Bíblia - Tradição - Magistério

Os Erros de John McArthur sobre a Sola Scriptura

Dr. McArthur, Tenho ouvido você e outros anti-católicos criticarem a assinatura do tratado conjunto entre Católicos e Protestantes. Tenho lido o livro “Sola Scriptura! A posição Protestante perante a Bíblia”, incluindo o seu capítulo sobre a suficiência da palavra escrita. Como antes eu aceitava a Sola Fide e a Sola Scriptura, discordo de muitas coisas que você diz serem verdades bíblicas. Sendo você um notável defensor da Reforma, achei que deveria lhe enviar textos que escrevi pessoalmente mostrando o quanto estes conceitos são anti-bíblicos. Enviei o texto para a Peaceway Productions e a Fellowship Tract League, mas eles nunca responderam aos pontos que mostram o quanto são anti-bíblicas esses princípios da Reforma. Eu gostaria de mostrar a você, mas, sabendo que você é um homem ocupado, qualquer um do seu grupo pode responder às muitas questões que mostrarei. Li todo o livro sobre a Sola Scriptura, e muitas das deficiências que mostrarei nos meus escritos não serão destinados a nenhuma parte deste livro. Entretanto, já que eu estou escrevendo para você, gostaria de focalizar minha atenção sobre o seu capítulo no livro “Sola Scriptura”.

Você inicia dizendo que a fé católica é semelhante às crenças pagãs porque colocam tradições acima das Escrituras. Bem, este é um conceito bíblico. Irei criticar você analisando 2Ts 2,15 mais tarde, mas aqui é dito para se manter firmes as tradições, seja oral ou escrita. Independente da forma como você interpreta este verso, aqui a escritura é chamada de “Tradição”. A sua própria teologia aceita pelo menos que esta Tradição é verdadeira. Se você quer nos vincular a religiões pagãs, da mesma forma deve vincular você mesmo a elas.

Você cita Marcos 7, que se compara a Mateus 15, onde Jesus condena as tradições dos homens. Você deve perceber que Jesus condena tradições dos homens, não a Tradição Apostólica. Na verdade em nenhum lugar Jesus condena a Tradição Apostólica. Qualquer tradição de homens que contradiga a Escritura a Igreja também condena. É por isso que a Igreja condena a Sola Scriptura. Em nenhum lugar do Novo ou Velho testamento tal coisa é ensinada. 2 Tim 3,16 não diz nada disso. O esforço insistente de Robert Godfrey no livro Sola Scriptura para dizer que tal é ensinada é a mesma coisa que ele fala em CURE-CATHOLIC ANSWER, debate que foi fortemente refutado por Bob Sungenis e Bill Marshner, sem resposta de Godfrey ou de outros apologistas protestantes. Alguns protestantes que estavam ligados ao debate converteram-se ao catolicismo naquele fim de semana porque foi mostrado a eles o quanto Sola Fide e Sola Scriptura são anti-bíblicas.

Depois você escreveu que o Antigo Testamento, com Moisés, ensina a Sola Scriptura; que as tradições dos homens não são necessárias. Bem, Moisés é o primeiro redator das Escrituras. Antes de nós chegarmos a ele, contudo, devemos observar como o povo de Deus antes dele conheceu o que era a verdade. Se a Sola Scriptura é verdadeira, e é o único método de se transmitir a palavra de Deus, porque não há tal comando em lugar algum em Gênesis para o povo de Deus escrever Sua palavra? O povo de Deus não teria transmitido a verdade infalível? Claro que sim, mas absolutamente nada foi escrito. De acordo com a Sola Scriptura, tudo deve estar escrito. Outro argumento comum no livro sobre a Sola Scriptura é que a Igreja corrompeu a verdade divina, e é por isto que nós devemos confiar somente na bíblia; entretanto, Deus, no Antigo Testamento, estabeleceu alianças com Adão, Noé e Abraão, com Isaac e Jacó e assim por diante. Deus não disse a nenhum deles para escrever nada! Como a aliança de Deus poderia ser conhecida pelas próximas gerações do povo? Tradição oral, e esta verdade deve ser infalível, de outro modo Moisés teria acesso a erros. Contudo, os que acreditam na Sola Scriptura crêem na infalibilidade desta tradição oral, de outra forma não acreditariam no livro do Gênesis. Dessa forma Sola Scriptura é contraditória mesmo antes da lei ser escrita por Moisés.

