• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “E louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as tradições como eu as entreguei a vós” (1Coríntios 11,2).

* * *

A maioria dos cristãos protestantes crê que a Bíblia é a única fonte de fé. Para esses cristãos, não há necessidade da Tradição Apostólica ou de uma Igreja que ensine com autoridade: tudo o que eles precisam é da Bíblia para aprender sobre a fé e, assim, viver uma vida cristã. A doutrina do “somente a Bíblia” pode ser atraente por sua simplicidade, mas sofre de problemas essenciais. Alguns deles serão considerados aqui.

Primeiramente, a própria Bíblia afirma que nem tudo o que é importantes para a fé cristã foi colocado por escrito. Por exemplo: nem tudo o que Cristo fez foi registrado nos livros inspirados:

  • “Mas há também muitas outras coisas que Jesus fez; se cada uma delas fosse escrita, suponho que o mundo inteiro não pudesse conter os livros que seriam escritos” (João 21,25).

De acordo com João 20,31, algumas coisas foram registradas no Evangelho para nos dar a conhecer a Cristo; no entanto, João 21,25 sugere que há ainda mais a se saber sobre Ele. Pelo menos para São João Apóstolo, havia mais coisas que ele precisava ensinar e que não estavam registradas na Bíblia:

  • “Eu tenho muito para escrever, mas prefiro não fazê-lo com caneta e tinta. Espero vê-lo em breve e conversaremos juntos face a face” (3João 13-14).

Também São Paulo instrui Timóteo sobre como transmitir oralmente os ensinamentos da fé:

  • “O que ouviste de mim perante muitas testemunhas confia a homens fiéis que também possam ensinar a outros” (2Timóteo 2,2).

São Paulo ordena (cf. 2Tessalonicenses 3,6) aos cristãos tessalonicenses que sigam as tradições orais dos Apóstolos:

  • “Portanto, irmãos, estai firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, quer oralmente, quer por epístola nossa” (2Tessalonicenses 2,15).

Essas ordens para promover a Tradição oral seriam muito estranhas se somente a Bíblia fosse necessária para transmitir totalmente a Fé Cristã.

Um segundo problema com a doutrina do “somente a Bíblia” é a canonicidade, ou seja: quais livros pertencem à Bíblia? Devemos lembrar que os livros da Bíblia foram escritos individualmente, junto com outros livros religiosos. Séculos mais tarde, a Igreja reuniu os Livros inspirados “sob uma capa” para formar a “Bíblia”. Uma grande questão na Igreja primitiva era: quais livros compõem a inspirada[*] Palavra de Deus escrita?

A Escritura não veio com um Índice “inspirado”. Em nenhum lugar dos textos sagrados encontram-se listados todos os seus livros. Existem alguns livros [diretamente] citados nos Escritos Sagrados, mas essas listas são vagas e incompletas (cf. Atos 28,23; 2Pedro 3,16). Também há referências a livros não encontrados na Bíblia, como a Epístola de São Paulo aos Laodicenses (cf. Colossenses 4,16). São Paulo chega até a incentivar os colossenses a lerem essa epístola; mas ainda assim ela não se encontra na Bíblia.

Jesus, no Evangelho, jamais tenta listar os livros “oficiais” do Antigo Testamento (AT). Esta questão era calorosamente debatida nos dias Dele. Hoje, os cristãos protestantes e católicos discordam sobre quais livros pertencem ao AT. Os católicos seguem a lista da Septuaginta (tradução grega das Escrituras Hebraicas, do século II a.C.), enquanto que os protestantes seguem a lista usada pelos fariseus (definida no [fim do] século I d.C.). Uma lista [fornecida por] Jesus poderia ter eliminado esse problema, mas nenhuma lista Dele é encontrada no Evangelho. Como resultado, a Bíblia precisa de uma autoridade visível, exterior a ela, para listar os Livros Sagrados inspirados. Essa autoridade deve ser guiada pelo Espírito Santo, pois esses Livros são do Espírito Santo.

Alguns cristãos afirmam que o índice da Bíblia lista os livros inspirados. Mesmo sendo encontrado nas Bíblias modernas, o Índice não é [um escrito] inspirado; não é Palavra de Deus, mas palavras acrescentadas [muito] mais tarde por editores humanos, de forma bem semelhante às notas de rodapé. O Índice reflete basicamente a opinião do editor da publicação.

