Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Leandro Martins de Jesus)

Ordenação de mulheres

– “O Papa Paulo VI nomeou uma Pontifícia Comissão Bíblica especial para estudar as Escrituras e descobrir se alguma coisa nelas proibia a ordenação de mulheres. A Comissão concluiu que não havia nada na Escritura que representasse um obstáculo à ordenação de mulheres. No entanto, Paulo VI escreveu “Inter Insigniores”, o primeiro documento contra a ordenação de mulheres, usando argumentos não legítimos das Escrituras, que contradiziam diretamente os resultados da sua própria Comissão. David Stanley, jesuíta canadense, professor de Escrituras, membro da Comissão, renunciou em protesto. O Papa João Paulo II repetiu tal ensinamento defeituoso com a mesma utilização errônea das Escrituras em “Ordinatio Sacerdotalis”, em 1994. O Papa Bento XVI manteve o ensinamento de ambos seus antecessores e tentou atribuir-lhe infalibilidade, algo que seus autores não alegaram. Até quando a Igreja Católica pensa em nos tratar como seres de segunda classe e culpar Cristo por isso? Ao menos sejam homens e assumam que são sexistas, do quê têm tanto medo? Mas não tem problema, afinal, no ‘céu’, os últimos serão os primeiros, podem ficar com essa Igreja corrupta, pedófila e injusta da terra, que nós ficamos com a do ‘céu’. A Igreja precisa sair, urgente, da Idade Média!” (M.L.)


Caríssima leitora,
A paz de Cristo!

Sua pergunta nos traz acusações infundadas e eivadas de erros teológicos, fruto do pensamento da religiosa Carmel McEnroy, autora do livro “Guests in Their Own House: The Women of Vatican II” (=”Hóspedes na Própria Casa: As Mulheres do Vaticano II), com flagrante recorte de trecho de uma entrevista da aludida religiosa, concedida ao site do “Instituto Humanista UniSinos”, publicada em 11 de maio de 2013.

Em primeiro lugar: o Papa Paulo VI não escreveu a Declaração “Inter Insigniores”; a referida Declaração é o resultado de sério estudo da Congregação para a Doutrina da Fé, “sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial”, publicada após aprovação do Papa Paulo VI, veja:

“O Sumo Pontífice Paulo VI, no decorrer da Audiência concedida ao abaixo assinado Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, a 15 de Outubro de 1976, aprovou a presente Declaração, confirmou-a, e ordenou que a mesma fosse publicada. Dado em Roma, na sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, aos quinze dias do mês de Outubro do ano de mil novecentos e setenta e seis, Festa de Santa Teresa de Ávila. (a) Franjo Cardeal Seper, Prefeito” (Declaração “Inter Insigniores”; Vaticano; acesso em 20/05/2013)

A leitora – fiel ao pensamento da religiosa McEnroy – afirma ser a declaração “Inter Insigniores” “o primeiro documento contra a ordenação de mulheres, usando argumentos não legítimos das Escrituras”. Ora, a Tradição Apostólica da Igreja (com testemunhos do século III) e os testemunhos da Escritura (século I) são unânimes quanto a praxe de não ordenar mulheres. Vejamos alguns exemplos:

– “Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas assembleias: não lhes é permitido falar, mas devem estar submissas, como também ordena a lei (…) A mulher ouça a instrução em silêncio, com espírito de submissão. Não permito à mulher que ensine nem que se arrogue autoridade sobre o homem [na igreja], mas permaneça em silêncio” (São Paulo Apóstolo, falecido em 67 d.C.).

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– “Não é permitido a nenhuma mulher (…) que ensine [publicamente] na Igreja (…), ou que ofereça a Eucaristia, ou ainda que pretenda para si uma parte de qualquer atribuição masculina, para não se falar em qualquer cargo sacerdotal” (Tertuliano de Cartago, falecido em 220 d.C.).

– “Não se imponha a mão sobre a mulher, porque ela não oferece a oblação eucarística, nem exerce a liturgia” (Hipólito de Roma, falecido em 235 d.C.).

– “Na Igreja não tenha lugar a ordenação de presbíteras ou presidentes [da celebração eucarística]” (Concílio Regional de Laodiceia, Cânon 11; fim do século III; cf. PR* 280/1985, p.224).

Com efeito, o Concilio de Laodiceia rejeitou explícitamente a ordenação de mulheres.

