Ao se fazer esta pergunta ao protestante, ele responderá com um claríssimo “não”; porém, ao responder assim apressadamente, o protestante não perceberá que, ao negar os Deuterocanônicos como Escritura Sagrada, estará afirmando que os seguintes livros do Novo Testamento também não são Escritura Sagrada:

  1. Epístola aos Hebreus;
  2. Epístola de Tiago;
  3. 2ª Epístola de Pedro;
  4. 2ª Epístola de João;
  5. 3ª Epístola de João;
  6. Epístola de Judas; e
  7. Apocalipse.

Estes 7 livros do Novo Testamento são obras que os biblistas reconhecem que se enquadram na categoria de “Deuterocanônicos”, uma vez que não foram admitidos no cânon desde o início, mas só posteriormente, após dissipadas algumas dúvidas. Contudo, como os protestantes ensinam que os “Deuterocanônicos” são apenas livros do Antigo Testamento que não se encontram nas versões das suas Bíblias protestantes, ignoram esta realidade: não são apenas 7 livros “Deuterocanônicos” mas sim 14:

  • 7 do Antigo Testamento; e
  • 7 do Novo Testamento.

Tendo isso então presente, o protestante deve agora raciocinar qual é o critério correto para se saber quais livros são Escritura Sagrada ou não, porque se a sua resposta se limita a afirmar que os Deuterocanônicos não são Escritura Sagrada, só porque não foram considerados “Protocanônicos”, então deverá remover mais 7 livros da sua Bíblia; mas desta vez precisará remover 7 livros do Novo Testamento. Porém, bem sabemos que não o fará!

Logo, para responder à pergunta principal deste artigo é necessário primeiramente considerarmos o seguinte:

  • Os Deuterocanônicos são assim reconhecidos porque, embora gozassem da mesma dignidade e autoridade dos livros Protocanônicos, só em um momento posterior foram recebidos no cânon das Escrituras Sagradas, uma vez que a sua origem divina fôra posta em dúvida por alguns.
  • O fato de um Padre da Igreja não mencionar um livro deuterocanônico em alguma lista não quer dizer que o livro não fosse considerado “Escritura Sagrada”, porque na verdade, se considerarmos o pensamento geral de cada Padre, veremos que empregava indistintamente os livros deuterocanônicos e protocanônicos como Sagrada Escritura, inclusive para refutar heresias e confirmar doutrinas.
  •  Quando um Padre da Igreja citava uma lista de livros, essa lista fazia referência a uma lista litúrgica, ou seja, à lista de livros usados na liturgia de uma determinada comunidade cristã. Tal lista não dizia se os livros ali mencionados eram inspirados ou não e o protestante, ao não compreender isto, acrescentam estas listas às suas objeções, acreditando que servem para provar que os Deuterocanônicos não eram considerados Escritura Sagrada.

Já sabendo de tudo isso, podemos agora ir diretamente ao que nos interessa: saber se a Igreja – em Concílios regionais ou ecumênicos que trataram da questão do cânon bíblico – reconheceu como Escritura Sagrada os livros deuterocanônicos ou não. Não citarei todos os Concílios da Igreja aprovados pelo Bispo de Roma porque outra questão que [os protestantes] ignoram ou preferem não aceitar é que, para a Cristandade antiga, o Concílio Ecumênico era válido apenas se fosse aprovado pelo Bispo de Roma (sucessor de São Pedro ou Papa). Por isso, mostrarei o que disseram dois Concílios sobre o cânon bíblico, um regional e outro ecumênico, antes que o Concílio de Trento, no século XVI, dogmatizasse a lista oficial dos livros inspirados por Deus, confirmando o cânon tal como nós católicos o conhecemos atualmente. Após isto, você dirá se a Igreja, em Concílio, apesar das dúvidas de alguns dos seus membros em relação a esses livros, reconhecia os Deuterocanônicos como Escritura Sagrada ou não.

Vejamos o que um dos Concílios [regionais] de Cartago disse no século V [ano 419], ao tratar o tema das Escritura Divinas ou Sagradas:

  • Cânon 24 (grego, 27): “Fora as Escrituras canônicas, nada se leia na Igreja sob o nome de Escrituras Divinas. As Escrituras canônicas são as seguintes: cinco livros de Moisés, a saber: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio. Jesus Nave [=Josué]; um dos Juízes; quatro livros dos Reinos, juntamente com Rute; dezesseis livros dos Profetas; cinco Livros de Salomão; o Saltério. Igualmente, das histórias: um livro de Jó, um livro de Tobias, um de Ester, um de Judite, dois dos Macabeus, dois de Esdras, dois livros dos Paralipômenos. Igualmente, do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos; catorze cartas de Paulo Apóstolo; três cartas de João; duas cartas de Pedro; uma carta de Judas; uma de Tiago; os Atos dos Apóstolos; e o Apocalipse de João”.

