Devido ao grande acontecimento recente na história da Igreja que foi a retirada das excomunhões sobre os quatro bispos da FSSPX, muita desconfiança, tristeza e alvoroço se deu entre os fiéis católicos.

Dentre as reações que mais nos chamam a atenção estão aquelas do tipo fantasiosas, como a que o Prof. Orlando Fedeli registrou em seus dois artigos recentes. O primeiro intitulado “Glória a Dom Lefebvre e a Dom Mayer, heróis da fé” (1) e o segundo “Justiça e coragem de Bento XVI” (2).

A leitura que Fedeli fez dos fatos é tão distorcida, é tão fantasiosa que não há como deixar de classificá-la como um embuste, uma mentira grosseira para continuar a enganar as almas:

Acaba de ser declarada “sem efeitos jurídicos, a partir de hoje, o Decreto publicado naquela época” – isto é, juridicamente nula — pelo Papa Bento XVI a excomunhão injustamente lançada em 1988 contra Dom Lefebvre e Dom Mayer, e dos quatro Bispos da Fraterndade Sacerdotal São Pio X por eles sagrados, a fim de que fosse perpetuado o sacerdócio católico, celebrando a Missa de sempre. 

Essa excomunhão foi declarada “sem efeitos jurídicos” — como nula e não acontecida, porque ela teria sido aplicada por um suposto ato cismático desses dois Bispos, transmitindo o episcopado a quatro sacerdotes sem permissão do Papa João Paulo II (1).

O Papa Bento XVI acaba de fazer um ato de justiça insígne e de coragem intrépida e decidida ao anular as excomunhões de Dom Lefebvre e de Dom Mayer, assim como a dos Bispos que eles, em santa hora, sagraram (2).

Que saibamos, Fedeli sabe ler e não é nenhum ignorante. O decreto não trata de D. Lefebvre e nem D. Mayer, mas somente  da situação canônica dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, relativa a sua sagração episcopal:

[…]

Sua Santidade Bento XVI – paternamente sensível ao desconforto espiritual manifestado por pelos interessados por causa da sanção de excomunhão, e confiando no compromisso expresso por eles na citada carta de não poupar esforço algum para aprofundar as questões ainda abertas em necessárias conversações com as Autoridades da Santa Sé, e poder assim chegar rapidamente a uma plena e satisfatória solução do problema existente em princípio, decidiu reconsiderar a situação canônica dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, relativa a sua sagração episcopal.

[…]

Conforme as faculdades que me foram expressamente concedidas pelo Santo Padre, Bento XVI, em virtude do presente Decreto, revogo dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfons de Galarreta a censura de excomunhão latae sententiae declarada por esta Congregação em 1 de julho de 1988 e declaro privado de efeitos jurídicos a partir do dia de hoje o Decreto então publicado.

Roma, Sagrada Congregação para os Bispos, 21 de janeiro de 2009.

Cardeal Giovanni Batista Re

Prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos (3, grifos meus).

Se o quadro fosse como Fedeli o pinta, o Decreto deveria tratar da invalidade da pena e não de sua retirada. Neste caso o nome de D. Lefebvre seria citado, pois “A morte do réu anula todas as penas” (Teologia Moral, Del Grego 702,2) (4). Depois, diz o atual Decreto que o antigo está “privado de seus efeitos jurídicos a partir da dada de hoje”. Ora, se foi decretado sem efeitos jurídicos “A PARTIR DE HOJE”, então não se trata de declaração de nulidade. Se fosse nula, teria suspensão dos efeitos jurídicos DESDE A DATA DA PRÓPRIA EXCOMUNHÃO. Se o antigo Decreto perde efeitos agora, OBVIAMENTE é porque antes tinha. E se antes tinha, então era válido. E se era válido, não pode ser nulo!

Cai por terra o princípio pelo qual o Prof. Fedeli desenvolve toda sua rede de mentiras. D. Mayer e D. Lefebvre SEQUER são citados no referido decreto. SEQUER o referido decreto diz que o Decreto anterior foi inválido.