Você demonstrou Moisés como um exemplo claro da prática da Sola Scriptura, porque ele escreveu a lei. Deixe dar uma olhada nos versículos que você citou (assim como os seguintes) para provar a Sola Scriptura e veremos se sua análise é correta. Você citou Dt 4,2 e 12,32 para dizer que não se deve acrescentar ou retirar nada da palavra de Deus. Claro que em nenhuma destas passagens Deus disse que somente se revelaria, Ele e Sua palavra, no presente ou para as gerações futuras, através de profetas que as escrevessem. Se lermos Dt 4 sobre não acrescentar ou retirar as palavras “que eu ordeno”, é Moisés quem está ordenando. Claro que ele está relatando o que Deus disse a ele, mas Dt 4 mostra que, em “eu vos ordeno”, quem fala é Moisés. Moisés tinha a autoridade do Magistério. Isto está muito distante da Sola Scriptura. Não há dúvida de que é palavra de Deus, mas vinda através de Moisés, o intérprete infalível. Se você de alguma forma mal-interpretou Dt 4 dizendo que “eu vos ordeno” quem fala é Deus, então, quando se fala de não acrescentar ou retirar nada da palavra de Deus, por conseqüência, não deveríamos acreditar em nenhuma escritura depois do Deuteronômio. Isto aconteceria com 61 (66-5) livros da bíblia [ou 68 (73-5)], se incluir os 7 livros que os protestantes retiraram. Você escreveu, pode não significar isso, mas somente Deus pode acrescentar algo à Sua palavra. Se você admite isto, você não achará em lugar nenhum da escritura Deus se revelando somente pela Sua palavra escrita. A Igreja Católica não acrescenta nada à palavra de Deus. Pelo contrário, se você limita a revelação à bíblia estará retirando à palavra de Deus, igualmente condenada na bíblia.

É verdade que Deus falou a Moisés para escrever suas palavras (Dt 24,7;12;34,27); entretanto, não é o que ensina a Sola Scriptura. Ela ensina que somente a bíblia é a autoridade final. Mesmo você deve admitir que os judeus tiveram que seguir um líder, que no tempo era Moisés, um profeta de Deus. De acordo com a Sola Scriptura, tudo que você tem de fazer é ler a bíblia, pedir ao Espírito Santo para guiá-lo, e não há nenhuma outra autoridade igual à bíblia. Moisés disse a todos para escrever suas leis, estudá-las pessoalmente e pedir ao Espírito Santo para guiá-los? Este conceito não é encontrado em nenhum dos versículos citados. O Livro da Lei foi posto junto da Arca da Aliança (Dt 31,26), no Santo dos Santos. As pessoas comuns não podiam apreciar nada no Santo dos Santos, nem interpretar privadamente o Livro da Lei. Apenas o sumo sacerdote poderia entrar no Santo dos Santos, que continha a Lei, apenas uma vez ao ano (Hb 9,6-8). Isto está muito distante do conceito de Sola Scriptura.

Moisés era o líder autorizado para interpretar a lei ao povo. Todos os judeus eram submissos à autoridade do seu líder. De fato, os que eram punidos por Deus eram aqueles que se rebelavam contra Moisés. Judas, em sua epístola, relata que os líderes autorizados por Deus devem ser seguidos no Novo Testamento (o que destrói a Sola Scriptura) e relata isto especificamente a Moisés! No contexto que fala sobre o julgamento de Deus sobre os pecadores, Jd 11 observa que o povo não deve seguir o exemplo da Rebelião de Korah (Nm 16,1-35). Korah disse que nós podemos ter nossa própria autoridade (Nm 16,1-3), nós não devemos seguir você! (parece familiar?) Ele proclamou que era tão santo quanto Moisés e Aarão e buscava o ministério sacerdotal para si (Nm 16,3-10). Isto estava além do sacerdócio universal dado aos judeus (Ex 19,6). Eles desejavam adorar por suas próprias autoridades e não queriam se submeter a Moisés. Deus puniu não somente Korah e seus seguidores (Nm 16,31-34), mas também aqueles que se queixavam sobre isto (Nm 16,46-49). Isto não foi um incidente somente do Antigo Testamento, mas Judas associa essa rebelião à realidade do Novo Testamento. Para esta passagem ter tido alguma relevância para Judas, significa que haviam líderes que deveriam ser seguidos e havia um grande risco de rejeição a eles. Os seguidores da Sola Scriptura assumem para si a autoridade de interpretar privadamente a palavra de Deus, como fizeram Korah e seus rebeldes, que foram condenados por Deus. Como você explica o fato de que Judas estava avisando a Igreja contra aqueles que rejeitaram a autoridade da hierarquia da Igreja do Novo Testamento (como a Sola Scriptura ensina) se, para você, não há hierarquia na Igreja do Novo Testamento?