– “Nunca mulher alguma exerceu o sacerdócio (…) Se na Igreja às mulheres tocasse o ministério sacerdotal (…) de preferência Maria teria sido investida dessa função; foi ela quem teve a honra de acolher em seu próprio seio o Deus celeste, Rei universal, Filho de Deus (…) Mas tal não foi o desígnio do Pai” (Epifânio de Salamina, falecido em 403 d.C.; Panarion 79,2,4-6; cf. PR 280/1985, p.224).

Aqui S. Epifânio, bispo de Salamina, tinha em vista especialmente os hereges coliridianos, que realizavam um culto caracterizado por sacrifício análogo ao da Sagrada Eucaristia. Nessa obra, ele também nota que nenhuma outra mulher mencionada no Evangelho foi chamada ao sacerdócio. Quanto às diaconisas existentes na Igreja antiga, o S. Doutor afirma que não desempenhavam funções sacerdotais e que nunca na Igreja foi instituída a “ordem das sacerdotisas” (cf. PR 280/1985, p.225).

– “O problema do acesso da mulher ao sacerdócio ministerial é atualmente muito debatido. Há quem o queira resolver á luz de razões históricas e sociológicas; alegam que o próprio Jesus, quando chamou apenas homens para o sacerdócio, se adaptou aos preceitos antifeministas da sua época; o mesmo teria feito a Tradição da Igreja até hoje. Ora quem lê atentamente os Evangelhos, verifica que Jesus não hesitou em violar o antifeminismo dos seus contemporâneos, pedindo a colaboração de mulheres (Lucas 8,1-3; João 20,17-18) ou entretendo-se publicamente com a Samaritana (João 4,27); não se pode, portanto, dizer que não chamou mulheres para participar da última Ceia por motivos momentâneos ou sociológicos. Outras razões inspiraram o comportamento do Senhor, entre as quais se pode assinalar a analogia com o mistério da Encarnação: o Filho de Deus se fez homem, e não mulher; ora o ministro de Cristo age em nome de Cristo, representando o Cristo. — E por que o Verbo se fez homem, e não mulher? Em resposta, assinala-se o lato de que Cristo veio para ser Cabeça da Igreja; ora o tipo masculino é, por sua natureza mesma, especialmente chamado às funções de chefia. Tais funções não devem ser entendidas como honrarias ou superioridades, mas como serviço a ser prestado com humildade. À mulher toca papel ativo dentro da Igreja, papel indispensável ao lado das funções sacerdotais; importa que a identidade feminina seja devidamente preservada, em vez de se ‘promover’ a mulher por assemelhação ás funções masculinas!” (PR 280/1985, p.212).

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Outra falsidade apresentada na pergunta diz que “O Papa João Paulo II repetiu tal ensinamento defeituoso com a mesma utilização errônea das Escrituras em ‘Ordinatio Sacerdotalis’, em 1994. O Papa Bento XVI manteve o ensinamento de ambos seus antecessores e tentou atribuir-lhe infalibilidade, algo que seus autores não alegaram”.

Primeiramente, o Papa João Paulo II não repetiu nenhum ensinamento defeituoso, pois não há defeito no ensinamento da Igreja sobre esta questão (e em nenhuma questão atinente à fé e moral). Em segundo lugar, afirma-se que o Papa Bento XVI não tentou atribuir nenhuma infalibilidade… Ora, a própria Carta Apostólica “Ordinatio Sacerdotalis”, do Papa João Paulo II, pôs fim às discussões sobre a possibilidade de ordenação sacerdotal de mulheres, explicitando a verdade revelada, crida e sempre preservada na Tradição da Igreja:

– “4. Embora a doutrina sobre a ordenação sacerdotal que deve reservar-se somente aos homens, se mantenha na Tradição constante e universal da Igreja e seja firmemente ensinada pelo Magistério nos documentos mais recentes, todavia atualmente em diversos lugares continua-se a retê-la como discutível, ou atribui-se um valor meramente disciplinar à decisão da Igreja de não admitir as mulheres à ordenação sacerdotal. Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr. Lucas 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja. Invocando sobre vós, veneráveis Irmãos, e sobre todo o povo cristão, a constante ajuda divina, concedo a todos a Bênção Apostólica. Vaticano, 22 de Maio, Solenidade de Pentecostes, do ano de 1994, décimo-sexto de Pontificado” (João Paulo II, Carta Apostólica “Ordinatio Sacerdotalis” 4; grifo nosso).

