Alguns dizem que o Vaticano II mandou não mais fazer apologética, que agora a onda era só todo mundo de mãos dadas… Não! O ecumenismo é um diálogo para conhecer os hereges e cismáticos, para mudar nossa linguagem no acidental quando isso prejudica sua conversão, para removermos preconceitos de ambos os lados, para sermos sinceros e respeitarmos os que estão no erro, para termos um debate maduro e transparente, tudo com vistas à trazê-los de volta. E nesse sentido, o diálogo ecumênico não deixa de ser um modo de fazer apologética. Alguma mudança pode ser feita na forma, mas não no fundo: a Igreja não rejeitou nem jamais rejeitará a verdade de que é a única sociedade espiritual e visível fundada por Jesus Cristo para a salvação dos homens, fora da qual não há salvação.

Só que, além disso, dessa conclusão que se chega por uma interpretação sistemática de seus documentos, o Vaticano II foi além e mandou explicitamente que se defendesse a fé, junto do trabalho de dialogar:

Constituição Dogmática Lumen Gentium , por exemplo, exorta os bispos para que “com vigilância afastem os erros que ameaçam seu rebanho” (n. 25a). Em outro trecho, o mesmo documento diz que os fiéis leigos têm o dever de “difundir e defender a fé” (n. 11a).

Por sua vez, o Decreto Optatam Totius determina que as matérias teológicas ensinadas nos seminários sejam ministradas de tal forma que os alunos “possam anunciá-las, expô-las e defendê-las no ministério sacerdotal” (n. 16a).  Já o Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos, é claríssimo: “Grassando na nossa época gravíssimos erros que ameaçam inverter profundamente a religião, este Concílio exorta de coração todos os leigos que assumam mais conscientemente suas responsabilidades na defesa dos princípios cristãos” (n. 6d).

Mesmo a Declaração Dignitatis Humanae , que alguns rad-trads tanto acusam de ser relativista, irenista e defensora de teses anteriormente condenadas pelo Magistério, demonstra que seu entendimento de liberdade religiosa está plenamente na esteira do sempre ensinado pela Igreja. Recorda a Declaração que o “discípulo tem o grave dever de anunciar a verdade recebida de Cristo com fidelidade e de defendê-la com coragem” (n. 14d). Não era a Dignitatis Humanae um exemplo de que o ecumenismo deveria ser o direito ao erro e a consagração da tese progressista de relaticização da verdade? Parece que os que atacam o Vaticano II não leram seus documentos…

O ecumenismo pedido pelo Concílio nada tem de irenista. Em nenhum de seus textos defende-se o relativismo, como se todos fossem iguais ou portadores da salvação. E os documentos pós-conciliares explicitam isso, demonstrando a ortodoxa interpretação do Vaticano II, absolutamente distinta daquela professada pelos modernistas (curiosamente, a mesma dos radicais tradicionalistas).

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