Depois, você falou de Josué como outro exemplo de Sola Scriptura. É verdade que foi falado ao povo para meditar e seguir o Livro da Lei (Jos 1,7-8). Igualmente a Igreja Católica nos ensina a estudar e meditar a bíblia; entretanto esta passagem de Josué não diz às pessoas atribuírem sua própria interpretação da Lei de Moisés como autoridade final, como ensina a Sola Scriptura. Pelo contrário, assim como o povo deveria seguir o que Moisés escrevia e falava, eles também deveriam seguir Josué como forma de manter o acordo com a lei de Deus. Você, seletivamente, citou esta importante parte de Josué que se encaixa com a visão de autoridade da Igreja Católica. Js 1,16-18 cita “tudo que nos ordenaste nós faremos, e onde quer que nos envie nós iremos. Assim como atendemos Moisés em todas as coisas, assim atenderemos a ti. Que o Senhor nosso Deus esteja com você, como estava com Moisés. Aquele que contradisser tuas palavras e não atender a tudo o que lhe mandares, seja morto. Apenas seja forte e corajoso”. Josué é um líder e as pessoas devem segui-lo. É erro de contexto dizer que Js 1 não diz nada, mas condena a Sola Scriptura. Aqueles que se rebelarem de alguma forma contra Josué (o que inclui interpretar a lei de uma forma não válida) serão condenados.

Você rapidamente cita James White mostrando que muitos na Igreja primitiva acreditavam na Sola Scriptura. Alguém pode facilmente, de forma seletiva, citar os Padres da Igreja, e você pode retirar muitas coisas ditas por eles; porém estes mesmos padres da Igreja afirmaram estar a Tradição lado a lado ao respeito que tinham com a bíblia. Todos os que foram citados por James White também acreditavam que os ensinamentos oficias da Igreja deveriam ser obrigatórios para todos os crentes.

Os ataques desprezíveis que você faz à Imaculada Conceição, Assunção, etc., exigiria uma explicação bíblica detalhada, a qual eu não tenho tempo para desenvolver. Eu encaminharia você à “Refutando os ataques a Maria”, do site “Catholic Answers”, que são curtas, mas são refutações completas aos ataques à Mãe de Deus (Lc 1,43) que deve ser proclamada por todas as gerações como bem-aventurada.

2 Tm 3,15-17 Esta passagem é supostamente a que, magistralmente, prova a Sola Scriptura. Esta é a única passagem a qual qualquer protestante bem informado, com lucidez, irá afirmar que ensina a Sola Scriptura (a propósito, embora 1 Cor 4,6 diga para não ir além do que está escrito, não se refere à Bíblia. Paulo está escrevendo sobre o livro da vida, referindo-se à eternidade, sobre aqueles que são absolvidos ou condenados diante de Deus, não se tornando arrogantes). Lembre que o ponto principal da Sola Scriptura é que ela é a única autoridade em relação ao entendimento da salvação. Isto foi uma “bala mágica” em seu capítulo, porque não somente você a utilizou para afirmar a Sola Scriptura, mas também para refutar a interpretação católica de 1 Cor 11,2 e 2 Ts 2,15. Se não ensina suficientemente nem confirma a Sola Scriptura, é irrelevante a refutação de 1 Cor 11,2 e 2 Ts 2,15. Deixe analisar corretamente o contexto.