Vejamos agora o que o Concílio Ecumênico de Florença disse, no século XV. O Concílio de Florença, também chamado de Basileia (1431-1445), foi outro Concílio que confirmou os cânons de ambos os Testamentos da Bíblia:

  • Sessão 11, 4 de fevereiro de 1442: “Firmissimamente crê, professa e prega que o único Deus verdadeiro – Pai, Filho e Espírito Santo -, é o Criador de todas as coisas, das visíveis e invisíveis; o qual, no momento que quis, criou por sua bondade todas as criaturas, tanto as espirituais quanto as corporais; boas, certamente, por terem sido feitas pelo Sumo Bem, mas mutáveis, porque foram feitas do nada; e afirma que não há natureza alguma do mal, pois toda natureza, enquanto natureza, é boa. Professa que um só e mesmo Deus é o Autor do Antigo e do Novo Testamento, ou seja, da Lei, dos Profetas e do Evangelho, porque por inspiração do próprio Espírito Santo falaram os Santos de um e de outro Testamento. Os livros que ela recebe e venera contêm os seguintes títulos: do Antigo Testamento: cinco de Moisés, a saber: o Gênesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio; o de Josué; o dos Juízes; os quatro dos Reis; dois dos Paralipômenos; o primeiro de Esdras e o segundo, que chamam de Neemias; os de Tobias, Judite, Ester e Jó; o Saltério de Davi, de 150 Salmos; os Provérbios; o Eclesiastes; o Cântico dos Cânticos; o da Sabedoria; o Eclesiástico; Isaías; Jeremias, com Baruc; Ezequiel; Daniel; os doze Profetas menores, que são: Oseias, Joel, Amós, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias; e os dois dos Macabeus, que são o primeiro e o segundo. Do Novo Testamento: os quatro Evangelhos, a saber: segundo São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João; os Atos dos Apóstolos, escritos por São Lucas Evangelista; catorze epístolas escritas por São Paulo Apóstolo: aos romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos da Tessalônica, duas a Timóteo, a Tito, Filemon e aos Hebreus; duas de São Pedro Apóstolo; duas de São João Apóstolo; uma do Apóstolo São Tiago; uma do Apóstolo São Judas; e o Apocalipse do Apóstolo São João”.

Pergunta: se a Cristandade considera uma obra como Sagrada ou Divina isto a torna uma Escritura inspirada por Deus?

Como podem ver os amigos protestantes – a quem se lhes ensinam a repetir que os Deuterocanônicos não são Escritura Sagrada -, muito antes que Trento dogmatizasse esses livros como inspirados, a Igreja, em Concílios anteriores, já os tinha apontado como Escrituras Divinas, ainda que houvesse alguns que duvidassem disso. É por essa razão que sempre digo aos protestantes: as evidências da Cristandade confirmam o cânon católico e não o cânon protestante!

Para encerrar este artigo, deixarei as palavras de um erudito protestante que afirma que Trento somente confirmou as decisões de Concílios anteriores. O historiador protestante Philip Schaff declara:

  • “O Concílio de Hipona, em 393, e o 3º [(…)] Concílio de Cartago, em 397, sob a influência de Agostinho, que dele participou, fixou o cânon católico da Sagrada Escritura, incluindo os apócrifos do Antigo Testamento e proibiu a leitura de outros livros nas igrejas, com exceção das Atas dos Mártires no seu dia comemorativo. Estes dois Concílios africanos, com Agostinho, somam 44 livros – os livros canônicos do Antigo Testamento – na seguinte ordem: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reis (os dois de Samuel e os dois Reis), dois livros de Paralipômenos (Crônicas), Jó, Salmos, cinco livros de Salomão, os Doze Profetas Menores, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras, dois livros dos Macabeus. O cânon do Novo Testamento é o mesmo que o nosso. A decisão da Igreja para o exterior, no entanto, era sujeita a ratificação e recebeu a aprovação da Sé romana, quando Inocêncio I e Gelásio I (414 d.C.) repetiram o mesmo índice de livros bíblicos. Este cânon manteve-se intacto até o século XVI e foi aprovado pelo Concílio de Trento em sua 4ª sessão” (História da Igreja Cristã, Vol. III, cap. 9).

Com efeito, se ainda houver algum protestante que queira negar o inegável, na sua ânsia de contradizer a Igreja Católica, ou seja, que queira demonstrar que os Deuterocanônicos não eram considerados Escritura Sagrada pela Igreja, terá que fazê-lo apontando para Concílios (onde é expressa a fé da Igreja e os seus ensinamentos) e não para opiniões pessoais, que não são VERDADES DOUTRINÁRIAS.

É muito importante que o cristão tenha esta matéria extremamente clara para si, já que se ele usa uma Bíblia que lhe faltam livros, não poderá compreender claramente a doutrina cristã.

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