Sei que algumas especulações, citadas a seguir, por colocarem em cheque a castidade perfeitíssima de São José, muito nos melindra, a nós católicos. Todavia, quero lembrar que foram mencionadas com um intuito de se tomar ciência das variadas formas de entendimentos que tiveram certos cristãos, ao longo da História, a respeito da integridade virginal da Santa Mãe de Deus. Estes, em sua turva compreensão, preocupavam-se exclusivamente em afirmar a virgindade de Maria, e não a de José.

a) Uma das soluções é que os ditos “irmãos de Jesus” seriam filhos que São José teria tido de um primeiro casamento. Depois, ele ficou viúvo e veio a contrair novas núpcias com a Virgem de Nazaré. Se foi dessa forma que aconteceu, então, paralelamente, ocorrera algo de curioso: enquanto, São José se tornou um pai para o filho de Maria, Maria se tornava mãe para os filhos de José.

Essa idéia, aliás, já se encontrava presente num famoso texto apócrifo, chamado de Proto-Evangelho de S. Tiago, do segundo século. Aliás, “o Proto-Evangelho de Tiago… parece ter sido amplamente utilizado nessa época nas liturgias cristãs. Inúmeras edições gregas e traduções antigas indicam tratar-se de um êxito do tempo” [1].

b) Uma outra conjectura é que S. José teria assumido uma postura poligâmica, tendo, simultaneamente, duas esposas. Lembremos que o Mosaismo permitia tal procedimento e que somente, já em sua vida pública, o Senhor Jesus revogou tal ‘prerrogativa’, restabelecendo o que era (e deveria ser) desde o princípio, ou seja, a validade somente da monogamia. Inclusive, penso eu que, nesta hipótese, essa suposta segunda esposa de José poderia ter o mesmo nome da Virgem, haja vista ser comum o nome Maria no tempo de Cristo; daí, a existência de várias ‘Marias’ presentes no Novo Testamento. De sorte que os irmãos de Jesus seriam filhos de Maria, esposa do carpinteiro José, só que, obviamente, não seria a Maria Virgem Santíssima, mas a “outra”, a segunda esposa de São José.

Essa tese, de que São José teria tido mais de uma esposa ao mesmo tempo, já era aventada na Antiguidade Cristã; como o próprio S. Jerônimo cita em sua obra contra Helvídio (muito embora, o mencionado doutor eclesiástico fosse contrário a tal hipótese): “Se adotássemos essa possibilidade como padrão de julgamento, poderíamos sustentar que José teve várias esposas porque Abraão teve, e também Jacó, e que aqueles que eram irmãos do Senhor nasceram daquelas esposas, uma criação imaginária que alguns sustentam”[2]…

Observe-se que, pelo que São Jerônimo dissertou, nem ao menos precisar-se-ia, no campo especulativo, que São José tivesse que cumprir a lei do levirato; pois mesmo sem precisar cumpri-la, ele poderia ter mais de uma esposa (seguindo o exemplo dos santos patriarcas que foram poligâmicos), porquanto assim era permitido ao homem; muito embora tal prática já não fosse tão comum entre os judeus do século I.

Seria então possível que S. José fosse casado com alguma mulher da parentela de Maria. Por exemplo, ele ter contraído núpcias com uma prima de 2º grau de Nossa Senhora, de sorte que os filhos de José seriam carnalmente parentes do Messias.

Obviamente, tanto a explicação de que São José fora casado antes, como a de que ele acabou tendo duas esposas ao mesmo tempo, não se coadunam com o “sentir” da Igreja. Todavia, essas posições quiseram apenas confirmar a existência de tais argumentos, os quais preservariam, sim, a integridade virginal de Nossa Senhora, mas não a de S. José.

Porquanto o dogma é sempre sobre a Virgindade de Maria.

c) Permitam-me, em acréscimo, ponderar um singelo raciocínio: Santa Maria e São José não poderiam ter adotado filhos? A religião que agrada a Deus não é aquela que presta assistência aos órfãos e às viúvas (cf. Tiago 1)? E não é uma grande (senão a maior) assistência o adotar crianças sem lares?… Se tantos casais, bem menos virtuosos que o casal de Nazaré, tiveram tal atitude, por que duvidar que os abençoadíssimos e justíssimos “pais” de Jesus não a tivessem tido?

E mais: seria possível que o casal de Nazaré tivesse começado a pegar para criar justamente depois que Jesus completou 12 anos, isto é, a partir dos 13, pois está é a idade da maioridade de um judeu diante da Lei (o bar-mitzvah). É importante notar que até os 12 anos, ao que tudo indica, a Sagrada Família se restringia aos três (daí, a fortíssima impressão no Evangelho de Lucas, ao narrar as idas a Jerusalém por ocasião da Páscoa (cf. Lc 2,41ss.), que o Sagrado Lar de Nazaré reduzisse apenas a Jesus, Maria e José). Então, a partir daí, o casal poderia ter adotando várias crianças (e se eles adotassem uma criança a cada 2 anos até os 30 anos de Jesus, teriam adotados 9 crianças…).

E não é o próprio Deus que nos dá o máximo exemplo da adoção? Haja vista: “Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos” (Efésios 1,5). São José, o pai da Sagrada Família de Nazaré, ao adotar crianças, estaria, por conseguinte, imitando a Deus; bem como Maria, a mãe de tão Sacro Lar. Está escrito:

– “Tornai-vos, pois, imitadores de Deus” (Efésios 5,1).

– “Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5,48).

Não é curioso que justamente a epístola bíblica de São Tiago – que muitos consideram o seu autor como sendo o ‘irmão do Senhor’ – que temos uma definição de que a religião agradável a Deus está vinculada ao cuidado para com os órfãos? Será que é porque ele (Tiago) experimentara, na própria pele, o drama da orfandade e que o Altíssimo o escolhera para escrever tal missiva da Escritura Sagrada, enfocando tal temática? Drama que teria vivenciado até José e Maria ao terem adotado!

d) Com todas essas hipóteses (anteriormente citadas), sequer se precisaria recorrer ao argumento de que os chamados “irmãos de Jesus” seriam PRIMOS de Jesus… Muito embora, certamente, existam ainda outras tantas argumentações que também serviriam para dar alguma explicação plausível (ou possível). Lembremos, ainda, que os ditos irmãos poderiam ser “tios” de Nosso Senhor Jesus Cristo; haja vista, tios, na Bíblia, podem ser genericamente chamados de irmãos.

e) O fato, é que, o grupo denominado de ‘Irmãos do Senhor’ “trata-se dos parentes próximos de Jesus consoante uma expressão conhecida do Antigo Testamento”[3].

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NOTAS

[1] READER’S DIGEST. “Depois de Jesus: o Triunfo do Cristianismo”. Rio de Janeiro: Reader’s Digest Brasi Ltda., 1ª ed., 1999, p. 135.
[2] Ver em https://www.veritatis.com.br/agnus.dei/jervpm4.htm.
[3] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo/Rio de Janeiro: Vozes, Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 5ª ed., 1993, p. 124, §500].

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BIBLIOGRAFIA

– BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, Paulus, 1996.
– CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo/Rio de Janeiro: Vozes, Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 5ª ed., 1993.
– VERITATIS SPLENDOR: https://www.veritatis.com.br.
– READER’S DIGEST. “Depois de Jesus: o Triunfo do Cristianismo”. Rio de Janeiro: Reader’s Digest Brasi Ltda., 1ª ed., 1999.

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