Em toda esta carta Paulo fala sobre as várias coisas necessárias para formar o crente. No contexto imediato ele escreve, no versículo 10: ?…mas você tem seguido cuidadosamente minha doutrina, modo de vida, objetivo, paciência, amor, perseverança…?. Ele diz no versículo 10 que a única fonte de doutrina é o Espírito? Não! É óbvio que o modo como Timóteo primeiramente recebeu a doutrina de Paulo foi oralmente, pelo seu estilo de vida e ensino oral. No verso 14 ele diz para perseverar no que a Timóteo foi confiado. Então, quando chegamos aos versículos 15-17, a conclusão, no que diz respeito a estar devidamente preparado para qualquer boa obra, inclui esta tradição oral explicada no versículo 10. Este é o acontecimento que explica os versículos 15-17.

V.15: Você declara que o v.15 “afirma que a Escritura é suficiente para a salvação”. Na realidade, este versículo mostra que a Escritura auxilia a tornar Timóteo ciente à salvação. Você notará que ele não diz que somente a escritura é a fonte de autoridade para Timóteo. Afinal de contas, voltando ao v.10, ele diz que o ensino oral (i.e. tradição) é a fonte de sua doutrina. Isto é confirmado em 2 Tes 2,13-15, onde, depois de afirmar a tradição oral lado a lado à tradição escrita (refutarei a sua análise a esta carta), ele menciona a salvação (v.13). Afirma que a tradição oral também explica a salvação de modo mais claro. Depois, Paulo escreve que as escrituras que ensinam Timóteo sobre a salvação são Escrituras que ele já conhece desde a infância. James White diz nos seus debates que Paulo não está falando sobre período, mas da natureza das escrituras, e apenas parcialmente isto pode ser verdade, mas isto não anula o fato de que Paulo está falando exclusivamente do Antigo Testamento. A defesa da Sola Scriptura afirma que, além de não se precisar de tradição oral, também não se precisa do Novo Testamento, pois a passagem se refere exclusivamente ao Antigo Testamento. É verdade que o Antigo Testamento ensina a salvação (Nm 25,1-16; Pv 24,12;17,15), que a propósito rebate a posição Calvinista de justificação, mas a salvação é pregada mais claramente na Nova Aliança. Um outro ponto é que em lugar nenhum Paulo afirma que o que ele escreve é Escritura! Como saberemos que o que Paulo escreveu é Escritura? Como Timóteo soube que aquela carta é Escritura? Quando Pedro menciona os escritos de Paulo como Escritura (2 Pe 3,16), ele não menciona nenhuma carta especificamente. A Igreja preservou estas cartas e por isso você as têm. Isto o próprio Lutero reconheceu. Também quando Pedro escreve sobre as epístolas que são difíceis de entender (2 Pe 3,16), o versículo anterior (v.15) mostra que as coisas que são difíceis de entender tem relação com a salvação! Isto mostra que o conceito protestante sobre a claridade da Escritura em relação à salvação é falsa. Mesmo se eu concedesse a você, James White ou Robert Godfrey a interpretação dos versículos 16 e 17, estes mesmos pontos refutam a interpretação da Sola Scriptura no restante destes versículos.

V.16:  Você declara: “o versículo 16 afirma a absoluta autoridade da Escritura”. Há dois problemas com essa análise. Primeiro que este versículo não mostra que somente a Escritura é dada sob inspiração divina. Não diz que somente a Escritura é necessária para servir a estes fins. Por essa razão, este verso não é importante para a Sola Scriptura neste ponto. O outro fato é que a escritura é útil para doutrinar, repreender, corrigir e educar na retidão. Se eu beber água, é útil mas não é o suficiente para me manter vivo. A comida também é necessária. A Igreja da mesma forma declara que a Escritura é útil para estes fins, entretanto o título do seu capítulo é “A suficiência da palavra escrita”. Mais tarde, quando ele fala sobre se tornar plenamente preparado para toda boa obra, devemos lembrar que a escritura é somente útil para aqueles fins.

