a) A sentença que apregoa que ninguém deve ser chamado de “pai” é algo absoluto? Pois se o sentido da proibição fosse absoluta, então ninguém – nem mesmo o genitor de cada um – poderia ser assim nomeado. O fato é que nas Escrituras muitos são chamados de “pai” e não somente os pais carnais. Só para de início citar um exemplo, Davi chama o rei Saul dessa forma: “Ó meu pai, vê aqui na minha mão a orla do teu manto” (1Samuel 24,12)[1].

Alguém ainda lembrou de “Abraão, nosso pai” (Romanos 4,12) na fé. Com efeito, “ele se tornou pai de todos aqueles que creem” (Romanos 4,11). Por isso, com relação aos Santos do Altíssimo, como o referido patriarca, nessa mesma fé podemos nos proclamar seus filhos. Não só de Abraão, mas de todos que deram um fiel testemunho e tenham terminado suas vidas na amizade com Deus; como o próprio Davi, a respeito do qual declararam os apóstolos: “Tu falaste pelo Espírito Santo, pela boca de nosso pai Davi, seu servo” (Atis 4,25), chamando-o de “pai”.

Não me dedicarei a fazer, aqui, um apanhado geral, em toda Escritura, para identificar as diversificadas maneiras em que o vocábulo “pai” é usado. Restringirei a citar mais duas passagens neotestamentárias que me parecem muito interessantes:

1ª) O santo diácono da Igreja de Deus, Estêvão, perante o Sinédrio, respondeu ao Sumo Sacerdote: “Irmãos e pais, ouvi.” (Atos 7,2). Ou seja, chamou os chefes religiosos não só de irmãos, mas igualmente de “pais”.

2º) Discursando aos judeus São Paulo diz: “Irmãos e pais, escutai a minha defesa” (Atos 22,1). Aqui, também aparece um afamado cristão chamando a outros de “pais”.

b) Os apóstolos não aceitavam reverências ou coisa que lhe equivalham? Não me parece ser muito certa tal assertiva…

Vemos que, quando o carcereiro caiu aos pés de Paulo e Silas, estes não o repreenderam (cf. Atos 16,29). Além do mais, está escrito ainda nos Atos dos Apóstolos: “Pelas mãos dos Apóstolos faziam-se numerosos milagres (…) costumavam estar, todos juntos (…) e nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, embora o povo os engrandecesse” (Atos 5,12-13)[2]. E o que, afinal, significa engrandecer alguém? Não é elevar em dignidade essa pessoa, distinguindo-o do comum trato que se dá a outros? Ou estou errado?

Está igualmente escrito na Bíblia: “Tenhais consideração por aqueles que se afadigam no meio de vós e vos sãos superiores e guias no Senhor. Tende para com eles um amor especial, por causa do seu trabalho” (1Tessalonicenses 5,12-13). Friso: aos “superiores”, “tende para com eles um amor especial”. Por conseguinte, na religião divina não só tem aqueles que são SUPERIORES, mas também, que, por serem assim, devem ser peculiarmente amados. Não é lógico que o que é superior seja superiormente amado?

Mais uma passagem. Nesta, o Apóstolo dos Gentios, Paulo de Tarso, se queixa de não mais estar sendo cortejado pelos gálatas como (grandemente) ele o era antes: “Me recebeste como um anjo de Deus, como Cristo Jesus. Onde estão agora as felicitações? Pois eu vos testemunho que, se fosse possível, teríeis arrancado os olhos para dá-los a mim (…) É bom ser cortejado para o bem sempre e não só quando estou presente entre vós” (Gálatas 4,14-15)[3].

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NOTAS

[1] Note-se que antes, “Saul voltou-se e Davi se inclinou até o chão e se prostrou” (1Samuel 24,9). E olha que Davi fazia isso tudo, não em virtude da santidade pessoal de Saul (que, aliás, era um grande pecador), mas por este ser uma autoridade instituída por Deus!
[2] O termo “engrandecesse” (Atos 5,13), em grego (da Septuaginta) e latim (da Vulgata) é respectivamente: “emegalynen” e “magnificabat”; esses vocábulos parecem adotar uma conotação realmente de grande reverência para com os Apóstolos. Veja: só para acentuar certas similaridades, quando Maria canta em agradecimento ao Altíssimo, ela diz: “Minha alma engrandece o Senhor” (Lucas 1,46), cujos vocábulos em grego e latim são, respectivamente, “megalynei” e “magnificat”. A versão inglesa do Rei Tiago [King James Version] traz: “magnified” para os Apóstolos (em Atos 5) e ‘magnify’ para Deus (em Lucas 1).
[3] Mas também quando estiver ausente? Não seria porque tal é a unidade, e o amor, reinante entre todos os filhos eleitos de Deus, que, como diz o próprio São Paulo: “Embora eu esteja ausente no corpo, no espírito estou convosco” (Colossenses 1,5)?

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BIBLIOGRAFIA

– BÍBLIA DE JERUSALÉM, Editora Paulus, SP, 1996.
– www.bibliotecacatolica.com.br

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