Por exemplo, as palavras proposon (grego) e persona (latim) que foram utilizadas pelos Padres nicenos, trouxeram mais controvérsias do que o subist in do Vaticano II. Nicéia utilizou estes termos para referir-se à distinção de pessoas em Deus. Porém, os termos eram comumente conhecidos pelo emprego que tinham no teatro, significando papéis. Assim, muitos acreditavam que Nicéia ensinava que Pai, Filho e Espírito Santo eram papéis utilizados por Deus, isto é, formas de Deus se manifestar. Isso deu origem à heresia Monarquista ou Monarquismo.

Para nós é muito fácil aceitar os Concílios anteriores, pois não vivemos sua história. Já pegamos tudo digerido, explicado e resolvido. Somos como os alunos de segundo-grau que facilmente aprendem os princípios da física e da matemática, quando no passado cientistas e filósofos emitentes quebraram a cabeça para entender, explicar e resolver o que hoje se ensina em qualquer escola secundária.

A Igreja está mostrando a ortodoxia do Vaticano II e como católicos fiéis devemos confiar na idoneidade da Igreja. O nosso dever de consciência e de manifestar nossas opiniões devem estar em conformidade com tudo aquilo que a Fé permite.

Também é importante dizer que nós do VS não temos autoridade para explicar o Vaticano II, nem os modernistas e “rad-trads”. É a Igreja que através de instrumentos próprios explica e ratifica a doutrina. Um exemplo é a recente Declaração da Congr. da Doutrina da Fé (3). Entretanto, nosso esforço está em conformidade com a caridade e a esperança, no qual cremos que a Igreja é Santa e não errou no Concílio.

Esclarecimentos

Conforme já exposto no artigo anterior, no parágrafo 170 do catecismo de S. Pio X, explica-se que aqueles que se encontram sem culpa fora da Igreja, isto é, em boa fé, ainda que separados do corpo, estão unidos à alma da Igreja, logo, estão no caminho da salvação.

Eu afirmei que a UR, no parágrafo terceiro, dá maior precisão em relação a quem seriam estes que se encontram sem culpa fora da Igreja. Esta minha afirmação levou alguns leitores a pensar que a UR exclui da salvação, os hereges e apostatas que se encontram em ignorância invencível, o que estaria em desacordo com o ensino perene da Igreja.

Em primeiro lugar, a culpa em tela, isto é, a responsabilidade daqueles que estão fora do grêmio da Igreja em relação à sua situação, é tratada no Catecismo de S. Pio X de forma ampla. Esta culpa possui razões variadas e graus de gravidade diversos. A UR por ter por objeto o Ecumenismo e não a Salvação trata da isenção desta culpa por um de seus matizes e não por todos. Todavia, este tratamento, conforme escrevi, não deixa de ser uma exposição mais explícita da doutrina, embora não a encerre.

Em segundo lugar, meu artigo tratava dos tipos de comunhão em que os cristãos podem estar com a Igreja, pois eu procurava demonstrar o equívoco que acredito existir na declaração do Card. Castrillon Hoyos, sobre a comunhão da FSSPX e a Igreja. Também pretendi esclarecer um amigo sobre a questão dos hereges como é tratada na UR, e não em todo Vaticano II. O tema salvação não foi objeto do referido artigo.

Considerações Finais

Dito isto, embora seja completamente compreensível, não é possível afirmar que o Vaticano II, através da UR, ignora ou exclui da salvação as pessoas que se encontram no erro por ignorância invencível. Os textos e os documentos do Concílio, assim como a Sagrada Escritura, devem ser tomados em toda na sua inteireza e segundo a Sagrada Tradição. Aliás, um estudo mais profundo da Constituição Dogmática Lumen Gentium, poderá trazer mais luzes sobre esta questão, especialmente no que se refere o capítulo 15.

Em trabalhos futuros poderemos propor aos nossos leitores um estudo mais detalhado desta questão, procurando mostrar nesta matéria (salvação) a continuidade do Vaticano II com a perene Tradição.

Esperando ter desfeito qualquer confusão que meu artigo tenha trazido aos nossos caríssimos leitores, despeço-me na esperança do Cristo Salvador e na confiança de que a Igreja Santa não peca jamais.

Prof. Alessandro Lima.

Notas

(1) LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: Leitor nos interpela a respeito de artigo sobre o CVII. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/4346. Desde 2/7/2007.

(2) FSSPX significa Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Entidade fundada por D. Marcel Lefebvre, bispo que não aceitou o Vaticano II e foi excomungado pelo Papa João Paulo II por sagrar quatro bispos sem o mandato pontifício.

(3) CONGREGAÇÃO DA DOUTRINA DA FÉ. Apostolado Veritatis Splendor: Respostas a Questões Relativas a Alguns Aspectos da Doutrina Sobre a Igreja. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/4377. Desde 18/07/2007.

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