v.17 – “Que o homem de Deus deve ser completo, inteiramente preparado para toda boa obra”. Isso não significa suficiência? Paulo utiliza sempre este tipo de linguagem sobre outras coisas? De fato em toda a carta ele usa a mesma frase. Ele escreve em 2,21 “…se algum se purificar destas coisas, será um vaso de honra, santificado e útil ao Mestre, preparado para toda boa obra”. O contexto é sobre a santificação. Paulo está falando sobre santificação, e libertação dos desejos da juventude (v. 22) é suficiente para preparar Paulo? Usando a lógica empregada pelos apologistas protestantes, para ser consistente com a interpretação de 2 Tm 3,15-17, logo você não necessita de nada mais para lhe preparar, com exceção da santificação. Outro ponto é que para a escritura ser suficiente, Timóteo deve esquecer tudo o que Paulo disse. “Ignore 2 Tm 2,2 onde ele especificamente diz para ele passar adiante o que eu falei (não escrevi) para você”. “Ignore 2,21. Ignore 2 Tm 3,8 que mostra reconhecimento da tradição oral nos nomes dos Faraós mágicos, Jannes e Jamberes (inexistentes no AT)”. Ele não precisa discutir que isto é um fato, ele assume como autoridade, mostrando dependência da tradição oral. Para 2 Tm 3,15-17 significar Sola Scriptura, ele deve dizer para eles agirem assim. O que Paulo está escrevendo nesta seção é que a escritura é realmente inspirada por Deus, e é útil para preparar-nos para toda boa obra. Entretanto, no contexto imediato (vv.10-14) em relação à salvação, assim como áreas de desenvolvimento espiritual, na mesma epístola há várias coisas que preparam, incluído a tradição oral. Eu tenho o mesmo amor às Escrituras que você tem. Contudo, esta é apenas uma de várias coisas que nos preparam.

2 Tm 2,2 –  “As que você ouviu de mim na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis, que serão capazes de ensinar a outros”:

1) Aqui você escreveu que Paulo está somente orientando Timóteo para o discipulado, e não para uma sucessão apostólica.

2) Você citou 2 Tm 3,15-17 para refutar a interpretação católica.

3) Insiste que somente a Escritura deve ser transmitida infalivelmente.

A afirmação que Timóteo está sendo orientado somente para o discipulado é equivocada. O contexto desta afirmação demonstra que a tradição oral é transmitida adiante. Poucos versículos antes (2 Tm 1,13), Paulo fala a Timóteo: “Mantenha firme o caminho das palavras que tens ouvido de mim, na fé e no amor que há em Cristo Jesus As boas coisas que foram confiadas a ti, mantenha pelo Espírito Santo que habita em nós”. Um interessante comentário sobre este versículo (2 Tm 1,13) é o de São João Crisóstomo, em seu comentário sobre a carta a Timóteo.

Paulo não instruiu seu discípulo apenas por carta, mas também por palavras, algo que ele mostra em muitas outras passagens onde fala “seja por palavra ou epístola” (2 Ts 2,15), sendo este o principal. Isto nos deixa crer que não há imperfeição na doutrina que foi falada. Muitas coisas foram confiadas a Timóteo sem terem sido escritas. Por isso, então, Paulo relembra “Mantenha firme o caminho das palavras que tens ouvido de mim” (2 Tm 1,13). (Homilias sobre Timóteo, Padres Nicenos e pós-Nicenos, Primeiras Séries, vol 13, p. 484).

1 Tm 1;14 nos mostra que Paulo conta com o bispo Timóteo (1 Tm 4,14; 2 Tm 1,6) para manter firme as tradições do Espírito Santo. E isto está em perfeita sintonia com o magistério infalível da Igreja. E é por isso que Paulo coloca os fundamentos de 2 Tm 2,2. Quando examinamos 2 Tm 2,2 notamos que três gerações de cristãos são citadas a transmitir a tradição oralmente. Em 2 Tm 2,1 Paulo chama Timóteo de seu filho. Paulo é da primeira geração apostólica que transmite oralmente seu conhecimento a Timóteo, da segunda geração. Então, ele pede ao líder da segunda geração, Timóteo, para confiar a mesma tradição oral à terceira geração (os filhos espirituais de Timóteo). Dizer que isto não tem nada a ver com sucessão apostólica é ignorar as palavras de Paulo. Paulo também mostrou em 2 Tm 1,13-14 que a tradição oral é a base dos referidos versículos. O próprio 2 Tm 2,2 fala sobre o que é confiado a Timóteo. Individualmente estes versículos falam sobre a tradição oral como ocorre na Igreja Católica. Entretanto, quando estes versos são combinados, um leitor atento verá que a Sola Scriptura é o tema mais distante da mentalidade de Paulo. Não é mero sacerdócio, é ensinamento. Quando a base destes versos mostram ser Timóteo (2 Tm 1,13-14) quem deve manter firme a tradição oral de Paulo, fica claro que este ensinamento oral fica a cargo não só de Timóteo, mas a todos os seus sucessores.