Portanto, a definição dada pelo Papa João Paulo II é definitiva e considerada uma definição “ex cathedra”. O pronunciamento é cristalino, não deixa dúvidas: “declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja” (op.cit). Mesmo assim, a Congregação para a Doutrina da Fé veio também posteriormente se pronunciar:

– “Aos 28/10/95 a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu uma Nota que confirma o caráter definitório e irrevogável do pronunciamento do S. Padre João Paulo II relativo á não ordenação de mulheres, datado de 22/05/94. O Sumo Pontífice, ao pronunciar-se de tal maneira, apenas fez recolher os dados da Escritura e da Tradição relativos ao sacramento da Ordem; nem Jesus Cristo nem algum sucessor de Apostolo conferiu a ordenação sacerdotal a mulheres, tanto entre os cristãos ocidentais como entre os orientais. O respeito a tais antecedentes fundamenta a decisão irrevogável de S. Santidade” (PR 492/2003, p.266).

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Ou seja:

– “DÚVIDA: ‘Se a doutrina segundo a qual a Igreja não tem faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, proposta como definitiva na Carta Apostólica ‘Ordinatio sacerdotalis’, deve ser considerada pertencente ao depósito da fé’.
RESPOSTA: Afirmativa. Esta doutrina exige um assentimento definitivo, já que, fundada na Palavra de Deus escrita e constantemente conservada e aplicada na Tradição da Igreja desde o início, é proposta infalivelmente pelo Magistério ordinário e universal (cf. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática “Lumen gentium” 25,2). Portanto, nas presentes circunstâncias, o Sumo Pontífice, no exercício de seu ministério próprio de confirmar os irmãos (cf. Lucas 22,32), propôs a mesma doutrina, com uma declaração formal, afirmando explicitamente o que deve ser mantido sempre, em todas as partes e por todos os fiéis, enquanto pertencente ao depósito da fé. O Sumo Pontífice João Paulo II, durante a Audiência concedida ao abaixo-assinado Cardeal Prefeito, aprovou a presente Resposta, decidida na reunião ordinária desta Congregação, e ordenou sua publicação. Roma, da Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, aos 28 de outubro de 1995. + JOSEPH Cardeal RATZINGER – Prefeito/+ TARCÍSIO BERTONE – Secretário” (PR 492/2003, p.267).

Diante do exposto, a questão está totalmente dirimida… Mas, interessante reflexão nos propõe D. Estevão Betencourt (osb):

– “Deve-se ainda enfatizar que a posição assumida pela Igreja Católica não implica depreciação da mulher, pois, na verdade, o sacerdócio é uma função de serviço muito mais do que uma honra ou promoção. O único carisma que realmente se deve almejar, é o ‘ágape’ ou o ‘amor cristão’ (cf. 1Coríntios 13,1-13). Na sua Carta Apostólica sobre a Dignidade da Mulher (15/08/1988) o Santo Padre lembra que o homem e a mulher são diferentes e complementares entre si, de modo que têm suas funções específicas tanto na sociedade civil como na Igreja; os maiores no Reino dos Céus não são os ministros, mas são os Santos. De resto, observa Sua Santidade que à mulher toca um papel de preeminência sobre o homem, que é o de educar o futuro cidadão, talvez chefe e dirigente de projeção na sociedade. Nunca o homem poderá retribuir à mulher o serviço que ela assim lhe presta (cf. nº 18 in PR 492/2003, p.268). De resto, a igualdade dos cristãos batizados não significa identidade: as funções na Igreja são diferentes sem, por isto, implicar superioridade de uma pessoa sobre outra. O único carisma superior aos demais, que pode e deve ser desejado ardentemente, é o da caridade (cf. 1Corntios 12s; PR 280/1985, p.217).

A reflexão acima proposta responde ao trecho final da “pergunta” da leitora. Em suma, recomendo à leitora ler os documentos da Igreja atinentes ao tema (citados nesta resposta, bem como o Catecismo da Igreja Católica, para professar com fé e certeza a verdadeira doutrina, além de abster-se de autores espúrios, revolucionários, que nada acrescentam, antes só deturpam o patrimônio de fé que a Igreja nos lega!

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OBS.: PR = Revista Pergunte e Responderemos, nº/ano, página.


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