Outros podem afirmar que os versículos finais do Livro do Apocalipse, mais especificamente Apocalipse 22,18-19, encerram a Bíblia e definem todos os Livros anteriores como inspirados por Deus. Mas esses versículos aplicam-se à Bíblia inteira ou apenas ao Livro do Apocalipse? Uma outra falha nessa ideia é que nem todas as Bíblias possuem o mesmo número de livros. Como já mencionado acima, as Bíblias católicas e protestantes contêm números diferentes de livros do AT, mas todas estas Bíblias encerram-se com os mesmíssimos versículos de Apocalipse 22,18-19. Ambas não podem estar certas! Por fim, Deuteronômio 4,2 e 12,32 contêm versículos semelhantes. Isso implicaria que os livros após o Deuteronômio não são inspirados por Deus? Não!

Um terceiro problema com a doutrina do “somente a Bíblia” é quanto ao adequado entendimento de passagens críticas da Bíblia. A maioria dos cristãos protestantes promove a interpretação pessoal da Bíblia, ou seja, qualquer um pode interpretar essas passagens por si mesmo. Infelizmente, isso leva ao caos. Por exemplo: no Batismo, alguns protestantes aceitam a validade do batismo infantil, enquanto outros não; alguns creem na necessidade do Batismo para a salvação, citando Marcos 16,16, enquanto outros discordam, apontando João 3,16. Todos eles afirmam estar baseados na Bíblia, mas ainda assim discordam de questões fundamentais relacionadas à Salvação. Infelizmente, as “Páginas Amarelas” da lista telefônica é testemunha de muitas igrejas “baseadas na Bíblia” que discordam umas das outras sobre questões-chaves da Fé Cristã. A interpretação pessoal da Bíblia naturalmente leva a um atoleiro de doutrinas humanas como resultado de opiniões pessoais divergentes.

A Bíblia não foi escrita como um Catecismo. É uma coleção de muitos estilos diferentes de escrita – poesia, história, parábolas, cartas, músicas etc. -, que exigem diferentes formas de compreensão. Às vezes, Jesus no Evangelho ensinou propositalmente em linguagem figurativa e parábolas, tornando impossível a interpretação literal. Até São Pedro admite que as Epístolas de São Paulo podem ser difíceis de se entender:

  • “Paulo vos escreveu de acordo com a sabedoria que lhe foi dada, falando disso como em todas as suas cartas. Há nelas algumas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam para sua própria destruição, como fazem com as demais Escrituras” (2Pedro 3,15-16).

Por fim, o eunuco etíope, em Atos 8,30 e seguintes, precisou de São Filipe para que lhe explicasse o Livro de Isaías. Obviamente, nem todos podem entender o significado das Escrituras lendo-as de maneira simples. É necessário mais. Essas dificuldades na Bíblia exigem uma autoridade de ensino visível e independente, guiada pelo Espírito Santo.

A própria Bíblia aponta para a importância da Igreja para ensinar a Verdade. Conforme diz São Pedro na Bíblia:

  • “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação, porque a profecia nunca foi produzida pela vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Pedro 1,20-21).

No mínimo, as profecias da Bíblia não são de interpretação pessoal. Essas profecias devem ser adequadamente interpretadas por “homens movidos pelo Espírito Santo”, uma vez que o Espírito Santo é o Autor delas. Esses “homens” são os Bispos da Igreja, os sucessores dos Apóstolos (cf. Atos 20,28-32).

Finalmente, a Bíblia não se refere a si mesma como “coluna da verdade”, mas São Paulo faz referência à Igreja [exatamente] nesses termos:

  • “A casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, a coluna e o fundamento da verdade” (1Timóteo 3,15).

Segundo a Bíblia, é a Igreja que é “a coluna e o fundamento da verdade”.

Todos os cristãos – inclusive os católicos – devem ler a Bíblia para crescer mais na Fé; no entanto, também precisamos da Igreja. A Igreja é necessária para transmitir com precisão a Tradição Apostólica (cf. Romanos 10,17), definir o cânon da Bíblia (ou seja, listar quais livros são inspirados), salvaguardar a transmissão exata da Bíblia (por exemplo, mediante traduções [precisas]) e interpretar passagens importantes, todas sob a orientação do Espírito Santo, de acordo com a vontade de Deus.

A Igreja é necessária por outros motivos também. Deve-se entender que a Igreja não é apenas um conjunto de homens que tomam decisões arbitrárias, mas homens que executam a autoridade de Deus guiados pelo Espírito Santo.

Às vezes, a Igreja pode ser provada por escândalos ou marcada pelos pecados dos homens; às vezes, podemos discordar das políticas da Igreja; mas, ainda assim, ela é o instrumento do Espírito Santo. Esta Igreja visível é aquela edificada por Jesus Cristo sobre São Pedro, a pedra (cf. Mateus 16,18-19; João 1,24).

Esta é a Igreja Católica.

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Nota:
[*] Inspiração = escrito por homens, mas de autoria de Deus; v. Catecismo da Igreja Católica 106.

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