Esta passagem de 2 Tm 3,15-17 é totalmente irrelevante, não havendo contexto com a Escritura (2 Tm 2). O que é relevante é que durante a transmissão do conhecimento não há referência à Escritura. Sua conclusão sobre 2 Tm 2 de que é assegurado a Timóteo que somente a Escritura é um método seguro de transmitir os ensinamentos não habita em lugar nenhum do contexto. De fato 2 Tm 3,15-17 não diz nada sobre transmitir a Escritura, enquanto que em 2 Tm 2,2 o ensino oral deve ser transmitido.

O fato de que somente a Escritura é considerada inspirada ignora o fato de que foi a Igreja Católica quem afirmou que a Escritura era inspirada. Nós não defendemos que qualquer tradição transmitida é inspirada, entretanto, as palavras que Paulo falou eram inspiradas. O que os 12 apóstolos falaram e escreveram eram inspirados da mesma forma. Por exemplo, um dos vários exemplos onde o termo “Palavra de Deus” é usado em Atos 13,5 é quando ela é ensinada, mas não registrada. Eu sugiro a você localizar quantas vezes o termo “Palavra de Deus” aparece em Atos e notará que este termo na maioria das vezes se refere ao que os apóstolos falam, e não o que eles escrevem, pois são tão inspiradas quanto o que é escrito. Serão estas palavras de Deus que Paulo ensina em 2 Tm 2,2 que serão transmitidas através de três gerações e em lugar algum ele diz que a tradição oral deve ser interrompida.

Paulo escreveu esta carta no final de sua vida (2 Tm 4,6-8). Isto torna esta afirmação mais um ponto nevrálgico à doutrina da Sola Scriptura. Você escreveu que após a morte dos apóstolos, a única coisa que foi transmitida foi a tradição oral, mas o que é transmitido de forma oral não pode ter autoridade. Se ele, Paulo, acreditasse em Sola Scriptura, a hora de sua morte não seria a hora ideal para afirmar tal coisa? Mas o que foi que ele falou sobre o que deve ser transmitido nas gerações seguintes? A Tradição Oral. Ele nada diz sobre Somente a Escritura.

Atos 2,42 Você reconhece que esta passagem mostra que o povo estava unido à doutrina oral dos apóstolos. Desta forma você também deve reconhecer que a Igreja precedeu a bíblia e que a autoridade da Igreja não deriva da bíblia. Você também escreveu que a palavra inerrante dos apóstolos foi ensinada às pessoas. Contudo a sua conclusão de que a palavra foi ensinada somente aos ouvintes erra em um importante ponto. Em lugar algum encontramos, na bíblia, que esta palavra inerrante será somente ensinada às gerações futuras pela bíblia.

1 Cor 11,2 A sua análise deste versículo faz outro reconhecimento no que se refere à transmissão de doutrina. Entretanto você refuta o argumento católico dizendo que os católicos não podem fazê-lo. Você escreveu que a única maneira que ajudaria o argumento católico seria se Paulo estivesse transmitindo a tradição que ele recebeu dos apóstolos e esta seria uma segunda transmissão (o mesmo argumento você utilizou para refutar 2 Ts 2,15 e 3,6). Apesar deste argumento nos ajudar muito, nós não dependemos dele. Paulo é um apóstolo. Se ele ensina alguma coisa, seja por carta ou por palavra (oralmente), nós as aceitamos como tradição apostólica. Sobre esta tradição que ele está escrevendo neste versículo é, de fato, tradição apostólica em sua origem. E isto é suficiente para o argumento católico. Todavia, neste mesmo capítulo, Paulo relata a tradição que ele, de fato, recebeu dos apóstolos. Ele escreve sobre a tradição da Eucaristia (1 Cor 11,23-32). Recebeu esta tradição pelos apóstolos e considera tal tradição de tamanha autoridade que quem comer e beber o corpo do Senhor de maneira indigna será condenado. Esta tradição que recebeu dos apóstolos é de tal confiança que a aceita como vindas do próprio Jesus.