Considerando que Fedeli sabe ler e que não é ignorante, só podemos classificar tamanha distorção como: MÁ FÉ. A má-fé dele é escandalosa. A Igreja neste momento tão importante de sua história não precisa de tamanho desserviço. Ainda na esteira de Fedeli:

Ao mesmo tempo que os declara inocentes, implicitamente o ato de justiça de Bento XVI proclama que eles tiveram razão em se opor aos erros do Vaticano II e da Missa Nova. Bento XVI, implicitamente declara que não só foi lícito lutar contra as novidades modernistas sancionadas pelo Vaticano II e contra os erros graves da Nova Missa, mas que fazer isso foi ato de virtude heróica por parte de Dom Lefebvre e de Dom Mayer (1, grifos meus).

[…] A justiça para com Dom Lefebvre e Dom Mayer está feita, graças a Deus!

[…] Ora, esses Bispos injusta e vaziamente excomungados em 1988, desde que perceberam os erros ocultos nas dobras ambíguas da letra do Concílio Vaticano II, e desde que a Missa nova foi aprovada, e sem a abrogação da Missa de sempre, corajosamente sempre se opuseram aos erros modernistas do Vaticano II e da Missa Nova (2).

Como se vê, o Presidente da Associação Cultural Montfort é obstinado em sua própria mentira. Ninguém declarou D. Lefebvre ou D. Mayer inocentes. Isso só está nos olhos de quem o vê, e não no Decreto (3) da Igreja. Embora seja possível ter a opinião pessoal de que eles não tiveram culpa, nada há neste sentido por parte da Santa Sé. Neste momento tão importante, precisamos de sobriedade e não de argumentos fantasiosos, embuídos de mentira. Isso é má-fé dele.

A tática nefasta de Orlando Fedeli (instrumento que católicos não usam, mas somente os filhos do Pai da Mentira) é falsificar o que diz e representa o Decreto de retirada das excomunhões dos quatro Bispos da Fraternidade. Forjando o que não existe, ele pretende daí tirar a falsa conclusão de que tudo isso seria prova dos supostos erros e desvios do Vaticano II e da Missa Nova. É claro que Fedeli quer também aproximar-se da FSSPX. Mas, os Bispos e fiéis da Fraternidade não são bobos, conhecem muito bem os devaneios e dissimulações de Fedeli e não cairão nessa grosseira armadilha barata.

É importante deixar claro que não estamos contestando a culpa ou não de D. Lefebvre e D. Mayer ao sagrar os quatro bispos da Fraternidade sem mandato pontifício. Fiéis, ao Magistério e ao seu Legislador, apenas acolhemos o que a Igreja manda e decreta. Se amanhã, o Papa decretar que a pena sobre eles foi inválida (coisa que se torna ainda mais difícil depois do recente decreto), acolheremos com amor a decisão do Papa. Se alguma injustiça foi feita, nos alegraremos com tal reparo obviamente.

Falsificar decretos e decisões das Congregações Romanas ou do próprio Papa, para justificar posições pessoais que desafinam com o governo do Pontífice Romano, não é de forma alguma lhe prestar vassalagem e lhe submeter filialmente.

Já está mais que claro que Fedeli não quer a verdade, quer é estar certo.

Notas

(1) FEDELI, Orlando. Montfort: Glória a Dom Lefebvre e a Dom Mayer. Disponível em http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=gloria_lefebvre_mayer&lang=bra. Último acesso em 26/01/2009.

(2) FEDELI, Orlando. Montfort: Justiça e coragem de Bento XVI. Disponível em http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=papa&artigo=coragem_bxvi&lang=bra. Último acesso em 26/01/2009.

(3) CONGREGAÇÃO PARA OS BISPOS. Fratres in Unum: DECRETO DA CONGREGAÇÃO PARA OS BISPOS. Disponível em http://fratresinunum.wordpress.com/2009/01/24/2009/01/24/esta-consumado-decreto-da-congregacao-para-os-bispos.

(4) GRECO, Pe. Teodoro da Torre Del. Teologia Moral – Compendio de Moral Católica para o Clero em Geral e Leigos. São Paulo: Paulinas, 1959. Pg 795.

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