De fato há outros exemplos em que Paulo recebe ensinamentos oficiais, oralmente, dos apóstolos, e ele nos mostra isto. Por exemplo, peço a você que leia At 20,36. Aqui Paulo cita o próprio Jesus, “é maior ventura dar que receber”. Tal coisa não é encontrada em lugar nenhum nos Evangelhos. É óbvio, então, que Paulo ouviu tal coisa dita por Jesus através dos apóstolos, e não dos Evangelhos escritos. Ele ainda diz que é uma palavra oficial de Jesus. Passou, então, esta tradição oral para os demais. E o que dizer de 1 Cor 15,3-7? Como ele soube o que Jesus fizera em relação aos demais apóstolos? No v.3 ele escreveu sobre o que escutou e assim transmitiu. Esta é uma boa definição sobre o que seja Tradição. Fala sobre Jesus ter sido visto por Pedro, os demais apóstolos, e cerca de 500 irmãos. Paulo cita este fato como verdade, pois recebeu esta tradição oral dos apóstolos. Estes exemplos demonstram de fato que Paulo confiou tais tradições como oficiais e as transmitiu também como oficiais, exatamente o que você negou que ele fez. E isto não inclui os demais casos no Novo Testamento mostrados no artigo “Tradição Oral no Novo Testamento” que demonstra como Jesus, Mateus, Judas e Paulo usaram tradições orais que poderiam ser localizadas nos tempos do Antigo Testamento e foram usadas como tradição oficial.

De volta a 1 Cor 11,2: este versículo mal interpretado dá a falsa idéia de que Paulo depende das Escrituras. Da mesma forma que nas outras passagens, quando ele tenta transmitir uma tradição oficial ele não faz nenhum esforço para reivindicar que esta tradição é válida somente quando estiver escrita. Não escreveu “bem, isto está escrito, então vocês podem esquecer aquelas tradições orais quando eu morrer, e sigam somente o que eu escrevi”. O simples fato de ele usar a palavra tradição quando escreve sobre a transmissão oral da doutrina significa que esta é a forma como ele pretende que a doutrina seja transmitida. Se ele chama a Igreja de base e fundamento da verdade (1 Tm 3,15), de fato acredita que tal transmissão não somente é, mas será, infalível.

2 Ts 2,14 “Então, irmãos, permaneçam firmes e mantenham as tradições que foram ditas a vocês, seja pela palavra da boca ou por carta nossa”. Concordo com algumas de suas análises sobre este versículo. Aqui estão coisas definitivas que inquietam os crentes em relação à vinda de Jesus. Você citou 2,5 que reforça a conclusão católica. O que é que mantém firmes estes crentes? O v.5 mostra que estas são as coisas que ele os falou. Não escreveu “o que agora estou escrevendo é escritura, e deixem ser o que vai firmar vocês”. No v.6 escreve “agora vocês sabem o que é que o retém”. Ele não detalhou o que retém o homem do pecado. Para que entendamos este versículo, no seu significado real, a tradição oral é necessária. Isto determina a base para uma forte afirmação positiva sobre a tradição oral.

Os Vv. 13-14 nos mostram que a tradição a que Paulo está se referindo inclui salvação e o Evangelho. (A propósito, a salvação somente é alcançada pela santificação pelo Espírito Santo, não uma retidão declarada, na qual a santificação é somente um subproduto da salvação). Isto expõe a falácia que a Escritura é a única forma de saber como uma pessoa é salva.

Você escreveu que Paulo entende que somente a bíblia é infalível, enquanto a Igreja é falível. Se Paulo entendeu isto como sendo verdade, então porque Paulo não escreveu nada sobre isso? Você deveria esperar que Paulo escrevesse: “Mantenham firmes as tradições orais e escritas, mas desde que somente a tradição escrita é infalível, assim como todos aqueles que seguirem vocês serão assistidas pela escritura. Quando eu morrer, somente se firmem à tradição oral que eu dei a vocês. Depois de minha morte, ignorem toda a tradição oral, porque não devem segui-la”. Entretanto, Paulo não faz nenhuma afirmação parecida para diferenciar a tradição oral da escrita. Ele diz para seguirem ambas. Você fez uma grande coisa dizendo que somente a escritura era inspirada (2 Tm 3,16) e a tradição oral nunca foi. Mesmo que aqui a tradição oral não seja chamada de inspirada o fato é que é posta em paralelo nestes versículos. Isto dá muita garantia que a tradição que Paulo passou oralmente é de fato inspirada. Nós não estamos dizendo que as gerações que se sucederam era inspiradas. Não estamos dizendo que o Papa ou os Padres da Igreja foram ou são inspirados em suas interpretações sobre este depósito original da verdade. Nós estamos afirmando que esta verdade foi transmitida infalivelmente.

Tendo Paulo usado a palavra tradição, assim como você citou, significando transmitir, isto implica em dizer tal coisa deve ser transmitida. Entretanto, novamente você afirma que somente a tradição escrita deve ser passada adiante, e a tradição oral não. Peço a você que releia a passagem! Diz para firmarem-se em ambas. Se uma deve ser transmitida, a outra também deve. Se uma não deve ser transmitida, a outra também não. Então, já que você, muito seguramente, escreveu que a tradição escrita, de fato, deve ser transmitida e é oficial, por ser consistente com a linguagem de Paulo, então nós devemos entender que a tradição oral também deve ser transmitida, e também como oficial. Se uma é infalível, a outra também é, usando a linguagem de Paulo.

São João Crisóstomo entendeu qual deve ser a única e verdadeira interpretação deste versículo: “Por esta razão isto é revelado, que eles não proferiram todas as coisas por epístola, mas muitas coisas não-escritas, e de tal modo ambos são merecedores de honra. Então deixe-nos pensar que a tradição da Igreja da mesma forma merece honra. Isto é tradição” (Crisóstomo, Homilias sobre Tessalonicenses, Primeiras Séries, vol 13, p. 390).

A razão porque eu citei especificamente Crisóstomo aqui e em minha análise de 2 Tm 2,2 é porque Robert Godfrey alegou que Crisóstomo, em sua análise de 2 Tm 3,16, aceitava a Sola Scriptura. A análise de Crisóstomo sobre 2 Tm 3,16 obviamente não admite a Sola Scriptura. Ele não concorda com esse conceito (claro que ninguém nunca falou sobre ele até Wycliff, e então Lutero) e mostrou que verifica ser a tradição apostólica oficial. James White igualmente, e isoladamente, citou Irineu e Atanásio. Claro que White não citou que Atanásio escreveu que a Igreja ensina infalivelmente e pelos seus atos constantemente se dirige a Roma para decidir uma disputa. Em relação a Irineu, eu o convido a ler sua obra (Contra as Heresias, livro III, capítulos 1 ao 4, especialmente o 3. Os Padres Ante-Nicenos, vol 1, pp. 414-417).

Nesta crítica sobre seu capítulo eu abordei os pontos principais, e creio ter mostrado porque ambas as suas tentativas de apoiar a Sola Scriptura usando a bíblia, e atacar a tradição oral não podem opor-se a um verdadeiro exame bíblico. Esta é apenas uma pequena crítica da Sola Scriptura mediante a sua defesa e uma resposta aos ataques à base bíblica da tradição oral. Tenho lido todos os livros sobre Sola Scriptura e muitas das fraquezas desta doutrina não são bem abordados. Eu gostaria que você respondesse a algum dos meus escritos, este especialmente. Se você, alguém do seu grupo, ou algum aluno de sua escola está de acordo com o que eu escrevi, apreciarei qualquer correspondência. Tenho escrito a muitos pastores protestantes sobre Sola Scriptura e Sola Fide. Ficaria contente se alguém pudesse estar de acordo com esta exegese. Gostaria que alguém me mostrasse que a análise que eu fiz está errada. Em Cristo,

Traduzido para o Veritatis Splendor por Rondinelly Rosa Ribeiro.


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